domingo, 30 de dezembro de 2012

50 dias serão o suficiente para que eu me convença de que o lugar de um revolucionário é na trincheira?
Em 2012 tive coragem de tirar os olhos de meu micromundoumbigo e olhar para macrocósmicomundo. Mas não muito.... Ainda.
Esse "golpe de olho", como diria minha mãe, teve efeitos catastróficos.
Em 2013 o estrago será maior.


N.S.L

30/12/12

O mesmo desejo que sinto de fazer com que um roteirista mude o final de um filme é o que me provoca esse poema de Adélia Prado. Ele me dá ganas de gritar: Diga alguma coisa mulher! 
No entanto eu sei: ele me afeta por que me lembra meus próprios silêncios.

ENREDO PARA UM TEMA

Ele me amava, mas não tinha dote,
só os cabelos pretíssimos e um beleza
de príncipe de estórias encantadas.
Não tem importância, falou a meu pai,
se é só por isto, espere.
Foi-se com uma bandeira
e ajuntou ouro pra me comprar três vezes.
Na volta me achou casada com D. Cristóvão.
Estimo que sejam felizes, disse.
O melhor do amor é sua memória, disse meu pai.
Demoraste tanto, que...disse D. Cristóvão.
Só eu não disse nada,
nem antes, nem depois.

Adélia Prado

sábado, 29 de dezembro de 2012

Cisco, argueiro

http://ww3.fl.ul.pt/unidades/centros/ctp/lusitana/rlus_ns/rlns05/rlns05_p157.pdf




Não sou mulher, não sou mãe,  não sou esposa,  não sou mestiça, não sou classe C,  não sou velha, não sou feia, não sou bela, não sou gorda, não sou sexy,  não sou boa, não sou má, não sou professora, não sou artista, não sou poeta, não sou alegre, não sou triste.
Eu sou é inédita toda manhã.

N.S.L.
29/12/12

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

diante das janelas escancaradas


diante das janelas escancaradas
para que entre o ar fresco 
e se desfaça o mormaço
luzes e árvores de plástico
escondem uma cidade degenerada
um coro uníssomo entoa
então é natal
a festa cifrão
o que você fez
tanto comprou
que vendeu-se outra vez

N.S.L
25/12/12

domingo, 23 de dezembro de 2012

New Bodyarte

N.S.L.
23/12/12
Hoje almocei no restaurante popular. E chorei muito enquanto comia. Um pouco por causa da música que tocava enquanto eu comia. A outra parte foi por que constatei que com 150 reais por mês eu poderia comer com qualidade todos os dias. Isso acirra minha vontade de desplugar desse mundo de glutamatos, edulcorantes e embalagens coloridas que nos faz trabalhar tanto.


NSL

21/12/12
A verdade sobre o que está posto quando me interrogo sobre minha pele, meu corpo não é um significante obscuro e enigmático, como eu julgava encontrar.
E apesar de eu não desconsiderar a perniciosidade da ditadura da moda, não tem nada a ver com a oposição aos padrões midiáticos.
A verdade é que meu corpo dói. Dói muito.
Não há uma hora de meu dia que eu não sinta essa dor. E por mais que eu esteja disposta a suportar os desconfortos de um mundo sem mercadorias, a dor do meu corpo faz minha relação comigo mesma algo atroz.


N.S.L

23/12/12

sábado, 22 de dezembro de 2012

Cinzelai a sangue, a minh’alma
Cortai, riscai!
Ó tatuadores da minha imaginação corpórea!
Esfoladores amados da minha carnal submissão!


Fernando Pessoa

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012


TEMPO PSICANALÍTICO, RIO DE JANEIRO, V.40.2, P.???-???, 2008
JAMES JOYCE: O AUTO-RETRATO

"A crença sintomática faz com que o enigma incida inicialmente sobre o pai. Se um enigma é “uma enunciação da qual não se acha o enunciado” (LACAN, [1975-1976] 2007: 65), Um retrato do artista quando jovem nos mostra esse sentimento de perplexidade e estranheza que a voz e as injunções paternas provocam em Stephen durante o passeio por Cork. Na medida em que não opera no sentido da constituição do campo dos ideais do eu (do bom cavalheiro, do bom católico, do homem viril, etc.), a voz paterna apresenta-se como uma “ressonância-oca”, uma espécie de ressonância significante esvaziada de significação que opera como uma pura sonoridade e que não deixará de ser determinante na construção joyceana da escritura. Se na Metáfora Paterna o significante do Nome-do-Pai substituise ao desejo da mãe e esse desejo é significado ao sujeito, aqui o enigma do desejo não é significado ao sujeito, ele permanece em seu estatuto de enigma. A operação metafórica cede lugar a movimento metonímico, haja vista a construção das listas de nomes, tentativas de localização e de inserção em uma linhagem simbólica, à qual
Stephen apela no momento de perplexidade.
Algo permanece em estado larvar, não nascido e, nas fantasias, o filho (S. D.) se substitui ao pai (S. D.). Tal movimento é facilitado por esse último na medida em que se considera mais como um irmão, às vezes um rival. Um pai severo? Jamais! A devolução do filho, supostamente puritano, “ao seu Criador”, uma referência provável aos jesuítas que o educaram, parece insuficiente para estabelecer o
sentimento de filiação. Nem mesmo as fantasias construídas de “um parentesco místico”, isto é, de ser filho adotivo, lhe garantem um lugar na linhagem simbólica, na galeria dos antepassados, contados
retroativamente até a quarta geração. 
A conseqüência disso localiza-se claramente na estranheza que marca a relação do sujeito ao seu próprio corpo. Desenhado como um enigma, esse corpo se apaga como um filme exposto ao sol ou se desprende do sujeito como a casca de um fruto maduro.
Com a psicanálise é possível perceber que para se atribuir um corpo, para poder ter um corpo e fazer algo com ele, o sujeito paga o preço da castração (SOLER, 1998). No seminário sobre o Sinthoma, Lacan inscreve a consistência corporal no registro do imaginário e esse corpo, que não se evapora apesar de sair fora a todo instante, é a única consistência mental do ser falante (LACAN, [1975-1976] 2007). 
Por consistência o psicanalista se refere àquilo que mantém as coisas juntas, tal como um saco. O corpo surge, assim, como pele, como um saco que mantém juntos um monte de órgãos (LACAN, [1975-1976] 2007).
Depois de dizer que ter um corpo para adorar é a raiz do imaginário, e que o amor-próprio e a adoração do ser falante pelo próprio corpo se devem à crença em que têm um corpo, Lacan afirma que “a idéia de si como um corpo tem um peso” que “é precisamente o que chamamos de ego”, dito narcísico porque suporta esse corpo como imagem (LACAN, [1975-1976] 2007: 146). Uma das vicissitudes de “termos” um corpo e não de “sermos” um corpo, é que podemos ter uma relação com esse corpo como algo estrangeiro. É o que acontece com Joyce na medida em que ele deixa cair, em que larga (liegen lassen) o próprio corpo(5). Ele não manifesta interesse algum por sua imagem narcísica e chega a experimentar repulsa por esse corpo
do qual se solta, ou ao qual larga, como uma casca se desprende de seu fruto. Se as pulsões são os ecos do dizer sobre o corpo, em Joyce o dizer não ecoa desse modo e isso faz com que o sintoma seja, não um acontecimento de corpo (LACAN, [1975] 1987), mas, um acontecimento escritural."



