quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Tem nove anos. Chegou com uma meia dúzia de pedras na sala e distribuiu entre as colegas:
_ Um presente para você, você e você... Sorri feliz com seu feito.
Uma colega pega o presente, observa e lança pela janela.
Ela chora de soluçar:
_ Jogou... fora... o meu... presente...
A professora indaga:
_ Porque você jogou fora?
_ Professora, ela colocou um chicletes mastigado e duro aqui na minha mesa.
_ Era uma pedra... Um presente..
_ Porque fez isso, não se joga fora um presente. Não precisa chorar, vá lá lavar seu rosto.
E observa a menina procurar o chicletes caído do lado de fora da janela...

(e eu pensando em quanto isso se parece com fazer poesia)

Vim para perder - Dianan Moncada - Tradução Norma de Souza Lopes

Volto sobre a mesma fenda como uma máquina deteriorada.
Volto sobre o mesmo erro,
sobre a mesma caça de brancos espelhos.

Volto, mesmo sabendo que a palavra me é sensualmente inútil,
mesmo sabendo que não darei nunca com nenhum maldito prego
sabendo que nada poderei dizer
sobre os lobos afogados na carniça do meu tédio.

Vim com o poema
-cegamente-
para perder.


daqui ó http://www.lamajadesnuda.com/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=1167:diana-moncada&catid=60:poetas-de-caracas&Itemid=168

domingo, 13 de agosto de 2017

do auto amor e seus sinais

há esses que nos levam
selva adentro
e há as migalhas que
deixamos ao largo
por precaução

crônica de um evento noturno

cinco minutos depois que saímos
eles entraram, roubaram e atiraram
é estranho pensar que
enquanto eu, meio alta
fotografava nós dois
pelas ruas do bairro
alguém quase foi morto
crueldade e principalmente
raiva de quem não
aceita a impotência
péssimo encontro
e a gente brincando
de novo de se amar
cabe tudo isso no mundo
não que eu não tenha raiva
é que converso com ela
entendo até aquela raiva das
manas nos saraus
ela vem desde a mil avó
escutar em silêncio
é o caminho
acolher até dissipar
a tristeza de agosto
não foi bela
uma radiografia
mostra-a tão feia
quanto o corpo
depois do amor
e das orações
vaidade demais, eles dizem
toda essa exposição
mas a luz às vezes
sai dos seus olhos
de quem vê
como na olympia de manet
eu sei, sou escrava
e cúmplice de minhas paixões
mas no meu desejo
me reinvento
não sou signo
sou acontecimento
é estranho pensar
que nós saímos
cinco minutos antes

terça-feira, 8 de agosto de 2017

ternuras inventadas

não entendi nada
daquele sonho
dos armários abertos
no consultório

"me desculpe outra vez"
você disse
e dormiu satisfeito
a noite inteira
com sua justiça
ok,  tenho todo amor que preciso
sem fazer meu mundo ruir

quero desistir
mas ajudava
se você fizesse
aquelas coisas idiotas
que todos fazem
no primeiro encontro

derreter satélites
é a metáfora mais bonita
para uma fantasia

desolação

não parece certo
tanta força
é tão pouca sorte
isso não é um poema
é uma oração

domingo, 6 de agosto de 2017

8029 dias

recusa brincar com abismos
ignora o por-do-sol 
insiste em minhas ruínas
se encanta com a teimosia de um
dos bicos de meus seios
tão simples como a água 
e a sede, seu lugar 
é dentro de mim


alegoria

demora semanas, meses até
quis um acontecimento
para eu colocar nesse poema
que funcionasse como
um enigma
da alegria do encontro
mas não me lembro
de nada singular
só da gente brigar
o tempo todo e daquele
grafitti que provavelmente
você nem vê
da sua janela

anunciação

entrando o anjo disse-me
alegra-te cheia de graça
eis que conceberá
é dará luz à poesia
(e no meu ouvido segredou
serás a invenção de si,
só de si e de mais ninguém)
então respondi
que a poesia
faça de mim a sua serva
e que eu seja
a mais bela invenção
e o anjo retirou-se

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

todo poema de amor é o último

há um momento
naqueles  sonhos
em que se pode voar
que pressentimos a fábula
e não se quer acordar
ei, eu seu que estou perdida
mas estou bem
ainda choro em posição fetal
(mas só por meia hora)
o bacana do amor
é que ele fica
depois que todos partem
todo mundo finge que é
o centro do universo
comigo não seria diferente
ser a primeira
na quadrilha de alguém
vai ter que ser suficiente

segunda-feira, 31 de julho de 2017

replay

gosto de não trabalhar no centro
isso faz com que a cidade se torne especial
é manhã de segunda do último dia do mês de julho
aqui nesta fronteira do mundo
carteiros e coletivos estão no horário
torço pela volta dos dias de verão no chafariz
da Praça da Estação, onde até os sem-teto são literários
nesses dias líquidos, cheios de jogos e de imagens
trabalhadas, encontros analógicos são a melhor experiência
você fica sempre tão bonito vestido para sair
virava fácil um graffiti dos gêmeos
o silêncio sempre me pareceu algo bem desafiador

talvez por permitir qualquer palavra no seu oco
talvez por eu nunca ser capaz de me calar
há um rumor do que você não diz
que conversa com essa mulher estranha
e selvagem que eu sufoco em mim
pouca gente sabe mas depois de Ten
Eddie Vedder nunca mais foi frentista
saber se rasgar às vezes nos tira do lugar
mas já entendi que você não vem
o que me transforma nesse replay
infinito dos últimos verso de Black



