quinta-feira, 18 de julho de 2019

Inspirado em "tenho que escrever um poema" da Tatiana de la Tierra



e porque não contar
que eu tinha prazos
você sabe, eu tinha prazos
para entregar aquele trabalho
mas você, o rastro de caracol
sua língua em minhas costas
uma gata
enfiando suas patas
entre minhas gretas
e só de sentir o cheiro
acre em seus cabelos
o shampoo de erva doce
o doce ummmmmm
e as invenção de palavras
nas teclas do computador
ssssssssssssssssss
dddddddddddddddd
mmmmmmmmmm
avançava amazona
e aquele olhar
há que se falar
do desejo
presente naquela mirada
a cabeça levemente erguida
entre minhas coxas
eu repetindo
amor... eu... tenho.... prazos...
e você
fodendo os prazos

domingo, 7 de julho de 2019

Hoje eu só queria contar pra elas como eu acho tolo tudo isso de que não se pode amar o que é  igual.
Queria  dizer que as acho lindas, minhas meninas, tão únicas assim, unidas nesse devagar que é aprender a amar sem se desrespeitar.
Queria contar que assisti aquela ópera do Léo Delibes, Lakmé, e que durante o dueto das flores eu só conseguia pensar nelas, minha rosa, meu jasmim. Tão únicas e tão lindas...
https://youtu.be/Zm4HWjnwdWk

sábado, 6 de julho de 2019

Estou organizando meus poemas para enviar a uma editora de BH que se abriu para inéditos e venho sentindo uma sensação desconfortável diante do que eu percebi como repetição temática. Por mais que eu tente inovar a nova seleção, assim como nos dois primeiros livros, esse gira sempre em torno da falta de sentido da vida  e a inevitabilidade da morte, da sensação   de isolamento em relação a todo mundo, e da minha incapacidade de escapar ao gozo que mata e realizar meus desejos com  liberdade.
Gosto muito de uma frase da Frida Kahlo que diz:

"Eu pinto autorretratos porque fico sozinha com muita frequência, porque sou a pessoa que conheço melhor"

Uso essa frase para justificar o fato da maior parte da minha poesia ser sobre mim mesma mas confesso que às vezes esse exercício narcisista me incomoda. Gostaria de ser capaz de poetizar acerca do universo que me rodeia. 
No entanto compreendo meu exercício como um esforço de sobrevivência. Não é fácil aceitar que estamos mergulhados no caos do acaso (essa aliteração foi o Samuel Medina que me deu) e que a vida não faz sentido nenhum. Tampouco é tranquilo admitir que, com quase cinquenta anos estou mais próxima do dia que vou morrer. Pode parecer engraçado mas, com exceção dos momentos em que eu estava muito ferrada da cabeça, eu cheguei até aqui fingindo que tinha todo tempo do mundo. 
Quanto ao isolamento, esse é irreparável. Sofro de um desejo continuo de só esperimentar relações de afirmação, amor, colo. Isso no entanto conflita com as minhas contradições, incongruências e vicssitudes. Meus familiares, amigos e colegas de trabalho não são obrigados a ignorar a minha incompetência para o conflito e a adversidade e minha excessiva tolerância as formas de existir. Outro agravante são os centros de poder dos grupos. No geral cada grupo possui seu guru/lider em volta do qual os outros membros orbitam. Não sou boa com isso. Não tenho competência para liderar ou para ocupar esse lugar mas também não tenho disposição para orbitar apenas. Diante disso o isolamento deveria ser uma saída confortável. Mas advinhem, a solidão me adoece. É uma circunstância insolúvel, assim como as outras que já citei, sobre vida e morte.
O terceiro item dessa lista, a tríade gozo/desejo/liberdade vocês já podem imaginar. O gozo existe em minha vida como um sintoma, a compulsividade: comer, beber comprar são válvulas que diminuem a ansiedade que todas as outras coisas me provocam. Separar isso do que é real desejo, vontade de potência, tem me custado a vida toda. Tem bem pouco tempo que eu aprendi a me desvencilhar da culpa para escolher ser livre e realmente atender os meus desejos. E isso ainda é bem incipiente e acontece justamente quanto eu escrevo poesia. É nela que eu peneiro, que eu tiro de dentro, que eu observo. A poesia tem sido para mim um simulacro de companhia, de vida, de sentido e de liberdade. E é a poesia que tem me ajudado a suportar a eminência da morte.
Isso não é um pedido de desculpas. É só um aviso. Continuo a mesma nesse potencial terceiro livro. 