Artífice

Somos todos fabricados. E a sensação de fraude que me persegue nada mais é que a emanação do não ser que se realiza em mim.
Apesar de suspeitar que não podemos acontecer por decreto vou decretar mesmo assim. 
Se for para viver uma invenção, vou fazer a melhor a invenção de mim. 
N.S.L
20/12/12

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012


Atendendo ao convite de minha amiga Rosely Gonçalves estive ontem pela primeira vez no Sarau Vira Lata. O encontro aconteceu parte do tempo dentro do Museu de Artes e Oficios e o restante às margens do Monumento à Terra Mineira, no largo da praça. 
Participar desse evento foi um presente. Eu, que acho que a poesia sustenta aquilo que em nós é humanidade, vibrei com o que e pude ver: umas duas centenas de jovens desfrutando e recitando poesia em seus vários formatos.  
A presença do nome "Gutierres" no Museu não intimidou os revolucionários. A poesia revolucionária e questionadora do status quo foi presença marcante. 
A poesia lirica, o bit da poesia do hip Hop do Hap também. Não faltou poesia regionalista,  o repente e até uma certa poesia com tom da "causo".
Mais, vaidosa como sou, não posso deixar de dizer: o ponto alto para mim foi a oportunidade de ler meu poema "Coito Antropofágico" diante dessa galera. Fui a delírio. Por isso só tenho a agradecer aos organizadores e a Rosely que me convidou. Espero ansiosa pelo próximo.  

coito antropofágico

fuder com o mundo
fingir  deixar
ele penetrar
mão no seus quadris
enfiar fundo
meu poema no mundo

e correr pra dentro
pra gozar comigo
N.S.L.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Resenha Elvis & Madona

Acabei de assistir Elvis & Madona de Marcelo Laffitte. Gostei muito do filme  e tive vários motivos para isso: 
- gosto muito de filme brasileiro;
-adoro a precariedade do baixo orçamento (ela me deixa mais próxima do esforço performático e mais longe do show de efeitos);
-o filme é bem humorado e tem final feliz 
- a temática é atualíssima.
Em resumo o filme trata da história de uma fotógrafa freelancer chamada Elvis (Simone Spoladore) que faz bico como entregadora de pizza. Ela conhece Madona (Igor Contrim), uma travesti que trabalha como cabeleireira. Madona sonha em produzir um show de teatro de revista. As duas se apaixonam e Elvis acaba grávida.
O inusitado do filme é a pergunta que a própria Elvis faz em determinado momento do filme: o que é normal para uma relação?  
O filme é mais um que me ajuda a separar aquela tríade que eu pensava inseparável: gênero, sexo e amor. Pista aberta para a dança das identidades.
Recomendo. 

N.S.L
18/12/12

sábado, 15 de dezembro de 2012

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012





O ato de descascar carrega em si um furor simbólico impossível de ser absorvido de um só gole. Nele é possível perceber uma necessidade de desvelar o miolo, mas também de arrancar aquilo que cobre a essência.
Isso só para começar. Poderia dizer de répteis que se desfazem da pele a cada nova fase de crescimento, ou daquele problema que parece insolúvel e que deve ser descascado como abacaxi..
Quanto conforto você está disposto a renunciar?
Não pense ser tola a pergunta.
Na verdade é disso que se trata ser livre. Estamos presos a parafernália mercadoilógica do capital porque somos uma geração viciada em conforto.
Quanto mais desconforto pudermos suportar mais possibilidade de liberdade estamos abrindo.
Pense no carro mais confortável, a casa mais confortável, a TV, os móveis, os alimentos, as roupas. Quanto trabalho aprisionante é necessário para manter tudo isso?
Peneirando o que fica é muito pouco.
Vamos nadar contra a corrente. A liberdade vale alguns desconfortos, não é mesmo?


N. S. L.

09/12/12

sábado, 8 de dezembro de 2012

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Penas

Ás margens da fogueira 
sobre a areia
onde todos ouvem
suave voz
de homem
a letra da canção
me pergunta
porque eu não conto
o que quebrou  
minh'alma

não posso voar
todas as canções 
em que o amor
tem final feliz
deixaram bambas
minhas penas

N. S. L
06/11/12

sábado, 1 de dezembro de 2012


Em minhas aulas costumo explicar os morfemas como um sistema solar onde em cujo centro impera o verbo que, assim como o sol, irradia seus efeitos sobre as outras palavras.
Explico assim por que acredito no verbo como palavra central na linguagem. 
No entanto acabei de ler um trecho do " Articulação Simbólica: uma abordagem junguiana aplicada a filosofia do design" do  Marcos Namba Beccari que ampliou meu olhar. 

Lá pela página 189, depois dele ter dissecado o conceito histórico de imaginário ele me sai com essa:

" Discípulo de Bachelard e atuante do Círculo de Eranos, o antropólogo Gilbert Durand funda em 1967 o Centre de Recherches sur l’Imaginaire (Centro de Pesquisas sobre o Imaginário) em Grenoble-França, um centro de pesquisa dedicado ao estudo antropológico de narrativas míticas. Procurando elaborar uma classificação antropológica das imagens, Durand considera que “não se trata de classificar uma cultura em tal ou tal estrutura, mas de perceber qual é a polarização predominante, isto é, o tipo de dinamismo que se encontra em ação” (PITTA, 2005, p. 19). Seguindo o pensamento junguiano e bachelardiano, para Durand o arquétipo é vazio em si mesmo (sendo somente uma estrutura), mas ao entrar em contato com uma determinada cultura preenche-se dela mesma, produzindo assim um símbolo que, em sua vez, ao organizar-se com outros símbolos numa rede narrativa, forma um mito. Contudo, o antropólogo acrescenta a existência de uma dimensão mais abstrata, anterior ao arquétipo, denominada Schème (esquema). Trata-se da intenção fundamental, aquela polarização ou dinamismo predominante em determinada cultura, correspondente ao verbo, à ação básica (como dividir, unir, confundir, etc.), que permite ao arquétipo tornar-se símbolo (idem).

