domingo, 28 de setembro de 2014

soslaio da noite

a revelia do ódio 
roubou-se a chave do sono e dos sonhos
e consumou-se um beijo bandido

afrouxou-se o diafragma
a respiração tornou-se leve e ritmada 
para acolher a carícia

escrevo para repetir ad eternum
sua sensualidade

NSL
28/09/14

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

não fosse a distancia
e um antigo conselho terapêutico
"evite os brutos"
eu seria livre para te amar

NSL
26/09/14


quarta-feira, 24 de setembro de 2014

tudo para

era só uma pergunta
sobre a validade da geladeira
e falei 1 hora inteira
sobre obsolescência programada
e isso é quase sempre assim 

mas quando você
explora meus lábios
busca a língua
corre a ponta dos dedos
sobre toda dobra de pele
circula o médio e o polegar 
sobre protuberâncias
umbigo
clitóris
seios
pelos

e lança o sussurro fatal
um chamado gutural
desejo de invasão
cala meu pensamento
sufoca a razão

daí sou só corpo que vibra
dos cabelos 
aos artelhos
e em qualquer pedaço da pele
posso gozar

NSL
24/09/14



terça-feira, 23 de setembro de 2014

carrego minhas sombras cuidadosamente
a fim de evitar sua expansão 
sobre sombras alheias
há muitos ombros frágeis por aí

NSL
23/09/14

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

há  roupas espalhadas pelo  chão
e na letra da canção
a palavra compartilhar

amar o outro é suportar a desordem

NSL
22/09/14

sábado, 20 de setembro de 2014

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

redundância

são meninos
e meninas
e se amam

e mais 
não preciso
escrever

nesses amores
a poesia
já está escrita

NSL
17/09/14

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Quem captura seu corpo?

Combater o tirano é estar cúmplice de seu poder de captura. Servir ao tirano é estar cúmplice de seu poder de captura. Fortalecer e se apropriar da força essencial do próprio corpo é exercer a potência criativa máxima do ser a partir do acontecimento. E exercer a capacidade de variação. Poder é o extremo oposto de potência.

Norma de Souza Lopes
amo gente
mas é diferente
o amor à gente
que toco
com o olho
que eu ouço
em carne
e osso

NSL
09/09/14

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Jim, o peixe beijoqueiro

Você ia gostar de conhecer o Jim. Jim era um peixe. Dizer assim peixe, sem mais seria pouco.
Jim era um peixe diferente. Não diferente tipo o Patinho Feio ou o Nemo. 
Ele era diferente porque gostava de beijar. E de ser beijado.
Beijava todo mundo: criança, adulto, bicho, planta. Todo mundo mesmo.
Mas também era bravo.
Você pode estar se perguntando:
_ Será que todo mundo gostava disso?
Eu já lhe respondo. Tinha gente que gostasse, mas a maioria não gostava.
Tinha quem não gostava de beijo.
Tinha quem não gostava do Jim.
E tinha quem, não gostando de beijo, mas querendo saber beijar, detestasse o Jim.
Jim seguia beijando assim mesmo.
Ás vezes brigava com quem o detestava.
Apanhava feio às vezes.
Um dia conheceu uma baleia Jubarte, dessas bem perguntadoras. 
Ela perguntava o tempo todo.
_ Por que beijo?
_ Por que todo mundo?
_ Por que brigar?
O Jim não sabia responder mas ficava com as perguntas ondeando na cabeça. (No mar as perguntas não martelam na cabeça, ondeiam, você sabia?)
Ele nadou com essa baleia por um bom tempo. Tempo suficiente para algumas respostas começarem a marear em sua cabeça. (No mar as respostas não pipocam, mareiam, você sabia?)
A primeira resposta veio no dia em que ele foi beijar uma ostra e ela se aproveitou dele para ser carregada pelos sete mares durante uma semana. 
A resposta: não dá para sair por aí beijando quem exige recompensa.
A segunda resposta quando ele beijou um cardume inteiro de sardinha e elas o ignoraram em pleno Festival das Marés.
A resposta: não dá para sair por aí beijando quem não está pronto para ser amigo.
A terceira resposta veio no dia em que ele tentou beijar um Baiacu-de-Estouro que tinha fama de invejoso e brigão. Essa você pode imaginar. Deu briga.
A resposta; tente não beijar invejosos e brigões. Mas, se brigar, tente conversar sobre isso depois, tente resolver. Não se esqueça nunca de se perdoar. Algumas brigas são impossíveis de evitar.
As outras respostas foram surgindo aos poucos. Todo dia Jim descobria uma coisa nova sobre beijar e ser beijado.
Hoje ele beija menos. Ganha menos beijos. Briga menos também.
Mas você acredita que ele não se sente triste por isso?
Quando bate o aperto da falta de beijo ele salta sobre o espelho d'água e lasca um beijo em si mesmo.
Funciona que é uma beleza.

