terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

jura-se

jura-se guardar pra sempre
o CD do 14 bis
o umbigo dos filhos
o primeiro caderno de desenhos
daquele curso no arena cultural
o mapa astral plastificado
as promissórias do imóvel
conchas de jericoara
o sangue do arrebol
naquela ida secreta
ao mirante

jura-se inutilmente
tão perdíveis tais tesouros
quanto estas tatuagens de rena
que nos poemas
chamamos de amor






sábado, 25 de fevereiro de 2017

voo

uma vez vi um corpo nu
descrever uma descida vertiginosa
onze andares
de um prédio residencial

era um corpo ou um homem?

no dia seguinte pedaços de ossos
contavam sonhos irrealizados
nos beirais do prédio da rua Timbiras

espantou-me a pressa
com a qual a chuva
lavou o sangue no asfalto

Foto de Ren Hang
(sinto muito por seu voo Hang)😪


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

jackpot errado

nos anos oitenta eu lia qualquer
pedaço de papel que achasse
tropeçava nas bacias das lavadeiras
lendo a caminho da escola
eu jurava que havia resposta
adequada para o que me faltava

parecia mais fácil responder
que se lhes enfiassem no cu
suas aspirações acerca
do melhor destino para mim
a rejeição não precisava
ter solução

aqueles eram tempos
dos manuais para o sucesso
apare sua raiva pela raiz
jogue o jogo do contente
seja resiliente, ame, ame, ame

muitos anos de luxúria e paixão
(a paixão dura dois anos, dizem)
capítulos de histórias de amor fake
até entender que quando 
sinto que estou ganhando
estou no jackpot errado 


sorte no amor, qual o quê
nenhum livro me contou 
o que hoje me parece óbvio
só desbanco quando 
eu mesma me amo 

Foto Larry Towell


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

se você

você sorri enquanto caminha 
é pensa: "no verão o amanhecer 
pode ser uma coisa alucinante"
em breve ouviremos 
os proclames do outono

se você poderá dormir
trocar de roupas, trabalhar 
e seguir com ninharias
é algo que me parece atroz

como é possível que se esqueça 
das palavras nas velhas cartas
dos poemas em guardanapos
das canções que me dedicou?

não que eu não seja capaz 
de me render amor
mas era sublime 
a intensidade em seus olhos 
nem todo ouro do mundo
me traria de volta aquela sensação


se você decidisse, só um pouco,
acreditar no amor
poderia ter ficado
lembra? parava diante 
de qualquer espelho
e nos achava lindos juntos

não é o fim da vida, eu sei
só dói quando me identifico
com as heroínas dos filmes de amor
e me lembro de minha sina de preterida

mas por Deus, como você supera
o fato de ter nos transformado 
para sempre no fragmento 
de uma promessa?

você coloca os óculos escuros
evita o sol, observa os pombos cagando

na estátua da praça da estação
e não parece entender
que o amor é um punhado de renúncia
e uma meia dúzia de dias felizes no mês

 



terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

prolapso

costumo ser razoável
quando afasto da memória
esse sorriso em que você, sem querer 
faz semblante de amores passados
mas não tá dando, meu bem
meu peito tá descompassado
tá fazendo vazante
tou morrendo a míngua
e não vejo o instante
em que um beijo de língua
vai curar a torção
que o excesso de não
causou ao meu coração


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

realidade

quando deixamos de colecionar sapatos
quando dois pares são o suficiente
a gente acha que venceu o ego
que não liga mais para
essas tretas de poder
quando esvaziamos os armários
e sentimos arroubos de humildade
e de desprendimento
pensamos estar prontos
a vida chega sorrateira
e nos arranca os pés

Foto de Nuno Perestrelo

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Ando cansada dessa pornografia da dor e do ódio que vejo por aqui. Queria um poema que fosse um lugar feliz onde eu pudesse morar. Queria mais pessoas que convocassem o melhor de mim.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Abraçar a história que construí durante minha caminhada. Acolher apenas os juízos que venham embalados em amor.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

os anos noventa eram uma coisa

um mês de outono
de noventa e dois, maio
ou junho talvez
um ano de encerramentos,
ele comprou um LP do Abba
que eu amava
eu pensando que era surpresa
até descobrir que daria para a mãe
(acho que era maio)
eu ainda naquele esquema de esperar
a fase ruim passar
o ensino médio terminando
ele conversando muito
com as colegas de escola
até eu descobrir que
a magricela de cabelo pintado
que morava atrás da igreja
era a nova namorada
passando de ônibus eu a via
em sua varanda
com as amigas como a diana
e suas companheiras, de vermeer
doía tanto que eu torcia
pela chegada das novas linhas do metrô
eu não sabia do desperdício de amor
aqueles bem que podiam
ter sido anos melhores
alguém tivesse me contado
que um dia eu iria esquecer
e que de tudo isso ia ficar apenas
alguns sonhos recorrentes
uma cicatriz na testa e um filho

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

é só um exemplo

é só um exemplo
mas ela foi vista
admirando os céus
durante uma chuva de raios
era preciso dizer que
não se conquista a liberdade
contemplando o céu
uma revolução libertária
carece de gaiolas para insurgir

quem a viu no entanto
não disse nada
ficou só observando
ela, ali
descrevendo com o queixo
a trajetória dos raios
qualquer palavra parecia redundante

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

do que sobra dentro quando se esvazia

não uma verdade qualquer
mas aquela experiência melancólica
de quem renunciou às ilusões
aquele "eu sei" murmurado
quando se nota  que chegou ao fim

nesse dia todos os poemas nos acusam
são como aqueles rostos que se viram
ao entrarmos em uma sala por engano

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

verossímil

hoje terei que fingir que te amo
para escrever um poema
é que soube que botaram à venda
uma casa lá na Rua do Alto
com uma varanda colonial
e umas margaridas selvagens
para lá valeria a pena nos mudar
e criar os três filhos
que nunca teremos

domingo, 5 de fevereiro de 2017

inércia

durante cinquenta dias
cultivou dezenas de sementes de uva
desse plantio nasceram sete mudas
ele as replantou, adubou a terra, regou
e fincou estacas caiadas
intuindo bastas parreiras

até que a mariana nos contou
"aquilo não são folhas de uva
as verdadeiras apresentam
bordas serrilhadas admiráveis
foi assim com as sementes de morango
que tentei cultivar"

desde então observamos com o canto do olho
o canteiro viçoso de ervas daninhas
sem nenhuma disposição para regar
tampouco sem coragem para ceifá-las
e isso diz uma imensidão acerca de nós


sábado, 4 de fevereiro de 2017

lá no lugar do medo

difícil achar sentido em nosso tempo
a maldade do mundo
um punho em minha glote
pessoas vêm e vão como ventos

para manter o zelo com a casa
é preciso esquecer
que um dia será demolida
tal qual o são minhas tantas idealizações
dançar ainda é
minha melhor experiência com o agora

ergo um bunker com o silêncio
que eu moldo como telhas em minhas coxas
um poema me acalenta batendo a mão
levemente em minha costas
e sussurra "vai passar, vai passar"



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017