quarta-feira, 23 de maio de 2018

osmose

ouço sua voz
que diz
- viva
 ou
- cresça
ou
- siga

se não obedeço
de pronto
é que esse corpo
há tão pouco
apaziguado
clama por tato

note que não
é em vão
que minha pele
tenha poros
a espera

terça-feira, 22 de maio de 2018

nem bovary
nem butterfly

sob os lençóis
- bem maior que orgulho -
o amor, essa ervilha

por ele não morro

[norma de souza lopes]

domingo, 20 de maio de 2018

em dias mortos também se escreve?

me reconheceram ontem
e eu só pude perguntar
porque quis estar ali?

estava bem não dormir
mas isso de não sonhar
e nem suspeitar, é insólito

disse
- minha casa
e no dia seguinte
solapei
dizer
- sei
ou
- isso é meu
se parece muito com a morte

assassino cactos
choro diante da morte de buquês
e ainda esperam que eu vingue
essa semente
a vida
confiada a mim

sábado, 19 de maio de 2018

Solutio

Ontem sonhei que me esvaia em sangue menstrual e me dei conta que guardo como segredo o fato de que há muito não sangro.
Nos ritos essênios o sangue menstrual era equiparado ao sangue de Cristo.
O sangue representa o poder  primitivo da vida, profundo psíquico para o bem e para o mal.
Mas, que maçada é sangrar inutilmente todo mês, tendo povoado o mundo, criado filhos meus e dos outros.
O que pensa uma menina de treze anos, a espera de sua menarca?
O que sente uma mulher sem filhos diante da marca da menopausa?
Fico me perguntando se, sem útero, desfiz o pacto feminino de ser deusa e bruxa. Se perdi minha alma supostamente imortal.
Prefiro crer que meu sonho aponta para uma grande virada psíquica, violenta como todo derramamento de sangue, intensa, cheia desejo e irreprimível


quarta-feira, 16 de maio de 2018

nem todo poema merece perdão
[norma de souza lopes]

me constrange que eu não possa
levar pão às  bocas famintas
cobrir os pés de meninos descalços
acolher às irmãs que sofrem desamor
combater o racismo de todo dia
contra nossos irmãos
as anciãs negligenciadas
os cães abandonados

me constrange que eu
inábil para a esgrima
esteja aqui a rezar padre-nossos
e a falar da beleza dos arrebóis

domingo, 13 de maio de 2018

ticket

não há nada atraente
em estar assim, em queda
você só observa e diz
- parece tão feliz
e segura de si -
é mais fácil crer
em avatares

quem irá inventar
uma nova palavra
para a dor
que me provoca
o respirar,
manter-me viva
numa língua que
traduza o sentido
de estar instalada no hoje?

não é razoável, eu sei
esperar que todos nos amem
mas , fossem capazes de ouvir
os ruídos ensurdecedores
de minha alma
compreenderiam

parecem poemas
mas são apenas tickets
para o bonde abismo
que tem sido a minha vida

sexta-feira, 11 de maio de 2018

As coisa que nuca vou e contar - Defreds in Quase sem querer - Tradução de Norma de Souza Lopes

"Olá, essa carta nunca vai chegar até você.Seguramente nunca a lerás. Também, há coisas que nunca vou te contar. Nunca saberás que minhas canções favoritas são em castelhano , que te comprei rosas vermelhas mas não te entreguei, que morro de vontade de tirar sua roupa e que de repente o inverno aconteça.
E ainda que tu não saibas- como a canção- sempre estou atento ao que escreves. Inclusive te vi apoiada na barra de algum bar. Não digo nada, me viro e me escondo. Que naquele dia que te disse que não tinha planos , te menti. Eu mudei todos. E que quando chove, me recordo de ti. Ponho música e quasse não durmo.
Que também dizes que há coisa que são impossíveis, também o é esquecer-te."
Lá do @Cantaresdeserea

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Não é muito banal -Patricia González Lópes - Tradução de Norma de Souza Lopes

Não me ensinaram a querer-me
me ensinaram o que há de se fazer para ser querida
me ensinaram a ser objeto de prazer ou do contrário ser uma inútil
me ensinaram a ser desejada
a querer ser mercadoria
me ensinaram a mostrar as pernas
sou a que disponho um grito na rua
me ensinaram que a bondade é dizer sim
que dizer não é um jogo de menina
que sou responsável pela vontade do psicopata
eles me ensinaram a levar a culpa pela minha primeira violação,
e que meu trauma é a absolvição da segunda
o assédio não é tanto se a criança está sofrendo
o estuprador é menos estuprador se foi uma criança abusada
que talvez eu goste um pouco de ser manuseada
Se a violação é coletiva, é porque eu quero uma festa
Sou culpada do estado analfabeto
da comédia que é algum oficial virgem que não entende
de esvaziamento corporal
culpada pela solidão estrutural da minha alma
culpada de ter apreendido a submissão como respeito
culpada pela vergonha
de pedir ajuda
talvez eu queira sofrer
talvez eu mereça uma porrada
algo terei feito
Sou a culpada, sou a culpada, sou a culpada
por crer que não vai passar
nunca mais, que vai se desculpar
Sou habitante da falocracia
Me ensinaram a me vender para o maior lance
pelo que pelo menos me pague café
me de um teto, que me convide para o jantar
me foda
me pegue
que queira continuar me pegando
que me queira só para ele
que me celebre, que grite comigo, que me quebre, que me envolva,
que me proíba me sujigue me mate
sempre por paixão.

terça-feira, 8 de maio de 2018

tocando o fundo

a posição fetal
o choro pelo que
não foi, pelo que
se perdeu
pelo que ainda
há para lutar
e levantar-se de novo
e de novo
e de novo
e sentir-se admirável
por isso

imperativo fatigante
esse, de renascer
todo dia


segunda-feira, 7 de maio de 2018

Poema ruim - Marcela Matta Tadução de Norma de Souza Lopes

Amo, com este amor de mãe pois é o que sou
e te bordo lenços à mão
e te jogo essa manta que te abriga
e ponho este prato de sopa ali sobre sua mesa
e te escrevo um poema.

Amo, com este amor de puta pois é o que sou
e te levo ao inferno da noite
e enfrento a teus medos extremos
e ponho ali sobre tua cama tua maior fantasia
e te escrevo um poema.



Amo, e só posso fazê-lo
com tudo isto que sou
e não podes tomar só uma parte
e minha voz te susurra e te grita,
mais não temas,
é apenas um poema.


daqui ó http://emmagunst.blogspot.com.br/2018/05/marcela-matta-poema-malo.html