quarta-feira, 18 de abril de 2018

HOJE HOJE ESTOU TE ABANDONANDO AMOR Xela Arias - Tradução de Norma de Souza Lopes

Hoje estou te abandonando amor
Estou lá fora nas figueiras carregadas e nas águas das nuvens
mas não fui eu quem escolheu sair
um navio estranho me roubou de sua mão
me absorveu a decisão

Como ramas rio abaixo parte o meu amor
escada de perguntas
como sua boca e a minha boca abrasam
aturdida é esta distancia que que buscamos 
ainda não podemos arder
como a frágil lenha dos incêndios
dois cavalos, quatro peixes e um amieiro muito alto
tecendo desenhos movidos pelo vento

essas folhas
o suco dessas veias 

esse sangue de animal assassinado!

como partem os pássaros para o além, parte o meu amor

talvez andorinhas nos telhados possuam hoje
a palavra que não digo
mas como eles miravam 
os veleiros arrastados fugindo da tempestade
como eles pregaram nossos movimentos
seco, de uma só vez, contra as paredes!
Deserção móvel? meu amor porque te amo

terça-feira, 17 de abril de 2018

inside

se deseja ser
uma oferenda para o sol

incendeie-se
e sugue a culpa
lave-se bem
lave o cheiro de cerca
e muro, lave-se

escave um poro
por onde escapar
escave um poro
cavalo azarão
escave de joelhos
nem um passo
para fora
escave um poro
loser, não há escape
sem resposta
sem saída, gauche
escave um poro


Fadwa Souleimane Tradução de Norma de Souza Lopes

A ti
Que está me matando nesses tempos
E a quem vem me matando nesse tempo
Tempo de morte
Esse tempo

Virá esse instante quando
Olhos nos olhos
Veremos que somos nada salvo o reflexo de nosso olhar
Que diz perdão
Nada mais
perdão

Observa este perdão em meus olhos
E as veias
A  luz persiste diante de nós

domingo, 15 de abril de 2018

amanhã (republicado)

amanhã será segunda-feira
correndo tudo bem
baixo sobre mim a tampa
fazendo as contas
do advento da agricultura até aqui
é impossível impedir
a perversidade dos que tem mais
não sei ao certo
o que tenho eu com o perdedor
da vida, trago só o que arranquei à unha
do passado, a fome da infância
e eu, aquele bar 24 horas aberto
onde homens escarravam discretos
e mulheres desfilavam
o cheiro de desodorante avon
pesadelos apagaram sonhos bons
mas estar feliz ou triste é uma balança
amar a praça, a dança, o sol
não tem nada a ver com boa sorte
ganhar ou perder é questão de convicção
para que lado pende o prato
enquanto ouço esse blue
e escrevo esse poema?
e depois de amanhã será terça-feira

shame blues

existir, ser feliz
no mesmo mundo
que aqueles meninos sírios
parece impossível
esperava ser amada todo o tempo
a liberdade, uma águia pousada
sobre o esforço do esquecimento
contou-me segredos terríveis
tenho tanta vergonha, baby
da futilidade
das minhas necessidades
não vou estar aqui, baby
mas, por favor não se esqueça
de me calçar
meus sapatos amarelos
bem sabe que só converso com poesia
nunca poderia ser de outro modo
a poesia é minha única verdade
e há muita poesia
e verdade
naqueles sapatos amarelos

sexta-feira, 13 de abril de 2018

antítese

sou a mulher do norte
norma esse nome
muita força pouca sorte

calisto e zeus
quem conta do corte
que desfere o golpeado?
não, nem toda fome
nem toda fome










quarta-feira, 11 de abril de 2018

tão pouco
é já é possível prever
choro e ranger de dentes
esse zelo
em lavar os o corações envenenados
é só nosso, amor
dê-me um minuto
é que seu cheiro sugiu
potente, me rasgando
não há solução para o que não pode ser


sábado, 7 de abril de 2018

de primeira

eu não estava pronta
para essa redoma de cristal
dos manuais de auto-amor
nas línguas antigas
talvez se possa dizer amor
sem se esconder
acordei com um nome
sangrando na boca
o silêncio vai estancar
foi numa terça-feira
que aprendi
ser livre
afeta o paladar

sexta-feira, 30 de março de 2018

hava nagila

dar a luz a um avatar
costurar o fio que junta
o tempo em três pedaços
ilusão, verdade e espaço
na ponta da língua
criar um mundo respirável

escrevo esse poema
para capturar a alegria
que, a despeito desses dias
de sombra
apossou-se de mim

domingo, 25 de março de 2018

DIVISA- Maria Mercè Marçal tradução de Norma de Souza Lopes

Ao acaso agradeço três dons: nascer mulher,
de classe baixa e de nação oprimida.

E o azul nebuloso de ser três vezes rebelde.