quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Me escrevendo

lá fora pulsa a figura
que faria belo meu poema
mas permaneço sentada no escuro
garimpando imaginário
signo que valha uma prosa

Por preguiça de viver
sigo escrevendo
por medo de sentir
sigo escrevendo
inútillmente
a dor dilacerante 
não respeita o escuro

A tragédia minha de todo dia
punhal afiado na carne
não cessa de doer
mesmo comigo imóvel 

Costureira de palavras
tateio em busca
da estrofe-linha
do verso-agulha
que costure as feridas
mas não há palavra
que cosa a realidade

Norma de Souza Lopes


quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

50 % dos meus fracassos foram determinados por minha intolerância à frustração.

Norma de Souza Lopes

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

A mania que os lugares tem de se esvaziar das pessoas e de sua memórias me impressiona.
Norma de Souza Lopes

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

nem doeu

na primeira vez
perdi minha mãe 
(freud explica)

na segunda
meu pai
(continuo perdendo-o)


na terceira
meus filhos 
(os dos sonhos)

na quarta
quinta
e sexta
a casa 
(nunca tive uma que fosse minha)

e acabo de perder um tempo precioso
com esse poema

NSL
26/12/11




sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Nem tão alegre

Tem essas pessoas 
que sabem da minha tristeza
daquela que me escondo
por isso falo tanto
com essas pessoas
para ver se doo
um bocado de tristeza na fala
sem isso ela me engole
e a morte vira um risco

Norma de Souza Lopes

Por que escrever?

Por que navegar entre tantas figuras, buscar apalpar aquelas que me descrevam?
Obedeço a esse frenesi que me faz a todo tempo querer escrever, que me faz tremer diante do recem-escrito e que me abandona assim que posto sobre o branco as palavras. De novo estou vazia. E diante de mim vejo o vazio.
Penso dizer algo sobre mim ou sobre o mundo com essa tantas palavras  mas me engano.
Nada verdadeiro posso dizer. Palavras não aprisionam a realidade.
No exato instante em que lanço palavras o que descrevo algo isso já não é, já se esvaiu.
Ainda espero que quem me leia possa dar um novo sentido a minha escrituras, algo que o valha.
Mas já intuo. Será um sentido de instantes, efêmero.

Norma de Souza Lopes



segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

a morte lenta
das flores vivas
me faz amar
as flores de plástico
medo da efemeridade

mas me cansa
ser de plástico
Ando aceitando o desfazer inexorável
que submete a mim e às coisas

E na dúvida
enfeito minha casa com sempre-vivas

Esteio de palavras

Não creio nas palavras
divorciadas do ato
palavras gordas
usadas no trato
diário comigo
não nutrem

Eu te amo, campeã
palavras gordurentas
engorduradas
se não abraçadas
ao ato amoroso
ato de reconhecimento

Me alimenta
a ação cotidiana
o ato miúdo
quase orgânico 
dos que me respeitam
e me amam sem palavras 


Norma de Souza Lopes

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

terno

o homem na porta do Palácio 
das Artes
me deixa entrar
mas seu terno 
não
me deixa 

que artes 
eu posso
que espaço
eu posso

não dou
um passo
na direção daquele terno
do homem na porta
do Palácio
das Artes

NSL
13/12/11

Das conversas na roda e outras revelações

Se falo
espalmo os calos da infância
o que  revelo
me devassa a alma
e sofro

Se calo 
escondo as dores da infância
o que velo
me fermenta a alma
e morro


Norma de Souza Lopes



Todas as palavras já ditas juntas

Buuuuuum
a poesia costurou palavras
vedou selou
explodiu

Norma de Souza Lopes






O que deseja uma mulher?

Triste sorte de uma mulher
que teve porte pra casar
que teve ventre pra parir
que teve mente pra estudar
que foi forte pra trabalhar
e deu pra desejar
desocupar lugares

Norma de Souza Lopes

sábado, 10 de dezembro de 2011

Iracunda

Para os que me dizem 
ria baixo
respondo com raiva
raiva
que me aperta a intimidade
quase vontade de sexo

Todo sentimento será erótico?

Norma de Souza Lopes

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Todo dia


Isso de morrer tossindo não me cabe
não faço poesia romântica
não sou heroína de grandes causas
mergulho nos outros
gosto de rosto corado
o que me assombra é o todo dia
anseio o segundo feliz de cada semana

Ainda que eu morra de tédio
não morrerei de amor ou de ódio

Norma de Souza Lopes

Comovida

Canto ao pôr-do-sol
como canto à vida
vê-lo me lembra
que estou viva
deixo me comover
por saber que a morte
como véu
irá encobri-lo


Norma de Souza Lopes

Agora já posso dizer

Agora já posso dizer que o amo
atravessei com ele a estrada da memória
de mãos dadas
ele me disse que a mãe de tão gorda
não se fechou no caixão
não a enterrou

Depois da confissão ficou enfezado
desistiu de comer
mas me alimenta
e me aprisiona em suas mãos

Me quer gorda para não me enterrar também?

