segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Metapoeta

Meus versos livres,
rima irregular, ausente
sem gramatica, sintaxe e sentido
dissonantes
linha incontínuas
a permitir
que na lacuna
o outro me leia
ou se leia

domingo, 30 de janeiro de 2011

Estética ao avesso

Duas mulheres correndo na praia- Pablo Picasso

Bom dia Gwenever! Fico olhando você assim desenvolta pelas paredes, quase atlética e me ocorre que sua estética parece estar muito adequada à sua espécie. Você é simétrica, branquinha e esguia. Não posso imaginar uma lagartixinha como você sendo rejeitada pela aparência.
Penso nisso porque estou encerrando as férias cinco quilos mais gorda. E olha que eu já estava inadequada quando elas começaram. Isso me leva a outra reflexão. E daí? Não estou doente, o aumento de peso reflete a abastança de meu período de repouso e a economia do meu corpo. Que me importa se não pareço as quarentonas da Avon?
Quero dar um basta, Gwenever. Percebo que minha cara nordestina, minha pele amarela, uma certa assimetria do rosto me fizeram preterida nos meus círculos sociais desde a infância. E eu sempre me desculpei por isso. A culpa é o sentimento que os padronizados incutiram em mim.
Por vezes tentei me espelhar nos icones de beleza da mídia, mas a imagem nunca era a minha. Mesmo quando conseguia bons resutados com os artifícios conhecidos como academias, tratamentos, clareamentos e maquiagens  o espelho me devolvia a imagem de minha estética ao avesso.
Você já foi gorda , Gwenever? Saiba que de toda despadronagem, esta é a pior. A menos que eu fosse a comediante do grupo, meu destino era sempre o alijamento social. E eu não tenho vocação para cômica. Daí você pode imaginar o meu tormento. Gordinhas como eu são classificadas como vorazes contumaz. Eu escolho ser gorda por comer demais. E comer de menos é passar fome, Gwenever!
Nenhuma minoria preconceituada sofre como um gordinho. Vejam os gays e os negros. Consegue imaginar um movimento negro para branquear. Ou de um movimento gay para se heterosexualizar? Mas é assim conosco. Não temos movimento, não pressionamos nem mídia nem produtores e tudo que recebemos são dicas de como emagrecer. Das mirabolantes às misticas, nenhuma promove a auto-aceitação.
Meu basta tem esse recado: não venham pensando que vou correr atrás de valor social lapidando minha aparência física. Não há felicidade nisso, ninguém me engana mais. Quero mesmo é realizar meus sonhos como escritora, professora ou qualquer outra identidade que me aprouver no caminho que não esteja associada ao consumo. Mesmo sendo imoralmente feia, serei feliz. Quero ser livre dessa corpolatria que as mulheres da minha geração são vitimas.
E ainda faço carteirinha, visto camisa, boton e boné  do primeiro movimento gordo que tivermos nesse país, Gwenever.

Norma de Souza Lopes

sábado, 29 de janeiro de 2011

AGRADECIMENTOS PELA PREMIAÇÃO

Agradeço aos leitores e escritores (mais leitoras e escritoras, diga-se de passagem) do blog  BVIWtecendoletras por ter concedido a Taça de Bronze à crônica Como é velha a novidade.





Nada melhor que contar com leitores ávidos e exigentes para continuarmos a lapidar nosso estilo.
Muito Obrigada!

Ver mais sobre a premiação em http://letrasdobviw.blogspot.com/

Norma de Souza Lopes

RESENHA- KAFKA E A MARCA DO CORVO


Concluí pela manhã a leitura a obra de Jeanette Rozsas - Kafka e a marca do corvo. Janette é advogada e escritora e despontou recentemente no cenário dos romancistas de sucesso. Comecei a ler ontem por volta da quatorze horas e só parei para comer.  Não que eu tenha me encantado pelo estilo da autora. Na verdade ela redigiu uma pesquisa acerca da vida do autor em forma de romance, sem abusar de estilos ou recursos. Leve e direta, ela conta a vida de Kafka, desde a chegada do pai à cidade de Praga, o casamento com Julie, o nascimento do menino pálido e frágil, a infância e a vida adulta até a morte.

Em 184 páginas Rozsas reconta os fatos locais e pessoais da vida de Kafka obedecendo rigorosamente às inúmeras biografias consultadas. Pincela o livro com fotos de Kafka, das moradias, da família e de seus amores. Segundo a autora, todas as falas, especialmente as de Kafka, foram retiradas de suas Cartas, Diários, das conversa publicadas por Gustav Janouch e da Carta ao Pai.
Emocionou-me conhecer a história desse literato que tanto amo. Saber seus anseios e fragilidades, saber o que o motivou a escrever. Achei sua história íntima muito parecida com a nossa, escritores atormentados pelas rudezas do mundo.
O romance encerra com o obituário emocionado de Milena Jeseká ao jornal praguense Národní Listy. Dele retiro o trecho que mais me impressionou:

Era envergonhado, tímido, gentil e bom, mas os livros que escrevia eram cruéis e dolorosos. Enxergava um mundo cheio de demônios que guerreavam indefesos seres humanos e os perturbavam. Ele tinha um visão, muito sábio para viver e muito fraco para lutar. Mas a fraqueza dos sers bons e nobres que são incapazes de lutar contra o medo, desavenças, descortesias e desonestidade, que admitem sal fraqueza desde o início, submetem-se e, assim, envergonham o vencedor. Compreendia seus semelhantes de um modo que só é possível para aqueles que vivem sozinhos, cuja percepção é tão sutilmente afinada que conseguem ler uma pessoa integralmente através de um fugaz jogo de expressão...
Recomendo essa biografia romanceada para todos que desejam conhecer a história de Franz Kafka. A partir dela podemos entender o porque da linguagem protocolar, dos romances clautrofóbicos, dos contos fantásticos e das cartas e diários angustiados tão comuns na obra de Kafka.


