domingo, 30 de março de 2014

dado o risco doentio de meu vício 
em ser lâmina e carne
decreto que de agora em diante 
aceito meu lugar
então será assim
vou plantar em mim
força para as engrenagens
do tempo, da vida
esta vida que tanto me negou 
eu mesma vou girá-las sem invejar
o destino dos mais afortunados
eu, que nomeei cada dor, passo a 
perseguir sua cura para que fora delas
eu possa dançar
vou viver cada dia com sua dor e vigor
cada dia com sua dor e vigor

NSL
30/03/14

preferência

a cada um de nós meu pai dizia em segredo:
_  És meu filho preferido!
a mim também ele disse certa vez:
_  És minha filha preferida!
Depois disso foi-se embora umas três vezes
deixado sem explicação a cada um de nós
os filhos preferidos secretos
(mas ainda hoje, papai 
me pego alimentando
a crença nessa sua preferência)

NSL
30/03/14
bem que tento
meu amado
injetá-lo
no meu jogo
imaginário
no entanto
nunca ganho
você e sua mania
obscura de ser 
você mesmo
faz questão
de me fazer perder

NSL
30/03/14

sábado, 29 de março de 2014

escrever para enlouquecer

nunca pude fugir de escrever
muito menos agora
escrever sobre dias insípidos
sobre estes filtros de pensar
escrever sobre os cheiros
(o que sobrou para a libido)
escrever quase como enlouquecer

mas nem toda palavra se salvará
esse tempo de insetos venenosos
nos olhos, por exemplo
esse será apagado
apagada será toda a ingenuidade
o controle, toda palavra de poder
escrever será apenas para enlouquecer

NSL
29/03/14


peças soltas

trato de não abraçar forte as pessoas
nem soerguê-las com força
pessoas possuem
(em segredo)
peças soltas
às vezes no peito
às vezes no ventre
ou nos quadris

pessoas detestam
ver reveladas 
suas peças secretas 

NSL
29/03/14
se escrevo
escrevo desesperadamente
mais que um poema por dia
é que a vida sessou de acontecer 
estou sedada, dor de papel
quero ser concisa 
até não restar nenhuma letra
e talvez quem sabe
brotar alguma vida

NSL
29/03/14

sexta-feira, 28 de março de 2014

chegar ao centro
de mim
fácil assim
estrada
de palavras

mas me constrangem
estas paredes finas 
(e o medo que não aja nada lá)

NSL
28/03/14
não sondes cápsulas do tempo
garrafas de mensagens, filha minha
a alegria se esgota no gesto inaugural
ato inicial de lançar tentáculos para o futuro
suporta do dia a presença escoante e luminosa 
sorve dele cada segundo como frutos temporãos
consuma o instante, filha minha
nossa última vingança contra o tempo

NSL
28/03/14

quinta-feira, 27 de março de 2014

que honra há
em ser a filha legitima 
e abandonada
a menina estrábica 
e descabelada

queria escrever
um poema mágico
que me devolvesse
as carnes firmes
os dentes brancos
e um corpo sem dor


em nenhum tempo fui feliz

NSL
27/03/14




terça-feira, 25 de março de 2014

todas as mãe são solteiras

todas as mãe são solteiras
disse margareth mead
ou outra margareth
com a qual
sempre concordei
a propósito
estou para dizer
mesmo sem ser mãe
somos sempre tão sós 
nós, as mulheres
mesmo acompanhadas
sempre somos muito sós
a solidão é este vácuo, intervalo
quaresma sem cortar cabelo
resguardo, presença intermitente
companheira essa sim, inseparável

NSL
25/03/14

segunda-feira, 24 de março de 2014

escombros

é outono e março
dói nos olhos como areia
sozinha com as minhas obsessões
uso palavras fortes
apalpo para dentro minha carnes
já não há lugar em mim
corpo sem volta
grita suas dores, algoz
ao menos já não sangra
nenhum filho me guarda
em seus sonhos

eu, um animal sedento
de atenção e companhia
espero alguém com quem
fazer um pacto de sangue
coleciono pedras de cristal
estados de transe
agendas criptografada, ironias
álbuns de figurinhas
escombros da torre de babel
e catálogos de cata-ventos artesanais

meu habitat natural
apenas pontos 
de esquecimento e fuga
cá dentro, muito fundo
uma redoma de imagens
tão bela nas velhas fotografias
sempre, sempre promessa
que antes de cumprir acabou-se
ainda cesso essa inveja de mim
do tempo em que tampouco
soube me amar


