terça-feira, 30 de maio de 2017

alerta de desastres do amor romântico

crês que amar é um imperativo tal qual viver ou morrer?
amar é uma mentira que ninguém desfaz
vês um gigante de bronze, um Talos?
nem se dá conta que trata-se de uma mulher
a atirar pedras na paixão
embarcação que espreita para aportar


não seriam inúteis seus esforços
uma vez que cumpre eterno retorno
ao lugar de sacrifício
o altar erguido ao amor romântico?


ouça homem, esta mulher
leva atravessada ao calcanhar
a flecha do amor, e haverá de sucumbir
mas como o gigante de Creta
não tombará antes de arder totalmente contigo

sábado, 27 de maio de 2017

haveremos

antes a vida cabia toda 
num caderno de perguntas

e respostas, hoje o que se tem
é o insípido jogo da compensações
impossível arrancar dos flancos
a flecha cicatrizada
resta sorver em goles 
a asfixia da diferença que nos reduz
mastigar frenéticas
nacos de pão e ódio
haveremos de nos vingar
escrevendo com o giz dos escombros 
das paredes que demolimos todo dia
sobre a rasura de nossos nomes na História 
somos mulheres, estamos aqui
desde a fundação dos tempos
e viemos pra ficar 



sábado, 20 de maio de 2017

terça-feira, 16 de maio de 2017

nem todo poema merece perdão

me constrange que não possa
levar pão a cada boca faminta
cobrir os pés de cada menino descalço
acolher cada irmã que sofre desamor
cada irmão que sofre racismo
cada anciã negligenciada
cada cão abandonado

inábil para esgrima, me constrange
estar aqui a rezar padre-nossos
e a falar da beleza dos arrebóis

sábado, 13 de maio de 2017

aquele que carrega mais verdade

são quatro horas
um feirante cumpriu o seu dia
pássaros concluíram seus ninhos
soldados invadiram países
as raízes do gengibre brotaram no quintal
e eu convicta que fiz muito mais
há horas repassando seu gosto mineral
pousando fundo em minha boca
lembrando o cheiro ocre de suas camisas
no fim do dia, ou de seus cabelos, um mundo
me pergunto porque só agora pode me dizer
"eu te amo muito mesmo"
quando já não era livre
repasso entre os dedos meu futuro
o eterno ciclo de escuro, dores e cura
e constato que, de todos os homens
você é aquele que carrega mais verdade
para trilhar comigo a estrada
dos encontros sagrados
quando não cria em signos
era mais fácil confiar
na autoria do meu destino
mas hoje nada me remove a crença
de que no dia em que nasci
as estrelas escreveram desencontro
nas solas dos meus pés

quinta-feira, 11 de maio de 2017

barricadas inúteis contra o ritual do tempo

não me venha impor suas paixões insanas
tenho as minhas e elas, às vezes, metem medo
já não falo de estações, as palavras azedam na boca
onde foi que eu perdi
a esperança grávida de cada poema?
há algo de revolucionário no silêncio

terça-feira, 2 de maio de 2017

eu não deveria escrever mais poemas

as bibliotecas estão cheias de livros de poemas
as livrarias, os sebos, estão todos cheios
estão repletas as estantes das casas

mas há estes esquecimentos diários
o fogo aceso, a torneira ligada, os óculos
estar diante de você e não me lembrar meu nome
não me lembrar tampouco seu nome
nunca mais me lembrar do cheiro do café
que sua boca exala pela manhã
do olhar de meus filhos enquanto eu os amamentava
das amigas que que morreram sem autorização
de como me senti bela naquele dia dos namorados
com a camisa rosa e a calça preta do meu irmão

e há um poema, essa cunha na porta da memória