sábado, 31 de agosto de 2013

Meu pensamento cria rima e cruza sintagma. Vive pastando no campo semântico.
Acho que meu pensamento queria ser um poema. 
 
N.S.L.
31/05/13
Há muito leio ao revés
não me interessa
como começa

Perscruto o fruto
ele brota
no fim

N.S.L
31/08/13

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Há tanta gente que eu queria conhecer de tato e sabê-las assim tão grandiosas quanto suas imagens...
Daí me lembro que nem eu decerto me conheço para além da imagem. 
Então sossego o facho.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

vontade sovada
ânimo bovino
sou eu me acomodando

à máquina do mundo

N.S.L
26/08/13

sábado, 24 de agosto de 2013

Breve

eu não precisaria contar
já sei gozar comigo
mas aprecio dar presentes

fui me abreviando
aprendendo a pintar
o mundo
com  cores
que eu mesma crio
descobri aquele lugar
na ponta da língua
onde o tato é mão dupla

escolhi lapidar a fidelidade
presente raro
e quando a cabeça arde
eu clamo aos amigos

e se hoje conto
é alegria derramada

N.S.L
24/08/13

Sacrifícios pacíficos

Em minh'alma plantei um altar
nele imolo desejos alheios
à potência de existir

N.S. L.
24/08/13

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

É tão fácil. Mas ninguém conta. Talvez por que não saibam. Não há objeto, aparência, momento ou vida ideal. Nenhum trabalho, nenhum dinheiro, nenhum bem vai realizar completamente seu desejo de existência.  
Há apenas o AGORA e o que somos AGORA. E a melhor coisa que se pode fazer é variar.  Criar a si e ao mundo a volta de si de maneira que a criação seja o principal exercício de sua POTÊNCIA. 
Um cuidado muito especial: evitar essas gentes que não suportam a diferença, que sacrificam tudo em prol da ordem e da disciplina para tornar a tudo e a todos iguais.
E você: qual é a diferença que está criando hoje?

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Ficar

Não se trata de espetáculo. Caminhei vagarosamente até esse sitio de liberdade. Este é o meu lugar e ninguém mais pode ocupá-lo.  Aqui eu escrevo e canto minhas próprias canções.  É o quente do beijo, do café. É o morno dos pés que sempre encontram sob os cobertores. E a conversa na cozinha no fim de tarde. É o prazer de amar a grande e grisalha mulher que vejo diante do espelho. Nem todos os amores. Nem todos os lugares. Livre para estar. Livre para ficar. Livre para amar. No meu lugar. 

N.S.L
21/08/13

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

choro por todas as mulheres do mundo

Ninguém é o ponto de encontro 
criativo da natureza
debaixo de cada bela imagem
a vida mostra sua vocação
ser um acaso triste

Canções e poesias 
amam para sempre
poetas só amam por meia hora
choro por todas as mulheres do mundo
marcadas com a triste sina 
ser apenas o desejo do homem

N.S.L. 
19/08/13

domingo, 18 de agosto de 2013

Amo ouvir Engenheiros. Mas suas canções me causam a estranha sensação de que o incapturável escorre por mim. Uma saudade do que não aconteceu misturada a uma alegria pelo que não está  acontecendo. Trata-se de um ardor que paira entre a memória e o agora, lá naquele lugar onde a vida é só lembrança inventada e possibilidade. 


quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Ele não consegue mais ficar na sala. Ele não quer mais ficar na sala. Quer a rua. Dia e noite ele quer a rua. Naquilo que ela tem de mais destrutivo. Não quer saber das narrativas ilustradas que eu tento mostrar. Não quer saber da poesia do A'kabal, dos meninos morenos do Ziraldo. Nem daquela poesia chorosa que eu fiz para meu pai ele quer saber. Vai embora. Já não cabe na escola. E vai levando consigo um pedaço de mim. 
Quantos meninos nós ainda vamos perder para essa vida ordinária que não protege criança, que não protege família, que não protege pobre? 
Na hora que você saiu hoje,  menino, deixou um buraco dentro de mim.
N.S.L.
13/08/13