NSL
24/03/14

domingo, 23 de março de 2014

ontem à  noite
voltei à casa de minha mãe
como se nunca a tivesse deixado

pobre de meus filhos
só depois de lavar 
uma montanha de memórias
tornarei a habitar minha própria casa 

NSL
23/03/14

sábado, 22 de março de 2014

asco, paixão, raiva, enfastio
são palavras carregadas de si mesmas
não precisam de apoio poético
basta tão somente dizê-las
e está posto sua carga dramática
diferente da palavra lúcida, por exemplo
que carece de suportes
lúcida: logo se vê que ficou algo por dizer

NSL
22/03/14
andava por aí com uma edição de bolso de mulheres do bukowski 
na carteira a foto de uma vagina depilada como bebê
um poema rimando fala, falo e calo 
e uma impotência imperdoável

NSL
22/03/14

drágea

uma vez perdi dois filhos
uma vez perdi um pai
não quero mais falar de perda
quero uma pequena lista
um roteiro para ser feliz
alma gêmea às vezes é amigo
cura é falar e ofertar da fenda
do meu coração

NSL
22/03/14

quinta-feira, 20 de março de 2014

há que se aprender a sussurrar histórias 
no próprio ouvido quando peso da vida 
torna o ar irrespirável e nada parece ter cor
e que seja um sussurro suave pois 
é nessas horas que morte vira tenor

NSL
20/03/14

terça-feira, 18 de março de 2014

Corpos guardam memórias das paredes.

Encostados nos muros do passado
desfrutávamos de nossos corpos 
em minutos mais do que desfrutamos 
em uma década inteira. 

NSL
18/03/14
velha o suficiente para ver
coisas desimportantes 
cocô de passarinho
em galhos de amoreira
brisa em pena solta
de galinha
nuvem em forma de trem
descarrilhado

NSL
18/03/14

domingo, 16 de março de 2014

tirada toda a casca 
esta pele deixada pelo outro
estou certa de encontrar 
dentro de mim uma coluna
erguida pelo puro desejo

se for para ficar viva
que seja só enquanto puder 
executar passos de dança

se for assim só 
valerá 
a pena enquanto tiver 
olhos para cortejar a lua

dividida a vida em capítulos
os mais longos serão estes 
em que me encontro comigo

NSL
16/03/14

COMO É VELHA A NOVIDADE

Tá diferente, cortou o cabelo? Tá parecendo até que perdeu uns quilinhos. Esporte, é? Que esporte? Squach? Conheço não mas parece chique. Sinto sim, mas a gente tem que aceitar né? Acabou, fazer o quê?

Você parece estar bem de grana. Quem é aquela? Que bom, a fila tem que andar, não é mesmo? Não, não tou namorando ainda não. Ainda, entende? Onde você conheceu ela? Ah, demorou para você concluir esse graduação de letras. Recita em latim é? Coisa de nouveau riche. Que nada, todo burguês culpado diz que sofreu na infância, isso é lorota. Não entendo o que eu que eu fiz errado para gente terminar. Agora é fácil você falar isso, eu tava me matando em dois empregos para pagar o aluguel e a comida enquanto você viajava naquela onda de banda, não ia conseguir mesmo ser boa na cama. Que bonitinho, descansada, sendo regada a champanhe e caviar até um beijo ia me fazer gozar. Comigo não violão, não me compara com essa patricinha burguesa de meia pataca que se ela tivesse que te manter como eu fiz por dois anos ela já tinha pulado fora. Dois anos, viu? Ralei pra caramba e agora você vem me jogar na cara essa história de sexo ruim. Não, não quero jantar não. Era bem capaz de eu te dar vidro moído. Que que é aquilo que ela está carregando, é o meu disco da Billie Holiday? Outro? Mas eu já te dei um de presente. Vê se me devolve o meu então. Que que tem minhas unhas? É, estão roídas mesmo. Como elas para não rasgar a sua cara de raiva. Pára com isso, ela está olhando. Vou cantar para subir. Eu sei, eu também sinto, na verdade eu ainda gosto muito de você. Vou parar de falar senão eu choro. Vai passar. Cadê ela, sumiu no corredor de filme, aposto que ela adora o Marcel Carné. Dá tchau pra mim. Vê se me liga de vez enquanto. Eu não vou ligar não, ela pode estranhar. Então, até a vista. Não me aperta desse jeito, vai que ela aparece. Você é um safado mesmo. Fui. Tchau.

