terça-feira, 21 de maio de 2019

pasodoble

Finalmente compreendo que não há coincidência nesse padrão de rejeição que experimento desde a infância. É uma escolha meticulosa pelo que não está pronto para acontecer, como alguém que cutuca uma ferida quase seca para que volte a sangrar. Há um gozo em mergulhar na tristeza, chorar diante do espelho, imaginar o próprio funeral. Como se só fosse possível exercer minha potencia a partir do banzo da autocomiseração. Que ganho haveria com o exercício deliberado da infelicidade? A felicidade já me ensinou alguma coisa? Suspeito que a alegria só me tira coisas, mesmo assim insisto. Não se escapa à tristeza do desamor sem transformar a rejeição em poesia. Transformamos desamor em metáfora como quando olhamos água condensada e vemos beleza no azul do firmamento ou quando miramos nuvens, o arco-íris. Também o fazemos com o grito de fome dos pássaros transformando-o em música. Um desperdício de infelicidade, posso dizer. Diante de mim um menino que aprendeu a amarrar os sapatos sorri, ainda não contaminado pelo medo de fracassar. Deixo a leveza disso fazer escorrer minhas sombras e revelar minhas transparências. Mais um passo nessa dança entre alegria e tristeza. Talvez essas pequenas coisas me devolvam o desejo pelos amores possíveis. Norma de Souza Lopes

quinta-feira, 16 de maio de 2019

sem raiz

Nesses tempos de negação de identidade pessoas como eu acabam ocupando um não-lugar, uma fronteira que os grupos ideológicos proíbem de ultrapassar (seja ele branco ou negro, rico ou pobre, central ou periférico, hétero ou gay, jovem ou velho, intelectual ou doente mental etc.) No começo doía porque eu pensava que não era nada, de lugar nenhum. Mas venho entendendo que quem escolhe isso sou eu. E eu escolho ser tudo. Ocupar todos os lugares com os quais me identifico. Tudo e todos que não sejam desumanizadores. E isso é libertador.

hoje não

acordar nesse mundo sem verdade não há respostas fáceis não entrar em pânico amar, mas não como uma mamífera não ser uma loba antes de cuidar da própria fome ser subversiva e escrever poemas que falem a verdade sem perder a imaginação em tempo de tanta mentira ser a subversão

segunda-feira, 22 de abril de 2019

OUTRA FORMA DE TERMINAR UMA RELAÇÃO Demetria Martínez Tradução Norma de Souza Lopes

Se não pode arrancá-la Pela raiz, remova-a do sol, deixe de regá-la. *

CONSUELO Demétria Martinéz Tradução Norma de Souza Lopes

Agora será Connie, como cortar o cabelo demasiado curto, mais fácil de pronunciar, disse seu professor do jardim de infância. Vai demorar anos da vida de Connie para que seu nome volte a crescer, para que se olhe no espelho e ame o que vê. * Demetria Martínez

terça-feira, 16 de abril de 2019

melodrama

desejo como o roçar de asas de um anjo no escuro seus beijos mas sou só só tenho o nó de gravata essas lágrimas em volta do meu pescoço (a despeito d tristeza são tão belos esses olhos molhados no espelho)

segunda-feira, 15 de abril de 2019

recaida

se te parece que não sou de ninguém é que pela primeira vez sou minha há um pouco de benção e maldição em estar sozinha vai doer quando eu deixar de esperar suas mãos em meu rosto carícia ou desgosto? um abismo entre o que você é e o que preciso porque eu não desisto? sabia que essa obsessão estava lá me afogando em você quando caí a primeira vez? seu cheiro, seu cabelo as sutilezas do seu rosto parecem únicos e é isso que são tanto tempo e ainda não aprendi isso de ser gota em chapa quente arder sem tocar nem sei porque tento avisar mas falta pouco para eu abrir as portas e deixar outra pessoa entrar ela está do outro lado observa curiosa minhas feridas há um passo de entrar em minha vida mas, se você quisesse que importa que fossem falsas as oito batidas do meu coração as oito batidas do seu coração real são essas canções que escorrem o que em minhas pernas escorre quando seu fogo me queima era para aprender desde cedo que a palavra junto tem vinte e cinco significados

Aparte

Você espera imóvel, sabe-se lá o quê o olhar confuso, susto ao me ver. Atravesso sorrindo o espaço que nos separa. Te abraço. Não era para eu estar ali. Coisas que não dizemos bóiam sobre nossas cabeças e naquele encontro leio a forma mais feroz de verdade que o amor pode revelar. Posso continuar a desperdiçar poesia, chamar, chorar, enlouquecer: não vai acontecer.

expectativa

uma esquina de onde ainda se pode pegar ou largar aquela vontade de se falar todo dia, de ligar aqueles minutos parados olhando o tempo imaginando um chá, um café ou qualquer coisa assim e na frente da casa um jardim

colete salva-vidas

a alegria dos versos blindados suvenires congelados que resistem à minha morte por amor à morte do amor a ilusão de que eu poderia escolher