domingo, 11 de agosto de 2013

Desvirtualização do trabalho com gêneros textuais

Então, eu tinha que trabalhar o gênero entrevista e estou nessa de desvirtualizar o trabalho. Foi quando a sincronicidade deu as caras. Ouvi na rua (lá onde se compra pão e leite, verduras, sabe?) um senhor contando sobre o filho que teve parte dos dedos feridos com linha chilena. No noticiário do horário de almoço assisti uma entrevista emocionada da mãe que perdeu o filho pedreiro por causa de um corte no pescoço com linha de cerol. Decidi, esse seria o tema da entrevista. Construí com as turmas uma pequena entrevista de cinco perguntas na qual constava o título "Os riscos do uso do cerol e da linha chilena no ato de soltar pipa", a apresentação da entrevista, na qual o aluno deveria preencher os dados do entrevistado,  e perguntas acerca dos acidentes e de propostas para resolver o problema. O entrevistado deveria ser alguém que fazia uso desses materiais.
No dia seguinte discutimos os resultados das entrevistas, Avaliamos a percepção dos entrevistados sobre o tema, e depois listarmos problemas ligados ao ato de soltar pipa, chegamos a seguinte lista:
1- eletrocussão;
2- quedas de muro e lajes;
3- acidentes com trombadas, cacos de vidros e outros objetos cortantes durantes as perseguições de pipas "tosadas". 
Contei a história da pipa e de uma das suas principais funções, se manter no ar. Desafiei os alunos a pensar sobre o desvirtuamento cultural que o ato de soltar pipa sofreu tendo em vista o imperativo de tosar o outro. Falei sobre cultura da competição, urbanização etc e ainda falei sobre a superlotação dos hospitais com esse tipo de acidente nessa época do ano.  
Ao final da discussão acabamos esbarrando na concepção dos próprios alunos de que não há meio de se manter no ar sem ser tosado, e não há nenhuma possibilidade de soltar pipa em área urbana.
A maioria não se mostrava muito disposta a esperar a disposição dos pais para levá-lo a ao parque ecológico por exemplo. Chegamos ao impasse e eu criei uma imagem na qual a brincadeira seria uma arma de fogo. 
A imagem provocou horror na maioria e eu fiz a seguinte pergunta:
_ Qual a diferença de uma morte provocada pela brincadeira com arma de fogo ou  com uma pipa? 
Ao final convoquei a todos para pensar em formas de diminuir os acidentes na comunidade no ano que vem inclusive conversando com pessoas e mudando o tipo de brincadeira.
Dos quase cento e cinquenta alunos envolvidos nessa atividade apenas um não concordou. E eu o admirei por sua honestidade:
_ Professora  você acha que a gente vai parar de soltar papagaio por causa disso? 
Contei a eles sobre o número de alunos envolvidos e fiz uma conta simples. Se apenas cem, do total de alunos se comprometessem, com certeza em 2014 os bairros Mantiqueira, Nova América, Landi. Pedra Branca, Maria Helena e Esplendor teriam os números de acidentes reduzidos. E eu realmente acredito que a maioria quer protagonizar isso. 
Na finalização do trabalho era preciso verificar se os alunos realmente aprenderam a identificar o gênero textual entrevista. Entreguei uma revista para cada um e dei como tarefa localizar uma entrevista, identificar o título, apresentação, entrevistador e entrevistado e o tema. Eles apresentaram dificuldade pois a maioria não está familiarizado com revistas (essas eram revistas Época) mas ao final da tarefa mais de 90% dos alunos concluíram a atividade na sala. 
E eu estou tão feliz com o resultado que estou aqui, nesse domingão de pais sentada no computador para contar isso. Eu recomendo a experiência. 

sábado, 10 de agosto de 2013

Li isso pela primeira vez antes dos vinte. Me tocou como toca hoje. Me faz pensar em como é covarde ser a professora na fronteira oco do mundo e quer ensinar a meninos pobres e neguinhos a serem "homens de bem", "homens da paz". 
 
 
         FRAGMENTO

Joílson nasceu pobre.

Quer fazer o favoir de ler de novo?

Joílson de Jesus nasceu pobre.

É possível isto? Alguém já nascer pobre? É! Isto quer dizer que Joílson nasceu marcado feito gado para o resto da vida: POBRE. Isto quer dizer que, apesar de não ter cometido nenhum crime anterior, Joílson nasceu condenado. Sem direito a sursis. Isto quer dizer que, em veza de leite, beberia água de esgoto; no lugar de escola, freqüentaria as academias da FEBEM. Em lugar de cobertor, dormiria coberto pelo estigma da cor. Joílson era negrinho.

Pobre e negrinho. Quer dizer que, quando o Natal chegasse, Joílson teria que fechar os olhos e ouvidos à orgia de anúncios de maravilhosos brinquedos, gostosos panetones, luxuosas roupas e fantásticos jogos eletrônicos. E as mulheres deliciosas, cheirosas e belas que também se anunciavam? Quer dizer que Joílson, no Natal, teria que virar também um eunuco.

Pobre, negrinho e eunuco.

Aos 15 anos, Joílson sabia que teria a mesma sina do seu bisavô, do seu avô, do seu pai, do seu neto e do seu bisneto: trabalharia dezoito horas por dia para nada. E resolveu a exemplo do que se via nos altos escalões, arrancar correntes de ouro do pescoço dos outros. Agora, deve ter pensado, terei videogames, apnetones, contas na Suíça. Abrirei uma financeira e, quem sabe, serei até um presidenciável. Joílson se esqueceu que seu crachá era de pobre, negrinho e eunuco.

