sábado, 26 de abril de 2014

queria um compartimento
um espaço extra no plexo
pra guardar a alegria
que está tanta
que já não cabe 
em um só dia

NSL
26/04/14

sexta-feira, 25 de abril de 2014

ainda é outono
mas já corre 
um frio fino
dentro de mim
o último amor escorreu pelo ralo
(não é para lá que vão os ex-amores?)
comigo ficou uma antiga carta apaixonada
sem lugar no tempo
uma esteira emperrada
e a vontade de novos tropeços

com poesia conto qualquer história 

NSL
25/04/14

quarta-feira, 23 de abril de 2014

a casa sempre 
em desordem
não arrumo as gavetas
como não arrumo 
o pensamento
sonho que os que amo 
beiram a morte
por pouco tempo 
o enfastio se afastou
mas afinal onde foi
morar o desejo?

NSL
23/04/14

sábado, 19 de abril de 2014

não é este 
relógio a 120 
nem estes 
cadeados sem chave
tampouco a falta 
de assunto - o que ninguém repara
é a infelicidade 
destas meninas magras

NSL
19/04/14

sexta-feira, 18 de abril de 2014

insônia

cravei sobre as costas da 
noite dez unhas afiadas
nem morta permito 
que amanheça o dia 
antes que a noite 
me devolva a glória

tracei um túnel entre 
uma noite e outra 
não deixei que o tempo 
me roubasse a história

pintei em suas paredes 
negras de sombras 
um mapa amarelo 
berrante de vitória

(então
não sei por que 
esse animal rastejante
punhos de aço
espreme meu coração)

NSL
17/04/14


quinta-feira, 17 de abril de 2014

a prolactina
e os olhos
e a confusão
e eu nunca termino esse lobo da estepe
ninguém pra me arrancar
esta pata de elefante do peito
pra eu voltar a rir 
saudade de quando  
as janelas do ônibus eram filosofia
agora é só enjoo 

NSL
17/04/14

quarta-feira, 16 de abril de 2014

ainda tem meu nome em sua pele?
além de minha coleção de tristezas
e das pedras em meus bolsos
tenho medo de viver sem você

espalhei sementes pelo caminho
elas brotaram e já não posso voltar
minhas asas ficaram amarradas às suas
preciso estar marcada em você, meu amor

NSL
16/04/14


os tais copos de ira
tomei-os todos
levo a alma tóxica
(mais em segredo
vou erguendo
uma coluna
chamada vida
dentro de mim)

NSL
16/04/14

sob o sol

se eu fosse você
me tomava em seus braços
pois estou há muito
perdida entre os afazeres 
mãe destes filhos
propriedade desta casa
estou como que 
a quarar sob o sol

estou ficando dura
querido
pois amor
me esqueceu 
sob o sol

NSL
16/04/14

um poema

queria escrever um poema que crescesse como um filho
que me empurrasse de dentro
que me enchesse o ventre
engendrado por gosto da vida
quase ao acaso
que fosse para sempre

queria um poema que fosse 
uma marca indelével na pele
livre do olho do outro, o meu poema
um poema de um só verso
mas que valesse por todos os poemas do mundo

NSL
15/04/14

terça-feira, 15 de abril de 2014

vinte palavras para dizer com leveza que o cristal que você me deu guardei numa caixa com nome de amor. 

(mas nenhuma palavra diz aquela PEDRA nem o que ela significa)

NSL
15/04/14
defeito de fábrica
mente alquebrada 
vida algemada 
alma quebrada 
sobram dias
para arrumar
este embuste
que o universo me 
deu de presente
brincar de confete
jogo do contente
calar as demandas
do coração
nenhuma reforma
vale uma revolução

NSL
15/04/14

segunda-feira, 14 de abril de 2014

todo dia eu sofria pensando estar a morrer
não via que celebrava a vida no ato de escrever

NSL
14/04/14

sábado, 12 de abril de 2014

dois corpos

eu que vi a cássia eller 
rindo naquele vídeo do recreio
pensei comigo, poucas 
vezes me vejo rindo assim
queria rir como a cássia eller
daí me lembro que ela
se foi e já não ri mais

então aquela coluna
que se move do cóccix
a moleira grita:
- meu nome é vida!
e me faz concluir
talvez nem importa
que eu esteja ficando velha
um pouco dolorida e gorda
ou que eu possa morrer
a qualquer momento
pois enquanto eu abrigar 
em mim esta coluna
onde eu estou
a morte não está

sexta-feira, 11 de abril de 2014

tocá-la 
já não estava
entre seus
rituais cotidianos

e nem adiantava gritar
que se foda
ele já devia
estar fazendo isso

NSL
11/04/14

quinta-feira, 10 de abril de 2014

memórias roubadas

cultivo o péssimo hábito de roubar memórias
tanto roubo que não sei se são minhas as lembranças
do dia que levei minha lâmina para a escola
e cortei na nuca os cabelos da menina que zombou de mim
(pode ter sido apenas medo de achar uma faca dentro da bolsa
com o desenho da corujinha)

NSL

10/04/14

quarta-feira, 9 de abril de 2014

no fim tudo dá errado

já está na hora do sonho começar?
toda noite é a mesma coisa
descer estas escadas intermináveis
(quem abaixa demais mostra a bunda)
para todo lado que olho é promessa
beleza juventude riqueza inteligência
(são tantas pílulas que não posso ler)
tenho um medo pavoroso do sucesso
depois de mortos os cabelos continuam a crescer
quando é que deus vai me puxar pelos cabelos?

NSL
09/04/14

terça-feira, 8 de abril de 2014

entre

com 40 anos tive 60 e fui coberta de sombras
presa entre o dia e a noite
suspenderam-me o sal, o açúcar e o álcool
estava certa de que já podia morrer
e do amor, apenas um toque de artelhos sob o edredom
até que descobri o relógio me roubando dias
e as horas escapando por entre os dedos das tarefas
agora  espatifo um relógio todo dia
bolino o amor com todos os sentidos
e ignoro a morte estacionada 
como carro velho no jardim

NSL
08/04/14

com você 
porta aberta
com você 
luz acesa
com você
mês à mesa

minha tristeza não te suporta

NSL
08/04/14

segunda-feira, 7 de abril de 2014

risco

ecoa
no oco
do ouvido
uma repetição
dia sim
dia não
uma alegria miúda
com pouco
eu grito
risco uma linha
e faço o eco
quicar alegria
todo dia

NSL
07/04/14
conto os dias
centenas, milhares
antes de ser dona de mim
quero um corpo 
de quinze anos
sem medo
ser mulher loba
sem nuvens por obstáculos
escrevo instrumentos de corte
mas nenhuma palavra tem fio
para as insuportáveis horas
deste dia
de que me vale 
adiar a morte
se morro 
olhando o relógio

NSL
07/04/14

quinta-feira, 3 de abril de 2014

40º

quando o domingo escorre suas horas amargas
e você permanece distraído, meu amor
eu escrevo poemas
nos quais a palavra dignidade
nunca rima com a palavra tesão

pastoreio pensamentos
e esta é a unica saída 
para o meu coração

queria dizer para sylvia
já não uso anáguas
tampouco sou puta
e a febre que  mim arde
são só palavras

NSL
03/04/14