terça-feira, 26 de abril de 2016

castas

era um tempo em que elas- as putas 
desciam à Vila dos Açudes
nunca investigavam a natureza politica dos sêmens
que lavavam de suas entranhas
com água morna e sumo de limão 

a miséria das carteiras dos vermelhos
ou a clamídia dos pênis dos azuis
eram recebidas com o mesmo êxtase lisonjeiro e fingido
indiferentes aos nossos insultos e afoitezas 

na sala de espera nos olhávamos e trocávamos 
impressões sobre as fartas carnes 
das quatro mulheres no quarto
não havia lugar para disputas ideológicas
nossos vícios mercenários ficavam do lado de fora

tornava-se um lugar de trégua aquela casa
no tempo em que aquelas castas mulheres 
as putas- desciam à Vila dos Açudes

NSL
26/04/16


domingo, 24 de abril de 2016

você entende Jonas?

_ você entende jonas?
um país não é um corpo
está mais para colonia de bactérias
nunca se é suficientemente inocente
a ponto de perder completamente a ignorância
estaria pronta para partir
não fosse esses filhos
e minha necessidade de amor
_ há amor no além túmulo, jonas?

a falta de paixão momentânea 
a mais abjeta preguiça
esta vertigem que me tira o chão
torna hipócrita a pergunta
por que fracassou o projeto de humanização?
nunca houve projeto
era mais um salve-se você mesmo

_ jonas, sou mulher
tenho um corpo e estou viva
mas não há meios de ser livre
bom era voltar a ser animal
sem paixão ou esperança
animais não estão
eles são corpo e vida
e não fazem perguntas
acerca de animalização

NSL
24/04/16

sábado, 23 de abril de 2016

nem todos os sábados são azuis

eu, sem amor, não quero acordar
já é tarde e me arrasto até a janela
incrível em sua luz sépia de outono
a cabeça uma cúpula de cristal
ou não, de gelo, melhor dizer
um pé descalço 
o joelho ralado
insistem na campainha 
testemunhas de jeová

cuspo esse mundo amargo 
e sóbrio que o sábado me dá
um quilômetro de grito
o corpo fracionado
me lembra que a liberdade 
é efêmera como uma gargalhada

NSL
23/04/16

quinta-feira, 14 de abril de 2016

incompetente

de tanta antipatia que tenho do medo acabei por lhe dizer que morrer não era assim tão fácil uma vez que já tentei três vezes e ainda estou aqui
ao que ele me respondeu rapidamente " você é muito incompetente" e rindo disse que também queria morrer mas tinha preguiça da vertigem e dos doze andares que é o que os médicos afirmam ser o tanto que precisamos subir para morrer antes de chegar ao chão
mas agora não, não é preciso pensar mais nisso pois devo amor a tanta gente, família, amigos. filhos que sofro só de pensar que pudessem chorar no meu funeral
e vou adiando com drogas lícitas o dia em que estarei passando a língua no umbral

NSL
14/04/16

terça-feira, 12 de abril de 2016

sem raiz

diferente de tanta
óstia sagrada
ofertada por palhaços
poesia é
uma peixeira
que corta
de púbis a pomo
não precisa
ser um tomo
de 500 páginas
poesia afiada
corta com uma palavra

promessas

é outono e março
dói nos olhos como areia
sozinha com as minhas obsessões
uso palavras fortes
apalpo para dentro minha carnes
já não há lugar em mim
corpo sem volta
grita suas dores, algoz
ao menos já não sangra
nenhum filho me guarda
em seus sonhos

eu, um animal sedento
de atenção e companhia
espero alguém com quem
fazer um pacto de sangue
coleciono pedras de cristal
estados de transe
agendas criptografada, ironias
álbuns de figurinhas
escombros da torre de babel
e catálogos de cata-ventos artesanais

meu habitat natural
apenas pontos
de esquecimento e fuga
cá dentro, muito fundo
uma redoma de imagens
tão bela nas velhas fotografias
sempre, sempre promessa
que antes de cumprir acabou-se
ainda cesso essa inveja de mim
do tempo em que tampouco
soube me amar





quinta-feira, 7 de abril de 2016

quantas recusas vale uma vida?


tinha feito tudo por aquele romance
tantas horas, esforços, renuncias
para escrever a história do japonês
apaixonado por uma stripper
e doze recusas, você sabe o que é isso
doze recusas de editores?
cheirava a vodca e valium
eu tentando evitar
que ela se atirasse
nos trilhos do metrô
acabei por dizer que não valia
que era só uma merda de um livro
e não valia morrer por ele
ao que ela me respondeu
que ele não era
tão merda quanto a vida

NSL
07/04/16

quarta-feira, 6 de abril de 2016

partida

e lá no meio do poema
escondido entre os versos
um bilhete dela
" norma, essa é a parte
em que os dragões deixam o mundo"
fui obrigada a me levantar
quem cuidaria da beleza dos céus?
quem incendiaria os campos de algodão?

NSL
06/04/16

terça-feira, 5 de abril de 2016

as medíocres tarefas do menos sentir

um calendário do ano passado
mostrando o dia errado
eu poderia chorar sobre ele

tinha tanta pena
de leõzinhos famintos
que era capaz de
me atirar à savana
para dar-lhes de comer

quando o amor era irreparável
usava-o quebrado mesmo

não coma o coração me disseram
o que equivale dizer
que eu deveria sentir menos
envelhecer e sentir menos


NSL
05/04/16



sábado, 2 de abril de 2016

jardim

viver é estar nesse jardim
onde um poema alado
ressuscitou um pássaro
assoprando em seu bico 
a palavra sonho

depois que o pássaro 
ressuscitou e partiu
o poema nunca mais voou
aduba sombras sazonais
à espera dias de sol
quando as rosas acordam
e riem de seus fracassos

NSL
02/04/16




o que tenho de meu

você pode até ser o dono
da chave do universo
napoleão, cleópatra
marco polo ou jeová
mas as mais saborosas
manifestações de loucura
são a gargalhada
e o vício


NSL
02/04/16

sexta-feira, 1 de abril de 2016

1° de abril

reconheço na insônia
um modo de negar a morte
corte às avessas
que começa no osso
até chegar à pele

meu modo
de desvelar a mentira
por trás de todas as coisas

entretanto não há ódio
em minha ciência
veja como ouço sem vômitos
as atrocidades que dizem
os portadores da trapaça
alegórica chamada verdade

NSL
01/04/16