domingo, 4 de novembro de 2018

afogada

O pior não é ter que conviver. O que me mata é a lama de ódio que me chega aos joelhos. O ódio do outro que, por empatia, se instala em mim mesma.
Se me gritam, é uma bóia que vem tarde. Às margens do meu corpo apenas o silêncio de uma afogada.
Diante de mim essa procissão de guerreiros lutando por vantagens insignificantes ou pela palavra final.
Onde foram parar as palavras de pele e osso que me despertavam do pesadelo?
Onde foram parar aquelas alegrias que perseveravam apenas por amor a si mesmas?
Estou muito cansada. Exausta.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

móbile

eu conheço esses tipos
que chegam e dizem
- suas pernas, olhos, dentes
me fazem feliz -
cuidam de te fazer rir
sentir-se especial
disparam essa corja
de elogios, se espalham
em seu sofá, familiar
sorriem para sua mãe

ah, eu conheço e odeio
seus pêlos a tanto tempo
entupindo o ralo do banheiro
o ruído de metal do
pequeno souvenir
- uma torre eiffel -
pendurada cópia da chave
que você lhe deu
depois de tirar de mim



terça-feira, 18 de setembro de 2018

ilha de edição

se bem me lembro
mamãe não costurava
lavava minuciosa o fogão
sentava à beira da bacia
e atritava entre os dedos 
a roupa, mas não costurava
e há aquilo que não me lembro
por terror ou esquecimento
com isso não insisto, invento
e minto descaradamente

domingo, 16 de setembro de 2018

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

perigosos

perigosos esses poemas
que escritos
costuram fora
a mãe, o pai, os avós
perigosa é essa casa
desarrumada

terça-feira, 4 de setembro de 2018

se vir as entranhas é que acabou

assim como desfaço
as volutas de meus cabelos
o tempo embaça
minhas crenças
aquela praça
e as cicatrizes
(que não escondo mais)

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

para dizer em voz baixa

eu nem queria
melhorar o mundo
bastava uns poemas
que te incendiassem
e tornassem insuportável
a minha falta

domingo, 26 de agosto de 2018

Consigo eles eram brandos, uma conversa macia, rotineira. Conosco a língua ácida, espessa que afinal nao éramos dignos de palavra. Chegar na enfermaria era como estar-lhes roubando algo: o tempo, a atenção. Por medo de rejeição ou das grosserias  a maioria de nós evitava demandar. Poucas enfermeiras nos tratavam como pacientes. Ficava sempre a sensação de ser um esmolem.
O preço, soube depois, seiscentos reais a diária. Preço de hotel de luxo para um hospital medíocre, quartos ordinários e alimentação insossa. 
No caderno trazido pelo amigo eu anotava as impressões acerca do lugar e dos pacientes.
Era curioso como as mulheres da ala se relacionavam como se fossem velhas amigas. Como se aquele não fosse um encontro fortuito, como se quase todas não fossem desaparecer umas das outras em semanas.
Era tolice eu pensar que essa era uma característica do hospital. As pessoas vivem desaparecendo da nossa vida. Me lembrei do caso da organização da estante.
Em 2012 conheci um poeta muito bom, comprei seus livros, fui às atividades que ele realizou na cidade, tornei-me amiga etc. Segui o protocolo que estabelecemos com um colega da poesia. Alguns meses depois soube de seus abusos com a esposa e decidi romper contato.
Sei que isso deixa o leitor curioso, é justo. Todo mundo quer conhecer os segredos de alcova dos sujeitos célebres. Mas confesso que não tenho intenção de contar quem é. O que quero demonstrar e a tese de que as pessoas desaparecem e às vezes nem nos damos conta.
Voltando à organização da estante em 2016, por causa de uma mudança de casa, fui reorganizar os livros e me deparei com os livros deste poeta. Fiquei muito surpresa. Eu havia me esquecido completamente dele. Minha memória, por quatro anos, havia deletado, esquecido o homem.
Na ocasião fiquei bem impressionada. Hoje entendo completamente. É como se, por economia de afetos, permanecesse em nós apenas os amigos relevantes.
Talvez por isso  nos primeiros dias de internação me mantive tão obtusa. O corpo de enfermagem não merecia consideração, dados os maus tratos. E poucas seriam as colegas de claustro que permaneceriam.

sábado, 18 de agosto de 2018

Chuva e dez quilômetros de trânsito engarrafado. Não devia mas um carro nessa hora é uma caixa onde enterro meu tempo, enterro inclusive a necessidade de concluir o romance, ou novela, não sei ao certo pois são apenas  cem paginas. 
Isso por que sempre que escrevo apago um terço. Acho tudo muito ruim. E deve ser mesmo. 
Esse ruído arranhado do bloco de notas virtual nem de longe alcança o claque claque claque da máquina de escrever. Taí, posso colocar na conta dessa  ausência a falta de escrita  em prosa em minha vida.
Há tempos quero deixar de escrever poesia. Mas envelheçer parece vir junto com a propriedade e o desejo de falar sempre menos. Uma voz dentro da cabeça repetindo "não vale a pena dizer". Ou é isso ou são os remédios. Essa é a mesma voz que repete o enfastio diante do mundo e todos os seus assuntos, o enfastio   diante de toda possibilidade de criar algo, como se tudo já tivesse sido inventado, como se o mundo fosse apenas uma cápsula reverberando o mesmo, ad infinitum.
Gosto dos sintomas da mania por muitas coisas mas me deixa constrangida a verborragia, aquela explosão que me faz emendar uma frase atrás da outra sem trégua. Daí a sensação de que a poesia e sua concisão ser o lugar de equilíbrio.
Sei que se começasse apenas contando o que deixei para trás, por vontade ou obrigação, daria uma bela história. Mas fatos não são histórias. É preciso saber contar e eu temo estar tão viciada em fracasso, perdas e autocomiseração que se escrevesse sobre isso criaria uma história ordinária. 
Posso passar horas assim, dando vazão ao fluxo do pensamento, navegando no nonsense mas tenho no imaginário um leitor modelo que não curte essa fruição, tampouco a descrição excessiva. Meu leitor modelo abandonaria o "Pêndulo de Foucault"  na página cento e nove reclamando das poucas narrativas de ação e do excesso de informação. 
Eu penso no sucesso e me lembro de duas coisas: passar no vestibular da UFMG e tirar carteira de habilitação. São narrativas de ação que dariam uma história interessante. Mas imediatamente me lembro que ainda não consegui a carteira de habilitação. O mais perto que cheguei disso foram as dez aulas pilotando moto. Isso antes de interromper por conta da internação. E a internação seria outro capítulo. Um longo capítulo contando como os hospitais psiquiátricos se tornam donos de nossas mentes e corpos. De como as frases de delírio de uma mulher em surto se parecem com poesia.