Dois poemas de Sam Shepard - Tradução Norma de Souza Lopes

Desde a grama alta
até borda do pátio asfaltado
te vejo me esquadrinhar


te vejo quando não sabes que miro
e cada mirada que roubo
adiciona um dia a minha vida

ultimamente está mais difícil de te capturar
ou estou ficando velho
ultimamente está mais difícil de te capturar


********
Já vi praticamente
todos os narizes arrumados
todos os dentes clareados

e todas as tetas remoçadas
que posso suportar

Vou regressar
à mulher natural


 daqui ó http://emmagunst.blogspot.com.br/2010/05/cronicas-de-motel-2.html 

sábado, 29 de julho de 2017

tão potente quanto suas mãos

o que parece ser a sua beleza
esteve sempre depositada
em minhas retinas e as meninas
dos meus olhos são volúveis
podem amar milhões
tivesse sido atento
teria entendido meu fetiche
por suas mãos
agora não importa mais
antes de desistir preciso dizer
porque não aceito tão pouco
pontes são melhores
que escadas, pseudoencontros
consistência fluida
me fazem esquecer
que a minha história
é mais bonita
que a do Robinson Crusoé
sei que é o clichê
mas quem perde é você
meu veneno mais doce
será te olhar e te ver
tão desimportante
quanto verdadeiramente é
não raro um poema
assassina projetos de amor
ouça os gritos
este ordena
PARE DE SE RASGAR
não é de hoje que costuro
as recusas com palavras




quarta-feira, 26 de julho de 2017

A verdade sobre a poesia que ninguém contou

Tive dias em que um arco-íris
era apenas refração da luz solar em gotas d'água
que o som dos pássaros só comunicava sua fome
que um náufrago era aquele obrigado a continuar vivo

Eu pensava que não existia poesia.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

simulacro

irremediável  como tombar
é não caber no próprio nome
quem me ensina a morar no agora?
ontem descobri que não aceitei
o convite para o encontro com o tempo
do fundo do abismo toco um tamborim

sábado, 22 de julho de 2017

oblíqua

para Val Armanelli

quase felina, um assopro de voz
há tantas em você, fazendo elo
fantasia e sonho, heroína
um dia me olhou, menina oblíqua


e eu quis ser sua mãe

balada pelo retorno do verão

quem me atravessa 
não imagina que marcas 
deixa em mim
melhor que seja assim
anseio o retorno do verão
frio e ausência 
não é nome para tristeza
por que todos parecem mais felizes 
quando as temperaturas sobem,
quando se afasta a solidão?
o que é real para você?
sombras também são verdade
a solitude é boa companheira
se não vai me tocar não me chame
se pretende me mudar não me ame
o que é real para você?
estivesse no mar
poderia dizer que o som de ondas
é tão real quanto o crack 
de meu coração partido
já passou, parei de sangrar palavras
me abraçar em seu travesseiro
pode te satisfazer 
mas e daí, o que é real para você?

quarta-feira, 19 de julho de 2017

déjà vu

há algo diacrônico

em se escrever poesia
primeiro se repete
à exaustão
o que se é
sem ser

traduzido o ser
nos ocupamos em o desvanecer
descrevendo outros objetos

soubéssemos o não-azul do céu
nunca o pintávamos

a dor não tem força para frequentar manifestações

a despeito do vício
de acontecimentos
para o futuro
crianças são agora
saraus estão lotados
e é isso que importa

terça-feira, 18 de julho de 2017

Nadia Escalante Andrade Não tinhamos água em casa, lá fora chovia Tradução de Norma de Souza Lopes

Não tínhamos água em casa, lá fora chovia
Levamos os baldes e panelas
para encher com a chuva.

Sentados na calçada , esperávamos.
Parecia que a água inundava a rua, porém não os recipientes.
O ar, no entanto, entrava mais forte em nossos pulmões,
 e era mais ar que o ar da casa,
era como água que não decidia
a encher-nos por dentro,
e se derramava pelos braços, umedecia a roupa
e resvalava até o pés como uma sombra.

Era lenta a generosidade da água.
Podíamos ver o fundo da panela,
de aço que parecia lentamente
encher de si.

A água tornou-se sólida e dura como o material que a abraçava
parecia ondular ao ir se preenchendo.
Respirávamos o ar com preguiça
enquanto sorríamos absorvidos pelos sons
que caiam fora do nosso silêncio.
A água acumulada era livre,
um só substância dentro do metal.
Transbordava e tivemos a satisfação de ver um corpo
sair de seus limites sem deixar de estar cheio ao  transbordar
Também nós fomos recipiente,
cheios do som da água, respirando
o ar da chuva que não havia em nossa casa.