Agora posso dizer que o amo
agora que todos as formas de amor se foram
tenho medo que ele também se vá
morte, novo amor, doença

Como o agora é frágil!

Norma de Souza Lopes


domingo, 4 de dezembro de 2011

Ainda há tempo?

Passam invisíveis por nós
tão pouco amados
ou reconhecidos
ou lidos por nós

E nós
arrazoados
somos infelizes
apenas por olhar
olhar e não ver 
olhar através

Não basta esperar
que eles se revelem a nós
e preciso
arregalar
os olhos da alma
e ver 
companheiros invisíveis
amigos invisíveis
filhos invisíveis
que passam por nós

Norma de Souza Lopes




sábado, 3 de dezembro de 2011

Lâmina

Não tive pai que me cortasse
quem me cortou foi a poesia
cindiu minh'alma como lâmina
e me fez pousar segura 
sobre a tragédia que é a vida

desnecessário foi
desintegrar a linguagem
empregar luta corporal
me desintegrei primeiro
palavras me atravessaram


Assim tão só
assim tão pó
assim tão pouco


Vou refazendo as bordas do furo
preenchendo espaços com palavras
palavras hoje me costuram


Norma de Souza Lopes

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Seminal

E se abandono hoje a poesia do querer?
Não impô-la a ser
Deixá-la insurgir de mim
poesia lágrima
poesia pústula
poesia fezes
poesia suor
que se obriga a sair

Então a figura do que senti
vai brotar de mim
econômica
encolhida
vísivel

Norma de Souza Lopes
"A vida é inventada" , "a vida é mutirão", " a vida é acaso e probabilidade",  "a arte é o máximo de significado no mínimo de forma", " a arte existe porque a vida não basta", "tudo é expressão mas nem toda expressão é arte", " as linguagens são intraduzíveis entre si", " poesia é um artefato vocabular que tenta imitar a sensação do cheiro do jasmim", "o sentido da vida é o outro (quando morrerer para mim serei nada, serei apenas memoria na consciência do outro)".
Ferreira Gullar
http://www.youtube.com/watch?v=pyBijXIjK48

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

desrealidade

Nada me agrada perseguir o real
miolo que não existe
cuido apenas fluir
flutuar nas diversidades
das meias verdades
genuínas pela metade

Norma de Souza Lopes

Galope no tempo

Se a vida me desse tempo
eu galopava no vento
acertava meus ponteiros
como a menina que fui primeiro
com a moça que perdeu o tento
e voltava a ser feliz
o que sou nesse momento

Norma de Souza Lopes

Elementar

Quando fui terra meus pedaços modelaram
Tornei-me sólida osso duro de roer
Quando fui fogo aqueci até fundir
Cozinhei em fogo brando, plasmei e deformei
Quando fui água escoei, diluí e  dilatei
Lavei a cara, lavei a palma, lavei a alma
Quando fui ar tratei de avivar minha essência
Limpei o tempo, andei no vento, sequei a memória
Andei em círculos buscando o quinto elemento
Nessas andanças fui construído minha história

Norma de Souza Lopes

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Non sense

Ando cansada de buscar sentido
e não achar sentido em nada
pois o sentido sempre me escapa
sobra sentir-me atormentada

Atrás de cada sentido que encontro
há outro sentido mais elaborado
conjunto de espelhos de significados
rastreio conexões desesperada

Temo por fim acabar perdida
na perenidade dos tais sentidos
temo que falte enfim a memória
e minha subjetividade seja arrancada

Cabe a quem ser o Hermes desse tempo?
Cabe a quem ter  o caduceu  alado?
algo que integre o real valor das coisas
e que incorpore enigmas e complexidades

