quinta-feira, 31 de outubro de 2013

De caso com a dor

usei dedos, mãos
todo o corpo 
nada serviu 
para estancar
os borbotões de passado
que emergiram de mim

ao meu redor 
um córrego
cheio de corpos
não identificados 
se formou

ninguém irá reconhecê-los 
estes corpos sem nome
emergem de um tempo 
em que tudo era só sentimento
inominável

N.S.L
31/10/13
Sempre achei que não seria legitima se não olhasse as coisas de dentro.
Eu escolho um homem que não duvide da minha coragem, que não me acredite inocente, que tenha a coragem de me tratar como uma mulher."

Anais Nin

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

PEDRA POLIDA

um ligeiro golpe de mão
com as pontas dos dedos
ou um safanão
e a vida
me encaixa em seus vãos 

sem querer
sou uma 
das cinco pedras 
do belisca 
a mais polida

logo eu
que prefiro 
jogos de montar

N.S.L
30/10/13

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Súplica

meu codinome 
beladona
flor sino
pétala envenenada
de ressentimentos

os filhos que fiz
ensinei a ser feliz
mas a felicidade é uma escolha tola
triste estou me cumprindo

descrente do destino
anseio volição
instalar um sentido de flor sã
um inigualável sentido de sol
definitivo imutável
sentido fluido de rio
purgar até voltar a ser bicho
a garricha 
o tiziu
o lagarto
cordas são para saltar

N.S.L
28/10/13

domingo, 27 de outubro de 2013

Da vida

Di Cavalcanti (Mulher e Paisagem)

não fosse esse péssimo hábito
certamente inventado por barbados
de pensar que para mulher perdida
só os homens são lugar
eu bem que queria
ser mulher da vida

N.S.L
27/10/13

corte



debaixo da janela do quarto de minha mãe
um touceira selvagem de cactus
perfura minha memória

lembrar é ato 
e efeito
de afiar o corte

N.S.L
27/10/13

sábado, 26 de outubro de 2013

poeta de rua

nem toda rua
nem toda rua tem um poeta
nem toda rua tem um poeta louco 
nem toda rua tem um poeta louco que fala poesia 
nem toda rua tem um poeta louco que fala poesia por horas
nem toda rua tem dois poetas

N.S.L

26/10/13



Texturas para me relevar
N.S.L
26/10/13

Créditos

cabelo da mãe
olhos do pai
design do miolo
e da fachada 
da vida

mas a poesia 
e melancolia
é minha.

N.S.L
25/10/13

Postais para o passado

jovens poetas desfilam dores frescas e cruas 
é assim a separação e a fome 
que o diego moraes sofreu em sampa

eu, no entanto
carrego essa dor curtida
comida vencida
esquecida debaixo da vida

para afinar com o coro dos contentes
uma carta repleta de raiva
bastaria
mais os destinatários jazem
ou pairam
aprisionados no passado

N.S.L
26/10/13

A poesia não salva da morte. Uma cerveja talvez. 
N.S.L
26/10/13

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Lacre

uma pequena faixa 
sobre os mamilos rompidos
em seio
e tinha sido guardada
do visgo do olho
dos homens maduros

N.S.L
25/10/13

Nunca amei longe de casa

duas ruas 
nove casas
e dez galáxias
entre eu 
e o menino 
que eu amava

N.S.L
25/10/13

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Lúcida

lá vai a Nininha
basta o povo gritar
_ Nininha doida!
para ela gargalhar
e sungar a saia
sexo em pelo

tola é a gente 
que dela se ri 
exibe as intimidades
a modo de alma

N.S.L.
24/10/13

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

o primeiro
e último presente de meu pai
foi um corpo transparente
com um esqueleto dentro

N.S.L
23/10/13

caracóis



Debaixo desses anéis 
brancos, pretos, gris
convivem em paz
um convento e um bordel
uma cela e um batel
N.S.L
23/10/13

terça-feira, 22 de outubro de 2013


Flerto com a morte todo dia. Dai a poesia me grita, me bate e me puxa, como mulher  em porta de buteco e eu paro. Fico monogâmica.

N.S.L.
22/10/13

Receita

Ela me sugeriu 
cultivar uma raiva 
sincera e vigorosa
para cepar a cabeça 
gorda
de outros 
e de eus

De nada me valeu
habito um corpo são dinis
que segue a passos largos
cabelos entre os dedos
a procura de deus

N.S.L
22/10/13


segunda-feira, 21 de outubro de 2013

fotografar

pousar um corte 
quadrado
uma tesoura
instalada no olho
sobre as coisas todas


N.S.L.
21/10/13

domingo, 20 de outubro de 2013

Chove muito, chove excessivamente…

Chove e de vez em quando faz um vento frio…
Estou triste, muito triste, como se eu fosse o dia.
Num dia no meu futuro em que chova assim também
E eu, à janela de repente me lembre do dia de hoje,
Pensarei eu “ah nesse tempo eu era mais feliz”
Ou pensarei “ah, que tempo triste foi aquele”!
Ah, meu Deus, eu que pensarei deste dia nesse dia
E o que serei, de que forma; o que me será o passado que é hoje só presente?…
O ar está mais desagasalhado, mais frio, mais triste
E há uma grande dúvida de chumbo no meu coração…

Álvaro de Campos
Olho e mãos encarnam as coisas ou as coisas encarnam o olho e mãos?