NSL
08/09/14
do alto
miro o abismo
acolho  miragem

no fundo
sou artificie
de degraus

NSL
08/09/14

domingo, 7 de setembro de 2014

"Num mundo reativo, intensidades não são toleradas. "

Norma de Souza Nietzsche

07/09/14
Toda contradição me confunde. A minha principalmente.

NSL
07/09/14
Arte e encontro são palavras que juntas, se dispõem a parir o vínculo, palavra que mais amo na vida. 
NSL

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Eu não sei escrever Nietzsche

Eu não sei escrever Niezsche
Eu não sei escrever Nietsche
Eu não sei escrever Nietzche
Eu não sei escrever Nietzshe
Eu não sei escrever Nitzsche
Eu não sei escrever Nietzsche
Quem se importa
Eu nem sei se sei ler Nietzsche

NSL
05/09/14

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Tem dia que torço pelo bandido
Mas temo que ele mate meu filho
Tem dia que eu sou tão contraditória
Quem ataca melhor o fornecedor do mau
as criança de HK
ou os menino do sarau?


NSL
04/0914

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Leveza das pedras

Tanta solidariedade com a dor alheia
E sou sempre posta fora de combate
Porém agora inventei de tornar-me uma mulher de pedra
Não ao modo dos homens
Homens se relacionam de maneira estranha com as pedras
Muddy Waters queria pedras que rolassem e não criassem limo
Na mágoa de Lupicínio, quis que a amada rolasse 
Como as pedras que rolam na estrada
Sem ter nunca um cantinho de seu
O que não era diferente de da ira de Dylan
Queria que a musa sofresse como uma pedra rolando
A pedra de Cabral era a da escrita, objetiva e anti-lirica
(vamos combinar, poesia sem música? Ah, não Cabral!)
E a pedra de Drummond até hoje no meio do caminho
Mas eu não! Estou me tornando pedra ao modo das mulheres
Há dores paralisantes para as quais não há remédio
Diante delas assumirei a leveza silenciosa das pedras
Nem muito nem pouco tempo
O suficiente para estar forte
E nunca, nunca perder a ternura

NSL

03/09/14



Para Gláucia Carneiro, que me atravessou há pouco

 A coisa mais honesta sobre a dor. Ela nos constitui porque constitui o mundo. Gosto de uma explicação que recebi certa vez. O tragos era o bode que ia à sacrifício, ao sabor de cantos e danças, para emular questões humanas. Grande sabedoria Grega. Daí as tragédias que saltaram da literatura para a vida dos homens.
Dizendo de outra maneira a melhor coisa a fazer é, respeitado o luto,  dançar e cantar diante de nossas tragédias cotidianas. Elas são nossa catarse para nos tornar mais potentes.  Se dançar ainda for difícil em decorrência do luto extremo, ajuda tirar a dor dentro e conversar com ela, como velhos amigos.
Executando movimentos pendulares entre a dor e o prazer, movidos pelo desejo, é assim que vamos nos constituíndo.
E lembre-se: é bom que cada um de nós, indiscriminadamente, tenhamos todos nossos dias de pedra e  dias de ilha. Quando assim for, por um tempo, pouco espaço haverá para o humano, seremos sobre-humanos, sub-humanos, mas estaremos fora do humano.
Fora do humano, pedra feita, experimentaremos a ausência da dor e do prazer. Um segundo basta para nos fazer retornar e continuar, muito mais humanos.
Obrigada pela visita
NSL
03/09/14