Volto atrás na leitura umas duas vezes por que aquela luzinha que se acende quando algo ancora acabou de brilhar. É se o verbo for também o centro do pensamento? Lembro do SENDO que aprendi com Manoel Antonio de Castro e novamente a luzinha se acende

No texto Beccari ainda cita DURAND:

A diferença que existe entre os gestos reflexológicos que descrevemos e os schèmes consiste no fato de estes últimos já não serem apenas engramas teóricos, mas sim trajetos encarnados em representações concretas precisas; assim, ao gesto postural correspondem dois schèmes: o da verticalização ascendente e o da divisão tanto visual como manual; ao gesto de engolir corresponde o schème da descida e o do recolhimento na intimidade (DURAND, 1989, p. 61).

E finalmente sei onde tudo isso esbarrou em mim. Aquela luta antiga para achar elementos apreensíveis do inconsciente e compreender minimamente minha flutuação simbólica interna pode realmente achar resposta  NESSE VERBO.  Ou seja, o que eu venho ouvindo,  e até tentando apreender a partir da poesia é: só podemos atribuir sentido ao que vivemos enquanto essa vivência está acontecendo. É no SENDO que mora o sentido e é por isso que tentar vê-lo ou classificá-lo depois é tão difícil. 
E o que muda nesse nada que eu esbarro todo dia?
- viver parece ser mais importante que pensar sobre o viver;
_ para persistir no tempo uma poesia deve atrelar figuração a ação;
_ preciso ensinar mais sobre pensamento e menos sobre gramática.

Será que isso ficou inteligível?
Ufa!
Ultimamente as viagem de ônibus, as esperas médicas e e filas intermináveis
tem sido meus meus lugares preferidos para ler e pensar.

Quando estou erótica até o toque da ponta do cotovelo do moço bonito  no ônibus me espanta. 
N.S.L
01/12/12

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

(C)atar

debulhar
a imagem
das coisas
tecer
destecer 
o real
e ao final
nem um grão
para contar 
a história

N. S. L

segunda-feira, 26 de novembro de 2012


Eu aqui perseguindo e chegando sempre, sempre, sempre no mesmo lugar.
A realidade é inapreensível  e o sentido que eu dou ao que eu vivo não expressa a realidade. 
Esse sentido é nada mas é tudo que eu tenho. 
Trágico!

N. S. L
26/11/12

domingo, 25 de novembro de 2012

Camilho do meio

Em sala de aula sou um design da educação, projetando o ensinar-aprender. E como todo ser que projeta, sempre paro para me perguntar qual o destino do que estou ajudando a produzir. 
Sei onde estou agora. Não devo continuar vítima de uma estrutura que exige de mim formar alunos adequados ao universo mercadoilógico imposto pelo capitalismo. É imprescindível também achar o caminho do meio entre a hipersensibilidade e a insensibilidade. 
É desse ponto que eu preciso avançar para produzir uma educação mais libertadora.
Ao meu redor tenho visto de tudo: aqueles que aderiram a insensibilidade para sobreviver, aqueles que jogaram a toalha devido a hipersensibilidade, e aqueles que como eu andam aos solavancos tentando o caminho do meio. Há ainda o pior exemplo de todos: aqueles que se diziam libertários e em função disso ascenderam ao poder e lá, na cadeira dos que decidem e planejam, aderiram ao discurso majoritário.
Isso não se dá apenas no micro universo onde circulo. São reações padrão à força dos ideais gerados pela era do consumo. 
Aqueles que não são capazes de ver o fundo vivem às margens fazendo tudo para obter o tal Camaro Amarelo. Nesse "fazer tudo" cabe trabalhar exaustivamente, roubar, contrabandear, trapacear e até matar.
Diante da impossibilidade de encher a boca grande do consumo alguns  se afogam em alopáticos, bebidas ou drogas ou perseguem o ideal  adultescente  de ser jovem para sempre.
Ainda preciso dizer daquelas vozes dissonantes que vem se ajuntado e comendo pelas beiradas o rabo da sereia capitalista. Poetas, artistas, designs, filósofos, antropólogos, sociólogos. Eles, às vezes próximos, às vezes distantes dos marginais que eu citei acima, ao seu modo sussurram a pergunta reveladora: o que realmente é preciso para ser humano? 
Eu sempre soube que onde eu estou hoje, como professora, talvez eu seja a única voz dissonante a qual meus alunos tem acesso. O trabalho solitário me exaure mas alguém precisa fazê-lo. Tenho tentado me ajuntar a outras vozes para diminuir o cansaço. 
Estamos concluindo o ano escolar e sei que em sua maioria, meus alunos irão apresentar progresso esperado pelo sistema. Me encarreguei de revelar a eles os segredos das tais provas externas. Mas gastei mais de um terço desse ano ensinando-os a pensar em coisas como:
-é descabido trabalhar dois meses para pagar um tênis e não comer frutas todos dia;
- o que eu visto não garante que eu tenha valor;
- precisamos de palavras que movam nosso corpo e nossa alma e nem sempre  as canções mais vendidas fazem isso;
- olhar as cores laranja-arroxeadas do céu pode ser melhor que frequentar o point mais badalado - e é gratuito;
- a poesia pode ser instrumento para o amor, para o lamento e até mesmo para a revolução;
- podemos aprender pelo simples prazer, não precisa ter função;
- mesmo que não se queira ser escritor isso não deve acontecer por incompetência;
- a TV dita padrões de beleza mas belo é ser humano;
Tenho ouvido de meus alunos algumas palavras que apontam para o resultado. Essas palavras vem de alunos que me pedem para contar mais histórias, dizer mais poesias. Ouvem em silêncio minhas elucubrações e depois e demonstram ter se apropriado delas.
Encerro com um aviso aos navegantes: estou de pé e meu lugar ainda é a sala de aula. Quando for sair aviso.

sábado, 24 de novembro de 2012

Inventário dos desejos sublimados de uma intelectual metida a besta

- uma mensagem automotiva como presente de aniversário;
- um churrasco para 20 pessoas em volta da piscina de de plástico;
- um curso de 30 horas sobre a coreografia rebolation;
- um telefonema erótico no meio do dia de trabalho;
- ingresso para um show da banda Calypso;
- uma coleção de 10 livros da Barbara Cartland;
- Usar, de dia, um longo com estampa de onça  (talvez naquele aniversário às margens da piscininha).