Nós miramos transbordar e sorrimos; éramos livres,
uma só  substância cada um,
dois corpos de superfície generosa,
e no fundo de nós, a água própria
que ondulava o material do recipiente.

daqui ó http://www.laotrarevista.com/2010/08/nadia-escalante-merida-mexico/

uma sessão de beleza para a loucura

no chão do supermercado resgato
um pedacinho de papel onde se diz:
"você é uma bênção para sua geração"
isso me faz chorar
pois me lembro que ontem
mesmo perdi amigos
por causa de uma doença mental
que me esforço para controlar

há dias em que uma mulher precisa
levar à sério as compras mensais
e ignorar a longa fila de imbecis
que insistem e dizer
o jeito mais adequado de viver
ou para que a poesia
serve ou não serve


há dias de ser rígida e viva
uma estrela do mar, e carregar
em si todas as cores do mundo



domingo, 16 de julho de 2017

poema sobre estar só numa manhã de domingo e estar triste

tento ser uma pessoa boa
tento não pedir perdão pelo mal que me fazem
tento não chorar toda vez que leio a adília lopes
tento não sofrer quando percebo a decepção da minha mãe
tento não usar saltos de 11 centímetros em ocasiões ordinárias
tento não manter a cabeça guardada sobre as asas como um pombo
tento lidar com alegria com o fato de estar envelhecendo na velocidade da luz




terça-feira, 11 de julho de 2017

coração em conserva

você se esforça para manter entre as pálpebras
fragmentos da imagem daquilo
que, ainda que te faça sofrer
representa uma forma doce de amor

guarda sobre as asas a cabeça
pois sabe que se não guardar
há de escapar pelo vento
o cheiro do cabelo
o hálito de manhã
aquela voz, bach ao som de um oboé

não há justiça no destino, eu sei
houvesse, você teria esperado
40, 50 anos por mim
você estaria nessas esquinas da vida
o coração embrulhado em papel de seda
para me entregar




bárbaros

Montaigne conta que os godos deixaram intactas as bibliotecas e os livros dos gregos pois as julgavam inúteis e afeminadas.
Os mesmos godos que sacrificavam seus inimigos ao deus da guerra e penduravam em árvores, como oferenda, os espólios de batalha.
Cada mulher guarda em si uma Biblioteca de Pérgamo.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

quando marte veio me visitar

assassinei três poemas esta manhã
vê esse escafandro?
matei afogado seu dono
ele jaz no meu sono da tarde
os olhos  do homem, enquanto
imergia, me diziam: "como pode ser
tão ingrata com a poesia?"
despedacei papoulas
(na verdade rocei um jardim inteiro)
arranquei sem dó uma costela
(quem sabe não removo
os vestígios de adão?)
ando com medo da justiça da musa




quando

quando deixou de tocar meus pés sobre os lençóis enquanto dormia
quando não pode amar o meu sorriso quando não sorria para você
quando deixou o amor escorrer para o ralo por falta de cuidado
quando negligenciou as poucas coisas que fazíamos juntos
quando decidiu deliberadamente ficar para trás
quando atirou as sandálias ao rio por ódio
quando foi avarento com a venda do carro
quando quis ser mais macho que homem
quando impediu que eu tivesse um gato
quando o tesão se divorciou da poesia
quando não soube amar meus filhos
quando deixou de dançar comigo
quando quis que eu fosse menos
quando me quis menos
quando silenciou
quando


quarta-feira, 5 de julho de 2017

21 Carolina Otero - Tradução de Norma de Souza Lopes

Chega a chuva de janeiro
aos ombros dos transeuntes.
Úmida tristeza em seus guarda-chuvas.
O frio se coloca em torno de seus pescoços.
Mas por trás da névoa da janela,
marido, tu e eu, nos entretemos
fazendo o que tão bem sabemos
fazer. E o repetimos
para causar  rubor aos vizinhos
e inveja às freiras
do colégio em frente.
Outra vez, e outra vez,
que uma só não é
suficiente. A melancolia chega
para vender-nos sua enciclopédia
em enfadonhos fascículos.
Não a deixe entrar, querido,
que ponha seu ouvido na porta
e saiba que estes dois mortais
não necessitam mas que o corpo
para não morrer nunca.
nesta fria tarde.


terça-feira, 4 de julho de 2017

submersão

me disseram
não se atira ao amor
como um afogado
vou aprendendo com essas
cicatrizes transparentes
deixadas por quem não me toca

sorvo em pequenos goles
as carícias  dos rios
que me atravessaram
estou atrasada pro trabalho
admirando o amanhecer no inverno
imita um hematoma de uma semana
contando são quase mil dias
de solidão

domingo, 2 de julho de 2017

Se um dia me ouvires Ana Pérez Cañamares - Tradução Norma de Souza Lopes

Se um dia me ouvires
- depois de uma noite
em que me coube ser encantadora,
como essas mulheres que bebem
e se fazem de graciosas
contando piadas
de bares e ácidos e viagens
e camas e cabrões
o cabelo despenteado
e a maquiagem borrada
como se viesse
do banheiro tendo abraçado
ao tipo mais faceiro
da gafieira –
se um dia
após uma noite dessas
em que faço
de encantadora de serpentes
me ouvires dizer
que sou apenas uma fraude
tem pena de mim:
nós adictos dos aplausos
também precisamos de testemunhas
quando tiramos
a maquiagem.

de tanto amor que desejo

de tanto amor que desejo
que me viro do avesso
e esqueço meu nome
e permito que me cozinhem
em fogo brando

de tanto amor que desejo
que desprezo meu sal,  umidades
me esqueço que só
essas águas me lavam
apagam minhas chamas

de tanto amor que desejo
renuncio ao título
de senhora das sombras
e divido em duas, como salomão
as verdades de minhas dobras e rugas

de tanto amor que desejo
que me perco na espera
de que homens sejam flores
e não essas armas de guerra
arvores fálicas

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Todo amor - Gagan Gill - Tradução de Norma de Souza Lopes

Quando chega à sua porta, a primeira coisa que todo amor
pergunta é: você pode pular da janela por mim? Você pode esfaquear seu coração por mim? Todo amor pergunta isso: você pode voar por mim 
com seus braços amputados?