Dancemos

Descobri minha potencia na quinta série. Dançava ao som de "Menina Veneno" do Ritchie no pátio da escola durante o recreio. Rolava uma treta de autógrafo, uma fila de admiradores armada pela oitava série. Eu me sentia o próprio Sol. Dancei até a sétima serie quando,  a partir de um insight devastador, percebi que aquela fila, que ocasionalmente me abordava,  significava a forma mais cruel de humilhação- a pseudoindulgência com alguém que é considerado tolo. Desde estão enterrei minha potência enquanto dança,  continuar com aquilo me parecia patético. Fui fazer outras coisas. Ser professora, poeta, escritora. E como toda pessoa que enterra por fraqueza sua vontade, tornei-me um ser esquizofrênico que transita entre a gueixa gauche e um tsunami. Hora agrado, hora soterro quem está a minha volta. Trata-se de uma existência muito triste. Gueixa porque coloco tudo que em mim é arte a serviço do outro. Tsunami por que, as pequenas rachaduras que se formam no mar do meu inconsciente, no contato com o outro abusivo, somado a uma paciência elástica, quando tensionada ao máximo, explode e fere todo mundo. 
Gostaria muito de trazer comigo apenas a delicadeza das gueixas. Invejo a capacidade das gueixas de dançar, cantar, agradar e silenciar. Mas a equação não fecha porque dentro de mim mora um monstro doido para explodir. Este monstro deseja executar um balé alucinante, misto de dança, som e voz, para elevar a máxima potencia minha capacidade de fruir e também de impressionar a todos. 
Com o tempo a ausência de fruição, o tamponamento executado pelo outro (quem quer um monstro deste como colega de trabalho? Quem suporta esta esquizofrenia?) foi me tornando um ser ressentido com a vida. Fui ficando  cada vez mais reclamona, reativa e até aquilo que ainda podia ser alguma arte (dar boas aulas, escrever com qualidade) foi ficando esmaecido. 
Tenho dançado de madrugada, passos de Chapeleiro Maluco, mas sei que perdi o bonde do Bolshoi, do Municipal, do Grupo Corpo. E eu não queria ser menos que isso.
Porém preciso achar uma válvula para o ressentimento. Algo difícil de fazer. Leio dia e noite, escrevo dia e noite, medito sobre isso dia e noite mas o ressentimento permanece como um espinho na carne. E eu não escrevo isso à toa não. Aqui todo mundo parece estar exercendo sua máxima potência. Isso me confunde.  Não fosse prosa talvez este fosse meu "Poema em linha reta", uma maneira de dizer que estou consternada por ter ficado de fora daqueles dois por cento que exerce sua potência máxima (esta cifra é do Clóvis de Barros, não concorda reclama com ele.)
Também é uma forma de te contar que, se você se sente no máximo, vibre mesmo, pois é algo muito difícil de alcançar. 

NSL
03/09/14
03:43

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Minha poesia é bosta

Fodam-se aqueles que acham que o poeta é artificie, artesão
que a poesia deve ser vendida em eventos e lançamentos
minha poesia é excremento, sai mais de dentro que das mãos
minha poesia é bosta, ,é cuspe é gozo
pode até haver um orgasmo melhor que o outro
pode até haver quem pague
mas minha poesia é corpo
a poesia é a minha potência
sai de debaixo da pele
de debaixo do músculo
de debaixo das artérias
de dentro dos ossos
se quiser pagar meus pedaços 
que pague
mas mesmo que enriqueça 
a porra do dono do espetáculo
não poderia parar de postar
como não poderia deixar de cagar

NSL

01/09/14