segunda-feira, 18 de setembro de 2017

sábado, 16 de setembro de 2017

versos sobre acontecimentos

na periferia
também foge-se
da indigência da vida social

num churrasco na laje
há há tanta leveza e vínculo
quanto um cheeseburger
na esquina da julieta

algo me consome por dentro
e não é a dor

se eu lhes puser a língua
deixaria o gueto
da poesia contemporânea?

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

ombros

tudo porque quis
procurar no poema
o que escapa
ser medeia de amor
e rancor
(o ódio não é o contrário
companheiros talvez)

cada qual a seu modo 
esconde crenças e medos 
malogros impronunciáveis
imersos na mesma água
da agonia contemporânea
(a ironia é o novo 
mal do século)

destilei entre os dedos
a carcaça de um dia
um dia inteiro, inútil
dói horrores
fosse o brotar de uma asa
eu nem chorava

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

XXXIV Ana Maria Oviedo Palomares Tradução de Norma de Souza Lopes

E quando enfim compreender que o amor bonito o tinhas comigo

Não servirá de nada  
e não vou me importar
que te arranques a alma pensando em nossas noites,
que o despeito te feche as portas do mundo
cada vez que te beijem outros lábios,
que de tanto ansiar seu coração se torne uma pedra vermelha,
fera enjaulada,
como eu rogo agora.

Quando enfim compreender
terei conjurado seu nome,

e se não passar nunca,
pior para ti,

que tiveste a maravilha do fogo entre as mãos
e não te queimaste.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

só mais uma vez

tagarelam sobre o que é ser
mulher as desvantagens do
feminismo como quem descreve
a experiência de fumar
sem arder no peito e nos
olhos a fumaça
ou como um letreiro em neon
um sol e uma palmeira na fachada
de um bar, numa noite escura

silêncio homem
ser mulher, sentir 
este lugar não é algo que se
faça sem ter sido
cortado pelo peso
atávico do patriarcado

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Eu transo com a erudição mas é cada beijo de língua na cultura popular e de massa que benza Deus.

domingo, 3 de setembro de 2017

daquele algo que saltou

faltava uma semana para me formar na quarta-série, num tempo em que se comemorava até a formatura do jardim de infância. eu girava nos pilares da varanda e jurava nunca me envergonhar do que eu era aos onze anos (deus, me pergunto todo dia, como pude adivinhar tão cedo? como pude?)

na casa ao lado um pai, uma mãe e um cachorro cuidavam de conduzir o protocolo da família feliz e dos três filhos bem sucedidos (certa vez ela me disse - você pensa que não mas todo mundo é castrado, a todos faltam algo - então porque a minha falta parecia cortar mais?)

vergonha e raiva, vergonha e raiva, cada uma segurando uma mão, me empurrando numa bicicleta com rodinhas - até acionar a máquina por dentro - que coisa maravilhosa esse carnaval do desejo - desatar o nó na garganta que a obrigação de ser completa, bonita, sábia e santa plantou em mim.



sexta-feira, 1 de setembro de 2017

mastigando as migalhas dos dias

por que ama as coisas desse mundo
ela lava e passa uma infinidades de
calças e camisas e vestidos e 
sacode obsessiva o pó da casa


espera pelo sussurro que, como 
nos primeiros tempos, irá a seduzir 
e possuir e desesperada perde a voz 
e chora equívoca diante do bibelô 
quebrado

a voz retorna em forma de um grito 
desesperado na madrugada um 
bramido de gjallarhorn e ela 
o silencia pintando e repintando 
as paredes de branco vivo em 
solidariedade a assepsia que  
a família tanto ama

ele ergue os pés ante o aspirador
escreve poemas e espera que 
amanhã ela esteja menos atarefada
menos cansada para o servir

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

paixão arbitrária


trançam meus cabelos, me pintam
retiram meus anéis para brincar com
eles por cinquenta minutos e tentam
fugir da ordem das filas
intermináveis

almoço repetição mochilas escovação

se batem, se ajudam, se tocam como irmãos
e irmãs e isso é de uma beleza indizível 

já sei a resposta para a pergunta que fazia
quando enlouqueci pela primeira vez
quando me perguntava como suportavam
o trabalho os caixas de supermercado

uma porção de raiva pra nos trazer alegria

trago um poema
entalado na garganta
um poema que luta
pra ser paz
e revolução
um poema que grita
deixem em paz
o corpo das mulheres

ele olha para fora
e não quer sair
o poema entalado
na garganta quer dizer
já acabou
mas te amo
como Drão

um poema
entalado na garganta
não é uma boa companhia
para se levar a passear
por aí