Norma de Souza Lopes


sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Do nascimento de Gwenever

Andam me perguntando sobre você Gwenever. Querem saber porque te escolhi para confidente, por que te dei esse nome de rainha da Távola, porque você adota a fé espiritualista...
As perguntas me deixam tonta. Tenho dito que escolhi você depois de conhecer o Daggerlor de minha amiga Marília Paixão. Tive inveja da intimidade dos dois e quis um bichinho que me ouvisse e me amasse como o sapinho da Marília. 
Amo largartixas porque  acho-as um bichinho limpo e útil. Ficam por ali me rodeando enquanto escrevo e de quebra ainda comem os insetos. Mas você Gwenever, faz mais que isso. Cuida em imiscuir em meus pensamentos, quer saber sobre o que escrevo e o que me aflige. Se intromete e me aponta direções inusitadas.
Quis te dar o nome da mulher do Artur da Távola porque gosto da forma como ela conquistou poder no reino da Mesa Redonda. Um exemplo foi como Gwenever convenceu Artur a tirar o Pendragon da bandeira e trocar pela cruz do cristianismo. Não que eu faça defesa ao símbolo em si, mas digo da força que  teve para infundir seus ideais. Era um mulher que se impôs num regime no qual a mulher não tinha vez. Assim é você Gwenever, uma reptilzinha esperta que se ergue diante da minha porção humana. 
Quanto a sua fé, acho que crê em reencarnação, em vida após a morte pela ligeireza da vida de uma lagartixa. Apesar da minha extrema preguiça com sua crença acho fofo saber que você voltaria e continuaria me amando. Não pense que sou egoísta Gwen. Divido minha casa e minha alma contigo. Também te amo. Mas não me peça para nascer de novo. A mim basta uma vida com suas dores e delícias. 
Acena para mim como se gostasse do que digo. Eu não teria outra forma de te descrever, minha cara. E quem me pergunta parece estar entendendo bem porque uma amadora como eu relata conversas com lagartixa. 

Norma de Souza Lopes

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Entre a Essência e a Existência

Então, Gwenever, parece simples. Basta crer que estamos definidos em nosso carma, e que no entanto não podemos parar de trabalhar.
Mas não é tão simples. E se eu passar pela vida trabalhando naquilo que não é minha determinação de ser? Quem irá me dizer com certeza que eu vim a esse mundo para ser professora e não agricultora, ou cabelereira? E tu Gwenever, se tivesse quebrado seu ovinho para ser uma caçadora de jardim e estivesse presa a mim nesse apartamento? 
Seria fácil se eu tivesse encontrado um guru que me dissesse a verdade indubitável. Você deve ser uma...
Você acha que eu, cética ao sobrenatural como sou, acreditaria em um cara que me afirmasse com certeza o que eu tenho que ser, Gwenever? Como assim, devo ser?- Eu não devo ser nada!
Provavelmente eu arquivasse seu conselho junto àquela miríades de conselhos que recebi de padres e pastores em meus quarenta anos pregressos.
Tudo bem. Há a determinação acerca do trabalho. Dizem que meu carma não deve me impedir de trabalhar no que sou nesse momento, uma professora. Se sou professora nesse momento devo me esforçar para ser a melhor professora. 
Mas ser a melhor professora implica em me dedicar pouco à escrita. Acontece que presumo que a escrita seja meu verdadeiro carma. Boa professora, péssima escritora, porque escritores precisam de tempo que uma professora não tem com todos aqueles planos, planilhas, formulários, avaliações e registros para fazer.
Eu avisei. Parece simples mais não é, minha cara Gwen. 
Vou detalhar para você a natureza do conflito. Não posso negar a validade das filosofias orientais. São para mim uma excelente resposta, com toda aquela argumentação acerca da impermanência, controle da mente e das sensações. Mas no bojo dessa sabedoria vem a idéia de determinação cármica. 
Elas me confundem porque esbarram em minhas premissas sartrianas do existencialismo, uma outra filosofia que me empodera quando me considera senhora de meus atos e destino. Para Sartre a essência não existe.
Durma com um barulho desses, minha réptil querida.
Eu estou pronta ou estou me fazendo?
O salmista já dizia que Deus já havia planejado todos os dias da minha vida, registrado-os em seu livro. Gosto de crer que Deus me amou antes. Ninguém gosta de ser  filho não planejado.
Por ora sigo me fazendo sobre aquilo que eu penso estar pronto. 
Sigo sobrescrevendo minha escrituras. Elas são como apontamentos sobre esse  livro da vida descrito pelos iluminados.
Me esforço naquilo que me cabe.Assim como você, Gwenever decido existir em essência.