Norma de Souza Lopes

Resenha do Filme 5X favela- Agora por nós mesmos

Acabei de ver o filme " 5X favela- Agora por nós mesmos" . Amei a proposta. Com excessão do "Concerto para violino", que ainda mantém aquela narrativa do favela movie, achei todos muito lindos.
As narrativas de "Feijão com arroz" , "Acende a Luz" " , "Fonte de Renda" e "Deixa Voar" provocaram em mim aquela deliciosa sensação de familiaridade.
O cotidiano cordial, morno e singelo é tudo que me faz amar a periferia e suas vivências. Me surprendi com a coragem e a criatividade do personagem Flávio de "Deixa Voar", se arriscando a entrar em outro território e acabando por encontrar uma possibilidade de amor com a pequena Carol. Amei a história do frango em "Feijão com arroz", com uma finalização tão a moda do caráter das pessoas de classes populares, exemplos que vemos o tempo todo na mídia, quando por exemplo, alguém pobre devolve grandes quantias em dinheiro que foram achadas. As tomadas verticais, de cima para baixo, a modo dos barracos verticais me causaram grande prazer. É assim que eu gosto de ver a favela no cinema: reflexo da coletividade cordial que sempre experimentei vivendo na periferia.

Norma de Souza Lopes

Adeus Gwenever

Hoje vou me despedir de você Gwenever. Pode ir caçar insetinhos em outras paragens. Segue tranquila que eu estou bem.
Quero agradecê-la por ter sido meu alterego imaginário. Eu precisei disso por um tempo pois não podia dialogar comigo mesma, não achava substrato. Ter uma lagartixinha como confidente me serviu para fazer a transição que fiz.
Aquelas inúmeras vozes com as quais eu conversavam foram se reduzindo... reduzindo... Então veio você, me autorizando a gozar da raiva e de meus instintos reptilianos. Passei a falar só contigo. E como você era eu, passei assim a falar comigo mesma, sem a invasão externa.
Bastou esse sonho com o meu umbigo para entender a conversa agora é comigo, sem identidades alheias. E onde não há nada terei que inventar. É engraçado, me reinventando aos quarenta... Mas também é maravilhoso.
Gwen, isso não deve ser surpresa para você. Alteregos imaginários sabem quando devem vir e ir.
Valeu, minha pequena geconida. 

domingo, 27 de novembro de 2011

A mulher que tirou o chapéu - II

barrete-para esquentar
bicorne- para endoidar
boina- para revolucionar
boné- para rejuvenescer
borsalino- para estatutar 
burca- para sujeitar
camauro- para catolicizar
camelauco- para libertar
capacete- para trabalhar
capelo- para formar
capucho- para vermelhar
carapuça- para ridicularizar
cartola- para ostentar
cocar- para brasilizar
coco- para negociar
coroa- para reinar
elmo- para proteger
fez- para governar
filá- para individualizar
pétaso- para plantar
píleo- para pescar
quipá- para devotar
solidéu- para hierarquizar
sombrero- para ensombrar
stetson- para rodear
toque- para cozinhar
tricórnio- para se molhar
turbante - para socializar
véu- para subordinar

E minha cabeça descoberta 

Norma de Souza Lopes

A mulher que tirou o chapéu

Diante do espelho
a imagem refletida
está sem chapéu

O belo capelo
no chão do banheiro 
anuncia a cisão

Marca identitária 
do ícone externo
é desnecessária

No ventre o umbigo
ligado a si mesmo
encontro comigo


Norma de Souza Lopes

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Vício dos fracos


“A vontade de poder, denunciada ou glorificada pelos pensadores modernos de Hobbes a Nietzsche, longe de ser uma característica do forte, é, como a cobiça e a inveja, um dos vícios do fraco, talvez o seu mais perigoso vício.”
(Hanna Arendt – A Condição Humana, pág 215)

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Castração

Reconhecer que os limites do corpo estão aquém dos seus desejos é admitir a quebra de certo sentimento de onipotência que o Eu insiste em sustentar, em nossa relação imaginária com o outro. É a quebra de uma forma idealizada de ser no mundo.(João Rego)
Resta-nos apenas  " admitir com dor que os limites do corpo são mais estreitos do que os limites do desejo". (Juan David Nasio)

sábado, 19 de novembro de 2011

Por que mudo

Por medo de ser aprisionada
em uma identidade medíocre
acabei me tornando 
um ser plural amorfo
que de tudo sabe um pouco 
e pouco sabe de tudo.

Norma de Souza Lopes

Sesmarias

Agora que já sei que meu gozo
está menos no poder que no vínculo
posso assistir entediada
a luta feroz pelos espólios
desse pequeno latifúndio.