N. S. L
24/11/12

domingo, 18 de novembro de 2012

flagrante

Concluo meus poemas sempre com as mãos trêmulas e com um "Puta merda com isso é bom!" 
É preciso  dias, às vezes meses, para achar seus defeitos.
E eu sempre os encontro quando lanço sobre minha poesia um olhar flagrante,  fantasiado de olhar do outro. 
Então vem a vergonha. 
Não uma vergonha tímida de criança pequena atrás de perna de mãe. 
Mas uma  vergonha avassaladora de quem saiu de casa exultante com suas vestes novas e foi parada de repente por um adversário a quem se desejaria impressionar.
A vergonha que se sente sempre que o dissimulado arranca um pequeno quadrado ali perto do colarinho, e dispara, com voz em falsete:
_ Você esqueceu-se de arrancar a etiqueta.

N. S. L
18/11/12

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

E se o que nos mantém vivos for o desejo, essa entidade irrealizável?
Deseja matar a alma de um romântico? Esfregue as mãos bem sujas desse olho sobre o real que não funciona, todos os dias, em sua cara. 

quinta-feira, 15 de novembro de 2012


Sempre me admiro dessas biografias, essas entrevistas em que os poetas afirmam que escreviam desde a infância. Tão precoces...
Será que "o pequeno elefantinho" escrito na quarta-série também conta?

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Sem Nobel

quem sabe amanhã
depois que o metal 
percorrer seu sangue
você possa olhar sem enfastio
para o mundo que te cerca
sacudir a preguiça de viver
e ser simples 
como uma florzinha serralheira

então poderá dizer a verdade 
sobre ter desejado apressar a morte
no entanto
não espere Nobel 
ou aventura no Templo da Perdição
você  deve continuar 
que morrer é para os bons
e apesar do tédio
viver pode ser uma delícia

N. S. L. 
12/11/12


segunda-feira, 12 de novembro de 2012

carta para ser ignorada

trincar os dentes
só faz doer a mandíbula
a vida
continua correndo
moleque atrás de pipa



nem pornografia
nem poesia
arranca a estaca
instalada no plexo
fode-se e morre-se 
bastante por aqui
o amor dói pra burro


N. S. L. 
12/11/12

domingo, 28 de outubro de 2012


Inesperadamente
abrem-se as sombras
e sobre minhas dobras
um tímido raio de luz
é domingo
dia de viver

N. S. L
28/10/12
Quando a palavra não cura
e o silencio não se instala
o sono me abandona

N. S. L
28/10/12
Como vivo em um tempo que responde positivamente à minha compulsão por falar, o silêncio nunca vem morar em mim. Não encontra espaço vazio para suas possibilidades.

N. S. L
27/10/2012

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Compulsivamente você luta e se lava da raiva, do desejo, da vaidade e da inveja (e digo você porque para refletir essa imagem grotesca é necessário uma segunda pessoa) e quando finalmente pensa "agora estou limpo" nota que, como um palimpsesto,  é apenas um borrão do que já foi.
Uma baleia niilista te engole e você aceita. "É isso mesmo, não quero nenhuma missão nem quero que ninguém se converta."
Enquanto espera ser digerido se vê obrigado a olhar para si. Vê que não criou nada para por no lugar da sujidade. Ela te sustentava como um esqueleto e agora você é apenas uma massa amorfa sem escoras. 
Passa a ansiar por uma só nota, tirada daquela corda de onde você guardava o ódio que o faça ser vomitado de volta a vida real. 

N. S. L
24/10/12



segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Tudo isso é patético e eu sei. Mas preciso falar. Dizem que a reposta está em mim. Onde? Olho pra dentro e só vejo sombra! Até essa baboseira autorreferente, que ainda sustento a muito custo está me enfarando. A imobilidade me ronda como uma massa plasmática, se enrodilhando em volta de mim. Ninguém me salva do enfastio com a vida. O sinal vai bater me chamando outra vez e eu o responderei como uma operária. Irei a todos os meus compromissos, comprarei roupas, alimentos, e remédios, abraçarei meus filhos, meu companheiro mas nada vai mudar. O mundo vai continuar entregue ao trágico e nem meu abraço nem meu trabalho não vai salvar ninguém. Nem a mim mesma. 
Escuto as pessoas falando e me impressiona os motivos que cada um encontra para continuar. Nenhum deles me seduz.
Fico me perguntando quanto de cegueira é preciso para continuarmos como homens amarrados em cavernas. Mesmo que eu fizesse ao modo de Édipo e cegasse a mim mesma ainda sim esse holofote que acendi dentro de mim não me pouparia. A consciência, assim como um sol, não é algo que se apague com facilidade. 
Aqueles que me amam e se preocupam comigo, diante da verdade absoluta do argumento acerca da trágica realidade, me apontam a reencarnação com solução, mas quantas vidas seriam necessário para obtermos outro mundo? 
E nem tenho certeza se o problema é o mundo. Acho que acabou-se meu subtrato interno e isso nem quem me ama pode me dar. 
Vou continuar abrindo essa ferida por aqui. Enquanto houver sangue, há vida.

N. S. L. 
22/10/12

domingo, 21 de outubro de 2012

que acaso que nada

o que sara a alma
e seca as lágrimas
é a prece palavra
som de música
mãos de fada
bálsamo
sobre a dobras

quinta-feira, 18 de outubro de 2012



vasculho entre os entulhos do porão
apenas a fétida fumaça
de uma pequena fogueira 
interminável

nenhuma vontade de continuar
inventando a felicidade
um deserto veio morar em mim
nem suor nem lágrima me cura

N. S. L.
18/10/12

domingo, 14 de outubro de 2012

Olho as pichações nas paredes da escola nesse domingo de Escola Aberta e nada me diz mais que os Versos Íntimos de Augusto dos Anjos. Resta saber quem seria o interlocutor dos poeta: eu ou eles?

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -


Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Por que o que serve pra nada me seduz até as vísceras...


N. S. L.

Parecia que não havia saída, mas na verdade eu estava procurando no lugar errado.

Tanto tempo procurando o belo e de repente essa iluminação: o belo é aquilo que genuinamente surge de mim, sem esforço de cópia.

