quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

o amor

sinto raiva mesmo é do amor
ajoelhado nos ladrilhos do banheiro
em flagrante felação
nem para exigir troca
o amor

entre os dedos do amor
debaixo de suas unhas
há sangue seco

o amor goza
até com castelo de cartas
com bilhete de loteria
não premiado

o amor, esse puto
esgotou seu último pedido
a minúscula nascente
que a ausência de convicção 
havia plantado em meu peito

NSL
26/02/15

domingo, 22 de fevereiro de 2015

inconfidência

nove anos
é o tempo que gastamos
para triturar a alma
de uma criança

não me poupe
nessa máquina 
sou uma roldana
remunerada

( que não me ouçam

mas a despeito da fumaça
e das balas de borracha
de portas fechadas
engendro uma revolução)

NSL
22/02/15
Viver sem doer implica em escrever poesia ruim. Mas todo mundo tem seus dias de consertar chuveiros, amar todo mundo e só ser feliz.

NSL
22/02/14

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Sapos

Vitamina D

Tudo que tenho são esses milésimos de segundo correndo como enchente. Este chão de terra e entulho do meu quintal é tão útil como a grama zoysia japônica em um belo jardim de mansão. Mas as gotas de chuva que me abraçaram ontem na avenida augusto de lima agora são barro e bosta no fundo de um rio sepultado no centro da cidade.
Enquanto o silencio não se instala sigo como um dínamo, distraindo a dor com amor e encontros. O encontro me faz sentir repleta. No entanto doí quando esvazio. O Outro é deslumbrante apenas na minha imaginação. Ninguém se dá o trabalho de alimentar minhas idealizações. Porque deveria?
Viver sem doer implica em escrever poesia ruim. Mas todo mundo tem seus dias de consertar chuveiros, amar todo mundo e só ser feliz.
Ninguém escapa de si. A violência por exemplo, odeio-a. Mesmo a violência que mora em mim, minha querida pássara. Essa que nunca me abandona, que me faz desejar estraçalhar adversários imaginários. Essa que surge quando sou convidada a jogar. Sou um galo de briga com o pensamento costurado com linha forte. 
Mas não precisa se preocupar, já não compro tantas brigas. E não o faço porque assistir ao espetáculo decadente, as quedas de braço cotidianas daqueles que querem dizer qual vai ser a identidade dominante do mundo ou decidir quem irá ficar com a maior parte desse bolo chamado Brasil me faz chorar.
Minha única contenda ainda é pelo que me irmana com todas as filhas da terra, mulheres que correm com lobos, que assopram ossos. Pela liberdade de seus corpos e almas tenho gritado (às vezes até falado palavrão).
Os bem-te-vis abandonaram um ninho velho no pé de  amora e ele agora é habitado por um casal de rolinhas. No inverno serão os bicos-de-lata. Pássaros me parecem tão livres com seus corpos no espaço. Desde os gregos a palavra liberdade nos remete a movimento do corpo. Veja esse Freedom inglês, que surgiu do "pescoço livre", do frei Hals, referindo-se aos grilhões que mantinham aprisionados os escravos pelo pescoço. 

Aprendi um pouco de liberdade contigo, pássara. Isso me fez achar a moral ridiculamente injustificável. Porém ainda preciso perguntar a quem ofenderia por meus seios à mostra, ou dizer o que realmente penso acerca de convicções e certezas. Por enquanto ensaio pequenos voos com rota. Estabeleço movimentos de rotação e de translação para meu corpo voltar sempre ao mesmo lugar. Ainda carrego asas conectadas ao meu amor maduro. 
E é isso, quando tanto não cabe no corpo que expande é que sinto falta de dizer não. Aquele não que teria me protegido de amores esvaziadores, de ter pés doloridos e joelhos fodidos. Menos. Menos.
Correr de um lado para o outro por medo de parar e ainda assim vir estacionar nesse quarto escuro, morno, sem saber quando o frêmito irá voltar.
De nada adiantou lutar contra essa vontade de estar em outro lugar quando estou aqui, aprisionada a este agora lancinante. Seria mais fácil aceitar que sou de lugar nenhum.Tanto conselho acerca de raiz e eu sempre flutuando como boi morto em dia de enchente. Como boi morto não, como uma tora, mas morta também. 
Seis meses é o que vai durar a vitamina D deste verão. Depois é só me contentar com a sombra. E os sintomas.

NSL
21/02/15

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

sacode

mantenha escondidos
os círculos marrons 
(dos bicos dos mamilos)
a fenda funda
(das nádegas)
não queremos ofender a honra da família mineira

pura que pariu
ser livre 
é mais uma besteira
que inventaram para te fazer sofrer
seja aceita minha nêga
seja a seita
fundada por machos
que acham que mulher descoberta
foi feita para se abusar

ou não

ou abra com os dedos
os lábios da buceta
da buceta
como homem que sacode o saco
quando quer xingar

NSL
20/02/15


domingo, 8 de fevereiro de 2015

desengano

não há paz em cicatrizes
depois da costura
o que fica

é o relevo incômodo
grito engarrafado

que amálgama  poesia

felicidade
essa sinuosa
surto dos inocentes
repousa apenas 
sobre peles virgens

NSL
08/02/15

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Eis o que sou, uma roldana dentada desta máquina de triturar crianças. Não das grandes. Uma pequena. 
E o faço sob o pretexto de alimentar meus filhos.  Não há honra nisso. Não posso dormir impune. A insônia é o preço que pago. 
Não. Não se compadeçam. Seria ingenuo e covarde. E beira a hipocrisia escrever sobre isso. Uma roldana dentada não deveria produzir palavras. 

NSL
04/02/15

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

caderno negro

um caderno negro é ideal
para anotar amores que findam
pentear os cabelos pode ser tão brutal
quanto matar um cervo
cavar um buraco
por mais raso que seja
pode atrasar
o nascimento de uma estrela

tenho ombros caídos
acho que a vida ocupa
o lado esquerdo do olho
um caderno negro não é adequado
para assuntos da alma

NSL
02/02/15