Norma de Souza Lopes

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Eu e a psicanálise

Se eu pudesse dizer de algo que tenha me  atravessado desde os tempos da adolescência, esse algo seria a psicanálise. Bem cedo me apaixonei por esse modo de investigação da psiquê humana. 
E é através dela que eu venho me constituindo enquanto pessoa a quase trinta anos. Houveram momentos em que fui acompanhada por psicanalistas. Esses momentos foram fundamentais para mim. Mas não desprezo a importância do caminho que percorri sozinha, lendo, pesquisando e estudando acerca da psicanálise. Quem se propõe a uma investigação dessa natureza passa horas de cinquenta minutos na clínica mas segue toda a vida fora dela. Não há como engatar marcha-à-ré. Um vez iniciado o processo de análise só é possivel seguir em frente.
Achei importante pontuar isso porque ando mergulhando em mim em busca do amor que me move. Nesse mergulho me deparo com o ato de escrever, a vocação de ensinar, o desejo de compartilhar etc. Mais sinto que essas práticas ainda não são a essência de mim. 
Me lembro da garotinha de treze anos que leu sobre Freud pela primeira vez e se encantou com a idéia de que poderia ser mais que uma. Talvez naquele momento eu não tenho compreendido a extensão do que seria o Id, o Ego e o  Superego. Mas esse anúncio abriu para mim um leque infinito de possibilidades. E fez com que eu me enamorasse pela psicanálise.

Norma de Souza Lopes

sábado, 12 de novembro de 2011

Período Sonoro

Pulsa na órbita
tangível, físico e sonoro
o som

Contra os rabiscos ruídos 
a regularidade da frequência
a marca música 


Dando substância e forma
ao inconsubstancial tempo
marcações corporais do pulso
do respirar e do andar


Norma de Souza Lopes


terça-feira, 8 de novembro de 2011

Nostalgia

Queria por uma cunha no tempo,
no exato instante em que a vida
me trouxe até  esse momento.

domingo, 6 de novembro de 2011

Arrancando a flor-da-terra que grudou em minha alma

Tenho vivido a exclusão e as rupturas como tropeções que me arrancam as unhas dos dedos dos pés. Algo bem dolorido.
Tudo isso porque sou assim: busco continuidades e vínculos em minhas relações. Não como a ligação de um abelha no enxame, que não compartilha com a operária ao seu lado, unida apenas para se proteger das intempéries e dos predadores. 
Ando a procura do vínculo morno que aquece a alma. Aquele que vivo quando um amigo, que  mesmo tão fora e tão diferente de mim, vislumbra por um segundo a minha essência - e aceita-a. 
Busco também o encontro de amor que, num lapso de tempo, faz com que eu sinta que ele e eu somos um, e ainda assim posso ser eu mesma.
Estou aprendendo que rupturas podem significar inclusão. E estar fora do bando não é deixar de ser amada. Significa que agora estou ligada em mim mesma, lidando apenas com quem me ama e me aceita de verdade. Significa que sou tão singular que o molde de um grupo não me aprisiona.
Estou resignificando a dor de me sentir excluída. Não estou perdendo partes de mim, estou arrancando as partes do outro que grudou em mim como uma flor-da-terra que, para lançar sua bela flor sobre a terra, precisava sugar a seiva vital de minhas entranhas, aquela que faz eu ser quem sou.

Norma de Souza Lopes

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Às vezes

Às vezes é  preciso ficar
não há lugar
onde se encontre
o pedaço que me falta

Às vezes é  preciso aceitar
o vácuo vazado no peito
eterno companheiro de viagem
aos domínios do reino da ausência

Às vezes é  preciso parar
de achar que o corte espesso
vai parar de sangrar
ou se juntar ao outro perdido de mim

Às vezes, só às vezes 
é  preciso pousar os pés
no chão da realidade solitária
e acordar do sonho de encontro

Norma de Souza Lopes

domingo, 16 de outubro de 2011

Pálido Cordeiro


Não venha tirar de mim o agora
ou me fazer emergir 
desse mergulho absorto
que me afasta do que me cabe
do que me serve 
do que me bastaria
caso o presente não me sugasse


Me prostro pálido cordeiro 
ante o  fiel e algoz acaso
embora saiba que o instante
nunca será o bastante
daqui por diante
estarei inteira no devir pulsante
na vontade de ser apenas 
vítima urgente da ventura
presa constante do agora