Norma de Souza Lopes

De profundis

Porque gosto de falar contigo, Gwinever? Nossa conversa é essa prosa corrida que emerge do recôndito, sem nenhuma porosidade que impeça minha alma assomar. Contigo posso reclamar desses seres de meu mundo que exploram minha vulnerabilidade para gozar o poder de emoldurar em mim suas próprias crenças.
Muito tenho chorado por ver que mais e mais me submeto, Gwenever. O medo de estar errada na vida me faz seguir conselhos com os quais não concordo. Uma lagartixinha tão lhana como tu acaso já sofreu por se achar um ser ímpar,  tentar  impressionar e ver nisso extrema falta de identidade? Aposto que não. Você nasceu lagartixa e segue lagartixando pela vida de maneira singular. Algum réptil menor te obrigaria a ser mais ou menos lagartixa, a obedecer a sua na natureza lagartixal? Balança a cabeça, né. É, eu sei que não.
Ontem me elogiaram camaleoa. Chorei o louvor como censura. Acaso quero ser esse versátil? Quero gritar Gwinever, minha marca nesse mundo. Essa sou eu, não  roubo as cores de ninguém! Mas a verdade e que eu mudo de opinião ou conduta cada vez que essa ou aquela me parece mais coerente. O problema Gwenever,  é que até o caos tem coerência, tudo é coerente a sua maneira. E eu acabo não achando a minha coerência, aquilo que faça sentido, seja real e verdadeiro para mim, mesmo que não o seja para o outro.
Só de falar contigo sobre isso me sinto melhor, Gwenever. É como se, assumindo minha vulnerabilidade,pudesse desejar ser eu mesma um dia, me tornar mais potente. Você me dá isso sua lagartixa lampeira. Se intromete e eu fortaleço.

Norma de Souza de Souza Lopes

PASSEIO AO PARQUE ITACOLOMI

Desfrutei com algumas amigas um passeio ao Parque do Itacolomi ontem. Comigo caminharam Rose, Wânia e sua filha Ana Júlia. Caminhamos da entrada do parque até o Morro do Cachorro, um mirante natural. O passeio de hora e meia proporciona uma visão maravilhosa de Ouro Preto e Mariana, dos mares de morro, do cerrado e da pedra e o menino (Itacolomi em tupi-guarani, segundo Wânia). Cada parada na subida proporcionava um ponto de vista diferente e uma novas possibilidades de reflexão. 
Para avistar o Pico subimos cerca de 1700 metros, sendo que os primeiros 700 metros subimos de carro. Lá de cima ficamos imaginando por onde passaram os mais opulentos veios de ouro perseguidos pelos bandeirantes no século XVII. Mas o que verdadeiramente interessava, principalmente à mim e à Rose, era onde haviam nascentes nas quais pudéssemos nos refrescar. A temperatura no Parque ontem beirava os 25 graus.
Na parte baixa, a Reserva Florestal do Manso, visitamos a Biblioteca e o Museu do Chá. Nesse ponto o parque já foi cenário de grande plantações de Chá da Índia, principal produto da economia ouro-pretana até 1940. 
Visitamos ainda a Casa Bandeirista, um marco da arquitetura bandeirante do século XVIII. Lá dentro conferimos banquinhos de pedra às margens das janelas, paredes e pisos tricentenários e um gigantesco mapa de Minas do século XVIII. O mapa é lindo e a um toque no painel interativo podemos ver se  iluminar o percurso de naturalistas como Saint Hilarie e Spix e von Martius. 
Almoçamos no restaurante do Tião, que fica próximo à área de camping do parque. A comida boa e barata deixou todo mundo meio sonolento e feliz com o passeio. Salada, angu, carne cozida com batatas, frango frito,arroz e feijão batido. Tudo isso servido em panela de pedra. Manjar dos deuses depois da longa caminha que fizemos.
Eu, que não conhecia Ouro Preto por preguiça das ladeiras e do calor, tive Wânia como guia numa tur instantânea pelo centro histórico. Da janela do carro, gozando do ar-condicionado, vi  pela primeira vez o que as meninas já conheciam de longa data: as fachadas  das Igrejas do Pilar, Igreja de São Francisco, Casa dos Contos, Museu de Mineralogia, Museu da Inconfidência,  Museu de Ouro Preto, Igreja de São Jose da Torre Única (rsrsrs), Igreja de Nossa Senhora dos Rosários dos Homens Negros e Bons de Padre Faria (ufa!) e outras que não deu tempo de saber o nome porque um motorista na retaguarda reclamou da velocidade.
Visitamos ainda o Horto dos Contos. Declinei do passeio completo e assisti do alto minha amigas descerem o trajeto todo. O Parque Horto dos Contos é uma intervenção urbana do Programa Monumenta/Iphan no centro de Ouro Preto. No local havia antes o Horto Botânico de Vila Rica (É por isso que as pedras parecem velhas, Wânia!), criado por ordem régia no século XVIII. O Horto fica entre a Igreja do Pilar, a Casa dos Contos e a Rodoviária e tem 360 mil metros, motivo pelo qual desisti da caminhada. 
Dizem que lá há mais de 80 espécies botânicas, entre árvores frutíferas, como a pitangueira e a figueira, e outras de grande porte, como o cedro e jatobá.   Como eu fiquei cochilando num dos mirantes só posso dizer que amei a ventania, o cheiro de floresta e a sombra. 
Wania, Rose e Ana viram placas educativas que apontam as espécies florestais, identificam os monumentos presentes na vista de cada mirante, mostram os percursos mais curtos e aqueles acessíveis a deficientes físicos, além de transmitirem mensagens em prol da preservação do meio-ambiente.