N. S. L. 

terça-feira, 9 de outubro de 2012


Pintei a fachada de alaranjado para morar numa casa amanhecendo. Alguém  pixou sua assinatura de azul sobre ela.

Punhal na carne, a violência gratuita me fez escrever

Risco obsceno


O rasto

marcado de piche
no tapume
deprime

Violento
o traço no muro
fere a fachada

De dentro
tento
desprezar a ofensa
e ignorar o risco
obceno

Demorei semanas para diminuir a dor. Conversando com uns camaradinhas resolvi ver de perto o discurso do pixador. Fiquei misturada. Na vontade deles achei  raiva pura, raiva pela raiva. Elogio a transgressão, que de certa maneira eu também acolho. E agora, pensar o que?
Hoje achei esse Dingos me mostrando outro caminho. 

Meninos que pixam meu muro, no fim o que todos queremos é cura. E a arte também cura. E tem mais cor.

domingo, 7 de outubro de 2012


Um corrida desenfreada perseguindo a expressão suprema, a palavra ou a imagem que diga tudo que não cabe em mim. 
O que parecia ser a busca pela arte-poesia legitima e genuína revela-se na verdade uma procura por mim. Não aquele eu que eu vinha sustentando desde sempre: os cabelos alisados e pintados, as inúmeras dietas, as vitaminas, as depilações, manicures, os ansiolíticos e toda a parafernália que eu e a maioria das mulheres que eu conheço sustenta para não ser-se. 
A procura me trouxe ao que eu sou em essência: uma mulher, doce e louca,  gris e gorda,  sábia e tosca. Por enquanto.
Já não me envergonho da minha poesia autorreferente. Não poderia ser diferente dado a tal corrida.  
De repente me senti uma parabolicamarada, um grande imã do qual a s pessoas se aproximam, outra vibe, outras sensações.



Vibe: Vibrações Inteligentes Beneficiando a Existência.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

nu

corpo sem roupa
corpo exposto
corpo branco
corpo preto
corpo gordo
corpo ereto
corpo torto
sexo em pelo
sexo solto
puro belo 
sem adorno 
corpo 
só, o corpo

N. S. L.
05/10/2012

Será uma semana em casa. Vontade enorme de empoderar os muros e paredes desse terreiro da cidade, a periferia, com poesia.
N. S. L.
Fim de um campeonato de futsal, rouba-bandeira e queimada. Rios de lágrimas na saída e eu aqui pensando no Maturana.

“a competição não é nem pode ser sadia, porque se constitui na negação do outro (...) A competição é um fenômeno cultural e humano, e não constitutivo do biológico” (Maturana, 1998b, p. 13).

E bem capaz de haver outro modo de ensinar regras e trabalho em equipe...

sábado, 29 de setembro de 2012

Sobre a nossa reunião dessa semana do " Escola que aprende"


Aprendi com um de meus mestres que construir conhecimento coletivamente exige "roda", exige abolir hierarquias, exige acolhimento de idéias, mesmo as mais miúdas. E nossas primeiras idéias não tiveram nada de miúdas.
Estamos na segunda reunião mas as expectativas são de anos. Não importa. Expectativa pode ser um "vir a ser", a lacuna onde a ação se encaixe. Com tempo chegaremos numa prática educativa melhor.

Sigo nutrindo aquele sonho de começo de carreira: Trabalhar na melhor escola do Brasil. E sei que ela não se fará sozinha, nem da noite par ao dia.  Meu lugar utópico, a Escola da Ponte, demorou trinta anos para ser o que é. Sigamos trabalhando.

N.S. L. 

sábado, 22 de setembro de 2012












Teu texto é muito claro e esclarecedor, ítala. Viver, nesse estágio terminal do capitalismo, tem sido duro. De arte, de dar aula, de medicina, de faringelaringologia. O perrengue é que vamos sendo coisificados. Viramos código de burros. Abduzidos e abilolados pelo dinheiro e pelo trabalho. E esquecemos como é que se vive. O sistema neoliberal matou a utopia. Não imaginamos ter alternativas. mas te


mos. É preciso coragem. Tirar o fio da tomada. Cuidando para não se achar maluco. “q não seja o medo da loucura q nos faça baixar a bandeira da imaginação”. E aí de repente, estamos ligados à vida, à invenção, a tudo que passa e fica porque vibra na nossa onda. Acho q temos q ter coragem muita para nos desintoxicar desse tempo da produção, da coisa, do código de burros. E desejar outras coisas. A publicidade desenha nossos desejos, que na verdade, são os deles. e nos faz endividar a alma p/ consegui-los. Eu não me reconheço neles. O carro do ano, a casa própria, a mina da capa. É preciso se desintoxicar disso, ítala. E reconstruir uma vida do tamanho da gente. Slow hand, slow food, slow life. Enquanto vida houver.

Nos setenta, o inimigo era um espantalho, um general bufão, que espantava os pássaros e bichos da horta. Com a tortura e a repressão. Era um inimigo visível que nos deu garra para guerrear. Hoje o mercado faz o papel do espantalho, com sua cara sem rosto, com seu poder invisível. Como um agrotóxico. Vc introjeta o inimigo. Ele mora em vc. Como? Incorporando a censura e os desejos impostos pela propaganda. É muito mais difícil a briga. Lutar contra um inimigo q vc não identifica, não vê. Haja ninja. Mas somos ninjas imbatíveis. Operamos pelo faro, pelo nosso radar transcendental. E então, ele passa a ser visível. E uma das suas formas, é o próprio agrotóxico que nos envenena a cada mordida e nos faz perder a visão no escuro, q deixa tudo embaçado, vago, tudo pastel. Recuperar o humano, o sensível, nossa destreza e asa. Isso pode ser um bom início. Agrotóximo go home. Em todos os sentidos. Na comida, nos desejos, nas relações. E não ter medo de mudar o círculo de amizades. De ficar sozinho. Outras pessoas na mesma vibe virão. Como sempre. Meu leminha é há muito tempo: saúde, discernimento e entusiasmo. E que venham os moinhos de vento, os dragões, o escárnio. Saberemos enfrentá-los com um sorriso de imenso prazer.