Quando o amor chega na sua porta, não vai sair em breve.
Tem que ir para alguma montanha ou vale. Para um oceano ou rio.
Ele vem à sua casa do nada e quer saber se
você vai se afogar com ele ou não.

Todo amor dá tempo suficiente para você morrer completamente.


Daqui ó http://www.poetrytranslation.org/poems/every-love 

terça-feira, 20 de junho de 2017

Pera - Alejandro Aura - Tadução de Norma de Souza Lopes

Estava eu descascando uma pera distraído
contente de servir-me o desjejum,
quando de repente notei o pouco pudor
com que se deixava eliminar a vestimenta
e como soltou umidades e como me escorrias pelos dedos
um jogo lúbrico que me pedia certo pudor que nesta matéria eu havia perdido
e não por isso eu a sentia menos densa e doce
acomodar-se à temperatura de minhas mãos;
a nomeei suavemente no reino das frutas,
a chupei, a mordi, a fiz minha
e escrevo seu nome para que não se apague a memória dos
séculos: pera.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Não Confie - Abel Feu - Tradução de Norma de Souza Lopes

      Te queixas às vezes —e te pões
bastante irritada, e por isso
aliás, não te ofendas— porque dizes
que meus versos te querem mais que eu.
     Bom, bom. Poderia replicar-te, mas, oh!,
te conheço de sobra,  não me ouvirias,
assim, tudo bem, valeu, O.K., d'accord.
E não é por defender-me, mas, ei,
ao menos, digo eu, se estás de acordo,
poderíamos discutir isso? O que você acha?
     Porque, vamos, Que fazem eles por ti?,
Então, o que fazem? Te acompanham? Vão
contigo ao cinema, para um passeio? De bicicleta?
Te escutam quando está de blá blá blá?
Te chamam todo dia —repitopitopito:
todo dia (que pequena conta)—,
por telefone? Einh?
     Tenha cuidado, são ilusão. Não confies
em nem um verso. Mira que eles
—depois não venha dizer que não avisei—,
eles te querem,  apenas, de palavra.
 
http://andresvara.blogspot.com.br/search/label/Abel%20Feu

domingo, 18 de junho de 2017

O pacto de Alfonso Brezmes - Tradução de Norma de Souza Lopes

Se me acende, não aguardes
de mim conversa fiada,
os desgastados ritos do amor,
as consabidas normas,
os regulamentos mais toscos
que matematicamente predizem 
como tudo se tece e destece.
Se me prendes,
não me venha com lenha para um dia
que acaso nunca haverá de chegar,
não me venha brincar o jogo proibido,
se ignora a aritmética e o cálculo.
Não te cubras, não conserves:
organize tua vida para o fogo.
Este é o pacto: se me incendeias,
arde comigo.


Daqui ó http://andresvara.blogspot.com.br/2016/01/alfonso-brezmes.html

sábado, 17 de junho de 2017

poiesis

quantos são os poeta hoje?
me perguntam
e sou obrigada a dizer: menos do que precisamos
é mortificante que tão poucos sejam poetas

mesmo estes mitos desamparados 
essas nuvens errantes 
beija-flores sedutores
mesmo esses
nos trazem algum alento

é tão triste
a falta de poesia em um homem

sexta-feira, 16 de junho de 2017

adicta


escrevo versos
como quem passa o chapéu
a espera de moedas, o amor
a poesia me consome
como um vício
ou seria a paixão?
lembro-me de tuas mãos

tão bonitas
mas inúteis para mim


(ninguém viu
mas no  verso em branco
eu disse seu nome)


August Rodin (1840-1917)

 

quinta-feira, 15 de junho de 2017

fôlego

repousa descuidado
sobre esse nome: meia-noite
ignora a potência de meu fôlego

se abre só por um instante a boca
assopro entre seus dentes
um sol de amarelo ardente

sou a mulher em chamas

Imagem de Antonio Lee

sábado, 10 de junho de 2017

o diminutivo do seu nome

ontem observei que o diminutivo do seu nome
significa espreita, alvo, desejo
e é divertido como essas palavras dizem de você
porque, como a serpente do poema do igor
estankona, me espreita de maneira que não
se possa preparar a defesa, ou seja
até que eu esteja submissa

o fato de eu ir e voltar
não tem nada a ver com jogo
mas sim com um esforço de desfrutar
da fantasia sem enlouquecer
e só quem me conhece pode
saber como é grande coisa
não enlouquecer

escolhi você como alvo
por causa dessa sombra intangível
que vejo em seus olhos e a impossibilidade
me faz cada vez mais achar que estou certa
porque com você tudo parece dar errado
o que, em minha lógica interna é
uma bela maneira de acertar

