terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Recebi ainda há pouco a mensagem abaixo da Sally Hewett:

"It’s arrived!!! I LOVE it! I don’t understand the words but that means I can see them as something other than words - as a visual rather than an intellectual thing - and just occasionally a word I know appears - like a little gem. Thank you lovely Norma. xxx"
Para quem não conhece Sally é uma artista plástica inglesa que produz esculturas maravilhosas em costura e bordado sobre os corpos e suas o e suas vicissitudes. Adoro seu trabalho porque ela é capaz de retratar com habilidade a beleza dos corpos como eles são, longe das padronizações.  Recebi algumas críticas bem duras pela escolha da imagem da capa mas não me arrependo. Sempre fui apaixonada pelas teorias de Melanie Klein e as primeiras relações de nutrição do bebê  com o seio. Quando vi a escultura "Possible side effects", ou Possíveis efeitos colaterais" (imagem do post) pensei: "é uma maneira magnifica de representar o que quero dizer" no " De mim ninguém sai com fome" - um seio turgido, com os ductos galactóforos repletos é a ideia de poesia que quero passar.
Em 2017 conheci o trabalho dela no instagran e propuz comprar a imagem. Ela me cedeu sem custo nenhum. Enviei o livro em janeiro e agora, ler de Sally que minha poesia pode ser para ela uma "pequena joia"foi de chorar.
Recomendo que conheçam o trabalho dessa artista. É maravilhoso.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

projetéis

[norma de souza lopes]

dirão
não, às pedras na mão
mais doçura mulher

violência
só as dos rituais de beleza
ou uma pistola apontada
para a própria testa

eu e minhas irmãs
carregamos entre os dedos
palavras napalm
poemas pedra
em honra às tantas
abatidas


sábado, 10 de fevereiro de 2018

por cinco minutos

já doía ter que mudar
mas separar é como ir rasgando
na carne viva pequenos pedaços
que sabemos, precisa tirar
como dói
lembro-me muito mais do que era bom
e isso vai tornando difícil a determinação
celebro a chuva, o sol, a cerração
e continuo deslumbrada com qualquer bobagem
que me faça feliz por cinco minutos
ainda assim é, todo dia, esse arrancar de nacos
e se forçar a abandonar o vicio
de pedir desculpa por tudo
a culpa é uma das poucas lições
que nunca esqueço, assim como aquela
de ser mãe do mundo
ser a mulher que mata todas as fomes
é o meu moto-contínuo
todo o movimento da vida nova
me faz sentir como se caminhasse
sob o efeito de tremores de terra
e que conste que não serve para nada
tudo que aprendi com as árvores
já entendo o desperdício
dos escândalos infantis
das lágrimas torrenciais
o consolo não devolve o que se foi
para camuflar o peso da solidão
aceito que minha casa é meu corpo
vai estar sempre onde eu estiver
faço dele esse amuleto provisório
transo o branco da página
ele aceita sem se cansar
as contradições disso que são
os sentimentos por separar
a saudade daquilo que era
a falta de liberdade
agora preciso terminar
é manhã de fevereiro
lá de fora vem um convite para brilhar, e eu
continuo deslumbrada com qualquer bobagem
que me faça feliz por cinco minutos

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

para quando não for mais

o que fazer com a dor?
uns fazem sereias, pães
outros fazem medo
há até quem faça grades
eu teço poemas prosaicos
coloridos e palpáveis

era verão
eu não gostava
nem de verdes nem de marrons
ela, esbelta, gostava
cuidava de criar filhos
e odiar o trabalho
era certo que voltaria
para diamantina
achava belo horizonte
uma cidade de loucos

não me admira que hoje
eu faça esses poemas
magros, tão verdes
e marrons de saudades


(quase posso ver no futuro
uns poemas espessos como cerveja
vermelhos como pimenta)

Éramos

Líamos de tudo
o que tornava nossos assuntos 
ardentes e obscuros
quase intraduzíveis. 
Divertidos, ferozes, indignados
quase contentes de viver
defendíamos nossas disposições 
políticas de maneira feroz.
Demasiado verdadeiros
para sermos levados a sério.

