sábado, 19 de agosto de 2017

agosto

de mãos dadas com o poder, o amor 
é a véspera da melancolia
talvez seja este, agosto
o seu papel, ser 
pastor de distanciamentos
artesão do vazio
para o que virá a ser

(mas está tão feio o terreiro
depois dessa poda
do cosme amarelo)

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Tem nove anos. Chegou com uma meia dúzia de pedras na sala e distribuiu entre as colegas:
_ Um presente para você, você e você... Sorri feliz com seu feito.
Uma colega pega o presente, observa e lança pela janela.
Ela chora de soluçar:
_ Jogou... fora... o meu... presente...
A professora indaga:
_ Porque você jogou fora?
_ Professora, ela colocou um chicletes mastigado e duro aqui na minha mesa.
_ Era uma pedra... Um presente..
_ Porque fez isso, não se joga fora um presente. Não precisa chorar, vá lá lavar seu rosto.
E observa a menina procurar o chicletes caído do lado de fora da janela...

(e eu pensando em quanto isso se parece com fazer poesia)

Vim para perder - Dianan Moncada - Tradução Norma de Souza Lopes

Volto sobre a mesma fenda como uma máquina deteriorada.
Volto sobre o mesmo erro,
sobre a mesma caça de brancos espelhos.

Volto, mesmo sabendo que a palavra me é sensualmente inútil,
mesmo sabendo que não darei nunca com nenhum maldito prego
sabendo que nada poderei dizer
sobre os lobos afogados na carniça do meu tédio.

Vim com o poema
-cegamente-
para perder.


daqui ó http://www.lamajadesnuda.com/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=1167:diana-moncada&catid=60:poetas-de-caracas&Itemid=168

domingo, 13 de agosto de 2017

do auto amor e seus sinais

há esses que nos levam
selva adentro
e há as migalhas que
deixamos ao largo
por precaução

crônica de um evento noturno

cinco minutos depois que saímos
eles entraram, roubaram e atiraram
é estranho pensar que
enquanto eu, meio alta
fotografava nós dois
pelas ruas do bairro
alguém quase foi morto
crueldade e principalmente
raiva de quem não
aceita a impotência
péssimo encontro
e a gente brincando
de novo de se amar
cabe tudo isso no mundo
não que eu não tenha raiva
é que converso com ela
entendo até aquela raiva das
manas nos saraus
ela vem desde a mil avó
escutar em silêncio
é o caminho
acolher até dissipar
a tristeza de agosto
não foi bela
uma radiografia
mostra-a tão feia
quanto o corpo
depois do amor
e das orações
vaidade demais, eles dizem
toda essa exposição
mas a luz às vezes
sai dos seus olhos
de quem vê
como na olympia de manet
eu sei, sou escrava
e cúmplice de minhas paixões
mas no meu desejo
me reinvento
não sou signo
sou acontecimento
é estranho pensar
que nós saímos
cinco minutos antes

terça-feira, 8 de agosto de 2017

ternuras inventadas

não entendi nada
daquele sonho
dos armários abertos
no consultório

"me desculpe outra vez"
você disse
e dormiu satisfeito
a noite inteira
com sua justiça
ok,  tenho todo amor que preciso
sem fazer meu mundo ruir

quero desistir
mas ajudava
se você fizesse
aquelas coisas idiotas
que todos fazem
no primeiro encontro

derreter satélites
é a metáfora mais bonita
para uma fantasia

desolação

não parece certo
tanta força
é tão pouca sorte
isso não é um poema
é uma oração

domingo, 6 de agosto de 2017

8029 dias

recusa brincar com abismos
ignora o por-do-sol 
insiste em minhas ruínas
se encanta com a teimosia de um
dos bicos de meus seios
tão simples como a água 
e a sede, seu lugar 
é dentro de mim


alegoria

demora semanas, meses até
quis um acontecimento
para eu colocar nesse poema
que funcionasse como
um enigma
da alegria do encontro
mas não me lembro
de nada singular
só da gente brigar
o tempo todo e daquele
grafitti que provavelmente
você nem vê
da sua janela

anunciação

entrando o anjo disse-me
alegra-te cheia de graça
eis que conceberá
é dará luz à poesia
(e no meu ouvido segredou
serás a invenção de si,
só de si e de mais ninguém)
então respondi
que a poesia
faça de mim a sua serva
e que eu seja
a mais bela invenção
e o anjo retirou-se