que o diminutivo de seu nome também
signifique desejo não é nada estranho
pois você carrega essa voracidade
indisfarçável dos homens que não se
constrangem em desejar o sexo em
sua forma mais primitiva e ávida

os ponteiros da minha bússola
feminista se arrepiam porque
não me parece certo que
uma mulher esteja assim
tão entregue às lascívias masculinas
mas reconheço que seu desejo
desperta minha própria sofreguidão

escolhi não perder muito tempo
com seus silêncios porque
tenho meu próprio tempo perdido
para recuperar e a felicidade
não é uma coisa que se
construa da noite para o dia

não estou dizendo com isso
que renuncio a essa invenção de
você que criei, não é isso
respeito essa imagem como a um poema
e vou cultivá-la enquanto ela
for capaz de me acrescentar vida

na savana que vivemos sou a gazela
e também o tigre e sinto de longe o cheiro
do seu medo, menino índigo
entendo porque não queira lutar
fazer parte dessa geração tão
promissora que não chegou a
acontecer planta em nós fastio e tédio
com as ciladas do sucesso e da adaptação

quem disse que não se ganha nada com a paixão?
você já me deu quase uma dúzia de poemas

quarta-feira, 7 de junho de 2017

uma mulher deve seguir


Eu vi uma mulher e ela moldava um pote em volta de si
Ela guardava a si, suas melancolias, sussurros e medos em um pote

Mas um dia as guerras se instalam e chega a hora de partir
e uma mulher precisa saber viajar discretamente
levar a penas o necessário
sonhos, um caderno, um vestido vermelho

Uma mulher não deve se compadecer de seus sapatos velhos
ainda que implorem: "fica"
que supliquem para que ela continue a dançar
uma mulher deve seguir caminhando sem esquecer que
sem ela eles são apenas um corpo vazio num salão

Uma mulher precisa cuidar para não deixar
os olhos perdidos nalguma gaveta

Quando chega a hora, uma mulher precisa marchar
no caminho, animais perigosos, rios turbulentos
há que evitar novas jaulas, violências
mas vale seguir o curso do rio
sempre é possível saber para onde vai um rio

RUDE Manuel Arana Tradução de Norma de Souza Lopes

Por muito que me esforce
(talvez, por isso eu nem tente)
esse nunca será um bom poemário.

De qualquer maneira, serei sincero contigo.
Quando alguém ensina seus poemas
sempre pretende algo, sempre:
Aprovacão, se estás seguro de que são bons.
Ou críticas construtivas para poder refazê-los
se não as tem todas contigo.
Embora existam duas reações que realmente buscamos.
Uma é conseguir que alguém se sinta contemplado
nos poemas e diga “isso era o que eu sentia”.
Porem a mais esperada
(é que, por desgraça, menos se escuta)
é que o destinatário real dos versos
responda corretamente a todas as tuas perguntas.
Em meu caso seria algo assim como
“deixa já de poeminhas
e vem aqui, porra”.
Daqui ó https://www.google.com.br/amp/s/hectorcastilla.wordpress.com/2012/09/28/manuel-arana/amp/

domingo, 4 de junho de 2017

ontem

tantos versos apagados
até chegar a um poema
me amarrasse ao mastro
e plantasse cera 
em meus ouvidos

nada disso funcionou
a julgar pelo mergulho 
em seus olhos











sexta-feira, 2 de junho de 2017

essas coisas que não se suplicam

há três noites não durmo direito
desamor à beira do nada
procuro fora do tempo
uma palavra que não soe
como grito de socorro
desespero a espera de amor
por puro pânico sussurro meu nome

quinta-feira, 1 de junho de 2017

nada a fazer contra o desperdício

repito palavras para trazer à memória
imagens apagadas por segredo e susto
nada a fazer contra o desperdício
dias em que tu, mais uma vez
não pousou tuas mãos
sobre minha nudez
de leite e outono

amanhece e meu corpo sussurra, "entre"
meu coração se cala, porém
isso de sermos feitos
da mesma massa
orgulho e medo
há de atrasar por séculos
um encontro épico
a mulher em chamas
o homem de sombra
e selva

terça-feira, 30 de maio de 2017

alerta de desastres do amor romântico

crês que amar é um imperativo tal qual viver ou morrer?
amar é uma mentira que ninguém desfaz
vês um gigante de bronze, um Talos?
nem se dá conta que trata-se de uma mulher
a atirar pedras na paixão
embarcação que espreita para aportar


não seriam inúteis seus esforços
uma vez que cumpre eterno retorno
ao lugar de sacrifício
o altar erguido ao amor romântico?


