sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Às vezes

Às vezes é  preciso ficar
não há lugar
onde se encontre
o pedaço que me falta

Às vezes é  preciso aceitar
o vácuo vazado no peito
eterno companheiro de viagem
aos domínios do reino da ausência

Às vezes é  preciso parar
de achar que o corte espesso
vai parar de sangrar
ou se juntar ao outro perdido de mim

Às vezes, só às vezes 
é  preciso pousar os pés
no chão da realidade solitária
e acordar do sonho de encontro

Norma de Souza Lopes

domingo, 16 de outubro de 2011

Pálido Cordeiro


Não venha tirar de mim o agora
ou me fazer emergir 
desse mergulho absorto
que me afasta do que me cabe
do que me serve 
do que me bastaria
caso o presente não me sugasse


Me prostro pálido cordeiro 
ante o  fiel e algoz acaso
embora saiba que o instante
nunca será o bastante
daqui por diante
estarei inteira no devir pulsante
na vontade de ser apenas 
vítima urgente da ventura
presa constante do agora

Norma de Souza Lopes

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Inspirada

Algo que me enche de tédio é essa extrema dúvida entre viver e escrever. Se danço com a vida e sigo seus fluxos mais intensos nada sai de meu teclado. O bruxelear de meus dias fartos, saciados e felizes são de uma total falta de inspiração.
Dançar, beber, comer e rir consomem a possibilidade de me eternizar em palavras escritas. Não que eu creia realmente que minhas palavras hirsutas serão eternizadas. Apesar de seguir alucinando a crença de que do éter surgirão olhos sagazes e capazes de visualizar algo grandioso em minhas palavras,  no fundo  suspeito a mediocridade desse amontoado gráfico.
Há momentos porém que escrever me causa frêmitos. Mesmo depois de concluída a obra, repasso os olhos e chego a duvidar se são meus os arranjos literários. 
Mas o leitor poderia me perguntar quando se sucedem esses tremores.
Eles surgem exatamente da mais absoluta falta de vida. É preciso estar muito infeliz com os meus dias para me por a escrever. Qualquer pequena saciedade estanca meu sangrar criativo. E é esse o pensamento que hoje me causa náuseas.
Se eu escolher escrever a obra de minha vida terei que me enterrar em um recôndito inerte de minha consciência, ou mergulhar incólume da vida em alguma experiência infeliz.
Me custa fazer a escolha. Quem poderia escolher algo assim?
Por enquanto prefiro crer que sou a grande artesã cósmica que abriga no ventre ou na alma uma obra grandiosa. Me deixo estar bailando entre o caos e a ordem dessa vida oscilante, que traz saciedades e infelicidades com a frequência de chuvas no outono.

Norma de Souza Lopes

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Alteridade

Agora que já sei
quantos tantos sou eu
resta retirar
tantos outros
restantes em mim

resto residuo descartado
descartável

Agora que já sei
quantos tantos  sou eu
cabe acolher
tantos outros
constantes em mim

conteúdo ligado casado
conectável


Norma de Souza Lopes



terça-feira, 4 de outubro de 2011

Desencantar

Embora tenha dito
"Não dialogo
com quem quer me dominar"
sigo dominada
de mim nada

A sedução
é a forma mais sutil
de dominação

Ser livre exige 
perder o gozo
no jogo da sedução

Norma de Souza Lopes


domingo, 2 de outubro de 2011

ela dançou

Ela, atéia de carterinha
deu graças a Deus pela gente no salão
e até dançar ela dançou

Amante fiel das belas mulheres
flertou com homens e garotos
e até dançar ela dançou

Pôs o Nietzsche fora da roda
papeou sobre a novela
e até dançar ela dançou

Avessa a toda metafísica
desejou o amor como um milagre
e até dançar ela dançou

Sempre independente e resolvida
desejou casamento complicado
e até dançar ela dançou

E naquele dia de festa e dança
experimentou ser outra 
tal qual um redominho de vento
fruindo no corpo a embriaguez e o gozo 
circulou, rodopiou e ascendeu outridades


Norma de Souza Lopes

VÃO

Busco no silêncio
esvaziar
sem palavras
para revelar o real

Respirar o natural
não ser sufocada
pelo sentido
alheio às coisas 


Norma de Souza Lopes