segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Como você se protege de um estupro? Susan Hawthorne - Tradução de Norma de Souza Lopes

Ela lhe pergunta,
                Como você se protege de um estupro?
Ele faz silencio por um longo tempo
Diz,
                Evito ir para prisão.

Ela lhe pergunta de novo,
                Quer saber o que faço e o que evito fazer?
Ele faz silêncio de novo.
Então acena com a cabeça.

Ela diz,
                Não falo com estranhos.
                Não saio só à noite.
                Ou se faço isso tenho minhas chaves preparadas.
                Uso meus sapatos de corrida.
                Aparento saber onde vou mesmo quando não sei.

                Se saio à noite, escuto.
                Escuto os passos atrás de mim.
                Julgo seu peso, marcha.
                Considero se os passos são de mulher ou de homem.
                Tento não correr.
                Tento parecer casual.
                Ou dou a volta e olho ele nos olhos.
                O conselho é contraditório.
                Recebo aula e defesa pessoal.
                Me torno faixa preta.
                E ainda assim não me sinto segura.
             
Se eu ficar em casa, fecho todas as portas.
                 Fecho as janelas também.
                 Eu tenho um olho mágico na porta da frente do meu apartamento.
                 Quando eu saio com amigos, não bebo demais.
                 Eu não volto a um copo meio vazio / meio cheio.
                 Eu não aceito carona para casa.
                 Pego um táxi em vez disso.
                 Eu tenho luz de sensor fora da minha casa.
                 Meu cachorro está do outro lado da porta.
                 Não aceito que ninguém tire fotografia minha.

                Tem obtido sucesso?
                Não.
                Uma vez, bebi demais.
                Uma vez, aceite carona.
                Uma vez, falei com um estranho.

                E, entre minhas amigas,
                uma está casada com um estuprador.
                Uma se deu conta que seu companheiro estuprava suas filhas.
                Uma foi tocada por completo pelo vizinho quando tinha cinco anos.
                Uma foi perseguida na rua.
                Uma encontrou pornografia no computador de seu namorado.

Perguntei a elas o que faziam para se proteger de um estupro.

Uma disse:
                Não falo com estranhos.
                Não saio só à noite.
                Coloquei discagem rápida no meu celular.
                Uso meus sapatos de corrida.
                Aparento saber onde vou mesmo quando não sei.

Uma disse:
                Quando saio à noite, tenho cuidado.
                Vou por lugares bem iluminados.
                Se escuto passos atrás de mim,
                tento não correr.
                Tento parecer casual.
                Tiro o celular.
                Chamo meu amigo.

Uma disse:
                Tive aulas de defesa pessoal.
                Agora dou aulas de defesa pessoal para mulheres.
                E ainda não me sinto segura.

Uma disse:
                Tenho um cão grande, com um latido forte.
                Tenho três fechaduras na minha porta.

Uma disse:
                Não participo das redes sociais.
                Não quero que ninguém saiba muito sobre mim.

                Tiveram sucesso?
                Não.
                Nenhuma delas.



Daqui ó http://emmagunst.blogspot.com.br/2018/01/susan-hawthorne-como-protegerse-de-una.html
I
religar é muito mais 
do que você já sabe
me diz

II
a minha
a sua humanidade
Jesus compreendeu

III
o ouvido em seu peito
seria o suficiente para entender

IV
invento um novo ruído
com o que me deu

[norma de souza lopes]


sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

não foi a honra

não pense que 
o que me trouxe aqui foi a honra
honra é a palavra que mariane leu
junto com a palavra morte
nos fragmentos de carta 
que herodes (não o antipas)
o grande, escreveu a josé, seu irmão
logo que partiu para atender ao chamado
de marco antonio (sim, o romano)

tendo colado a carta,  mosaico de terror
ela pode ler
mate mariane caso eu não
retorne com vida
posse travestida de amor

não, não foi a honra que me trouxe aqui
o que me arrastou foi a fome de vida
e um pouco de medo, o segredo
de dois gumes
paralisa ou move
você é quem escolhe

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

menos quando chove

uma mulher debruça-se sob
o poema incompleto
bons poetas e escritores
mantem um diário atualizado
eu não, pensa ela

é apenas uma garota ordinária
que  mais uma vez habita
uma casa sem horizontes
será que as pessoas  me ouvem
nos outros apartamentos?
isso seria constrangedor

gatos tem uma rotina
brincadeiras, comida e sono
trinta anos esperando e eles são
do tamanho da sua espera
as vizinhas conversam
como se houvesse calçadas
é quente às vezes
menos quando chove

pendura os primeiros quadros
se impressiona com
o prazer da solidão
longe daquelas ferramentas 
estranhas que os outros
por vezes homens
usam para a observar e trabalhar 
a alma das mulheres
fitas métricas, alfinetes

pensa: sou poeta, não uma borboleta!
e cuida de alisar as asas
sabe que são elas, tão belas
que os alfaiates de alma
esperam capturar
para compor seus 
jardins de vidro

uma mulher escreve
o trigésimo quinto
verso e faz promessas 
que não irá cumprir
o amor é um puto
talvez seja a coisa mais
verdadeira que já escreveu

sábado, 13 de janeiro de 2018

balada do amor enquanto encontro

o pedido veio errado
coado, não expresso
(o queijo era muito)
sabia que santa marta
não apreciava o carpe diem?

olhos densos, me disse
acordado desde a madrugada
da  manchester fluminense
e segurava forte a minha mão
o universo disposto
a atender minhas preces
de que nada desse errado 
na cidade maravilhosa

da estação cantagalo
até a cinelândia
o metrô fazia cerca de 
80 quilômetros por hora
parecia mais rápido que o de BH
melhor escolher o vagão comum
quem escolheria livremente
a solidão de um vagão feminino?

