sábado, 30 de novembro de 2013

Ambiguidade

no Muro do Sartre
ela conheceu Lucien 
passou a curtir 
sexo anal
sentia-se 
macho

NSL
30/11/13

A memória dos cachorros


não acredito na memória
nem na minha nem na de ninguém
cachorros sim, podem contar histórias
eles estiveram presentes 
nos momentos mais importantes

estavam comigo
quando aprendi a brincar
presenciaram meu primeiro 
banho de chuva deliberado
contrariados, é preciso dizer

e foram os cachorros 
os primeiros a me contar
sobre a morte 

NSL
30/11/13

Remanescente

unhas feridas na queda 
não evitam o desamor

mas de nada vale o rancor
no final, é nos braços
que levamos nossos pais

NSL
30//11/13

perfume de periferia

[Dario Miale]
poetas colecionam amores
e nunca desistem 
principalmente 
dos que tem seus nomes 
em letras de canções 
poetas não se matam mais
já não estão sozinhos

amor vagabundo é vicio
basta um gole
mais vale a felicidade fácil
churrasco ao meio dia
cerveja na calçada
música cafona
e crianças ao redor

poetas sofrem e choram 
contemplam de longe
amor perdido
irritantemente feliz 
sem esquecer que
apesar da bela grama
todo mundo é castrado

NSL
30/11/13

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

composição

mergulhar na infância
e mirar com graça
mãozinhas
e joaninhas em fuga
na horta

o canto da cigarra
abafado pelos gritos
do pai e da mãe
na cozinha

ah, manoel de barros
me ensina a inventar
memórias felizes?

NSL
29/11/13

Gorado

diziam ser o pequeno Diego 
filho do Cirilo, um caminhoneiro 
que se meteu a bodegueiro

o olhar romântico do povinho
achava o rosto e a crânio do guri
escarrado e cuspido os do vendeiro

até que a mãe apresentou como pai do miúdo
um ex-presidiário proxeneta e fanfarrão
sem honra nem disposição

o povo da cidade perdeu o fascínio 
e o Cirilo seguiu seus negócios com a família
se servindo da  mãe - e do menino

NSL
29/11/13

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Inflamação

de dez em dez anos queimo cartas
mas há pontos costurados e visíveis
cicatrizes de amor nunca somem

ah, este amores perdidos
capazes de lavar e pentear-me os cabelos
como quem cuida de um ancião

nunca tocam minha pele febril
tantos cuidados, assepsia
e eu a espera de arranhões


NSL
27/11/13 

Sinais de fumaça

nem toda manhã é amor
dividimos o querer
ora eu, ora você

anos a fio 
te esperando dizer
hoje leio signos

o abraço trêmulo
é a senha do desejo
a sombra silente no rosto 
demanda precaução

sem violência
recolho cada grão
das memórias 
que calaram tua palavras 
de amor 
e de medo

NSL
27/11/13



Silente

como não amar 
sua curva na coluna
um corpo que recua
e interroga ao mundo
te amo como espelho
por ser aquela que
até na forma
deseja aprender

e te amo pelo caráter
insolúvel, puro
garota serena
autêntica
Lorena

NSL
27/11/13

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Crepúsculo

[Luciano Candisani]

às horas: dezoito
novembro de mês de tornados

sobre a cabeça

no colo 
um corvo amarelo chora
acalante-o

uma sombra avança
sobre a réstia de sol
mergulhe

feche a porta
para o absurdo 
do mundo 

confie
a poesia te trará a tona


NSL
26/11/13

Aboio


[Adam Jahiel]


rápido e rasteiro
o poeta 
laça palavras
nas pastagens 
do pensamento

palavras são os bois do poeta

NSL
26/11/13



Transgressão

sempre que eu brincava na rua a mãe me batia
agora é na rua que eu invento a desobediência 
brincando de poesia

NSL
26/11/13

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Deusa de festim

[Fabio Fabbi]

ando cansada de ser mater dolorosa
uma miríade de deusas da fertilidade
só para gente padecer no paraíso
que falta me faz uma deusa de festim

na próxima maternidade juro que perco o juízo
e trato de parir um tamborim

NSL
25/11/13

era uma menina triste

[]

era uma menina triste
conversava com muros e grades
comia folhas nos cantos úmidos do quintal
a fome havia roubado
seu lugar de corpo alimentado

era uma menina triste
companheira íntima da raiva
sem amigos de verdade
a violência havia roubado
sua capacidade de ser tocada

era uma menina triste
rodeada por homens maduros
barganhava amor por sexo inseguro
faltava o que o incesto havia roubado
seu nome na família
sobrinha, irmã, filha

