segunda-feira, 29 de agosto de 2016

terrível simetria

Atendendo a 152°chamada do Desafio Poético com Imagens da TaniaContreiras Arteterapeuta segue poema.


flores tem poucos predadores
mas isso não me impede de perguntar
o que inventou o cervo
é o mesmo criou o tigre?

Imagem: Even Liu

Balbucio

Para Flávio Paulinelli
 
 
Ele pouco diz
Só escuta
Para além
De um bater de mãos
Ou balbucio solitários
Nunca opina
Ou reclama

Mas ontem
Quando falava
Da minha incompetência
Para a vida em sociedade
E para o sucesso
Ele fez a primeira confidencia
"Eu também corro
Para chegar em casa"

domingo, 28 de agosto de 2016

geração perdida


em zaatari brincam com seus fuzis de plástico
em yarmouk comem a grama pisoteada
houvessem anjos lá
seriam inanes

sábado, 27 de agosto de 2016

meu amor me reivindica

meu amor me reivindica com seu corpo mesmo
geme e soluça enquanto dorme
miro seu dorso vulnerável 
nesta hora sou sua mãe

às vezes esgarço as palavras até a exaustão
afim de obter pequenas doses de paixão
daquelas doídas 
que esperam bilhetes 
na gaveta de calcinhas
e telefonemas eróticos no meio do dia

mas logo me recolho às minhas varandas
porque meu amor me reivindica

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

ser amada

ser amada
ter esquecido
a torneira aberta
por duas horas
ter inundado a pia
o banheiro
a casa
e ainda ser amada

ter usado aquele
ridículo meião
vermelho
e ainda ser amada

ter enlouquecido
por sete vezes
seguidas
e ainda ser amada

peneirando é só isso que a gente quer





terça-feira, 23 de agosto de 2016

Literatura no Boteco

O terceiro episódio do Literatura no Boteco é comigo, lá no Malleta meu lugar de amor em BH. Falo sobre o “Borda”, sobre a influência do mundo na obra do artista. Declamo alguns dos poemas do "Borda". Não perca.

fusão

mira-me de um ponto alto
fora do meu cenário íntimo
e veja minhas mãos
nas omoplatas
simulando o abraço
o beijo que me roubarás
no dia em que eu for para ti
completamente irresistível


o que não pode ver
te faria estremecer
sou capaz de imaginar
intercursos violentos
beijos enfurecidos
tudo tão quente, tão quente
quanto essas tardes atípicas
do outono de agosto

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

ícone desidratado

a noite não dá trégua aos insones
(subir as escadas deveria
ser o melhor do amor
não fosse a pressa)

permanecer ancora viva
a chorar amores que não terei
ignorar as tentações sem volta





pés cansados de equilibrar os saltos
sobre montanhas de perguntas
01100001 01101101 01101111 01110010 
é o código binário para a palavra amor

sábado, 20 de agosto de 2016

Melina Alexia Varnavoglou [tradução norma de souza lopes]

às vezes quisera ser um homem 
para poder dizer-lhes
sem temer que me confundam
que eles são em verdade maravilhososos
que adoro suas imposturas
e o espaço exato entre a munheca e os cotovelos
seus cabelos despenteados e as mãos sempre algo misteriosas
e essas caras que às vezes fazem uma mulher rir
que todo esse rodeio é desnecessário
é até pateticamente bonito
que imagino raios tensionando-lhes as costas
por esse nervosismo
que quando estão relaxados ninguém crê
que são realmente grandes, quando abraçam seus amigos
e falam dela ou de suas bebedeiras depois da festa
que em seu peito liso eu poderia pousar sem pausa
minha cabeça por toda a noite
até dar em alguma coisa
quando calculam, sonham, quando ejaculam, quando duvidam
quando não podem

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

retorno

a primavera está lá fora
juntando as folhas
enlouquecida
quer pintar
um milagre na parede da sala

e eu agora entendo
a primavera retorna
mesmo depois que eu partir

caiu uma gota de vida
na barra do vestido do poema

domingo, 14 de agosto de 2016

Das frestas e da intensidade de sua luz

Amor de pai é uma lacuna de jogo de montar onde não cabe enxerto, exige peça exata. Mas a gente resiste e enfeita as bordas. Tá cheio de gente assim por aí, umas frestas decoradas de dar gosto, de onde saí luz intensa o suficiente para dissipar nossas sombras.

Para João Paulo de Lorena
Primeiro eu queria ser invisível, agora tou tentando ser transparente. Qualquer dia sumo de vez

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

amenidades

diminui o açúcar, o café o alcool
três tipos de chá todo dia
(sem o sachê, para evitar o resíduo) 

exames de sangue mensais
caminhada toda tarde
sono de oito horas
afinal já és uma senhora

então na tv um idiota anunciasua guerra arbitrária
brotando sorrateira no planalto

"você perdeu"
"e se botar de novo
a gente tira"

ficamos um tempo sem dizer nada
voltamos às piadas
mudamos de assunto
conversando amenidades


Olhava as crianças brincando e pensava que nunca mais ia conseguir. Eu parecia ter perdido aquilo em algum canto escuro da infância. Perdi não.
Consegue ver meu coração pulando corda agora?
Escarnecer é diferente de brincar. E a culpa é o meu  termômetro. 

terça-feira, 9 de agosto de 2016

antiquíssimo

desde aquela hora
seu rosto suave não se dissolve
continuo olhando e esperando que digas 
as palavras que não pude dizer
desejos enrolam-se 
à volta de minhas pernas
ressuscitados do passado

na carteira
imagens amarrotadas em sépia
dispensam o olhar 
amores seguros
graves e gastos convocam
e o no meu peito febril explode entumecido
a mais estranha forma de amor
pelo que podia ter sido

sábado, 6 de agosto de 2016

O preconceito em mim é aquele lobo, arreganhando dentes pro diferente, protegendo território. Por isso eu converso com ele todo dia :"escuta meu caro, cabe todo mundo, tenha medo não". Isso de achar que não ser preconceituoso é dom não me convence. Dá trabalho recolher as unhas . É preciso convocar o amor dioturnamente para ele vir cerrar minha boca, esconder meus dentes.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

E nesses dias em que amanheço amando tanto a vida e as pessoas que chega a doer, morre um musico poeta que eu amo. Acho que não vou conseguir parar de chorar.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

a palavra desaparecida

disfarçada na ternura do rebanho
a boa nova se levanta no horizonte
ameaçadora como o martelo de thor

tento a todo custo viver o agora
mas estou sempre atrasada
ontem é sempre ontem

nestes dias as bruxas choram
as ruínas do mundo seguro 
que habitaram até então

o riso é uma arma afiada
mas a alegria não produz
nenhuma reflexão

gritarei com todo meu fôlego
a palavra que desapareceu
mastigada pela ausência de memória

pintarei de preto as paredes até que
talvez por solidariedade ao branco
os parvos acordem sua benevolência