Demorou décadas para compreender
que não vencíamos nada
o que éramos realmente
pairava naquela intercessão
do encontro.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

daquilo que se chama meu coração

a ausência de sono
e o susto
pelo cheiro dá para saber
que o amor esteve aqui
como dá para saber a enchente
ouvindo a chuva lá fora

compreender a felicidade
concorre com a necessidade
de dar sentido a tudo
esforços inúteis

(nunca soube contar
a distancia dos raios
ouvindo os trovões)


o coração das lagartixas
tem três partes
descartes acreditava na força
da glândula pineal
para juntar alma e corpo
(mas a liberdade
segue comprimindo
meu peito partido)


meus olhos gritam
a assimetria do mundo
o desconforto das mudanças
solidão nem sempre
é véspera de encontro

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

flaneur

as ruas sem promoção
do Floresta
o custo de vida
pela hora da morte
os moradores de rua
e um pequeno facho de luz
iluminando a saudade de casa

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Como você se protege de um estupro? Susan Hawthorne - Tradução de Norma de Souza Lopes

Ela lhe pergunta,
                Como você se protege de um estupro?
Ele faz silencio por um longo tempo
Diz,
                Evito ir para prisão.

Ela lhe pergunta de novo,
                Quer saber o que faço e o que evito fazer?
Ele faz silêncio de novo.
Então acena com a cabeça.

Ela diz,
                Não falo com estranhos.
                Não saio só à noite.
                Ou se faço isso tenho minhas chaves preparadas.
                Uso meus sapatos de corrida.
                Aparento saber onde vou mesmo quando não sei.

                Se saio à noite, escuto.
                Escuto os passos atrás de mim.
                Julgo seu peso, marcha.
                Considero se os passos são de mulher ou de homem.
                Tento não correr.
                Tento parecer casual.
                Ou dou a volta e olho ele nos olhos.
                O conselho é contraditório.
                Recebo aula e defesa pessoal.
                Me torno faixa preta.
                E ainda assim não me sinto segura.
             
Se eu ficar em casa, fecho todas as portas.
                 Fecho as janelas também.
                 Eu tenho um olho mágico na porta da frente do meu apartamento.
                 Quando eu saio com amigos, não bebo demais.
                 Eu não volto a um copo meio vazio / meio cheio.
                 Eu não aceito carona para casa.
                 Pego um táxi em vez disso.
                 Eu tenho luz de sensor fora da minha casa.
                 Meu cachorro está do outro lado da porta.
                 Não aceito que ninguém tire fotografia minha.

                Tem obtido sucesso?
                Não.
                Uma vez, bebi demais.
                Uma vez, aceite carona.
                Uma vez, falei com um estranho.

                E, entre minhas amigas,
                uma está casada com um estuprador.
                Uma se deu conta que seu companheiro estuprava suas filhas.
                Uma foi tocada por completo pelo vizinho quando tinha cinco anos.
                Uma foi perseguida na rua.
                Uma encontrou pornografia no computador de seu namorado.

Perguntei a elas o que faziam para se proteger de um estupro.

Uma disse:
                Não falo com estranhos.
                Não saio só à noite.
                Coloquei discagem rápida no meu celular.
                Uso meus sapatos de corrida.
                Aparento saber onde vou mesmo quando não sei.

Uma disse:
                Quando saio à noite, tenho cuidado.
                Vou por lugares bem iluminados.
                Se escuto passos atrás de mim,
                tento não correr.
                Tento parecer casual.
                Tiro o celular.
                Chamo meu amigo.

Uma disse:
                Tive aulas de defesa pessoal.
                Agora dou aulas de defesa pessoal para mulheres.
                E ainda não me sinto segura.

Uma disse:
                Tenho um cão grande, com um latido forte.
                Tenho três fechaduras na minha porta.

Uma disse:
                Não participo das redes sociais.
                Não quero que ninguém saiba muito sobre mim.

                Tiveram sucesso?
                Não.
                Nenhuma delas.



Daqui ó http://emmagunst.blogspot.com.br/2018/01/susan-hawthorne-como-protegerse-de-una.html
I
religar é muito mais 
do que você já sabe
me diz

II
a minha
a sua humanidade
Jesus compreendeu

III
o ouvido em seu peito
seria o suficiente para entender

IV
invento um novo ruído
com o que me deu

[norma de souza lopes]


sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

não foi a honra

não pense que 
o que me trouxe aqui foi a honra
honra é a palavra que mariane leu
junto com a palavra morte
nos fragmentos de carta 
que herodes (não o antipas)
o grande, escreveu a josé, seu irmão
logo que partiu para atender ao chamado
de marco antonio (sim, o romano)

tendo colado a carta,  mosaico de terror
ela pode ler
mate mariane caso eu não
retorne com vida
posse travestida de amor

não, não foi a honra que me trouxe aqui
o que me arrastou foi a fome de vida
e um pouco de medo, o segredo
de dois gumes
paralisa ou move
você é quem escolhe