Depois do Horto tomamos um cafezinho na rodoviária e deleitamos a volta para Belo Horizonte desfrutando as placas da Estrada Real, ao som de Afonsinho e Paula Fernandes. Ana, que não é de ferro, apagou no colo da Rose e nós ficamos trocando confidências, curtindo a paisagem da estrada e agradecendo a Deus pela bençãos de sermos mineiras cheias de natureza, criatividade e história.

Norma de Souza Lopes

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

INCONFIDÊNCIA

Eu poderia dá-lhe voz mas escolhi silenciá-la em minha narrativa. Como poderia abrir minhas páginas à ela? Afinal aquilo não era coisa que se faça. Enganar uma amiga, ludibriá-la fingindo motivações benéficas. Ela violou a minha confiança revelando meus segredos apenas para sustentar suas próprias teses. 
Agora vou deixá-la em silêncio, seu nome não irá aparecer aqui. Digo até que vou narrar como se ela não existisse. Quem? Não conheço. Não posso usar meus dedos em nenhuma palavra que se refira a ela. Mesmo esse "ela" não deveria estar aqui.
Você leitor, que arroga para si o poder da onisciência, poderia me acusar de evidenciar apenas meu ponto de vista. Poderia ainda alegar que as coisas não  se deram como eu penso. Mas, contra fato não há argumento. Me responde quem poderia negar que minha confissão inefável foi revelada? 
No futuro um desavisado virá me perguntar porque desenvolvo amizades  tão  superficiais. Sei que essa pergunta irá me envergonhar, mas basta voltar ao passado, que obviamente é o agora que estou vivendo, para me livrar de qualquer embaraço. Saberei porque fiz essa escolha. Amigos íntimos ou confidentes não estão mais em meus planos.

Norma de Souza Lopes


segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

A DESPEITO DE ÉDIPO

Coisa de judeu ascético essa história de inveja do pênis, não é mesmo Gwenever? Uma iluminada africana com certeza dava outra explicação para os impulsos sexuais femininos na infância. Desde cedo nós já sabemos que eles são tão castrados como nós, Gwenever, mas o Freud preferiu achar que era medo. 
Medo nada. Eles iriam querer lançar filho no mundo com a própria barriga, por isso saem por aí fazendo prédio, ponte e guerra. Mas isso não é a mesma coisa que filho. Uma lagartixinha tão singela como tu, Gwenever, deveria saber tanto de psicanálise como de produtos notáveis. Liga não, você não perderia nada.
Só depois de me livrar dessa história de inveja eu consegui escrever. Eu precisava valorar os meus produtos, parar de olhar para os outros. Você ri,  né. Então concorda com ele que era inveja? Não estou dizendo isso, estou afirmando que só depois de limpar a minha credulidade dessa tal  referência masculina é que eu pude criar algo artístico, entende? Não que eu tivesse inveja, mas o fato de eu acreditar que tinha inveja me barrava.
Você sabe disso, lembra quando eu te contei do sonho do parto no chão? Naquele dia eu renunciei a essa gabarola de inveja do pênis. Só tendo uma lagartixa de estimação para fazer essas reflexões. Você Gwenever só tem duas funções no mundo, se alimentar e por ovinhos com filhos dentro. Bom ... Agora você tem essa outra que é me amar, mas de função mesmo eram essas duas. Não precisa ficar sangrando digressões até conseguir fazer o que veio fazer nessa terra.
E eu tenho certeza que depois de fazer filho escrever é minha função mais importante nessa vida. Escuta Gwenever, essa história de reencarnação está entrando no meu discurso, você está vendo? Acho que é de tanto você falar de vida após a morte. Que tinha eu de escolher justo uma lagartixa kardecista para confidente. Mas deixa estar que relação é troca e você bem tem considerado o existencialismo, que eu sei. Vamos ficar nós duas capengando entre a essência e a existência até acharmos um meio termo. No fim ganhamos as duas. Agora me deixa ir que se que não acabar de ler esse livro do Mezan danço nas provas. Você vai ficar bem sem mim, né?