ouça homem, esta mulher
leva atravessada ao calcanhar
a flecha do amor, e haverá de sucumbir
mas como o gigante de Creta
não tombará antes de arder totalmente contigo

sábado, 27 de maio de 2017

haveremos

antes a vida cabia toda 
num caderno de perguntas

e respostas, hoje o que se tem
é o insípido jogo da compensações
impossível arrancar dos flancos
a flecha cicatrizada
resta sorver em goles 
a asfixia da diferença que nos reduz
mastigar frenéticas
nacos de pão e ódio
haveremos de nos vingar
escrevendo com o giz dos escombros 
das paredes que demolimos todo dia
sobre a rasura de nossos nomes na História 
somos mulheres, estamos aqui
desde a fundação dos tempos
e viemos pra ficar 



sábado, 20 de maio de 2017

terça-feira, 16 de maio de 2017

nem todo poema merece perdão

me constrange que não possa
levar pão a cada boca faminta
cobrir os pés de cada menino descalço
acolher cada irmã que sofre desamor
cada irmão que sofre racismo
cada anciã negligenciada
cada cão abandonado

inábil para esgrima, me constrange
estar aqui a rezar padre-nossos
e a falar da beleza dos arrebóis

sábado, 13 de maio de 2017

aquele que carrega mais verdade

são quatro horas
um feirante cumpriu o seu dia
pássaros concluíram seus ninhos
soldados invadiram países
as raízes do gengibre brotaram no quintal
e eu convicta que fiz muito mais
há horas repassando seu gosto mineral
pousando fundo em minha boca
lembrando o cheiro ocre de suas camisas
no fim do dia, ou de seus cabelos, um mundo
me pergunto porque só agora pode me dizer
"eu te amo muito mesmo"
quando já não era livre
repasso entre os dedos meu futuro
o eterno ciclo de escuro, dores e cura
e constato que, de todos os homens
você é aquele que carrega mais verdade
para trilhar comigo a estrada
dos encontros sagrados
quando não cria em signos
era mais fácil confiar
na autoria do meu destino
mas hoje nada me remove a crença
de que no dia em que nasci
as estrelas escreveram desencontro
nas solas dos meus pés

quinta-feira, 11 de maio de 2017

barricadas inúteis contra o ritual do tempo

não me venha impor suas paixões insanas
tenho as minhas e elas, às vezes, metem medo
já não falo de estações, as palavras azedam na boca
onde foi que eu perdi
a esperança grávida de cada poema?
há algo de revolucionário no silêncio

terça-feira, 2 de maio de 2017

eu não deveria escrever mais poemas

as bibliotecas estão cheias de livros de poemas
as livrarias, os sebos, estão todos cheios
estão repletas as estantes das casas

mas há estes esquecimentos diários
o fogo aceso, a torneira ligada, os óculos
estar diante de você e não me lembrar meu nome
não me lembrar tampouco seu nome
nunca mais me lembrar do cheiro do café
que sua boca exala pela manhã
do olhar de meus filhos enquanto eu os amamentava
das amigas que que morreram sem autorização
de como me senti bela naquele dia dos namorados
com a camisa rosa e a calça preta do meu irmão

e há um poema, essa cunha na porta da memória



  

quinta-feira, 27 de abril de 2017

DECLARAÇÃO ABSURDA Lina Zeron Tradução de Norma de Souza Lopes



“Pelo poder que me confere o estado, na qualidade de juiz ,
eu os declaro marido e mulher". Quando escuto isto, sempre me
pego pensando: “E antes que um juiz nos declare mulheres,
que temos sido todo o tempo?”

Daqui ó http://emmagunst.blogspot.com.br/2017/04/lina-zeron-4-poemas-4.html

segunda-feira, 17 de abril de 2017

plácido

I

é fácil ser feliz
em dias de contas pagas
e solidão planejada

II

no outono o céu é cinza
e nenhuma palavra
parece valer mais que um ato

III

no conforto da cama macia
na saciedade da sopa - penso -
como é difícil amar o sossego


quinta-feira, 13 de abril de 2017

Há dias de produzir
Poemas em mim
Gosto de ser assim
Poesia encarnada

3x4

sob os alfinetes
uma pequena borboleta
no olhar a adaga
chamada rejeição
anuncia inexorável
gozará ad eternum
atravessada em seu peito

quarta-feira, 5 de abril de 2017

linfa

experimente varrer as areias
de um castelo desmoronado
ombros largos, os umbrais
olhos sombrios, as janelas
as pequenas mãos

remover as impressões
digitais

experimente remover da pele
dos músculos, dos ossos
as cinzas de uma Pompeia incendiada
e senti-las impregnadas
correndo entre o plasma
indelével

sábado, 1 de abril de 2017

lapso

em abril cumpro
quarenta e seis
e o que é isso se não
nunca estar a salvo
dos saques da solidão?

só aumenta a coleção
de objetos inúteis
a 3 x 4 de oitenta e dois
a primeira rubrica
canções de amores passados
livros que não voltarei a ler

um vento frio
move as cortinas
tão semelhante a 2016
que, não fossem os sinais
do tempo no corpo, eu diria
- meus aniversários estão
cada vez mais iguais

tic
tac
(será o relógio
ou meu coração?)


ORAÇÃO A NOSSA SENHORA DOS DESEJOS Gabriela Blas Tradução Norma de Souza Lopes

ORAÇÃO A NOSSA SENHORA DOS DESEJOS
Gabriela Blas

Virgem dos Desejos, amante da vida,
irmã dos sonhos e filha da esperança,
proteja-nos a nós todas
negras, morenas e brancas;
índias, putas e lésbicas;
faça brotar da terra as ilusões necessárias
para que sigamos lutando.

Livra-nos de racistas, homofóbicos, corruptos,
machistas e classistas;
também de pregadores e curas hipócritas
para que nossas irmãs pobres de rebeldia
voltem a sonhar e que nelas se plante a alegria

Proteja-nos dos deuses que nos querem impor
para que não nos privem de provar a tentação de
ser livres.