"O corpo sensível apenas percepciona o mundo quando sua carne lhe é arrancada, inscrevendo-se nas coisas. Vidente e visível não são coincidentes, mas um invade o outro constituindo múltiplos quiasmas que não perfazem uma unidade sintética, e sim o sentido de Übertragung, 'imbricação, irradiação do ser”. 
(MERLEAU-PONTY, 1999, p. 235)

Dezenove sorrisos

tem vez que te leio
e você me enche
de poesia

seu sorriso
cobre de ouro
minhas rachaduras

está sempre aqui
mas sinto saudades
de você
todo dia

psiu!
menino
dá pra ser feliz
perto de mim?
N.S.L
20/10/13

sábado, 19 de outubro de 2013

borboletas de pedras

reconhecidos
por seus poemas 
suas canções
alisam a própria cara
e culhões
se dizem leves

leve para mim é o amor
pedra  pousada 
sobre as águas

N.S.L
19/10/13











Por seis dias eles expandiram a família. Por seis dias eu fui mãe e irma mais vezes. Dormir, acordar (sorrindo sempre) comer, brincar, criar. Tudo. 
A cozinha, que já era usina, trabalhou bonito para agradar, nas mãos do Vava e da Carol. Puro amor estes dias. Foi bom fluir com as risadas do Victor e do Ravi. E com as suas também, Mariana Botelho. Janeiro a gente revesa na sua, que vai estar cheirando a nova, Primeira Pessoa.
Pessoas são musica. Escuta sensível. E só. 
N.S.L
19/10/13

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Chamamento



Mãe, ô Mãe
volta aqui
vem me costurar
em sobreviver eu sou mestre
mas quando sobra tempo
eu fico cutucando feridas
arrancando palavras

Mãe, ô Mãe
eu sei cuidar de filhos
dos meus e dos outros
mas de nada me vale, Mãe
cozer em mim
e como cortar as unhas
da mão direita



Mãe, ô Mãe
vem me guardar
que esta casca 

que eu inventei
esse corpo grande 

não cobre as feridas 
de antes, Mãe 


Mãe, ô Mãe
me amamenta
me mima
que todo dia
eu sou menina de novo


Eu olho no olho desta mãe 
e não te acho, Mãe

nem minha raiva 
de falta de mãe 
te alcança
ô Mãe

Mãe, ô Mãe

onde você se escondeu? 
N.S.L. 
18/10/13

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Cadeira Vazia

um menino de periferia
um pouco velho que o de sua classe
tinha coragem nos olhos
e vontade férrea 
para não cumprir decreto

começou a ler poesia
debaixo do braço 
trazia em secreto uma  Adélia
como quem guarda preciosa bagagem

um dia deixou de vir
e de adivinhar o fim das histórias
achou droga mais satisfatória que a escola
a cadeira vazia ditou desventura

a despeito de sua falta
sigo alimentando a ilusão 
de que a poesia salva.

N.S.L
30/12/12

domingo, 13 de outubro de 2013

Adversativa

minhas chaves 
abrem todas as portas
só que sou 
a que nunca sai

vejo que são dias 
de arrancar a flechas
dos joelhos
ninguém me ajude
por favor

N.S.L.
13/10/13






Girassol


como mulher que sou
tenho dias de Clície
e dias de Sol

N.S.L.
13/10/13

Poesia

pensando ter esquecido
como brincar
brincava
com palavras

queria saber fazer 
acrobacias com grafemas
não sei
faço poemas escolares

N.S.L.
13/10/13


uma semana chamando pelo Sol
ele finalmente chegou
de mãos dadas com o amor. 

N.S.L
13/10/13

sábado, 12 de outubro de 2013


Já que o anúncio são dias sombrios
vem brincar no sol

(enquanto o oráculo não censura a luz)


N.S.L.
12/10/13



Amalgama


eram índios das terras do norte
assim como sou a mulher do norte
apesar de - para aqueles índios -
não haver bússola
só havia tribo
e nesta tribo
havia um índio

um velho índio
em busca da Visão
(aqui eu quero me intrometer para dizer
que eu também sou uma velha índia 
em busca de uma visão) 


no alto de uma montanha 
este velho índio 
conversou com uma aranha
e a Aranha teceu
no aro do cipó
com o fio oferendado
de cabelo de cavalo
(aqui eu me intrometo novamente 
para lembrar que o velho índio 
poderia ter bebido o caldo do cipó)


na teia de cabelo 

tecida pela Aranha
vinha escrito coisas sobre ciclos
vida, nascimento e morte
e sobre forças
boas e más
e no meio do aro - o ciclo da vida- adivinha
vinha a ordem - Vá ensinar
seu povo a sonhar
(e aqui eu me intrometo pela última vez
para contar que depois da Visão
uma índia pode aprender que
ensinando a si mesma a sonhar
o índio e a aranha 
tornam-se um ser só)


N.S.L.