Ricardo Chacal
Desde que ganhar a vida virou trabalho excessivo, ando perdendo a vida...

quarta-feira, 19 de setembro de 2012





Estou aqui revendo as fotos da apresentação do VO(O e pensando em algo que aprendi com Ricardo Aleixo na oficina PALAVRA FALANTE. Para se aproximar de um poema, apresentá-lo em perfomance, é preciso chegar em sua essência.
Trata-se de usar a voz como uma faca afiada para chegar ao "osso" como diz Ricardo. Alcançar o primevo, o gesto inaugural do poeta ao gerar o poema.
Essa é outra marca que a oficina me deixou.
Estive hoje no OI FUTURO e depois de me deliciar com o uma infinidade poética de Xico Chaves, e viajar nas ilustrações de Mario Vale sai de novo com mais perguntas que respostas.
1° Como pode ser a OI uma empresa tão chulé e financiar proj


etos de arte tão caros?
2° Será que algum dia eu terei grana para executar um projeto que use pelo menos a metade dos recurso que vi em “Órbita - Poética - Xico Chaves” ?
3° Será que é isso que eu quero?

Sem graça. Perdi a poesia por causa do Mecenas.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012


Três meses, esse foi o tempo que pudemos desfrutar do brilho de Ricardo Aleixo e sua (nossa) oficina PALAVRA FALANTE. 
Por mais que eu diga nenhuma palavra fará jus à qualidade do conteúdo veiculado nessa oficina. Traçamos com Ricardo Aleixo um percurso de desautomatização da voz e do corpo. Traçamos também um caminho teórico robusto acerca de poesia e performance. Por nós passaram poesias de   Velimir Khlébnikov, Jerome Rothemberg, Augusto de Campos, Bashô, Raymond Queneau, Hans Magnus Enzensberger, Yi San. Também ouvimos teóricos como Paul Zumthor, Humberto Maturana, Richard Bauman dentre outros. 
A partir de uma das dinâmicas da oficina, a bola, pudemos renunciar  a condicionamentos corporais em favor de posturas importantes para a performance poética. Nessa  dinâmica passamos a tomar consciência do corpo em relação com a bola, sem nos preocuparmos excessivamente com o desempenho. 
Outra dinâmica usada por Ricardo foi a roda. Da roda, estrutura sine qua non da oficina, emanava um voz que, sendo mais que a soma dos vários "eus" do grupo, proporcionou relações, acolhimento, sentido e direção para o grupo.
Com tudo isso não poderíamos nos furtar de um resultado brilhante. 
No incio de setembro Ricardo Aleixo batizou o VO(O - Coro de Vozes Comuns para Usos Incomuns, e já na primeira apresentação pudemos experimentar a alegria do reconhecimento de um bom trabalho. 
Mas o VO(O é mais que produto. VO(O é um coro de afetos construído a partir do trabalho de um mestre.
Muito obrigada Ricardo Aleixo. Sem você nada disso teria sido possível. 
Grata também a Beatriz Ferraz, Ele Iram, Larissa Amorim Borges, César Macedo, Humberto Leandro Régis Silva, Rosely Gonçalves, Bruno Brum, Haley Caldas que foram RODA comigo no VO(O. 

Algumas pessoas são simplesmente boas e você talvez  não tenha uma pista da extensão do quanto bem me fez. 
E mesmo que eu não ache as palavras suficientes para agradecer gostaria de repetir o ritual de felicitações.
Desejo pra você muito brilho no olho para ver inúmeros céus rubro-alaranjados sobre sua cabeça.
Desejo a você ouvidos macios e atentos para ouvir as declarações  de quem te ama como o som de cem  pássaros cantando. 
Desejo a você pés descansados para caminhar e levar a caminhar aqueles que se pensam sozinhos. E assim estar só apenas quando desejar.
Desejo a você braços dispostos a dançar mas também dispostos às lutas pacificas.
Desejo a você uma voz disposta a propagar a alegria de viver apesar das tristezas inerentes ao ser. 
E finalmente desejo a você força para, sendo todo em um só,  corpo, mente e alma, iluminar e iluminar-se. Continue a alegrar alegrando-se. 
Feliz Aniversário Ricardo Aleixo.

sábado, 15 de setembro de 2012


Foi assim. Um dia, há pouco tempo atrás, tudo aquilo que eu vinha pensando se juntou dentro de mim. E o futuro deixou de me preocupar tanto. Percebi que aquele imprevisível assustador que eu via lá no meio do túnel estava ao meu lado o tempo todo. Venho sobrevivendo a ele de maneira primorosa. Mais que sobrevivendo até, passei os últimos quarenta anos fazendo do imprevisível o melhor de mim. E isso não é algo que se deva temer.

N.S. L. 

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Já deu. O Dragão não se tornou princesa. Esvazie. Corte na jugular isso que pretendia ser afeto. Não vai dar para se sentir feliz hoje. Nem você esperava isso.

Em movimento, nem sempre na direção certa.
Pra dentro, para fora, para não se perder nem em mim si nem no outro.
Mais um dia, mais um dia, mais um dia.

E chore. Quem sabe diminua a dor. Eu não ia mesmo querer ser aquilo que você deseja que eu seja.

terça-feira, 28 de agosto de 2012


Estou aqui pensando em como os sistemas institucionais do nosso tempo se apropriam do que é revolucionário para mascarar (ou matar)  uma renovação.

Indiscutível o quanto a obra de Guimarães Rosa é revolucionária no que diz respeito a sua proposta para a vida. Mas vejam só: no final da década de noventa (1998 a 2002) a Secretaria do Estado da Educação de Minas Gerais apresentou uma proposta chamada Escola Sagarana, nos moldes dos pensamentos rosiano, ou seja, uma proposta de educação para a vida, que concebe a formação da pessoa em uma outra escola, outro paradigma de homem, de sociedade, de mundo, cujos fundamentos não deveriam ser mais a dominação, a separatividade, a linearidade. 
O que deveria dar base à essa lógica seria a compreensão da sociedade, do mundo como uma grande teia, tecida por todos os viventes, onde cada um, na sua singularidade contribui para essa grande construção, fundamentados no respeito, na cooperação, na liberdade e na solidariedade.

A proposta não mudou nada. As escolas continuam exatamente como sempre foram, um lugar de linearidade, sequencialidade, ordenamento, do mérito, do individualismo e outros conservadorismo. Mas o discurso "sagarana" segue  afinadíssimo. 

Acho que a única coisa boa foi a semente que essa proposta plantou em mim. Sigo de dentro, como a raposa do garoto espartano, comendo as vísceras desse sistema doente. Ao toque de Guimarães.