NSL
25/11/13


refluxo

um palco de dois palmos
num átimo sou hilda, adélia, virginia
costuro bordas, desvendo o vazio
irmano com uma gangue 
de amantes das palavras

eu não sabia que existia
esta qualidade de alegria 
sutil, destilada, volátil
capaz de escorrer 
por dias sob a pele 
resto de orgasmo

fosse a vida um sarau
eu acolhia feliz
o nascer ao avesso
em que se converteu
minha existência

NSL
25/11/13

domingo, 24 de novembro de 2013

Amuleto


Estou costurando bordas para fazer um poema-patuá.

agulha e linha é a alegria  que ganhei num sarau. 


NSL
24/11/13

sábado, 23 de novembro de 2013

Estive ontem no Bar do Bozó, no Barreiro,  para desfrutar mais um sarau com a galera do Coletivoz Sarau de Poesia, Sobrenome Liberdade, Sarau Vira Lata e Poetas Ambulantes. Para estar lá contei com a logística e generosidade de Debora Antoniasi del Guerra,  uma das amigas caras que fiz nos encontros do Coletivoz. 
Como sempre volto enebriada e convicta de que ninguém segura a poesia quando o veículo é o sarau. Encontro sublime de poetas e cronistas da vida que vivem da borda, pra borda, e na borda.  É foda assistir a carícia da literatura na cara do Rap solto na voz de meninos e meninas do repente. Fiquei maravilhada com a dinâmica poética do pessoal de São Paulo, performance poética das ruas e dos ônibus em SP. 
Mais uma vez constatei o óbvio, somos nós que fazemos a nossa mídia. E ela funciona por que faz valer a politica do encontro. Aprova disso foi o Bar do Bozó lotado - e a propósito é preciso dizer que o Bozó é um poeta fera.
Muito obrigada a todos que tornaram este encontro possível. É este amor que enche meu copo vazio. Dokttor valeu a companhia. Você tem razão: é uma oração. 

NSL
23/11/13  

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Inveja

entre a madeira morta do assoreado
seis capivaras descansam

despretensiosas 
compõem o crepúsculo vespertino
plácidas como a água

NSL
21/11/13

Constatações

cinco segundos e o pensamento muda;
quatro décadas e corpo ensina;
três voltas pelo universo;
duas doses extras de lítio;
um século e a ciência mostra que é mágica.


NSL
21/11/13

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Quanto cabe no vazio

o dia de arrancar as coisas chegou
o caminhão está à porta

comece encaixotando tudo que é solto
e arrancando os móveis do lugar
arranque os quadros 
pregos, parafusos
arranque telhado, a tinta das paredes
as paredes
o piso, toda a casa
arranque as árvores e o jardim

agora varra o terreno
certifique-se que nem pele, nem pelo
ficou, de quando você amou

e arranque-se  

um buraco
no chão batido do lugar 
é o que deve ficar

NSL
20/11/13

Coisas

Coisas se cansam de nós
umas quebram
outras costumam 
se esconder
(dada a proximidade,
óculos principalmente)

coisas gostam de escolher


NSL
20/11/13

terça-feira, 19 de novembro de 2013

retorno

se eu pudesse voltava no tempo em que meu pai e minha mãe eram pequenininos pra brincar com eles de família.

NSL
19/11/13

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

diapasão

quando a alegria chegar
vou soltar os bichos
animais-jardineiros
é preciso dizer

o gafanhoto
o beija-flor
a formiga
a abelha
a cuíca
a cotia


vou aspergir
um arco-iris
reverberar
diapasão

por enquanto não

NSL
18/11/13

moralidade da pedra

passo os dias instalando a letargia
acho o tédio melhor que o ódio
a imobilidade das horas 
escorre minha crueldade
afaga meus monstros

o rancor é um câncer bem guardado
a espreita e a culpa, uma voz doce  
sussurrando continuamente
sente culpa, é boa

No entanto nada muda o óbvio
são odiosos os que eu deviria amar
é patética minha fantasia de bondade

NSL
18/11/13

Adesivos anti-escrita não curam problemas de vista

escrever e  esperar que alguém desmonte meticulosamente o que se escreveu a procura de símbolos ocultos.
escrever e esperar que alguém sinta-se inspirado a escrever.
escrever e guardar na esperança de que um dia alguém leia.
escrever e queimar por medo que alguém leia.
escrever e postar.
só escrever.
escrever.

reler
rever.
viver.
ver.