Norma de Souza Lopes

domingo, 23 de janeiro de 2011

OLHOS NO OLHOS

E essa agora? Vem com essa conversinha mole de que veio saber como ela está. Que nada! Acho que na verdade ele não aguentou olhar nos olhos dela e vê-la feliz. Eu aqui desse sofá sei de tudo. Sei quantas lágrimas ela derramou abraçada comigo. 
Vocês podem pensar que almofada não sente. Mais sente, viu! No dia da partida foi aquela covardia. Seja Feliz.  Passe bem  porque eu tenho de ir. Ela, certa de que havia outra, enlouqueceu de ciúmes, chorou rios de lágrimas. Mas a danada é obediente. Três meses e já estava bem felizinha. Muitas vezes a vi dançando e cantando aqui na sala. A cada encontro novo ela remoçava. E não foi um só não. Depois de tanta monogamia a variedade lhe fez bem. 
Não acredito que ela está abrindo o vinho. Paixão antiga sempre mexe com a gente... Está facilitando com essa história de que a casa é dele. Ele vai sentar aqui do meu lado. Que falta que me faz um boca cheia de palavras para mandar esse ordinário embora. Depois sou eu que enxugo as lágrimas. 
É isso menina, detona. Estou em outra sabe, com a sua partida resolvi experimentar outros relcionamentos, muita gente me amou, mas eu não quero me amarrar de novo não. Eu não diria melhor. Dorme com essa ladino. Se eu não te conheço, até trazer outra para casa você trouxe. Sentou aqui exalando perfume de melancia. Mal gosto. 
Quero ver o que você sente vendo ela lépida como uma pena de flamingo, flutuando em outros abraços. Dorme com essa Don Juan. E pode ir partindo que o moço de hoje chega daqui a pouco. Vai levá-la para jantar naquele restaurante luxuoso a beira da lagoa. Só posso te dizer que você perdeu. P.T. e saudações.

Norma de Souza Lopes

GERAÇÃO PESCOÇO DE GALINHA


Há alguns anos participei de uma formação como a psicopedagoga Fernanda Sobreira e na ocasião recebi de presentes reflexões para a vida. Acredito que seus ensinamentos reverberaram em mim por causa da beleza de suas histórias.
Sobre o caráter subjetivo do ponto de vista ela contou uma história de uma juíza que, estando diante da TV no 11 de setembro, refletia acerca da miríades de processos que aquilo iria gerar quando a empregada boquiaberta, parada atrás dela, com as mãos e a cabeça apoiada sobre o cabo da vassoura expressou um sonoro - Que poeirão! - O ponto de vista de quem luta contra a poeira todo dia. Entendi o paradigma da subjetividade e ainda ganhei esta história.
Mas o relato que mais me impressionou foi o que Fernanda chamada de História da Geração Pescoço de Galinha. Ela contava que nós, os trintões e quarentões do final do milênio, havíamos passado nossa infância vendo nossos pais comer o peito e a coxa do frango ansiando por crescer e comê-los também. Mas no caminho do crescimento fomos tendo filhos e transmitindo para eles o legado da coxa e do peito da galinha. A Geração Pescoço de Galinha nunca se deu ao luxo de  desfrutar do melhor por que quer "dar o melhor para os filhos". 
Fernanda contava que precisamos ensinar nossos filhos a lutar pelas coisas que desejam. E esse ensino passa pela conduta de não dar tudo, de dificultar um pouquinho suas aquisições, modelando o que a vida é na verdade, uma série de obstáculos que precisamos continuamente superar.
A despeito de toda reflexão que aprendi naquela formação, ainda me pego privilegiando meus rebentos e ficando com o pescoço da galinha. Sou mãe e não sou de ferro. Mas no geral acho que tenho tido bons resultados em ensinando a transpor os obstáculos da vida. Devo isso aos ensinamentos de Fernanda Sobreira.

Norma de Souza Lopes

sábado, 22 de janeiro de 2011

AS TRÊS MULHERES

Ah Luíza! Não fosse essa três mulheres dentro de você eu até continuava te amando. Mas não posso com isso. Preciso de um pouco de regularidade para consagrar meus afetos. Essa dança de humores que você exibe todo dia quase sempre me agasta.
Me exaspera essa moça triste, olhar recuado, que não localiza graça na vida. Nem meu amor nem as miríades de gracinhas que eu faço podem te alegrar.
Me enerva essa mulher iracunda que briga com atendente por causa de café frio, que fala em 6000 rotações e que grita na rua por ciúmes de um olhar que eu nem vi.  
E essa mulher que não gosta das minhas gravatas, que debocha das cores dos meus sapatos e que ironiza as reflexões tão filosóficas que eu faço sobre a vida? Tenho me esforçado muito para não achar que eu sou parvo.
Por isso eu estou indo embora. Por que a Luíza que me abraça, que entende quando eu chego atrasado, que ri das minhas piadas e cuida de mim quando eu adoeço tem aparecido pouco por aqui. Eu fui ficando sozinho com essas outras. Suspeito que se eu continuar convivendo com elas, sou capaz de enlouquecer.