NSL

21/01/11

Carnaval de jardim

Ô abre alas que eu quero passarinhos
grilos porta-bandeiras e borboletas passistas
um rouxinol puxando o samba canção
e a bateria puxada por canarinhos

NSL
16/03/14

sábado, 15 de março de 2014

dor

às pressas
desfazer dos afazeres
ligeiro
retornar ao lar
cruzar o portão
a porta
e no recôndito 
reconhecer
não há lugar
para voltar
só existe 
o caminhar
e uma insuportável
dor nos pés


NSL
15/03/14

sexta-feira, 14 de março de 2014

soluço

Apesar de tudo fui embora sem coragem de perguntar:
_ Porquediabosnãopodesmeescolher?

(este choro até hoje reverbera em minha garganta)

NSL
14/03/14
havia o nosso esconderijo 
de gang do robin hood
um dia sua chegada nos assustou
um belo e velho guerreiro negro
mas ele também era da gang
ele de mim se enamorou
bastou me abraçar 
para sentir sua potência
de minha árvore eu olhava
e também me enamorava
daquele belo, forte, velho 
e negro robin hood

(desde então - cinco dias -
todo sono se converteu em procura)

NSL
14/03/14

terça-feira, 11 de março de 2014

asfixia

paixões vividas
não aliviam o peso
das pedras em meus bolsos
(seixos de memórias roladas)

daria um ano 
por uma paixão
que me lançasse 
num único- 
mesmo que último-
voo

NSL
10/03/14
essa manhã eu fui uma mulher em chamas
e carreguei comigo o calor e as cores das chamas

por falta de um mapa de incêndios 
e de companheiros incendiários
ardi em altas chamas
completamente desperdiçadas

NSL

08/03/14

domingo, 9 de março de 2014

e tem este vício 
de meu olhar que
diante de uma imagem 
se parte em dois
(o fotógrafo e o fotografado) 
e nunca de me deixa
observar o mundo
impunemente

NSL
09/03/14

sábado, 8 de março de 2014

reverência

um enfisema 
e um caramelo no bolso
o último que pediu
muito respeito
pelo inventor 
da escova de dentes

às vezes a morte
torna grande
pequenas coisas
da vida

NSL
08/03/14

sexta-feira, 7 de março de 2014

ainda que mil vezes eu te abrace
e te acalante te contando
que irás crescer
que tudo te irás bem
que irás ser amada
mãe de filhos lindos
por que teus olhos tristes
e tuas faltas me perseguem,
menina?

NSL
07/03/14
faria um painel
com as fotografias
de todos que 
deixaram de me amar
seria um grande painel

mas para desamor 
só paredes nuas

NSL
05/3/14

quinta-feira, 6 de março de 2014

tenho ganas de despir as coisas
despir pessoas de suas infindáveis palavras
despir as ações de tantos rituais e adereços

são ganas tão violentas 
que me pego momentaneamente 
despindo as árvores de seus pássaros 
despindo os jardins de suas ervas e flores
chego a desejar despir a tarde das brisas inúteis
e penso finalmente que deveria despir 
até a minha presença deste poema

NSL
06/07/14

quarta-feira, 5 de março de 2014

à espreita

só quem conheceu
na infância, a fome
sabe deste olho
que vê num prato repleto
a urgência de esvazia-lo
e assim aplacar a morte 
à espreita no fundo 
do  ventre

NSL
05/03/14
nem a beleza
nem o amor pelos cães
fará perdoável
sua lascívia

NSL
05/03/14

pés

quando sabemos da distancia do espirito
é que cuidamos de encontrar os pés
sob o edredom

o toque leve dos artelhos
(mesmo em dias quentes)
é a prova física de que 
nosso encontro subsiste