Norma de Souza Lopes

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Inspirada

Algo que me enche de tédio é essa extrema dúvida entre viver e escrever. Se danço com a vida e sigo seus fluxos mais intensos nada sai de meu teclado. O bruxelear de meus dias fartos, saciados e felizes são de uma total falta de inspiração.
Dançar, beber, comer e rir consomem a possibilidade de me eternizar em palavras escritas. Não que eu creia realmente que minhas palavras hirsutas serão eternizadas. Apesar de seguir alucinando a crença de que do éter surgirão olhos sagazes e capazes de visualizar algo grandioso em minhas palavras,  no fundo  suspeito a mediocridade desse amontoado gráfico.
Há momentos porém que escrever me causa frêmitos. Mesmo depois de concluída a obra, repasso os olhos e chego a duvidar se são meus os arranjos literários. 
Mas o leitor poderia me perguntar quando se sucedem esses tremores.
Eles surgem exatamente da mais absoluta falta de vida. É preciso estar muito infeliz com os meus dias para me por a escrever. Qualquer pequena saciedade estanca meu sangrar criativo. E é esse o pensamento que hoje me causa náuseas.
Se eu escolher escrever a obra de minha vida terei que me enterrar em um recôndito inerte de minha consciência, ou mergulhar incólume da vida em alguma experiência infeliz.
Me custa fazer a escolha. Quem poderia escolher algo assim?
Por enquanto prefiro crer que sou a grande artesã cósmica que abriga no ventre ou na alma uma obra grandiosa. Me deixo estar bailando entre o caos e a ordem dessa vida oscilante, que traz saciedades e infelicidades com a frequência de chuvas no outono.

Norma de Souza Lopes

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Alteridade

Agora que já sei
quantos tantos sou eu
resta retirar
tantos outros
restantes em mim

resto residuo descartado
descartável

Agora que já sei
quantos tantos  sou eu
cabe acolher
tantos outros
constantes em mim

conteúdo ligado casado
conectável


Norma de Souza Lopes



terça-feira, 4 de outubro de 2011

Desencantar

Embora tenha dito
"Não dialogo
com quem quer me dominar"
sigo dominada
de mim nada

A sedução
é a forma mais sutil
de dominação

Ser livre exige 
perder o gozo
no jogo da sedução

Norma de Souza Lopes


domingo, 2 de outubro de 2011

ela dançou

Ela, atéia de carterinha
deu graças a Deus pela gente no salão
e até dançar ela dançou

Amante fiel das belas mulheres
flertou com homens e garotos
e até dançar ela dançou

Pôs o Nietzsche fora da roda
papeou sobre a novela
e até dançar ela dançou

Avessa a toda metafísica
desejou o amor como um milagre
e até dançar ela dançou

Sempre independente e resolvida
desejou casamento complicado
e até dançar ela dançou

E naquele dia de festa e dança
experimentou ser outra 
tal qual um redominho de vento
fruindo no corpo a embriaguez e o gozo 
circulou, rodopiou e ascendeu outridades


Norma de Souza Lopes

VÃO

Busco no silêncio
esvaziar
sem palavras
para revelar o real

Respirar o natural
não ser sufocada
pelo sentido
alheio às coisas 


Norma de Souza Lopes


quinta-feira, 29 de setembro de 2011

RETORNELO


Você é a dose de caos
que impede que o círculo dos dias
me engula com sua garganta de tédio

Norma de Souza Lopes

sábado, 24 de setembro de 2011

Silêncio

Se semeio
palavras a fórceps
faço força

Palavras
são forcas
do ato

Sufocam
o exato
sentido 
dos fatos

Norma de Souza Lopes

sábado, 17 de setembro de 2011

De onde vem esse choro?

Choro esse não criado que ainda não explodiu
que ainda não vejo, mas jaz entumecido em mim.
Choro pelo ainda desconectado entre mim e o mundo.

Choro meu desejo de criar
como uma artesão cósmica 
conectando o mundo ao caos.

Criar o invisível escondido sob palavras não ditas, 
sob o tempo não vivido 
torná-los vistos, visíveis e sensíveis.

Por absoluta necessidade 
sou capturada por esse ato prenhe de criação
por essa força caótica que engedra em mim o novo.

Essa necessidade de conexão 
eu identifico como a vida pulsante 
que vinga em mim como devir.

Anseio criar 
a partir da sensação de permanência 
não como desejo de imortalidade 
mas como sensação de duração. 

Sei que não saio ilesa do tempo 
mas desejo criar algo que me ultrapasse.

Norma de Souza Lopes

sábado, 10 de setembro de 2011

LAMENTO

Se me pedisse: _ Canta!
Para ti eu emitiria 
um som que marcasse meu tempo em sua alma

Se me pedisse: _ Canta!
Para ti eu soaria
uma melodia que imprimisse meu rosto em seu corpo

Se me pedisse: _ Canta!
Para ti eu reverberaria 
notas que invadissem seus caminhos, sua casa, sua vida

Mas você não pede e eu fico muda
e essa música que é a força do tempo, do semblante e do espaço 
fica presa em minha garganta

Prefere deixar-me aqui, condenada à poesia
grito surdo e solitário 
carcere gutural de mim

NSL
10/09/11

domingo, 4 de setembro de 2011

Quebrou-se



Ainda  que pensasse que o espelho
era Eu do outro lado
descobri que do outro lado
apenas o Outro

Mas enfim quebrou-se
e foi lançado nas águas do tempo
e eu que era tanto o Outro
Agora posso ser Eu somente

Ou tantos outros?

