quarta-feira, 7 de outubro de 2020

voz


"Cabe à voz do ator fazer com que novas percepções e novos afetos surjam, ambos a rodear o conceito lido e dito."
Deleuze

aquela voz de convite
dizendo em sussurro
se abraça
adianta


nós com os cacos nas mãos
e ela convoca o novo
a nudez absoluta da coisa
e sussurra
cola


suave transmove
à cena do assombro
faz-se luz
onde todos somos

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

amuleto

se arrancar a primeira folhinha 
do tinhorão antes dos 18 dias 
ele morre, monocotiledônea 
parece uma palavra que dança
parece que elas dançam
as três especies juntas 
no vaso
a folha rosa, vermelho, verde e branco
nasce de uma batata
um bulbo
os kalina dizem que é mágica
obiá pode ser um amuleto 
ou uma mulher-amuleto
como um bulbo ou uma folha
de tinhorão pode ser um amuleto
os kalina benziam os brancos
com folhas de caládio
para torná-los mansos
caladium não parece uma palavra-coisa
mágica?
quando morre um kalina
fazem festa, comida e dança
eu danço antes o meu funeral
que é para adiantar
quando os brancos chegaram pelo mar
os kalinas o chamaram deuses
mas não, eles trouxeram 
muitos funerais
eu achava que era a deusa
dos tinhorões
e alimentei e molhei
tanto que a flor se fechou 
e parece que morre
as cicatrizes de uma folha
não regeneram e dói 
como doía olhar os dedos do lucas
amassados quando fechei o carrinho
em 1994

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

 Quase doze anos de "crise" e eu me pergunto: historicamente podemos chamar de crise?

Temo ter que responder que não. 

Não estamos em crise, estamos instalados num status quo de governabilidade precária, onde uma a uma, as representações democráticas se servem à captura.

Há muito compreendi a nocividade da ideia vertical de líderes, sacerdotes e gurus e confesso que venho potencializando estudos filosóficos (filosofia aqui compreendida como amor a toda sabedoria e ciência) acerca de um devir ingovernável. 

Vejamos se tenho ombros para isso. 

Abaixo a imagem da Pimoa Cthulhu,  uma pequena aranha marrom de 10mm e pernas extremamente longas, muito  comum no oeste da Califórnia. Esta aranha tece uma malha maravilhosa, que vem dando ideia aos pensadores acerca de uma alternativa para estas redes que nos aprisionam.




domingo, 13 de setembro de 2020

quarta-feira, 8 de julho de 2020

estóica

nem sempre palimpsesto
houve tempo de reescrever a dor de ontem
até fazer buracos no papel
o supérfluo exercício
de analisar os símbolos
águas de uma fonte inesgotável

hoje é esse desabar no sono
como em um abismo
o gozo e a ternura absurda
a despeito da montanha de mortes
há que se aprender que ossos
dizem tanto da morte
quanto da vida

sábado, 16 de maio de 2020

duração

conto as flores da orquídea
sete, como os dias da semana
as pétalas, sua pele
cheirosas, viçosas e belas
até noventa dias em flor
tanto a ensinar ao amor
o seu e o meu universo
dois mapas traçados 
em papel manteiga
que a gente desliza
para ver se encaixa
fronteira com fronteira
das seis às vinte e duas
hora máxima em que você avisa
"preciso dormir, amor"
qualquer estação da lua
para olhar e repetir, "amor"
o vocativo-fronteira
que a gente atravessou
quando decidiu que já era
subvertendo o sentido da gíria
amar e pensar que 
a despeito das sombras
que ameaçam a nós e ao mundo
minha mente vai mais devagar
como a tartaruga do poema do manoel
que li através da massa translúcida 
e enorme do strudel que você abriu
sobre a mesa, como faziam
as moças da áustria
quando estavam prontas para casar
o pensamento manso, você no banho
cantando "joão e maria"
sem óculos
você não me veria
que bom que seja assim
agora não é sobre mim
o pensamento também  vai sereno
quando conto histórias
para te fazer dormir
daí você descreve 
um roteiro preciso
que envolve frutas, vinho
danças e as canções da bethânia 
e acorda a mulher em chamas
que mora em mim
você chegou e por um instante
me pareceu tão competente
para entender o tempo, essa entidade
a essência dos acontecimentos
então por favor me responda
quanto tempo é que demora 
pra passar a sua ausência?


domingo, 10 de maio de 2020

nesse meio-tempo

eu, por mim

me mantenho em silêncio
sob duas mantas 
trazendo a memória  
seus olhares de deleite
completamente descobertos de véus
não há  cobertores que façam jus àquele calor

terça-feira, 5 de maio de 2020

renascentista

tal qual moçambique, Itália, bahia ou tocantins
a claridade da manhã inunda as casas
aqui porém
a luz atravessa amena
o tecido fino da cortina

antes que abra teus olhos
numa curva lânguida
boceja, boca, lábios, mãos e corpo

os longos cílios varrem 
gradativamente o véu da noite

no canto, a princesa e a ervilha
os braços, côncavos exatos
para cinco tipos de abraços

a pele diáfana, tela
para tatuagens dos dedos

nada separa
românticos de contemporâneos
modernos de renascentistas
quando o que se aspira
é capturar na memória 
o cálido e as chamas
do que não se fotografa

segunda-feira, 20 de abril de 2020

náusea

enquanto desfilo insone
a língua estilhaçada
o ouvido estilhaçado
a mão estilhaçada
gatos dormem, indiferentes
à máquina de produção
aos aparelhos de destruição

mas que não se confunda
minha vigília com virtude

quinta-feira, 16 de abril de 2020

150 batidas

ser bem jovem
pra correr 
de mãos dadas com você
e entrar no mar
mergulhar daquele jeito
que a onda não derruba
escondidas debaixo da água
debaixo da curva
bem longe do ódio
era o seu rosto, virtual
ouvi, foram 150 batidas
era cavalo galopando 
em meu coração
a despeito do medo
brotou coragem em mim
para o apocalipse, o colapso
o real dessas canções que escorrem
da sutileza do fogo
de seus olhos que abrasam
como pode? tão úmidos
era para aprender desde cedo
que a palavra junto
tem vinte e cinco significados