sábado, 29 de junho de 2019

PINTA-ME UMA MULHER PERIGOSA - Tatiana de la Sierra /Tradução de Norma de Souza Lopes

pinta-me uma mulher perigosa
uma que coma cobras
uma que ladre
que penteie a barba
uma mulher com a vagina violada
com as tetas caídas
uma que xingue  e goze
uma que tenha baratas aladas
ao lado da cama

pinta-me ela para eu poder mirar-me no espelho

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Tenho que escrever um poema - Tatiana de la Tierra tradução de Norma de Souza Lopes

o dia todo tentei escrever um poema
porém tu deitaste sobre as teclas
e se apagaram as palavras
e inventaste otras`11t0
o xxxxxxxyyyhsssssssssss
`1````1` qqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqqq

o computador se queixou
quando puxaste
meus cabelos 
me fizeste cócegas 
te sentaste sobre minha munheca
deixaste uma trilha
de saliva
subindo minha coluna vertebral
mordeste o mouse

tenho que escrever um   poema
por que não entendes isso?
se me deixar em paz
posso cuspir palabras
QUE TE DIGAM
DESEJO~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
PORém me segue fodendo as teclas
metes tuas  patas em meu peito
tua língua em minhas orelhas

meus dedos intentam
concentrar
porém
tuuuuuuuuuuuuuuuuu’
dizes
O POEMA ESTÁ DENTRO DE TI
deixa isso
e com teus dedos
me tira
metáfora
ritmo
sinfonia
ganas
não literárias

Poema de Cristy a Tatiana de la Tierra - Tradução de Norma de Souza Lopes


Ela me deu permissão
Ser amada ao conhecer e desconhecer meu ser
Para olhar pela janela para os carros que passam, para saborear o doce sabor de sua essência sobre a minha língua.
Ela me deu água para minhas sementes e agora as flores estão brotando da minha cabeça e do fundo dos meus pés.
Ela me deu permissão para estar segura
Para ser embalada para dormir
Ela me deu horas de calor
Envolta em seus braços, choros de criança e sonhos de criança
Ela me deu permissão para amá-la, para compartilhar em voz alta a visão de flocos de neve caindo no ar da meia-noite
Ela me deu permissão para me render suavemente e permitir em seu amor e sua capacidade de cuidar
Ela me deu permissão para ser apenas
Ela me deu, ela me deu, ela me deu, eu.