NSL
05/03/14

1997

sanidade tem data de validade
a minha venceu faz tempo
foi em 1997
perdi o rumo e o prumo
uma crise pessoal
e financeira 
mãe solteira pela segunda vez
começava  desconfiar da eficiência
e da eficácia do cinco S
o cara que eu amava
plantou uma barriga 
em outra
e eu, que vinha aprendendo ser louca
concluí carreira 


NSL
05/03/14

terça-feira, 4 de março de 2014

chafariz

suporto a neve do terreiro
sem  crer na lareira na sala
me aquece o calor da memória

borbulham minhas lembranças


NSL
04/03/14

homens de bem

seria mais fácil convencer meninos 
a tornarem-se homens de bem
se os mesmos meninos não 
descobrissem cedo
que os cheiros obscuros de seus pais
foram obtidos nas infindáveis viagens de ônibus 
porque os pais - homens de bem- precisam
trabalham em subempregos longe de casa

seria mais fácil convencer meninos 
a tornarem-se homens de bem
se os mesmos meninos não 
descobrissem cedo
que os cocurutos nervosos dado por suas mães
se dão porque elas estão 
cansadas demais para corrigi-los 
sem violência porque são mulheres de bem 
e não responderam as humilhações de suas patroas

seria mais fácil convencer meninos 
a tornarem-se homens de bem
se os mesmos meninos não 
descobrissem cedo
que ser um homem de bem 
quase sempre implica em carregar 
sobre suas costas o pesado fardo
dos grandes homens de bens

NSL
04/03/14

contagem

a janela da cozinha
peneirava o sol da manhã
ela trazia restos de sono no rosto

as malas pareadas como cães
ao lado do sofá na sala
lá no quarto ele dormia ainda 
o choro da noite toda

jogou no lixo o filtro de papel
cheio de pó coado
o de número 1276
o caso anterior fora menos
exatos 927 filtros

tão doído este  sentimento
de faca amolada pronta
pra cortar o amor
assim sempre contado
nos filtros de café
coado

NSL
04/03/14


segunda-feira, 3 de março de 2014

para alivio 
de nossos filhos
grande parte
da dor da vida
quebrou em nós

NSL
03/03/14
não fosse o ressentimento
seria velha como adélia
pacifica, convicta, erótica, fiel
mas a dor em mim é neon
e a raiva,  atávica

NSL
03/03/14

envelheço cedo
ora filha
ora mãe
oscilo 
à minha frente
algumas anciãs
abrem caminho
um dia deixo
de olhar para trás
com esperança
continuo a envelhecer 

NSL
03/03/14

domingo, 2 de março de 2014


meninos se ajuntam 
ao meu redor 
doses extras de amor
sem ter onde firmar

uma saudade funda
do que nunca fui
murmúreo inúmero
não acaba aqui
mas falta convicção

braços, pés, cabelos
bastava um toque 
nas extremidades
mas nada tenho 
que sirva de borda

NSL
02/03/14




todo dia é este engano
como se hoje fosse o dia
de começar a ser feliz
quem disse?

tudo que vale
a juventude, o vigor
a saúde, vai longe
e o que vai ser?

aprender a contentar-me
com pseudo-alegrias
depois de ter 
desvelado o mundo
vai ser duro
e nem sei 
se vou querer

NSL
02/03/14

sábado, 1 de março de 2014

não pense que há fuga
que possa agradar
de qualquer maneira
estamos aprisionados
a história de nossos pais
quando não é 
o inferno da repetição
há um modo mortificante 
de vivê-la ao contrário

só é inédito quem morre ao nascer

NSL
01/03/14

é quando nenhuma paixão me acossa 
que fico pensando que a vida acabou
se durmo, é com o consentimento da chuva
por que estar sempre acordada é que não sei
esse contar as horas cotidiano me apavora
um dia ainda amarei o trabalho como antes?
onde fica o compartimento para ligar a cura?

NSL
01/03/14

dentro e fora é a mesma coisa III

nasci outro dia na árvore da memória
estou prenhe de uma história sem dor
aprisionada numa semente de cereal
espero os dentes fortes do real

NSL
01/03/14