domingo, 15 de julho de 2018

Tião, Sansão, Delírio. A gente só ri e transforma em chavão as falas mais icônicas dos bêbados do bairro. E fica se perguntando como pode uma pessoa se afogar numa poça de lama a centrimetros da porta.
Mas nunca, nunca pergunta qual é a dor que os corta.
Não pense que há uma moral nisso. Não mesmo. É que de repente me ocorreu que  talvez eles quisessem ter sua foto pendurada na parede do funcionário do mês. Talvez. 

Norma de Souza Lopes

quarta-feira, 11 de julho de 2018

dezesseis árvores

estávamos perdidas
nossa fúria sedada
no número 4766
dos basculantes milimétricos
dava para ver dezesseis árvores
a comida sem sal
o abraço morno
das cobertas lavadas
em lavanderia
um livro, uma fruta
um artesanato
executado no t.o.

trazia o melhor
dos dois mundos
a leveza do vínculo
vestida de testosterona
ninguém cuidava
mais que tu

é nem choveu
quando você foi embora
eu ia querer dizer
que o céu chorou
por que você partiu

terça-feira, 10 de julho de 2018

segunda-feira, 9 de julho de 2018

flow

era naufragar
ou boiar sem rumo
num mundo plástico
sem profundidades
onde anjos me mordem de leve

sigo imune
carregada de sombras
mas inerte
tal qual uma peça
de camile claudet



quinta-feira, 5 de julho de 2018

canto das sereias

aos poucos a tarde me devolve
a gana, a cena, a sina
se wallace não tivesse perecido
lhe diria: nem tudo é água meu caro
também há concreto
e causas, como carreiras de pó
meu grito nunca me fez sereia
tampouco sou kafka
para silenciá-las
ou fazê-las dançar
se eu me afogasse no mediterrâneo
ou no lago dos ingleses
minha única tristeza seria
não poder ver
o efeito flutuante
dos cabelos


sexta-feira, 8 de junho de 2018

daquele amor

há que se falar de todo amor
presente naquela mirada
uma cabeça levemente erguida
entre as coxas


quarta-feira, 6 de junho de 2018

CONDIMENTO Verónica Peñaloza Tradução de Norma de Souza Lopes

O corpo
guarda em um frasquinho  em algum lado
a felicidade que me deste nos dias passados
para suportar um domingo como este.
Eu o destampo como se fosse um frasco de canela
eu o giro com cuidado
o miro
movo sobre a palma da mão
contemplo por um longo tempo
o fecho com nostalgia
e volto a guardar
pensando que já foi suficiente.
Porém o tempo é injusto.
Não passa meia hora
sem que queira condimentar
qualquer coisa que exista
com os ecos desse amor.

*


(Buenos Aires, Argentina, 1986)
http://emmagunst.blogspot.com/2018/06/veronica-penaloza-4-poemas-4.html
Ilustración de Alia Penner

terça-feira, 5 de junho de 2018

plúmbeo

Daqui da minha janela as altos-cúmulos de inverno parecem tão medíocres.
Um punhal atravessa meu plexo. A dor do que não vai ser.
Será que é isso que você quer dizer quando afirma que o amor deixa roxos?
Faço uma lista de todos os fenômenos violentos e maravilhosos que eu provavelmente não irei conhecer:
A cratera em chamas do Turcomenistão;
As bolhas de gelo inflamáveis do Lago Abraão;
A chaminé de neve do Monte Erebus;
As 10 horas contínuas de relâmpagos do Catatumbo;
Os 43 mil caranguejos vermelhos da Ilha de Natal;
Os milhões de borboletas monarcas migrando do Canadá para o México;
As aranhas de Wagga Wagga;
Os círculos de Fadas da Namíbia;
Os desenhos do baiacu nas areias do mar do Japão;
As rochas esféricas da Nova Zelândia
O grande Buraco Azul de Belize;
O padrão de voo do estorninhos no por do sol de inverno do Reino Unido;
A Calçada dos Gigantes da Irlanda do Norte;
As pedras que rolam no Vale da Morte;
A pororoca  da Amazônia;
O deserto florido do Atacama;
A aurora boreal do Polo Norte
Nuvens, nuvem de todo tipo: lenticulares, mammatus, naccaradas, undulatus asperatus;
O lago Natron da Tanzânia;
Flores de gelo do inverno polar;
O lago Manchado do Canadá;
Marés de seres bioluminescentes: fitoplânctons dinoflagelados;
O eucalipto arco-íris.

É preciso avaliar os riscos desse choro manso, do silêncio de gelo me atravessa.
Não sucumbir a dor. Não morrer.
Nem toda lista é uma coisa boa.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

não leia as instruções

Por pensar que o peso de meus lábios 
não seria pra sempre, desiste
que tenho eu ou tu com a eternidade?
tanto desejo e você, por medo, nada
te desejo um ano inteiro na prisão
das portas giratórias
você e esse coração blindado


quinta-feira, 31 de maio de 2018

afinidade

hei de olhar de joelhos
tocar com a ponta dos dedos
a sombras dessas estrelas mortas
no chão da sala