Recomendo também conhecer a obra e a biografia de Tatiana de la Tierra

Lá do https://labloga.blogspot.com/2012/08/homenaje-tatiana-de-la-tierra_5.html

domingo, 23 de junho de 2019

Não me olhe como se eu ainda fosse a mulher que me tornou essa ruína, ou se esses versos que escrevo fossem o jorro de uma torneira aberta.
Em algum lugar existe uma pequena fonte d'água, uma mina e é dela que tiro poesia.
Ser eu mesma é muito difícil. Não há placas em neon avisado qual a escolha oferece maior chances de me trazer alegria. E mesmo que ouvesse, há em mim uma essência felina que segue irracionalmente todas as luzes.
Não é como se de repente eu desistisse de viver. Há dentro de mim uma fome feroz pela vida. É ela que pede socorro quando meus monstros me dizem "acabe com tudo, você não serve para existir nessa máquina trituradora de mentes que são os dias de hoje."
Na verdade eu gostaria de flanar sozinha, dançar e ensinar literatura.  Mas tem  isso de se apaixonar e é meio que uma compulsão por interlocutor. Queria ter com quem trocar um olhar de cumplicidade quando eu sinto vontade de derreter ouvindo o poema do Jazz que a Piê fez para a mina (musa?) dela. Alguém com quem ter um tratado de paz. Alguém que não fosse uma ameaça à essa voz narcísica que me consome e que dissesse  "você está errada Norma" sem me fazer sentir a alma sequestrada. Alguém que entrasse, a despeito dessa placa em meu peito "estamos abertos mas a porta é pesada".
Veja como eu escrevo hoje, percebe como as sombras estão silenciosas? Eu me orgulho da família que construí, dos amigos que fiz e principalmente me orgulho profundamente da minha disposição para amar.  Por isso pare de se preocupar, qualquer dia desses eu acalento essa necessidade compulsiva por amor. Afinal, veja como é grande o meu amor por mim, essa imponente ruína.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Procuro desesperadamente uma resina que preencha essa fenda aberta em meu peito, algo que cole as imagens narcísica que nem mesmo sei quando  estilhacei, se é que fui  eu mesma que quebrei.
Olhando para fora todos parecem tão convictos de si - vejam como acredito em mim - parecem dizer.
Não encontro forças para sustentar aquele antigo pacto no qual decidimos inventar uma história, acreditar nela e vivê-la  todos os dias até que se tornasse verdade.
Era para ser divertido, Olhar nos espelhos prateados do quarto ou da sala de jantar e me admirar do quão bela me tornei. Ou olhar no espelho negro do celular e constatar que eu realmente sou muito inteligente e que minhas palavras são sábias, que meu trabalho  é fantástico e que eu  realmente domino a imagem que venho produzindo.
Não acho uma liga, nada parece ter força de resina para preencher meus buracos e tenho sido injusta com meus amigos e familiares, esperando que eles possam fazer isso por mim.
Gostaria de poder  culpar esses tempos  que parecem não mais suportar que se façamos juntos coisas íntimas como sentar-se diante  de qualquer altar e rezar silenciosamente. Ou, também em silêncio, permanecer por três minutos diante de um morro úmido de neblina.
Mas preciso ser honesta o suficiente para admitir que tudo morre antes dentro de nós. Um mundo doente só acha eco em almas enfraquecidas como a minha está agora.
Você se lembra quando, mesmo diante de toda violência e escassez, achávamos alegria  em tomar banho de chuva, caminhar entre os vales erodidos pela enxurrada. Ou quando você pegava em minha mão e attavessávamos a rua para ver a lua?
É triste sentir que dentro de mim nesse momento há uma recusa em irradiar. Calou-se aquela voz potente que dizia a todo tempo -vai melhorar.
Acho melhor tentar dormir. Somada aos efeitos de uma noite mal dormida, essa tristeza pode ser algo perigoso.

terça-feira, 18 de junho de 2019

Tem dia que eu fico brava com essa minha necessidade absurda de amor. Gostaria de ser mais plena com a minha própria estima. Mas eu amo amar minha família e meus amigos.
Tive que deixar de amar algumas pessoas e isso sempre me pareceu uma perda. Espero que eu possa continuar amando meus amigos, a despeito de todas as nossas contradições.
Quase trinta anos de análise iniciada e interrompida e algumas constatações:
- não há restituição para os nomes malditos recebidos por nossos pais. Eles não são mais os mesmos;
- se nós mesmos não nos renomearmos o mundo irá fazê-lo. E não será generoso.
- algumas metáforas para análise funcionam bem. Um poço de onde se tira pedras até chegar ao fundo, uma fonte inesgotável de onde se tira água etc. Prefiro a segunda por ter percebido que o conteúdo produzido em análise, as simbolizacões, para mim, são tão fluidas quanto a água. Sempre que penso que esbarrei em uma construção de sentido que poderia 'fechar Gestalt" ele escorregava para outro lugar. Pouquíssimos significados construídos por mim em análise se aproximaram da solidez de uma pedra e definitivamente essa construção não tem fundo em mim.
- e finalmente, sou grata a cada símbolo, fantasia, imaginário que construí ao longo desses anos. Sou uma pessoa bem menos lacunada, fragmentada e  quebrada em decorrência dos sentidos que fui construindo em análise. Apesar de provisórios eles são eficazes em preencher as minhas brechas e colar meus cacos.