Norma de Souza Lopes

domingo, 21 de agosto de 2011

Revisitando a solidão

Há algum tempo escrevi esse poema e achava que me aproximava da verdade das relações.
 
SOLIDÃO

A consciência da minha solidão me liberta 
Com ciência de que todos são máscaras 

Encontro real não existe  

Me amo hoje 

meu existir é o que há de real  

Solidar comigo  

com o outro apenas  

meros pontos de contato 

segundo efêmeros de toque 
 
Hoje sinto que devo reescrevê-lo. Me sinto sem coragem para rabiscar meus  escritos. 
No entanto o farei no futuro. 
Naquele momento eu pensava que conseguiria ser um EU verdadeiro e real, sem marcas deixadas pelo OUTRO.
Hoje sei que isso não é assim. Aquilo que eu chamava de pontos de contatos foram marcas que o OUTRO deixava em mim. Algumas indeléveis.
De mim mesma só tinha e tenho o desejo de ser. Desejo que sempre me escapa como um objeto escorregadio, desconhecido, inconsciente.
Se eu estivesse escrevendo esse poema hoje eu apenas diria
 
Meu desejo é o que há de real 
aspirações consolidadadas
na mistura entre o EU e o OUTRO.

NORMA DE SOUZA LOPES
 

sábado, 20 de agosto de 2011

Sobre a tristeza

Me bandeei hoje para os lados do Blog do Cacá e lá pude ler um belissimo texto acerca da tristeza e da alegria.
Refleti e comentei o que acho ser uma grande perda para nós, os pós-modernos. Nos tempos idos do amor romântico, do mal do século e de outras melancolias o individuo ganhava tempo para o luto,  para a dor e a introspecção que a realidade humana merece.
Hoje é tudo uma festa só. A euforia tem que ser evidente na cara do sujeito. Tristeza precisa ser escondida as custa de titulo de doença (depressão) ou combatida à força de remédio. Vivemos uma esquizofrenia coletiva na qual é preciso acreditar que tudo é e será sempre perfeito, que temos escolha, que o destino não existe e que controlamos a felicidade.
Eu, que ando fugindo dos grupos e dos consensos euforicos, me nomeei presidente do Partido da Solidão e sigo curtindo minhas tristezas. Elas me lapidam, me fortalecem e me mostram quem eu sou verdadeiramente - um ser livre, triste e feliz. Apesar da tristeza de me reconhecer a beira do abismo, da incerteza, do acaso e da mortalidade, posso fazer escolhas virtuosas.
E, se no interlúdio de fazer-me, eu acabar tendo coragem para atos heróicos que deem mais significado a minha vida, estarei sendo feliz assim, a despeito de minha conciência acerca das tristezas da vida.
Apesar de minha tristeza atávica.

Norma de Souza Lopes

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Construindo uma cronica descritivo-reflexiva



Segue exemplo com uma de minhas crônicasque se chama "Ruminando" e apresenta  caracteristicas tanto de descrição quanto de reflexão

RUMINANDO

Caminhar por Ribeirão por uma hora sem que se veja uma vaca é impossível. Ao dirigir pelas novíssimas ruas asfaltadas presenciamos as bovinas pastando nas avenidas sanitárias e caminhando pelos jardins ou várzeas municipais. As vacas são tão comuns nessa cidade que às vezes miramos as esculturas de concreto às portas dos açougues e quase sempre achamos que se trata de ruminantes vivas. (descrição da cidade e de suas peculiaridades)
Penso que essa presença evoca nos moradores as mais diversas reflexões, bem ao gosto do freguês. Há aqueles que ansiosos com o progresso atribuem à presença das vacas nas ruas ao atraso político do distrito. Outros encaram as mugintes como invasoras do recém-conquistado espaço urbanizado.
(reflexão acerca da descrição da presença das vacas na cidade de Ribeirão das Neves) Os carnívoros visualizam as mimosas salivado e conjecturando o esplêndido churrasco que poderiam experimentar.
A mim as vacas nevenses evocam outros pensamentos. Ao ver o balançar ritmados de suas ancas pelas ruas sou invadida por lembranças bucólicas de minha infância na Paraíba - São José das Piranhas para ser mais específica. O município que cito possui esse nome não por que tinha mulheres de vida fácil (ou difícil, como queira) entre seus moradores, mas por ter possuído no passado vastos açudes de piranhas - o peixe. (Descrição de uma característica da cidade da Paraíba)
Durante minha estadia na terra de José Lins do Rego pude experimentar uma relação muito próxima com esses animais. O espaço da rua de terra era das crianças e de toda sorte de animais. Cachorros, galinhas, bodes, vacas e infantes conviviam e brincavam de maneira pacífica e feliz. Ainda não se falava em doenças com o frenesi que discutimos hoje e talvez por isso pudemos chegar tão perto desses animais domesticados. Atualmente estamos limitando nosso convívio a uma pequena dúzia de pessoas. Nem de longe a relação é mais pacifica. (reflexão)
Como uma das características primordiais das crônicas são a reflexão acerca do cotidiano, deve-se elaborá-la usando a descrição como pano de fundo para alguma reflexão que se deseje fazer.