Com Guimarães Rosa, um retorno precioso ao grego e seu physis kruptesthai philei, Manoel António de Castro resgata o sentido original do ser e o nada. Por mais de três  horas o professor foi desvelando uma a uma as diversas palavras que constituem o ser sendo. Dentre elas as que mais ouvi foram:  entre, sendo, , possibilidade, verter, gestar e mais preciosa para mim: o vazio. Não aquele vazio malévolo que trazia comigo, mas um vazio novo, aquele onde irão morar todas as possibilidades. Aguardo ansiosa pela aula de hoje.

Techos 

Seguindo Leibniz, se nada é sem causa, desde que se conheça a causa, é possível conhecer toda e qualquer coisa. As pesquisas no mundo inteiro são guiadas pelo princípio do fundamento. E é em torno dele que se estruturam todas as Universidades. Daí predominar o educar enquanto instruir,onde se perde a dobra. Para reintroduzi-la é necessário lutar por um educar poético-originário. Segundo o princípio do não-fundamento, há uma outra possibilidade no educar, porque implica um outro saber. Que saber é esse?  Reforçando este saber e nos lançando em suas trilhas, Guimarães Rosa disse no conto “O espelho”: Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo. Se o nada acontece e acontece como milagreele pode fundar, mas jamais ser compreendido ou conceituado/explicado como um fundamento, como uma causa. Os pensadores medievais já diziam: Ex nihilo nihil fit (do nada nada se faz). Mas todo milagre diz da presença de um poder não-causal, não redutível a uma explicação causal. É um poder certamente mais poderoso (se isso fosse possível dizer), porque irredutível ao domínio racional, causal. Aí não há causa, porque é o nada acontecendo. Este é o poder do pensar. É impossível querer reduzir toda a realidade à possibilidade de determiná-la através de um fundamento. Pergunto: Qual é a causa do silencio? Qual o fundamento do não-saber? Podemos lembrar Édipo, a personagem-questão do humano de sempre em sua dobra. Achando que podia saber tudo e determinar o seu destino, descobre no final que, em vez de vencê-lo não o cumprindo, o cumprira. Soube que nada sabia e arranca os olhos, o sinal para o grego do não-saber por não poder ver, de onde provém todo saber. Não podemos confundir ver com olhar. Quantas vezes olhamos e não vemos! O ver que sabe é prévio a todo olhar, assim como o que somos é prévio ao estar sendo. Só por já sermos é que podemos estar sendo. O saber do pensar é o desafio poético de chegar a ser o que já desde sempre nos foi dado para sermos: nosso próprio. Édipo ao arrancar os olhos demonstra que sabe que não sabe por mais que parecesse saber. É o eclodir do saber do pensar. Trata-se de um saber sem fundamento.

Me fez lembrar de uma ocasião em que perguntei para Ricardo Aleixo para que é educar. 
A resposta: 
_ Para nada.

http://travessiapoetica.blogspot.com.br/

domingo, 26 de agosto de 2012

Skateland - Juventude Perdida





Melancólica. Acabei de ver Skateland de John Hughes. A década era a minha e guardada a distancia Brasil/EUA eram minhas as questões postas no filme. Me divertir, continuar a curtir ou crescer , ser "alguém na vida". A tradução ruim "juventude perdida" me pôs a fazer outra reflexão: nós que não nos perdemos também estamos no vermelho. A juventude se foi.
Ao fim do filme perguntei a minha filha de 15 o que ela gostaria de ter feito aos 40.
_ Carreira, casa, filho, marido (com mais glamour, ela sustenta)
Foi exatamente o que fizemos. então porque este gosto amargo na boca?

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Muito boa para hoje essa fala do Professor Antonio Jardim UFRJ


http://www.youtube.com/watch?v=TI1SEnZJ8FA

Problemas da prática docente (modelo conservador)

1º- sequencialidade, sucessividade e  serialidade do entendimento de como o conhecimento se processa
2ª privilegio da excessão a média  o da média a excessão (excessão entendia como individualidade, média é o credencia pra o conhecimento)
3ª privilégio dado a documentação e ao suportes (informação) e não a que este suporta (pensamento cuidado)
4ª privilégio dado ao que nos chega pela percepção visual em relação as demais possibilidades
5ª crença ingênua na separação entre teoria e prática
6ª privilégio dado a linguagem entendia como representação em relação a linguagem entendida como disposição do real (ser) para o ser (real)
7ª preocupação no exercício do controle a diferença da dinâmica


Superado tudo isso o coração pode até não ser um "coração máquina" . Em referencia ao texto de Tsekung (http://catatau.wordpress.com/2009/01/15/o-homem-que-desdenhava-a-maquina/

domingo, 19 de agosto de 2012

Ando experimentando, mais que antes, a alegria de olhar dentro dos olhos da verdade sobre mim. E tenho doído menos.
Um pequeno insigth que reverberou no sonho da semana passada, a busca por outros sentidos. Acredito que a voz seja uma extensão de todos os sentidos, mas em especial o sentido do tato. Depois da oficina de ontem essa ideia ficou se repetindo em mim. Compreendi que a voz me toca e toca o outro na relação. Amplia minha ideia sobre o corpo. A visão, por exemplo, é um sentido de distancia. Vejo de lo
nge e posso sentir isso de longe, mas a voz, assim como a pele são instrumentos de proximidade. Serve para aproximar. Li hoje num estudo de Ricardo Aleixo a palavra "ouver". Ouver também é um sentido suscitado pela voz. Nem sei por que isso me alegra tanto.
Ou talvez eu saiba.
Mesmo que eu envelheça ou perca o vigor e a flexibilidade, ainda terei a minha voz.

domingo, 12 de agosto de 2012

Falta de pai

A falta de meu pai significou de maneira excelente a falta.
Era falta concreta, com nome e tudo.
Mas suportar o vazio da falta depois de sua volta foi duro.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

No sonho eu estava diante dos alunos e pedia para que eles identificassem outros sentidos. Mas não havia texto para significar, eu estava falando de coisas como tato, audição, olfato, paladar, visão.
Um aluno perguntava:
_ sôra, o calor é um sentido?
O sonho terminou antes de eu responder.
Tou aqui com essa pergunta. Não estaria na hora de aprender/ensinar acerca de sentidos  para além dos textos, presentes e vividos no corpo?
Como ser educadora nessa escola esquizofrênica que precisa domesticar o corpo nos espaços para garantir a própria insensibilidade?
Como lidar com esses corpos que pupulam na sala de aula, por não se saber ou não conhecer o próprio sentir.
Meu inconsciente acusa. Nenhuma anestesia será suficiente dessa vez.