Foi agarrado por um procurador do Estado e pisoteado pelo esquadrão de locutores de rádio até soltar pela boca um líquido verde. Não, não vomitou, porque nada tinha no estômago. O verde era da bílis. E, pela madrugada AM, ouviram-se os urros de triunfo dos Tarzans do rádio: - Ao ter sua espinha partida, o canalha, o safado, o pivete, o trombadinha, o bandido urinou nas calças!

Joílson morreu como nasceu: pobre. Mas seus filhos e netos e bisnetos escaparam de sua sina, simplesmente porque não vão nascer.

Mas o esquadrão da notícia, em texto plantado num jornal colarinho-branco, continua soltando sua bílis. Quer agora linchar a Igreja por terem seus bispos rezando por Joílson. E a Talita? E o bebê assassinado por um desses Joílsons? Parecem querer dizer: olho por olho.

1 x 1!

Ah! Então é jogo? Luta de classes?

Se é guerra, é guerra. Porque morrem mil crianças de subnutrição por dia no Brasil. E em 84 morrerão 3 milhões de Joílsons só no Nordeste. Assim procuradores do Estado e esquadrões do rádio e do papel anotem o placar correto:

3 milhões x 1!

E vão-se os pescoços, ficam os cordões de ouro.

- Henfil, "Diretas Já!", 1984

[FOTOGRAFIA: Ensaio "Pele Preta", de Maurren Bisilliat, 1966]

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Sobre a Midia Ninja e o Coletivo Fora do Eixo

Com toda essa boataria acerca da Mídia Ninja e do coletivo Fora do Eixo ser ou não se independente de financiamento público, de ter muitos CNPJs e das acusações de alguns artistas ressentidos (e não o somos às vezes?) eu prego o olho no produto. O produto midiático deles é infinitamente melhor que essa máfia das famílias televisivas. De resto acredito que quem samba do lado esquerdo acaba mostrando a que veio. Se não, muda de lado e de discurso como muitos por aí e se deixa engolir pela sociedade do espetáculo. Por enquanto para mim está bom.

sábado, 3 de agosto de 2013

Um professor pode ser substituído por uma máquina?


Lia a reportagem da Revista Época sobre a proposta de Sugata Mitra chamada Escola na Nuvem. Sempre fico impressionada com essa proposta pelo que ela traz de simples e inovadora.
Mitra é pesquisador e professor de Tecnologia Educacional da Newcastle University, na Inglaterra, e professor visitante do Massachusetts Institute of Technology. Sua principal pesquisa é intitulada "O buraco na parede... e além". O título se refere à experiência de colocar um computador preso dentro de uma parede, com acesso à internet, em um povoado pobre da Índia, sua terra natal.
Mas  quero falar aqui do papel do professor nessa "Escola na Nuvem". 
Mitra acredita (e tem experiências para provar isso) que a auto-educação pode e deve acontecer a partir de tecnologias como computadores e internet.O papel do professor do futuro seria o de apresentar questões que instigam a curiosidade das crianças, principalmente crianças com menos de 13 anos, mais abertas ao conhecimento e menos ligadas a questões como classes sociais. 
Para ele o professor deveria funcionar como um avô que está disponível mas não dá respostas explicitas, não fragmento o conhecimento para ficar mais fácil. Seria algo como entregar uma receita de bolo, dar instruções básicas, ver o bolo solar e estar presente na próxima feitura de bolo.


Para  Mitra, a mudança precisa vir de baixo para cima. "Basta procurar as empresas de tecnologia e investir na banda larga nas escolas, e tudo vai acontecer naturalmente." 
Gosto disso por que venho sendo tratada como máquina na escola, para instruir máquinas. Estou certa de que sou mais que isso. Estou certa também queA tecnologia pode fazer muita coisa para educação. O que eu quero é fazer o "algo a mais" que ela não é capaz. Talvez como uma avô que sabe ensinar a diferença de esforço e pesquisa entre um bolo solado um pão-de-ló.

http://revistaepoca.globo.com/Ciencia-e-tecnologia/noticia/2012/02/sugata-mitra-um-professor-pode-ser-substituido-por-uma-maquina.html

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Hoje a tarefa era contar na roda de conversa um resumo da história em que cada um está trabalhando para eu registrar. Com a frequência baixa, manhã e a tarde somaram umas sessenta. Teve muita aventura de herói brasileiro. menino pobre que vira grande jogador de futebol,  história de bruxa, história de menino que o pai não deixava lutar capoeira, soltar papagaio etc. Muita aventuras de cachorrinhos que se perdem, ou são atropelados. meninas  e meninos perdidos etc.
No entanto o que tornou essa atividade digna de registro aqui foram três histórias, em turmas diferentes, nas quais as narrativa evoluem de forma empolgante até que o narrador mata o protagonista abruptamente. Não sei se era por vontade de acabar ou se por desejo de matar mesmo. E quem sou eu para dizer alguma coisa? A favor de si eles citaram " Menina que vendia fósforos" do Hans Christians Andersen. Falar o quê?