sábado, 13 de agosto de 2011

RANDÔMICO

Andei sumida Gwenever. Não falava contigo porque estava apaixonada por meu trabalho. Que se respeite essa paixão. Mas me afastar dele me fez perceber o quanto é alienante.Tenho rejeitado o retorno.
Quero mais é ficar por aqui, mergulhada em meu ninho, apenas observando seus passeios randômicos de lagartixa pelas paredes. Desfrutar da solidão em que me recrio a partir de meus pensamentos.
Meus pensamentos são você, Gwenever. Deslizam pela latitude da paredes desse mundo: a ciência, a psicologia, a filosofia e tantos outros exercícios inflexíveis do mundo plano. Mas, como você, eles não perdem a raiz malgaxe. O que talvez explique essa racionalidade reversa, esse casamento mestiço da razão com o primitivo, com a dança e a com a arte.
O que me faz temer o retorno ao trabalho é aquela em quem eu me torno quando tantos outros se imiscuem em mim. Eu, que na liberdade do meu abrigo posso ser ao avesso, transparente, hermética ou irreconhecível, na presença dos outros me vejo obrigada a ser uma só. O coletivo exige coerência. Mas ser uma só me faz sofrer. 
Por isso tenho amado essa solidão em que apenas você me frequenta, Gwenever. Você não é violenta, não parasita minha consciência. Apenas percorre comigo o caminhos ilimitados das posiblidades dos sentidos presentes nas palavras. 
Não quero voltar!
Me ajuda, Gwen?

Norma de Souza Lopes
 

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

FOTOGRAFIA

Me perguntam porque eu, um ator tupiniquim de tanta monta, voltei a pátria. Declaro  aqui a razão.Me expresso em prosa porque me cansa a poesia doída. Minha dor cabe mais em prosa. 
O que me dói?
Dói é saber que meu elo entre ela e a terra das oportunidades foi rompido. Não eram minhas.
Ela não era minha. A terra não era minha. E não era minha a fada de cabelos vermelhos, a princesa que por seis anos chamei de filha, pagiei como pai.
Pena os filhos não serem fruto de dois ventres. Poupava esse padecimento proibido de quem ama o que achava filho da carne.
Não pude ficar. Me faltava o bálsamo curativo das areias daqui. Ansiava espumas salgadas nos vãos dos dedos de meus pés cansados.
Com o Tio Sam deixei carreira, mulher, filha e sucesso. 
Construto simulacro da felicidade.  

Norma de Souza Lopes

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Episteme

Persigo palavras
sigo lavras
lavro pensamentos
abro valas
vasculho vales
cubro brechas
livro logos
minero ingressos
para o trem
que me leve
às vagas do universo
para que a onda
faça emerso
a felicidade
por fim entendo
que o exercício
do trajeto
no qual me faço
é o projeto
que mais vale
o trabalho