ê vicio besta.

NSL
17/11/13

sábado, 16 de novembro de 2013

Ode



quis escrever este poema
para todxs xs meninxs
do quinto e do sexto ano
xs dedicadxs,
estudiosxs,
xs bagunceirxs,
mimadxs,
brancxs
pretxs
todxs xs meninxs 
do quinto e do sexto ano
xs obcecadxs
pela rua
naruto
desenho
grafitti
pipas
flores
pedras
vermelhas
de itabira
todxs xs meninxs 
do quinto e do sexto ano
estão
nestes
versos
que não vão ser lidos
em sala
na última aula
de sexta - que é
quando
todxs os meninxs
surtam
perdem a calma,
mordem o lápis, a caneta,
mastigam
borracha,
agarram 
os cabelos
do desespero
e metade deles
boceja (boca aberta
e felina
comendo
o tédio que
engole os corredores,
as escadas,
os professores, cantina)
neste momento
vão ler
potter, mitologia
- quem quer
que seja: cecília - adélia
mas este poema, não,
ele é daqueles
meninxs do quinto e sexto ano
que negociam balinhas,
beijinhos,
bijuterias,
- matam
as aulas, riscam
as cadeiras, confessam
nas portas
do banheiro: que vergonha,
não sei contar ou 
porque o marcelo 
não gosta de mim
meu pai não me dá 
um playstation
odeio a professora de francês,
sinto falta do meu avô,
não gosto, detesto
meu nariz
não consigo passar
em português: e vocês?
este poema
é de todxs xs meninxs 
do quinto e do sexto ano: 
pelo menos daquelxs
que leem poemas
vocês vão aprender 
crescer
fazer poemas
escrever livros
e eu não vou ver
que pena
NSL
16/11/13

Será amor?

ouço uma mulher espancar o filho
não vejo mais posso sabê-los
socos que explodem
pedras de ruína tombando 

escápula
clavícula
cabeça
cada uma produz um som

o menino brincava
esqueceu-se de voltar para casa
os hematomas azuis lhe ensinarão a não brincar
e a nunca mais esquecer

escrever foi a única forma que me restou
pra suportar a violência de uma descoberta
minhas marcas nunca amarelaram

NSL
16/11/13

histórica

nove anos depois que eu nasci
abriram-se as comportas dos poetas
sei de pelo menos vinte
que nasceram no ano
de mil novecentos e oitenta

quando no ano de mil novecentos
e noventa e três disse a minha mãe 
que iria estudar mais que oito anos
ela disse  "sonhar não paga, né?"
e seguiu lavando roupas 
sentada no chão como lhe era comum

o diagnóstico da primeira depressão 
veio no ano de mil novecentos e noventa e seis
nos ano de dois mil e dois mil e sete voltei a doer
vinte anos se passaram e estou doente de novo
as vezes penso que esta moléstia me acomete
por causa deste sonho que eu vivi e não paguei

NSL
16/11/13

é possivel carregar um cemitério na cabeça

há a história daquele que eu conheci na escola
sua possessão & violência quase me consumiram
há a história daquele com quem quase me casei
eu o consumi até ele quase morrer de amor
há a história daquele que me trocou várias vezes
sua sedução & desamor quase me consumiram
há a historia daquele que não pagava contas
este consumiu-se a si mesmo
há a história daquele amor que eu nunca disse
a história de um amor impossível
há a história deste que eu escolhi amar 
todo dia, às seis da manhã, eu o escolho de novo

todas as histórias, mesmo a última, são lembranças

NSL
16/11/13


Extremo

entre meus dedos seguro poemas estrangeiros
intangentes como tudo que acontece fora de mim
olho o cosmos da janela em meu colo
um estranho asteroide que parece ter 
múltiplas caudas giratórias foi detectado 
pelo telescópio espacial Hubble 
da Nasa, entre Marte e Júpiter
mas nem a rua me é possível

afio a memória a fim de extrair a dor
lanço sobre a página palavras biliosas
letras ensanguentadas
caudas giratórias, casas ocupadas
tantas possibilidades 
e meus sapatos permanecem novos
escrever é o único movimento possível