Faça com que que não falte o pão em nossa casa,
que tampouco falte o mel que adoce nossos dias
e o vinho que acompanha nossas festas,
para que cada dia celebremos pela vida,
pelo amor, a ternura e pelas  esperanças.

Não te esqueças Virgem Nossa
de todas nossas irmãs, mãe e avós
que jazem em teu ventre (a terra),
para que com toda tua sabedoria
aprendamos a amar-nos umas às outras
tanto como tu nos amas Virgem amante e amiga.

Faça com que creiamos em nós mesmas
que a desobediência pode nos corações de
todas as meninas
para que este desejo de ser felizes se renove a cada día
em todas as que vem e venham, para sempre...

Amém
............................................................

ORACIÓN A NUESTRA SEÑORA DE LOS DESEOS
Gabriela Blas

Virgen de los Deseos, amante de la vida,
hermana de los sueños e hija de la esperanza,
protégenos a todas nosotras
negras, morenas y blancas;
indias, putas y lesbianas;
y haz brotar desde la tierra las ilusiones necesarias
para que sigamos luchando.

Líbranos de racistas, homofóbicos, corruptos,
machistas y clasistas;
también de predicadores y curas hipócritas
para que nuestras hermanas pobres de rebeldía
vuelvan a soñar y en ellas se siembre la alegría.

Protégenos de los dioses que quieren imponernos
para que no nos priven de probar la tentación de
ser libres.

Haz que no falte el pan en nuestra casa,
que tampoco falte la miel que endulza nuestros días
y el vino que acompaña nuestras fiestas,
para que cada día celebremos por la vida,
por el amor, la ternura y las esperanzas.

No te olvides Virgen Nuestra
de todas nuestras hermanas, madres y abuelas
que yacen en tu vientre (la tierra),
para que con toda tu sabiduría
aprendamos a amarnos las unas a las otras
tanto como tú nos amas Virgen amante y amiga.

Haz que creamos en nosotras
que la desobediencia lata en los corazones de
todas las niñas
para que este deseo de ser felices se renueve cada día
en todas las que vienen y vendrán, por siempre...

Amén
.........................................
Daqui ó http://mujerescreando.org/

souvenires

escrever poemas
é vingar-se do agora
por em cárcere
o que deixa de ser

nos bolsos da memória
as horas delicadas
a abóbada da Praça da Estação
desvão de estrelas
uma túnica em tons pastéis
o cheiro de carvalho
e suas pequenas mãos
souvenires



quarta-feira, 29 de março de 2017

dizer poeta

dizer poeta
é gozar com o corpo
a alma
e o espírito

dizer poeta
é ser essa rachadura
habitada por todas
as identidades
amar como que mira nuvens
e saliva a chuva

naquele cenário
do nascer do sol
das coisas exauridas
nas garrafas vazias
nos cinzeiros cheios
eu quis ser a mulher
arrebatada de êxtase


terça-feira, 28 de março de 2017

líquida

ah, miserável
que puta hipócrita você molha agora?

mentistes sobre eu ser eternamente a única
de quem tu separava a polpa com suavidade, um figo
abria as coxas ungidas pela umidade
como um biólogo diante de sua lâmina
e via o que nem eu mesma via, meu recôndito

sorria malino, abria-me os lábios
cheirava minhas bordas profundas
provava meu orvalho ocre
tu te lembras?
nunca esquecerás, desgraçado

sua ereta lascívia penetrava minha carne
e criptografava meu reservatório quente
fazia de mim uma mulher em chamas

já não sou a mesma 
mas ainda estou aqui, maldito
ardendo feito lava por você

selvagens

aqui dentro
meio a contragosto
carrego sua  selva
seus silêncios
a sombra sisuda
dos seus olhos

eu diria não
se eles pedissem licença
mas eles não pedem

entrincheirada
fabrico bússolas
penduro bilhetes pela casa
para não me perder de mim

domingo, 26 de março de 2017

um homem

que veja beleza
em pernas dogmáticas
ancas largas
na voz desamparada
no último suspiro
de uma náufraga

que saiba alucinar
bebendo a poesia
de um domingo rosa
que saiba todos os sentidos do rosa

sexta-feira, 24 de março de 2017

Mira

[norma de souza lopes]

afora o susto
(seus olhos não sorriem)
eu semeava uma casa
uma vida, uns filhos
contigo

uma pequena distração
e eis me aqui
vítima outra vez
desse acidente
o amor

terça-feira, 21 de março de 2017

Ode a ilusão de controle

Nem sempre foi esta luta furiosa pela vida
Às vezes observava a todos na plataforma do metrô
Cada vez mais cedo executar seus dias
E pensava antes do salto fatal
Que era preciso escrever uma carta aos filhos pequenos
Com recomendações sobre o que fazer enquanto crescessem
Até perceber que apenas uma carta não daria conta de uma vida inteira
Seria necessário talvez uma carta por aniversário para cada um
E ainda assim haveriam as lacunas, recônditos que
nem mesmo uma carta para cada dia de suas vidas alcançaria
Restava embarcar e seguir para o trabalho
As lágrimas implacáveis no reflexo da janela do trem
Nem sempre foi essa luta furiosa pela vida