Norma de Souza Lopes

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Como fazer uma crônica

Bom, pensei em um formato ideal para uma crônica e ficou mais ou menos assim:
Pense em um fato do cotidiano, pode ser a politica, o contexto mundial, o ambiente familiar etc. Uma crônica ( de Cronos, o Deus do tempo) está sempre ligada ao cotidiano. Observe essa minha crônica chamada "Conversa de miúdo".
A mãe na pia, lavando aquela montanha de louça depois da bacalhoada e o miúdo sai com essa.
Observe que a narrativa é informal e intimista, uma conversa íntima entre ma~e e filho. Pode haver até a presença de diálogo:
_ Mãe, hoje tem escola?
_ Você quer dizer aula. Não filho, hoje é domingo de Páscoa.
_ Ah! Queria ir na escola hoje.
Observe a presença da oralidade em "Mãe, hoje tem escola?". Em uma crônica a fala coloquial pode aparecer. Na linguagem padrão o verbo ter não deve ser usado no lugar do verbo haver, mas isso é comum na linguagem coloquial.
O fato aqui - uma conversa entre mãe e filho é um pretexto para que o autor exerça sua criatividade, ou comunicar uma angústia. Nesse caso expressei um inconformismo com algumas escolas mostrando a alegria de uma criança com sua escola. Uma crônica pode apresentar um certo lirismo, ou seja, uma linguagem com tom poético. Sinta a poesia e a leveza nesse conversa.
A mãe se vira e lança um olhar curioso para o filho.
_ Minha professora contou que a páscoa não é só o ovo de chocolate. Ele contou de Moisés, e de Jesus também. Sabia que ele ressuscitou, mãe?
_ Sabia, filho.
_ Mãe, você achou bonita a ovelha que eu pintei?
_ Achei linda, filho.


_ A professora deu um bombom junto. Todos na escola ganharam. Você acha que a escola gosta da gente, mãe?
_ A escola são as pessoas que trabalham nela filho, suas professoras, os funcionários, a direção. São eles que gostam de você.

_ Minha professora gosta de mim. Ela brinca comigo, e até está me ensinando a ler, né mãe?
( observe novamente o uso coloquial do "contou de Moisés" "a gente" e o  né no lugar de "não é, mãe?"
 _ Todos gostam, filho. As pessoas que trabalham na sua escola escolheram isso porque gostam de criança e gostam de ensinar.
_ Tem criança que estraga a própria escola, mãe. Eu não faço isso nunca. Acho minha escola linda.

Diz coisa séria por meio de uma aparente conversa fiada.
_ Nem todas as escolas são como a sua, meu pequeno. Há lugares em que as pessoas pensam diferente, acham que escola são pequenas fábricas de construir aprendizes. Se esquecem de presentear e de brincar por acham que isso não é importante.
_ Ainda bem que minha escola é não é assim, né mãe.
_ Ainda bem filho.

Uma crônica deve ter natureza ensaistica, ou seja ser breve, fazer criticas de maneira leve, expor idéias e reflexões filosofica a cerca de um determinado tema.
Uma crônica deve ainda ser falar um fato moderno, sujeito a transformação e a fugacidade da vida moderna. Lendo a crônica acima sabemos que o que ela relata é transitório, que qualquer evento poderia mudar os rumos dessa conversa, até mesmo o tcar da campanhia. A sensibilidade no contato com a realidade sem falar muito, em forma de sintese dá o recado de uma crônica.
Norma de Souza Lopes

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Poucas coisas tem me arrancado desse racional cotidiano. Por algumas me deixo atravessar. Foi o caso desse poema de Viviane Mosé, que rasgou um intervalo em mim.

O tempo

quem tem olhos pra ver o tempo
soprando sulcos na pele soprando sulcos na pele
soprando sulcos?


o tempo andou riscando meu rosto
com uma navalha fina
sem raiva nem rancor
o tempo riscou meu rosto
com calma

(eu parei de lutar contra o tempo
ando exercendo instantes
acho que ganhei presença)



acho que a vida anda passando a mão em mim.
a vida anda passando a mão em mim.
acho que a vida anda passando.
a vida anda passando.
acho que a vida anda.
a vida anda em mim.
acho que há vida em mim.
a vida em mim anda passando.
acho que a vida anda passando a mão em mim
 


e por falar em sexo quem anda me comendo
é o tempo
na verdade faz tempo mas eu escondia
porque ele me pegava à força e por trás
um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo
se você tem que me comer
que seja com o meu consentimento
e me olhando nos olhos
acho que ganhei o tempo
de lá pra cá ele tem sido bom comigo
dizem que ando até remoçando

terça-feira, 17 de maio de 2011

Não tenho riqueza que sirva de herança
mas deixo para meus filhos
um olho de ver laranja-arroxeado no céu
experiência desfrutada nas tardes de por-dos-sol iluminado


Norma de Souza Lopes

domingo, 24 de abril de 2011

Quero a poesia acerca dos campos
a água suja que corre nas ruas
o cachorro sem rabo do vizinho


Mas o banal externo só se me impõe
no meu modus vivendi cotidiano
ele ainda não macula minha arte


Mesmo querendo um nova poesia
que não seja eupoesia ensimesmada
me pego poetisando introspecções

O mundo se impõe a mim tão poderoso
que  exercito literá-lo pra fora
aqui dentro só cabe eu mesma

Norma de Souza Lopes