Norma de Souza Lopes

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Nunca participei de um concursos literários. Esbarro sempre na cláusula "inéditos" dos tais.
Agora estou guardando poemas. Já tinha vontade de guardar. Só que não resistia às postagens instantâneas.

Sazonal


Não colha verde a poesia
um poema precisa amadurecer
para adoçar
29/10/10

e

Sem fleugma


Eu que ensinei a contar cores no céu
preciso agora de mãos
que me atravessem a rua
pra ver a lua

Pouca paciência para esperar
que floresça uma buganvília
como esperar que amadureça uma poesia?
15/05/12

Apesar da irritação que me dá em estar cedendo a um esquema alheio a minha vontade, confesso que é  outra experiência. Observo e que cada poesia  vem de um jeito. Algumas até doem se eu mexer. Outras a cada vez que abro mudo. Talvez isso seja bom.

Norma de Souza Lopes

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Essa semana me perguntaram se eu poderia colocar uma faixa de vereador, filho de um antigo prefeito, na porta de minha casa.
Pedi um dia para pensar.
O tal prefeito foi alguém que, em seu momento, forneceu algumas respostas decentes para a educação, área de meu interesse. Vai que o filho tenha a mesma veia?
No dia seguinte tomei minha decisão. Não!
Me lembrei de meu papel como educadora comunitária, e o que esse trabalho representa. Politica para mim é aquela que o entregador de verdura faz quando nos pede para distribuir 200 quilos de legumes todo domingo. Ou mesmo aqueles oficineiros que, voluntariamente ensinam futebol, fotografia, dança, artesanato todo fim de semana, sem faltar. É essas são as políticas que minha comunidade precisa, por não ter acesso aos seus direitos supostamente garantidos pela Constituição.
Se esses meus companheiros de luta forem candidatos algum dia, talvez eu pense em vestir sua camisa, ou até mesmo pendurar uma faixa sua em minha casa.
O resto ainda é apenas pano para a fachada.
 
Norma de Souza Lopes

Caem as bandeiras

O que fazer quando as bandeiras tombam diante do poder? Aqueles que reivindicavam para si o papel de esquerda entrarão para a história como direita galopante. Sacrificam crianças em prol da domesticação de corpos e espaços, ou seja, a ordem acima de tudo.
Me cansei de ser o galo de briga, mas me embrulha o estômago o silêncio conivente. Penso no que pode essa palavra lâmina em minhas mãos contra a retaliação silenciosa e cotidiana. Ainda não encontrei resposta.
Há que se pensar formas. Por hora mantenho minha firme convicção de não dialogar com quem quer me dominar. Não me esquecendo que a sedução é a pior forma de dominação.
Que pese sobre nós a "carga" horária. É fácil esquecer que nem sempre a sala de aula é o melhor lugar para o conhecimento.
Norma de Souza Lopes

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Resenha "Um sujeito sem qualidades de Jean-Clade R. Alpen

Ontem a pedida dos alunos do primeiro ciclo foi o livro "Um sujeito sem qualidades" de Jean- Claude R. Alpen. O livro atraiu os pequenos por causa do pêlo (uma espécie de camurça na capa). Quando perguntei sobre a capa sugeria a primeira resposta foi engraçada: " O nome do monstro ' é sujeito' professora?"
Mas a personagem não tem nada de monstro. Trata-se da história da trajetória de Arnaldo, um artista em busca do que realmente quer. Mas contada de maneira que criança entenda.
Arnaldo mora sozinho numa cabana no alto de uma montanha. Ele acredita ter alma de artista, tamanha é a sua sensibilidade. Tudo ia bem e ele vivia feliz apreciando as belezas da natureza ao seu redor. 
Me chamou atenção o fato do livro parece o ócio criativo (descrito por Domenico De Masi).
Um dia, porém, percebeu que faltava algo: alguém para compartilhar sua sensibilidade artística. Decidido a encontrar uma companhia, Arnaldo resolve procurar seus vizinhos, três espécies diferentes de aves: o sanhaço, os corvos e pardais. O que ele acaba encontrando, no entanto, é apenas incompreensão e decepção. Seu vizinho fazem com ele uma espécie de bulling chamando-o de gordo e até d epreguiçoso.
O livro propõe para as crianças, a partir do texto e das ilustrações perfeitas de Jean-Claude, uma reflexão sobre o artista,  a solidão e vida em sociedade.
As crianças gostaram da conclusão. E eu mais ainda.

Norma de Souza Lopes

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Começou ontem no SESC Palladium a Oficina CORPO, SOM, PALAVRA, IMAGEM com Ricardo Aleixo. Estive lá com Carol Souza, sentanda confortávelmente diante de Ricardo Aleixo por três maravilhosas horas, tempo no qual nosso interlocutor discorreu acerca do corpo, de seu papel de midia primária para ser e estar.  Ricardo ainda discorreu acerca de multimidia e intermídia, imagem. imaginário e imaginação, percepção, observação, observado e o ato de observar. tudo isso com uma profundidade surpreendente para ao pouco tempo que tínhamos.
Ricardo ainda apresentou um rico exemplo de poesia e imagem (haicai) .
Os parceiros de oficina também foram muito importantes para o decurso, colocando questões que tornaram a apresentação fluida e inteligente.
Fomos apresentados um um novo instrumento (acredito que se chama "Trovão") e suas múltipas sonoridades.
Estou na espectativa para hoje.


Norma de Souza Lopes

Resenha Chico, o caminhador


Na aula de leitura de hoje a escolha do livro foi feita por mim, tendo em vista uma proposta de ilustração de poesia que executarei na semana que vem.
Escolhi "Chico, o caminhador" de Ana Raquel e Fernado Brant. Ao contrário dos outros que lemos esse ano, o livro em questão começa com as ilustrações e só depois Brant " pôs a letra".
Ana Raquel fotografou comunidades ribeirinha do velho Chico e montou belissimas ilustrações. Com ela seduziu Fernado Brant para cirar o texto. O Resultado foi um misto de imagem poesa/música que toca o coração.

o rio nasce de dentro do chão
a nossa terra é que é sua mãe
a água pouca e  limpa que brotou
com outras águas da serra se juntou
vai seguindo o ribeirão



Os alunos apontaram imagens recorrentes de peixes, bicicletas, botões de âncoras, barcos, rendas fuxicos e peixes que dão o tom do interesse das artista pela cultura do povo que vive e se alimenta do rio São Francisco.
Grata leitura

Norma de souza Lopes