Norma de Souza Lopes

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

COMO É VELHA A NOVIDADE




Oi! Você está diferente, cortou o cabelo? Esta parecendo até que perdeu uns quilinhos. Esporte é. Que esporte? Squach, sei não mas parece chique. Sinto sim, mas a gente tem que aceitar né, acabou fazer o quê?
Você parece estar bem de grana. Quem é aquela? Que bom, a fila tem que andar, não é mesmo. Não, não estou namorando ainda não. Ainda, entende? Onde você conheceu ela? Ah, demorou para você concluir esse graduação de letras. Ela recita em latim é? Coisa de nouveau riche.  Que nada, todo burguês culpado diz que sofreu na infância, isso é lorota. Não entendo o que eu que eu fiz errado para gente terminar. Agora é fácil você falar isso, eu estava me matando em dois empregos para pagar o aluguel e a comida enquanto você viajava naquela onda de banda, não ia conseguir mesmo ser boa na cama. Que bonitinho, descansada, sendo regada a champanhe e caviar até um beijo ia me fazer gozar. Comigo não violão, não me compara com essa patricinha burguesa de meia pataca que se ela tivesse que te manter como eu fiz por dois anos ela não aguentava. Dois anos, viu. Eu ralei pra caramba e agora você vem me jogar na cara essa história de sexo ruim. Não, não quero jantar não. Era bem capaz de eu te dar vidro moído. Que que é aquilo que ela está carregando, é o meu disco da  Billie Holiday? Outro? Mas eu já te dei um de presente. Vê se me devolve o meu então. Que que tem minhas unhas? É, estão roídas mesmo. Como elas para não rasgar a sua cara de raiva.  Ah gosto, ah gosto. Pára com isso, ela está olhando. Vou cantar para subir. Eu sei, eu também sinto, na verdade eu ainda gosto muito de você, vou parar de falar senão eu choro. Vai passar. Cadê ela, sumiu no corredor de filme, aposto que ela adora o Marcel Carné. Dá tchau pra mim. Vê se me liga de vez enquanto. Eu não vou ligar não, ela pode estranhar. Então, até a vista. Não me aperta desse jeito, vai que ela aparece. Você é um safado mesmo. Fui. Tchau.

Norma de Souza Lopes

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

DO MEDO DE VENCER


Mais difícil que lidar com as inúmeras derrotas da vida, é perceber que estamos boicotando nosso sucesso. Essa semana acabei esbarrando na clássica reflexão acerca de minhas conquistas de 2010. E eis o que senti. Estou sentindo que boicotei um antigo sonho de fazer mestrado sob o frágil argumento de que agora vou apenas escrever.
Digo que estou sentindo por não posso considerar ainda o pensamento como uma conclusão. Adoto a perspectiva da dúvida para avaliar minhas conclusões por que, como já disse em "Partasana" meus humores solúveis não me deixam ser eu mesma. 
Vejam:

Dona de humores solúveis
quisera um dia ser mais estável
ao sabor dessas vozes externas
enceno  teatro desagradável.


Me acomete esse mal inconstante
não consigo ser sempre eu, a mesma
flutuando entre fartas alegrias
ruminando profundas tristezas.

Então... Vinha tentando há anos passar nas provas do mestrado da UFMG, e apesar de passar todas as etapas, sempre barravam meu projeto. Não era interessante para eles. No ano passado pensei ter o projeto correto, pensei estar pronta para a entrevista. Havia convicção acerca de estar pronta. Mas declinei no último momento sob esse tênue argumento de que a escrita era forma sine qua non  eu faria a produção de mim mesma. 
Mas agora bateu a dúvida. 
Fico lendo o que escrevo e estou certa de que não posso considerar minhas escrituras um degrau de minha carreira. Elas não são populares o suficiente para chegar a best-sellers. E escrita sem venda não gera produto financeiro, um dos meus alvos para a carreira. No mínimo são uma expressão artística que me dão prazer e me trazem paz para continuar trabalhando.
Por isso agora estou sendo esmagada pelo pensamento de ter sido, mais uma vez, vítima do meu clássico medo de vencer.Resta esperar que na semana que vem meus humores me levam para as fartas alegrias. Aquelas que eu sinto quando tenho certeza de ter feito a coisa certa.


Norma de Souza Lopes

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

PATERNIDADE


O pai comunica a mãe que naquele dia vai ajudar o filho com o dever. Organiza a parafernália sobre a mesa da copa. Lápis e borracha, cola e tesoura de um lado, caderno e livro de matemática no meio, calculadora, apontador e lápis de cor do outro. Arrepiou quando viu as atividades. Uma página de operações de multiplicação e divisão. Cada espacinho foi aproveitado.

O menino começa ranhetando a primeira "conta de vezes", uma centena multiplicando uma milhar. Coisa de doido. Segue contando nos dedos, mordendo a língua, segurando o lápis com força, bufando e tentando adivinhar o resultado.

_ Artur, você não pode esquecer que subiu um número, se você esquecer a conta dá errado.

O menino apaga, reescreve, apaga, reescreve até que a frágil folha do dever não resiste e rasga-se. O pai sugiga o menino.

_ Te falei que era para usar um rascunho!

_ Você não falou não, pai.

_ Falei sim. Olha essa folha, se eu fosse sua professora eu não aceitava uma folha tão amassagada, que droga, esse dever não vai terminar nunca.

O menino pega o rascunho e com custo segue resolvendo as operações. O pai, que antes perguntava cada operação da tabuada para testar os conhecimentos do menino, se desespera e começa a dar as respostas para o filho.

Lá pela metade da atividade a filha de seis anos começa a rodear a mesa curiosa. E o pai no meio do exemplo, no esforço de fazer o filho pensar.

_ Artur, se você tem doze lápis e eu te der mais seis, com quanto você fica meu filho?

_ Vinte.

_ Vou perguntar de novo, você tem doze lápis, olha Artur, desses aqui de colorir, e eu te dou mais seis, com quanto você fica?