não conseguia acertar o passo
e acho que isso diz 
um pouco sobre mim
denso pode significar
1. grosso
2. que tem muita massa
3. escuro, carregado, pesado
4. que é profundo, complexo


acho tão bonito o sorriso
quando há um arco nos dentes
tão bonito como o telhado
do theatro municipal
aquelas arcadas são de ouro?
ainda estão lá
então acho que não

em 27 de agosto de 2011 
ocorreu um acidente
quando o bonde de santa tereza
descarrilou e se chocou
fortemente com um poste
matando 6 pessoas 
(incluindo o condutor)
e deixando mais de 50 
passageiros feridos
neste mesmo ano 
morreu um francês 
que caiu depois de 
prender a perna nos trilhos
pra que tanta perna meu deus?

num brechó perto da estação 
de bondinhos santa tereza encontrei 
um camafeu raríssimo de bronze
as jovens mulheres 
do período helenístico
usavam camafeus com a figura 
do deus eros como um convite 
sedutor ao amor
acho que na grécia antiga
não existia amor romântico
o amor romântico
como é inventado por hollywood
é o inimigo das mulheres         disse 
pensando que talvez 
o que eu escreva
não sejam poesias de amor
mas sim de encontro

no parque das ruínas, de cima
fica fácil entender porque 
a dizem cidade maravilhosa
preciso voltar umas dez vezes
até conseguir visitar tudo
vibrava ali onde fica o coração
onde os hindus chamam anahata
o chacra responsável 
pelos sentimentos de amor puro
assim como sentimentos 
de gratidão e generosidade
acho que é isso que quero dizer
quando digo encontro

a cruz é uma figura geométrica
formada por duas linhas ou barras 
que se cruzam em um angulo de 90°
dividindo uma das linhas
ou ambas, ao meio
as linhas normalmente 
se apresentam na horizontal e na vertical
é um dos símbolos humanos mais antigos
usada por diversas religiões
e pode significar sacrifício 
sofrimento dor, ou angustia
mas para mim
a cruz repete insistentemente
uma pergunta
será mesmo que os homens
não podem gozar de seus mamilos?
tive de voltar 
mas sinto que há
uma cidade atravessada
dentro de mim

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

saudade - Ana Gual - Tradução Norma de Souza Lopes

O vento não faz ruido
porém tu ouves
quando toca as coisas.


Assim, o poema.

daqui ó http://emmagunst.blogspot.com.br/2018/01/anna-gual-2-poemas-2-1.html

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

todo dia ponho-me de pé

agradeço aos céus pela
face rosa da tarde
pelos frêmitos dos trilhos do metrô
e por essa chuva
que se deixa fotografar

mas daqui sou capaz de ouvir
o som das ruas
seus sustos empalidecem
meu amor pela praça da estação

tenho quarenta e seis anos
e ainda não acredito
em liberdade, só nesta
cadeira que me poupa
a queda e o chão

pouco a pouco apago os ecos
de minhas idealizações
renuncio ao vício de amar

sutil, por trás da minha risada
esconde-se a véspera da dor
e por pouco não me paralisa

não reparem no abismos
debaixo das cicatrizes
em meus joelhos

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

outra vez

o sete é isso quer dizer:
- lavar as mãos para entrar nessas tardes indiferentes e limpas.
- não como a cor dos seus olhos
mas a exata cor dos seus olhos;
- olhar e não me ver;
- querer e não pedir;
- ouvir e não responder;
- susto e vento glacial;
- fugir como o diabo da cruz;

no amor e na vida
ser a prancha  e o afogado
saber que a cera vai derreter
e ainda assim voar
Ainda estou bem assustada com o assalto ao celular outro dia mas acho que  já consigo falar sobre. Não sei se todos sabem mas eu sou apaixonada pelo corredor cultural da Praça da estação e Viadutos Santa Tereza. No dia eu estava passando sobre  o viaduto três horas da tarde e, deslumbrada com a caminhada, decidi fazer um vídeo contando minha alegria (não precisa me chamar de trouxa, eu mesma já fiz isso umas cinquenta vezes).
Dois garotos em situação de rua me abordaram para tomar o celular. No susto travei o celular na mão e era meio patético, eles não pareciam estar muito seguros e arma que portavam simulava um aparelho de descarga elétrica que não dava choque de verdade. Em embate corporal com um deles acabei caindo no chão, sem soltar o celular. Ele estava bem assustado com o buzinaço e com minha reação. Meus óculos escuros (que eu amava) cairam e ele gritou ao outro que o ajudasse. Conseguiram arrancar o aparelho das minhas mãos. Eu vi o óculos e os vi descer correndo as escadas. Tinha que escolher: pegar os óculos ou persegui-los. Fiz a pior escolha. Eu corri atrás deles até o Edifício Central, onde os perdi. Fiquei sem o celular e sem os óculos.
Esse episódio me fez descobri algo perigoso sobre mim: a reação ao assalto.
E nesses tempos novos que estou vivendo tenho a impressão que não é a única coisa que vou nova que vou descobrir sobre mim.

sábado, 23 de dezembro de 2017

dose de desilusão

um lugar é este sapato que calço
ladrilho em que não se pisa duas vezes
lembrança, expectativa
espaço entre o agora e a morte
é esta lança de solidão
atravessada no baixo ventre

um lugar é este travesseiro 
que desejo eternamente vazio
no canto esquerdo do peito