quarta-feira, 29 de abril de 2015

arrancar penas bambas

há um segredo para descobrir se são reais 
os olhos vermelhos entre as folhagens
_ arrancar penas bambas

exige atenção meticulosa
a cada pena destacada
um olhar desaparece

cuide para não gastar muito tempo nisso
esse trabalho torna impossível deslumbar 
o amarelo morno do sol de outono

NSL
29/04/15

segunda-feira, 27 de abril de 2015



Olívia tem dois olhos
de onde saem sombras
com o terceiro olho
ela canta uma canção
e as adormece

Olívia cuida muito bem
do seu terceiro olho
ela o pinta todos os dias

às vezes Olívia se esquece
de alimentar o terceiro olho
e ele mastiga seus dias
lentamente





NSL
27/04/15

sexta-feira, 24 de abril de 2015

unhas

eu não era assim
tão sem armas
nasci com unhas afiadíssimas 

apararam todas

me ensinando a catar amor
entre as pedras do feijão

(mas unhas frustradas emitem guinchos insones)

NSL
24/04/15

quarta-feira, 22 de abril de 2015

depois de partir

parada no portão
a bicicleta do pai parecia ter asas
quando chegou naquele dia, à tarde
vinte e três anos depois de partir

parecia que a qualquer momento a bicicleta levantaria voo


NSL

22/04/15

terça-feira, 21 de abril de 2015

tradição

dar-me uma noite inteira
ao trabalho de parto
uma vida inteira
ao trabalho de parto
e por fim
parir minha mãe
língua afiada
a entregar-me tijolos
para construir
as paredes da masmorra
que eu ergo
com a alegria 
de quem corrige a torre de pisa

NSL
21/04/15




sexta-feira, 17 de abril de 2015

diálogo com molly bloom

as flores que eu gosto
são de plástico
tenho-as de todas as cores
em casa
mas eu concordo
não tem nada no mundo 
como a natureza 
cachoeira, mesmo as pequenas
eu tinha tomado birra 
do mar
mas ando pensando em voltar
plantações para mim
é o jardim de lata
de minha mãe
gosto de gatos
mas ele não
daí então 
a gente não tem

ah, molly 
desde que eu aprendi a gozar
acredito que deus existe
antes não
demorou para eu aprender
e não foi sozinha
ninguém aprende nada sozinho
ou talvez morrer
morrer eu acho 
que a gente aprende sozinho
mas gozar a gente vai aos poucos
aprendendo 
muitas vezes
encostada nos muros 
como você
na muralha mourisca
tinha aquele cabeludo
que fumava maconha, diziam
eu podia não gozar
mas só o rastro 
dos dedos dele
me deixava molhada
e eu pensava que era isso
uns tinham muita pressa
tremiam
e doía de me fazer chorar

é como hoje, molly 
queria ser amada
deitada atrás da casa
de antes ficou
o gosto pelos beijos longos
que me deixam sufocada
porque ninguém me contava
que amor era outra coisa?
porque
ninguém nunca me chamava
de flor da montanha?
nem sabiam o que era uma montanha
eu nem sabia até
um dizer 
que eu ficava gostosa
na bermuda cortada
tinha aquele da cb 
400 e o apartamento emprestado
o quarto com abajur 
fosforescente
eu jurava que tinha gozado
meu deus, era para saber
mas eu não sabia, molly 
eu não sabia

quando contei 
pela primeira vez
que fingia
ele chorou um dia
inteiro
nem precisou me chamar de flor
flor é igual borboleta
que eu não sou
sou pedra
seixo ou cascalho
nessa época
já tinha visitado 
três estados com ele
para ele eu podia
depois dele
nenhum nunca mais
me tocou
desde o dia em que chorou
ele me palmilha
e eu gozo com cada dobra, molly 
não tenho casa
mas sou casa caiada de branco
e ele é a minha varanda
beirais de peças de oito
negras como aquelas
que eu vi em lagoa bonita
no dia que o outro achou o cachorro
aquele que me escreveu cartas de amor
cartas mentem, molly 
elas me faziam crer
que um grande leão branco
iria resgatar a paixão
cartas não
queimei-as todas
paixão é quente
mas é muito diferente de amor

tenho que parar, molly bloom
às vezes
assim como hoje
eu me esqueço
mas temos um pacto
de nunca falar do passado

NSL
17/04/15

quinta-feira, 16 de abril de 2015

game over II

você
voz de cabeça
marreta
eu 
voz de falsete 
poeta

há muito
paramos o jogo
de ter razão

e daí flagrar  
seu rabo de olho 
nas ancas largas 
das moças?