_ Ahn! Dezoito.

A pequena pergunta:

_ E eu pai?

_ Sai Luíza, eu estou ajudando seu irmão.

A pequena mareja os olhos e um pequeno beicinho vai crescendo no meio da cara. Ninguém olha até aquilo virar um berreiro.

_ Buá! sninf! chuift! sgrunft! Meu pai vai dar lápis de cor por Artur e não quer me dar.

O pai olha perplexo para a menina, tenta consola-lá, xinga e acaba levantando da mesa.

_ Ô Silvia, vê se você mesma ajuda esse menino que eu não tenho paciência para isso não. Vou ver meu jornal que eu ganho mais.

A mãe, que rolava de rir na cozinha, segue para a copa, tira uma caixa de lápis de cor novinha dos guardados e dá para a pequena. Senta com o filho e conclui pacientemente o dever.

Lá da sala o pai escuta o menino dar respostas certas a todas as perguntas da mãe. Desconfia do menino, mas agradece.

_ Tudo bem! Também, sou eu que pago as contas...



Norma de Souza Lopes

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

SENHOR N

O camarada acorda de manhã com aquela impressão que vai se dar bem. Se banha com aquele verdinho da Natura que comprou por recomendação. Disseram que a mulherada se impressiona com o tal cheiro. 
Entra no ônibus se cheirando. Puta merda, como esse cheiro é bom! Olha para os passageiros para ver se então sentindo. Toma posição no final do busão e segura o corrimão do teto, que é para ficar com o braço levantado mais tempo.
A miséria do ônibus começa a encher e do lado dele encosta um baixinho que parece ter acabado de chegar da noite depois de umas duas caixas de cervejas. 
O cheiro vencido de álcool se mistura com uma catinga de cebola temperada  com limão. Com o avançar da viagem os dois ficam tão colados que o cheirinho de Natura se esvai. Ancorada na frente dos dois uma fêmea daquelas colecionadoras dos adjetivos de feiúra. Desquadrada, sem dentes, descabelada e fedorenta.  
O ordinário do baixinho começa a se esfregar na mulher e para piorar, ela olha para traz repreendendo nosso galã da Natura com os olhos e com grunhidos. Mergrussfs degrusfns safaidssntsns!
Lá pelo meio da viagem a mulher grita: Puta que pariu motorista, para essa merda por que esse engomadinho tá me relando desde a partida! O ônibus pára e os passageiros se encarregam de lançar o cheiroso na sarjeta, bem em cima de uma poça de esgoto. 
Contrariado ele pega outro ônibus. Sabe que não pode voltar para casa, arriscaria perder o dia de trabalho. Entrando no departamento os colegas perguntam se ele pisou na merda. O dia inteiro aquele fedor e a galera fazendo piadinha de longe. São oito longas horas de mau cheiro.
Em casa a noite, já de banho tomado dá o maldito perfume para o irmão. De que adianta ser cheiroso se dá má sorte.

Norma de Souza Lopes

SELO DE QUALIDADE



O Norma da Educação- Escrituras agradece por ser homenageado com o grande selo de qualidade “projeto créativité”
Foi indicado pelo estimado blogueiro Nelson Lopes Rodrigues do blog Filocinética. Este reconhecimento faz com que tentemos melhorar ainda mais o blog.

Conforme a norma do selo indico abaixo 15 outros blogs para receberem este reconhecimento.

15- Política e cidadania


E respondemos ao questionário.

Nome: Norma de Souza Lopes
Uma música: Todas do Bach.
Humor: 100% bom humor
Uma cor: laranja
Uma estação: verão
Como prefere viajar: confortavelmente
Um seriado: Todo mundo Odeia o Cris
Frase e/ou palavra mais dita por você: Então...
O que achou do selo: Adorei. Uma ideia explêndida e  gratificante para quem recebe, é uma boa forma de premiação de blogs feita pelos próprios blogueiros, além de uma ferramenta de divulgação importante que ajuda a divulgar bons blogs.

Regras:
A regra é: postar o selo, indicar 15 amigos, avisá-los do presente e responder ao questionário.


Agradeço ao Nelson pela indicação.

Norma de Souza Lopes

domingo, 16 de janeiro de 2011

Nociva

De súbito
descubro
ser claudicante
coxeia no exercício
do bem
sofre só
para não ser
sólida para ninguém

Norma de Souza Lopes



TÊMPORA



Olívia sonhou que a mãe havia morrido. Chorou muito quando acordou do sonho. Nele a mãe tinha câncer. Depois da quimioterapia os cabelos caiam. Ficava careca. Olívia comprou muitos lenços para a mãe. Floridos, laranja berrante, rosa choque, amarelos. No sonho a mãe chorava de medo.
Olívia raspou a cabeça. Ficou careca como a mãe. Coloriu a cabeça com cores carregadas.  Não adiantou. A mãe morreu.
Quando acordou  sabia que ela estava viva. Chorou por lembrar a finitude da mãe. Para Olívia os cabelos da mãe figuravam sua exuberância e força. Viu a mãe perdendo a vitalidade naquele sonho. Era muita humilhação.
Sofreu muito por não entender a beleza escondida no sonho. Só mais tarde iria compreender.
O corte dos cabelos simbolizava a cesura de seu nascimento psíquico, o rompimento do estado simbiótico da primeira infância. Isso só podia acontecer com a morte da mãe. Deixava de ser criança e passava a construir sua identidade própria. E o fazia em solidariedade à mãe. 
A mãe não percebeu isso de manhã, quando Olívia contou o sonho. Só chorou com ela a própria morte. Talvez apenas intuísse o despertar da filha.