NSL
16/11/13

ignomínia

tudo a minha volta pacifica, menos eu
pintinhos piam, comem, engordam
apaziguando o quintal
lagartos crescem a ponto de brilhar
só eu posso ver a boca voraz da existência

vejo anjos distraídos 
liberando o acaso sem pedágio
para assistir ao teatro impotente de meus dias 
acredito em anjos e a realidade ainda me corta
sou forçada a crer que não podem se arrepender

não posso deixar de chorar por Jonas
ser dado em sacrifício para que não o navio não tombe
por não cumprir uma missão ignóbil
convencer néscios, de espirito mau 
a crer no improvável


estou como tu, Jonas
há muito, muito mais que três dias e três noites 
sepultada no ventre dessa baleia chamada vida
rebelde à missão que eu mesma me designei
afinal quem me dotou de tão poucas virtudes?

NSL
16/11/13

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Vago





[Yago Partal]

alucino a noite sem fim
em tal frequência 
que ninguém se aproxima 

penso e
penso e
penso
sem fronteira

há quem exorcize
meu espirito 
dizem: são muitos
e tristes

eu só queria
um gole de alegria
que durasse mais que um dia

eu só queria
uma crença miúda na palma mão
que me devolvesse o céu
ou o chão

NSL
15/11/13

Curva

estou condenada 
à esta curva 
entre as omoplatas

parece impossível
reeducar meu corpo 
receber abraços

e o amor que me dedico não basta

NSL
15/11/13






quinta-feira, 14 de novembro de 2013

carta de alforria

dos vários modos de morrer
escolho os rápidos

ganho tempo paras amoras 
do quintal

todo relevo da vida 
me sobressai
como poesia

um pequeno toco
a folha seca 
cata-ventos
definindo o ar

sou poeta
palimpsesto 
dos sentimentos
do mundo

piso a grama 
para ampliar 
a estrada

a cicatriz
no dorso
onde dentro
fica o pulmão
lembra o tempo 
desses amores
irrespiráveis

e dos eu eu nem sabia
que existiam
seguem inventando a química  
de ressuscitar

N.S.L
08/11/13

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Tem esses amantes

Tem esses amantes que ainda não foram capazes de estacionar no amor. 
São grandes, cabem em si todos os amores do mundo. 
São como uma criança que mantem o brinquedo nas mãos e fitam apaixonadamente ao brinquedo que acabaram de abandonar no chão. 
Não sabem a qual escolher. 
Tudo neles me comove. 
Me comove as fileiras de preteridos que deixam pelo caminho.
Me comove o cemitério de amores que carregam na alma. 
Me comove os olhares apaixonados que os esperam.
Acima de tudo me comove o fato de saber que, por sua eterna incerteza, nunca experimentarão um amor maduro, nascido da escolha, da renúncia e da decisão. 
Um amor maduro requer intensa construção. 
Um amor maduro é mais que paixão.

NSL
13/11/13

desmoronamentos

Gosto de rir secretamente da raiva com que os viciados em sucesso me miram.  
O fracasso é uma das minhas menores dores. 
Possuo imperfeições obscuras e assustadoras.
Um exemplo é o hábito de invejar o que não quero ter. 
Cultivo uma preferência absoluta por antagonistas. E adversativas.
Produzo continuamente em mim um estado irrespirável de perguntas para as quais não há resposta. 
Tenho verdadeiro ódio pela existência e sua mania de sufocar meus desejos.

NSL

13/11/13

terça-feira, 12 de novembro de 2013

vestígio de infância

mulher 
entretanto
no discreto 
e irritado
sacudir
dos pés
sombras
da pirraça
de criança

N.S.L.
12/11/13

deo-colônia

novembro de manhã
nua na penumbra
desfruto seus rituais 
toalha
creme
pente
gel

sombras da textura 
de sua pele em mim
restos de noite

abre a cortina
as lâminas do sol
ferem meus olhos

pelo quarto
seu cheiro
orvalhado
me ocupa
sem me colonizar

N.S.L
12/11/13

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

faxina

minhas invenções estão gastas
não caibo mais em mim
mas por enquanto 
eu quero estar assim

é deselegante ser triste
e eu sou uma tosca infeliz
e daí?