segunda-feira, 20 de março de 2017

estão todos

estão todos a falar de si
lugar onde só cabe um
(exceto por estes
breves momentos
luminosos de lucidez
em que se vê
e sente, do outro
a dor do desamor
da perda
da traição)

não é difícil emular
um certo olhar de cambaxirra
uma curva nas omoplatas
queixo mergulhado no peito
e de repente o outro nos habita

fora isso estão todos a falar de si





sexta-feira, 10 de março de 2017

quinta-feira, 2 de março de 2017

Lembrar que na quadrilha de alguém
A gente é sempre o primeiro
Por isso aquele beijo
Hoje de manhã

sábado, 25 de fevereiro de 2017

voo

uma vez vi um corpo nu
descrever uma descida vertiginosa
onze andares
de um prédio residencial

era um corpo ou um homem?

no dia seguinte pedaços de ossos
contavam sonhos irrealizados
nos beirais do prédio da rua Timbiras

espantou-me a pressa
com a qual a chuva
lavou o sangue no asfalto

Foto de Ren Hang
(sinto muito por seu voo Hang)😪


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

jackpot errado

nos anos oitenta eu lia qualquer
pedaço de papel que achasse
tropeçava nas bacias das lavadeiras
lendo a caminho da escola
eu jurava que havia resposta
adequada para o que me faltava

parecia mais fácil responder
que se lhes enfiassem no cu
suas aspirações acerca
do melhor destino para mim
a rejeição não precisava
ter solução

aqueles eram tempos
dos manuais para o sucesso
apare sua raiva pela raiz
jogue o jogo do contente
seja resiliente, ame, ame, ame

muitos anos de luxúria e paixão
(a paixão dura dois anos, dizem)
capítulos de histórias de amor fake
até entender que quando 
sinto que estou ganhando
estou no jackpot errado 


sorte no amor, qual o quê
nenhum livro me contou 
o que hoje me parece óbvio
só desbanco quando 
eu mesma me amo 

Foto Larry Towell


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

realidade

quando deixamos de colecionar sapatos
quando dois pares são o suficiente
a gente acha que venceu o ego
que não liga mais para
essas tretas de poder
quando esvaziamos os armários
e sentimos arroubos de humildade
e de desprendimento
pensamos estar prontos
a vida chega sorrateira
e nos arranca os pés

Foto de Nuno Perestrelo

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Ando cansada dessa pornografia da dor e do ódio que vejo por aqui. Queria um poema que fosse um lugar feliz onde eu pudesse morar. Queria mais pessoas que convocassem o melhor de mim.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Abraçar a história que construí durante minha caminhada. Acolher apenas os juízos que venham embalados em amor.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

do que sobra dentro quando se esvazia

não uma verdade qualquer
mas aquela experiência melancólica
de quem renunciou às ilusões
aquele "eu sei" murmurado
quando se nota  que chegou ao fim

nesse dia todos os poemas nos acusam
são como aqueles rostos que se viram
ao entrarmos em uma sala por engano

domingo, 5 de fevereiro de 2017

inércia

durante cinquenta dias
cultivou dezenas de sementes de uva
desse plantio nasceram sete mudas
ele as replantou, adubou a terra, regou
e fincou estacas caiadas
intuindo bastas parreiras

até que a mariana nos contou
"aquilo não são folhas de uva
as verdadeiras apresentam
bordas serrilhadas admiráveis
foi assim com as sementes de morango
que tentei cultivar"

desde então observamos com o canto do olho
o canteiro viçoso de ervas daninhas
sem nenhuma disposição para regar
tampouco sem coragem para ceifá-las
e isso diz uma imensidão acerca de nós


sábado, 4 de fevereiro de 2017

lá no lugar do medo

difícil achar sentido em nosso tempo
a maldade do mundo
um punho em minha glote
pessoas vêm e vão como ventos

para manter o zelo com a casa
é preciso esquecer
que um dia será demolida
tal qual o são minhas tantas idealizações
dançar ainda é
minha melhor experiência com o agora

ergo um bunker com o silêncio
que eu moldo como telhas em minhas coxas
um poema me acalenta batendo a mão
levemente em minha costas
e sussurra "vai passar, vai passar"



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

nunca mais aquela falta

[ norma de souza lopes ]

quando notei que perdia minha voz não me desesperei
apenas pus em suspenso
os sonhos de ser
a cantora do século

são assustadores
os uivos do ressentimento
da perda e da raiva
mas já aprendi
a ouvir nos búzios
as  batidas do coração
sem cortar as palmas das mãos

não os que vão
mas os que ficam
é que contam as histórias
de nossas idiossincrasias
a poesia ainda é a melhor conversa
quando nossa única alternativa
é o silêncio

sábado, 28 de janeiro de 2017

agora que tudo é calma

[ norma de souza lopes ]

dar de comer à selvagem
que sacode às mãos
e se despede
do que é tóxico
ódio
desamor

agora que tudo é calma
repassar cada som
cada sorriso
calçar sapatos vermelhos
dançar
e suportar sem dor a beleza do mundo

sábado, 21 de janeiro de 2017

copo de veneno

por o ritmo das sílabas em marcha
rimar como címbalos de rocha
criar a mais bela dança semântica

(e perder toda a poesia
bebendo doses diárias de ódio)