Norma de Souza Lopes

DESCONTAR



A professora mandou que declamassem Infância do Carlos Drummond de Andrade. Todo dia juntavam todos naquela cantilena:




Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre  mangueiras.
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.


Olívia pensava nas bananeiras da infância. Fingia que aquele Carlos do poema era ela. O pai, campeando de bicicleta. A mãe trabalhava fora. Os irmãos brincavam na rua.

No meio-dia branco de luz uma voz que  aprendeu
a ninar nos longes da senzala - nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.

Lembrava da cevada de gosto ruim. Também gostava de café. Preferia café.

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu...Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro...que fundo!

Queria uma mãe como aquela, que ficasse em casa olhando, mansa até com mosquito.

Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

No dia da declamação foi a mãe de todo mundo para assistir. A mãe de Olívia não pode. Estava trabalhando. Olívia ficou tão emocionada que teve que respirar o choro até ele parar.
Decidiu que mesmo sem o pai e a mãe faria sua história ser mais linda que a do Carlos Drummond de Andrade.


Norma de Souza Lopes

sábado, 15 de janeiro de 2011

LUDÍBRIO




Existe um tipo de leitor quer ser enganado. Ele quer viajar nas escrituras, quer mergulhar no conto. Quer ser levado pela mão do narrador como alguém que flutua enquanto dorme e é conduzido. Mas ele não quer ver o condutor. Não quer tomar conhecimento daquele alguém por trás do narrador, que deliberadamente o conduz. Quer crer que não dorme, que vive o conto. É real. Ele é o proprietário dessa realidade.

Quero conquistar esse tipo de leitor. Por isso quero escrever contos em que o leitor se distraia. Não saiba que está sendo conduzido. Existem formas para isso. Quero conhecê-las bem.

Pensei em uma delas hoje.

Descreva um objeto  em um lugar qualquer...

Dentro dessa caixa de relógio exerço meu papel. Pendurado na parede, eu observo a família  à quatro gerações. Vi aquela senhoras nos cueiros, ainda meninas, moças até. Pude vê-las envergar sob o peso dos anos. Vi quem veio antes delas.


Conte a história desse objeto...


Me lembro mesmo da ocasião em que fui  construído artesanalmente na gelada  Alemanha. A neve impedia meu construtor de sair de casa. Por seis meses ele trabalhou em mim, um pequeno cuco de carvalho. Modelou também a caixa e as molduras. Uma linda cena de homens bebendo cerveja em uma taberna.

Nesse ponto o leitor já deveria estar pregado na parede, observando as velhas senhoras tomando chá e pensando como um cuco de um relógio. Mas ainda falta as sutilezas, as artimanhas que fazem com que o espírito do leitor se solte. Falta as palavras imaginativas que faça com que ele, curioso, espie como que pelo buraco de um fechadura...


Aquela, de cabelos grisalhos,  sentada quase à ponta da poltrona, como se quisesse fugir a qualquer momento, eu conheço sua história. Não se  casou. Não que não quisesse. Ela quis vigorosamente. Mas o amado estava à margem dos poderes da família. Era um jardineiro. Era o jardineiro...


A esse ponto posso ter atraído o interesse do leitor. Ele quer se aproximar, chegar mais perto dessa cinquentenária. Quais forças usaram para fazê-la desistir de seu jardineiro. O que fez com que ela amasse o artesão de jardins?
Mas ele desperta. Mais uma história de amor entre classes. De que vale ler algo que já conhecemos de longa data? E de quebra anunciei que o romance não teve sucesso. 


Voltemos para o cuco...


Conheço a natureza de sua dores porque sou seu confidente. Vocês podem rir. Como assim, ela faz confidência a um cuco de carvalho?   Sim ela faz. E não é nada fácil ser confidente. Nem todos que passaram por mim foram meus confidentes. Só se abre para a confidência aqueles que demonstram firmeza de caráter. E assim é um cuco. 


Pôde ver? aqui o cuco conversa com o leitor, responde às suas perguntas...




Tenho sido muito firme nesses cento e cinqüenta anos de trabalho. Apenas uma vez deixei de anunciar as horas certas. Não que por minha culpa, há que se dizer, mas por culpa dos carrilhões de bronze. Pararam de  girar. Me confundiram. Fora isso sempre fui o mesmo. Um cuco digno das confidência de uma donzela apaixonada.


Então o leitor se convence.  O narrador ganhou sua confiança. Muito digno esse cuco. O leitor está atento, ouvindo a voz de taquara rachada do cuco. Quer saber mais. Agora, na voz do cuco, poderei contar a bela história da mocinha rica que não se casou por ter se apaixonado pelo jardineiro. Não sou mais a escritora intrusa.


Gotcha!
E eu estou aqui!

Norma de Souza Lopes