é comigo
a risada
na madrugada
suas mãos ásperas
passeando
minhas coxas

de gostoso
fica seu gosto
ali
entre a carne
e o osso

NSL
16/04/15

domingo, 12 de abril de 2015

Encantamento

Teve o Vavá e seu amor em forma de feijoada que demora três dias para ficar pronta. Teve a Mariana Botelho que chegou bem cedinho para irmanar comigo. Teve o Ravi, apaixonado pelas "gainhas" e me chamando de tia norma. Teve o Erre Amaral que, príncipe demais, atrasou a volta pra casa pelo encontro. Teve a Adriane Garcia que, minha irmã amor, foi "maravilhosa" como sempre achando o amor lá naquele ovo da clarice, teve o Luís, o único cientista que eu conheço, gentleman, achando a física na clarice. Teve a Neuza cantando até me fazer chorar Ali Babá e os quarenta ladrões e tantas outras dos disquinhos. Teve o Clovis Souza lendo o pequeno príncipe e nos mostrando em nós nossos cabelos cor de trigo. Teve a Simone Teodoro, rememorando, irmanando é distribuindo aquele amor suave tão dela. Teve o Samuel Medina meu principe lindo, que eu venho apresentando pruns 800 meninos e meninas, nosso herói da literatura fantástica. Teve a Karol Elias, minha irmã linda que chegou cedo, foi e voltou, foi e voltou e terminou a noite conosco. Teve o Edgar Junior que disse ter sentido uma grande tristeza por ter ficado só com o panelão de feijoada, que foi e voltou, foi e voltou e que finalmente (uhuhu) comprou meu livro. Teve gente que veio e comeu rapidinho. Teve gente que levou pro pai e pra mãe. Teve eu que esqueci de mandar um embornal de feijoada pra esse povo todo e provavelmente vou ter que comê-la por uma semana. Teve o Jonathan Lucena que pairou presente todo tempo. Teve muita coisa que eu não tou lembrando aqui e se vocês lembrarem eu acrescento. Ah, e teve a Clarice Lispector, gente. É, teve a Clarice.

NSL
12/04/15

Lista de constatações para uma possível crônica de viagem:

- só porque juntam uma galinha com um sapato não significa que sou obrigada a comprar o par;
- borboletas só vivem um dia (e se prestam a fotografias antes do fim);
- pássaros de cabeça vermelha não se prestam olhares míopes;
- conversas de bruxas adormecem os homens;
- há que se revesar o riso e o choro;
- sanfonas são excelentes antídotos contra a tristeza;
- conversas devem incluir;
- três livros de poesia, um Cortázar e minisaraus estarão garantidos;
-um violão é muito bom. Dois são magníficos;
- águas de cachoeira endurecem os cabelos (e podem deixar alguns repentinamente carecas);
- cachoeiras não curam bebedeira;
- esquecer escovas e fio dental pode ser desagradável;
- é muito lindo quando a lavagem da louça se revesa sem escalas;
- homens entendem de carnes cozidas e assadas e mulheres entendem de cachoeira;
- hi-fis são excelentes para os videomakers;
- verifique atentamente as contas de restaurantes;
- acampamentos podem ser precários mas nunca, nunca mesmo, devem faltar risadas.

NSL
07/04/15

quinta-feira, 9 de abril de 2015

De mudança mais uma vez. E eu, que reclamava da casa ser meio torta, já vinha me acostumado com suas poucas janelas, suas portas discretas. 

Três anos e eu nunca mudei nenhum móvel de lugar.

Mais uma vez. Mais uma vez. Mais uma vez.

No entanto aqui dentro nada mudou. Conservo minha estrutura bovina, pesada, atada ao chão. Um esforço absurdo para não me mover, desejo inútil de aprisionar o tempo, o espaço. 

Tão diferente das borboletas. Seu trabalho primoroso em constituir asas coloridas, crisálidas, voos tão perfeitos quanto danças. 

E viver apenas um dia!

Borboletas batem asas até em nossas línguas. Escuta esse papilio, belbellita do latim, Babele do ídiche, papallona do catalão, mariposa do castelhano, pinpilinpauxa do basco, papillon do francês, farfalla do italiano, butterfly do inglês, Schmetterling do alemão, Bábotschka do russo, kelebek do turco, parpar do hebraico, petalouda do grego, kipepeo do suaíli, Kaba-kaba do filipino, rama-rama do malay, fluture do romeno, pillangó do húngaro, liblikas do estoniano, panapaná do tupi.
Achava curioso que elas posassem às minha fotografias com tanta naturalidade. Me assustei ao saber que borboletas me procuravam perto do fim, como se quisessem me contar acerca do efêmero. 
Espero que me perdoem, bruxas voadoras. Fui arrancada da pupa antes da hora. Mas não sofram. O amor me salvou. Se vivo pesada é por amor. Tanto que vibro diante de qualquer amor, os meus e os alheios. Estuo numa frequência absurda. 
Pensando nisso não parece tão sério me mudar. O amor não muda. Ele vai ser sempre isso, uma lagarta, que mesmo estando pronta, renunciou às asas. 


NSL

08/04/15



terça-feira, 7 de abril de 2015

quarta-feira, 1 de abril de 2015

das poesias e das orquídeas

das coisas inúteis que se listam por aí
poesia e orquídeas são algumas delas
orquídeas prestam-se muito mal a transformar-se em cadeiras
e poesias não costumam responder bem quando tomadas com drágeas   

eucaliptos não
você não precisar esperar cinco anos
diante de um eucalipto a fim de vê-lo florir
e apesar de eucaliptos e orquídeas serem sensíveis ao vento
orquídeas o são por puro capricho

poesia e orquídeas são realmente coisas muito inúteis

NSL
01/04/15