12/10/13




quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Final feliz

Como uma maçã diria:
_ Sou maçã _ se pudesse dizer,
digo:
_ Sou triste.

Como uma serpente diria
_ Sou serpente _ se pudesse dizer,
digo:
_ Sou triste.

Como o Sol diria:
_ Sou Sol _ Se pudesse dizer,
digo:
_ Sou triste:

Como um ipê diria
_ Sou ipê _ se pudesse dizer,
digo:
_ Sou triste.

Como uma pedra diria:
_ Sou pedra _ se pudesse dizer,
digo:
_ Sou triste.

Como um bode diria:
_ Sou bode _ se pudesse dizer,
digo:
_ Sou triste.

E ainda que haja quem dig como se xingasse:
_ Vá ser feliz para sempre!
O faz sem saber
que isto nunca poderia me ofender.

N.S.L
10/10/13




Respeito: considerar os afetos do outro na hora de decidir a própria vida. Para hoje tá bom. 

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Conto extemporâneo

Uma bruxa mexe 
com a língua
a poção para dor 
mas essa fada
lá da Central
sopra sem noção
do mal
fada covarde
essa fada
e seu ogro
do perreault 

N.S.L
09/10/13

Dez itens de sobrevivência para dias de dor

1-  o menino feliz que canta enquanto lava louça;
2-  meu pequeno raio de sol;
3-  o homem de agasalho azul que sabe cozinhar;
4-  a flor do dia do outro lado da linha;
5-  cupcakes;
6-  sementes de margaridas;
7-  meninas que contam meus passos enquanto atravesso a rua;
8-  uma tecla repet para a canção sobre o girassol; 
9-  o pequeno vaga-lume roxo que me faz desenhos infantis;
10- o mulherio amigo que ensina a brincar e rir de si; 

N.S.L
09/10/13

terça-feira, 8 de outubro de 2013

goles

emergir
à tona
respirar

na borda
pontes
o espelho d'água
ganchos para tracionar
o dia seguinte

N.S.L.
08/10/13

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Tormenta

moisés, noé
ou qualquer pajé
dançar a dança da chuva
trazer o dilúvio
abrir o mar
tornar o mundo 
escuro e fundo 
e na ausência de peso
afogar o sensor

N.S.L.

07/10/13

domingo, 6 de outubro de 2013

Para o mês

para o mês 
algumas resoluções
parar de parir a vida 
a fórceps
ela, se quiser 
que nasça via parto normal
(de preferência sem dor)

ser indulgente
com o terceiro outro 
o inocente
e o impotente

reaprender a brincar
sem pedagogia
só alegria


aprender a tecer 
filtros dos sonhos
para acordar andarilha 
qualquer dia 


N.S.L.
06/10/13

Sobre o amor e o hábito de comer

ela trinta e nove
ele sessenta e dois
mas essa não é uma história de amor inter etário 
é a história de uma menina
que ama um homem forte
um touro, como dizem
um ogro 
(não o do Perrault, o da Disney)

todo dia ela pergunta
se está bela
a ponto de ainda ser amada
ao que ele nunca responde
apenas sorri
nesta historia 
é ela que come
deste homem
hábito comum às mulheres
é preciso dizer

N.S.L.
06/10/13

sábado, 5 de outubro de 2013

Brincar

Era hora de ouro
raios de sol a noventa graus
luz ideal para fotografar
o rústico banco de peroba
a bicicleta rosa
o jardim mal contido
por trás de caibros envelhecidos 

Então uma repentina chuva de maio 
escorre a luz pela ponte de pedra
e o telhado de entrada da loja de trecos
torna-se providente abrigo 

No largo a direita da ponte
um menino em fuga sorve
as últimas gotas da chuva
chuta a água empoçada na grama
mistura o corpo e a roupa rolando na lama

A penumbra da atmosfera
(ou seria de minh'alma?) 
ao menino me fez invejar 
inteiro no fluxo intenso do momento
entregue ao ato de brincar

N.S.L
05/10/13

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Spinosa: Potencia de agir
Leibniz: Elan vital
Schopenhauer: vontade
Nietzsche: vontade de potência
Freud: libido 

Quantos séculos de filosofia para eu aprender a alegria?

N.S.L
04/10/13