não é por que eu sempre digo sim
que você pode sempre me pedir

por mais crente que esteja
com seus amuletos, seu guru
não pense que eles vão me servir
só acredito na impalpável verdade
ditada pelo inconsciente 

eu não odeio realmente os carros
odeio ter que dirigi-los
e odeio que por causa deles
a cidade tenha menos árvores

continuo achando a injustiça
a coisa mais feia do mundo
mas até segunda ordem
não sou o salvador da pátria

até a casa limpa ninguém entra

N.S.L
11/11/13
Quem me empresta um pensamento feliz? Pode ser usado.
ganho a rua
e não há o que temer

domingo, 10 de novembro de 2013

sutil

correr a língua
sobre os 
fios de fibra 
presos 
ao caroço da uva

premir 
levemente 
entre os lábios
e dentes 
semente

ou urgente
fazer escorrer 
sumo

N.S.L
10/11/13

sábado, 9 de novembro de 2013

Erótica

quando estou 
indisposta 
o sol curva 
minhas costas 
mas vou viver
e isso não é 
o acontecimento 
do século

ela anunciou 
e eu fiquei 
querendo saber
o  fim obsceno
do poema
sou erótica
por isso acho 
que vou viver

o furo está diminuindo
e pela primeira vez 
em décadas
me lembrei do "menina 
como você é bela"
beijo no ombro 
e coisa e tal

antes de salto fatal

N.S.L
09/11/13

Nada sobre mim

eu pensava que o pior que poderia me acontecer
era passar a vida a barganhar amores violentos 
que me arrancassem do meu interior
eu não sabia nada mesmo sobre mim

um dia este imenso casaco chamado amor
me envolveu com calor e segurança
achei que a dor iria se esvair
eu não sabia nada mesmo sobre mim

vi uma menina com uma boneca no colo outro dia
ela aprendeu com a mãe a brincar de mamãe
penso que ninguém me ensinou sobre alegria
eu nunca soube nada mesmo sobre mim

fico esperando coragem para o porre violento
ou qualquer sedativo que possa silenciar 
os seis tipos de dores que cortam minh'alma 
eu não sei nada mesmo sobre mim

N.S.L
09/11/13

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

desidentidade

carrego comigo pesada bagagem 
a carga de ser a tudo inadequada 

de tudo que li, aprendi a nunca me repetir
e a ironia foi o medo da repetição
tornar-se a minha compulsão

N.S.L
08/11/13

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

extravio

por querer gozar de nós 
mais que o afeto morno 
dos passeios com os cachorros 
entre as valas erodidas 
e cobertas de mato 
ou das cartas escondidas
entre páginas coladas 
da revista do fantasma 
perdemos os jorros de risadas
e o prazer das conversas 
desinteressadas 
que só os amigos 
são capazes de ter

nenhuma lembrança de gozo 
cala constrangimento silencioso 
que ficou

N.S.L
07/11/13

Consoantes

Este modo que tem o meu povo
de recusar as proparoxítonas
me deleita

- pega o fosfro, minina pra mode eu cuzinhá a abroba,
engrosá seu calidu caldo!
um sabdo de calis bento 
pra bençuá o esprito 
ou bem soar
a musga

ser mineiro é fazer a littera
consoar em letra

N.S.L
07/11/13
É preciso de uma dose considerável de tolice e ingenuidade para ser feliz. Nenhuma alegria resiste a uma boa pergunta. (acho que eu devia estar no twitter mas digo aqui mesmo por que eu quero)

Vai um Bandeira aí pra corroborar.

"O poema deve ser como a nódoa no brim:
Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.
Sei que a poesia é também orvalho.
Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento e as amadas que envelheceram sem maldade."

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

eufemismo

mulher.
mulher que gosta de gozar.
mulher que gosta de gozar como homem.
mulher que gosta de gozar como homem que gosta de gozar.
mulher que gosta de gozar como homem que goza como mulher.

N.S.L
06/11/13

movimentos que eu gosto mesmo são os peristálticos

meu desconforto com o corpo foi sempre
esta sensação de atraso
nem bem aprendi a pendurar as chaves 
e já era hora de me mudar de casa

nem sempre gostei de abraços demorados

matar o desejo não me parecia ser uma coisa boa
tinha sempre um pouco de morte no mergulho no gozo
depois do corpo deserotizado a nudez ficou mais fácil 

me convém ser uma velha índia
isso explicaria os poucos pelos pelo corpo
o desagrado com as roupas
e o meu amor por lagartos livres no quintal

aprendi a agradecer às galinhas por suas carnes antes de comer

N.S.L
06/11/13