quinta-feira, 31 de julho de 2014

E essa agora? Vem com essa conversinha mole de que veio saber como ela está.
Não está aguentando ver seus olhos felizes. Daqui do sofá sei de tudo. Sei até quantas lágrimas ela derramou,  abraçada comigo, a coitada. Pensa que almofada não sente? Sente muito, viu!
O dia da partida foi pura covardia. "Seja Feliz.  Passe bem. Tenho que ir". Ela, certa de que havia outra, enlouqueceu de ciúmes, chorou rios de lágrimas.
Mas a danada é obediente. Três meses e já estava bem felizinha. Muitas vezes a vi dançando e cantando aqui na sala. A cada encontro novo ela remoçava. E não foi um só não. A casa andou florida por meses, tantos eram os buquês.
Eu não a-cre-di-to que ela está abrindo um vinho. Paixão antiga mexe mesmo. Ah, não! Sentar do meu lado não! Que falta que me faz um boca cheia de palavras para exorcizar este ordinário. Depois sou eu que enxugo as lágrimas.
Perái... Isso menina, derrama.
"Estou em outra sabe, com a sua partida resolvi experimentar outros relacionamentos, muita gente me amou, mas eu não quero me amarrar de novo não."
Eu não diria melhor. Dorme com essa,  ladino. Se eu não te conheço, até trazer outra para casa você trouxe. Sentou aqui exalando perfume de melancia. Mal gosto.
Quero ver o que você sente vendo ela lépida como uma pena de flamingo, flutuando em outros abraços. Vai nessa Don Juan. Se apressa que o moço de hoje chega daqui a pouco. Vai levá-la para jantar naquele restaurante luxuoso a beira da lagoa. Perdeu meu caro. Bye, Bye, so long, farewell.

NSL
31/07/14
Sinto-me patética aos quarenta anos. E uso a palavra patética já pensando em como ela é típica de um sujeito de quarenta anos. Continuar ouvindo as mesmas músicas dos anos oitenta, vibrando com filmes estrangeiros ou levantando essa bandeiras desgastadas em favor da cultural nacional, de uma certa política nacional. 
Com quarenta não se pode contar com as mornas convicções conservadoras de um sexagenário. Pouco vê-se também quarentões com a gana feroz dos jovens de vinte anos que estão por aí, inventando novos designs para o mundo, lançando sobre ele suas lentes de ironia. 
Não dá para fincar bandeira no passado e fingir que a vida só existiu ali. É preciso flanar sobre o presente. Mas o presente não está para peixe. Ele é o meu exílio.
Desterrada de um lugar que pudesse me fornecer um código mínimo de identidade, pouco a vontade para abraçar convicções ou sair por aí inventando mapas restou-me fazer poesia. Poesia órfã, híbrida, pobre de referências. Poesia frankenstein. 
E é isso. E é uma pena que escrever isso não faça com que eu me sinta menos patética aos quarenta.

NSL
31/07/14

uma dança perto do fim

assistir, paralisada
o baile das folhas de outono
sua fuga, a metáfora
de meus desejos e sonhos
tomar a solidão por parente
por dias vigiar as árvores
no esforço inútil de que​
nem mais uma folha tombe
quando não sobrar nada
por em sacolas as feridas
do meu ventre dilacerado
amainar a dor e partir
em direção contrária

quarta-feira, 30 de julho de 2014

esses meninos

cinco minutos lhe contando
das bravatas de Ulisses
dos deuses e monstros
de Penélope e da estratégia
do sudário para Laerte 
bastou para lhe interessar
ofereci primeiro
a tradução de Ruth Rocha
a julgar pelos seus doze anos
mas falei por falar 
na versão  de Homero
traduzida por Carlos Alberto Nunes
e foi essa que ele quis levar
no dia de entrega, de soslaio
vigiei se renovava ou devolvia
e fiquei saltitando miúdo  
feito passarinho:
_ Li num dia,  professora!
e tinha lido mesmo
era desses

NSL
30/07/14

Órfãos

e se fizermos tudo sob medida?
e se descrevermos sonhos?
e se lhes adicionarmos  forma?
e se renunciarmos a sintaxe?
e se a exaurirmos até a concisão?
e se extinguirmos escrita?
e se a esvaziarmos até o silêncio?
e se eliminarmos a fala?
e se só publicarmos livros em branco?

e se não fizermos mais poesia?

NSL
26/07/14
Entre os garotos do bairro ele era o mais bonito. Uma beleza lisa, delicada, quase feminina. É certo que era baixinho, mas pareava com a moça, e isso não parecia a incomodar. Era um dos poucos no bairro que já tinha carro,um chevette de 15 anos. Passava muito tempo na oficina do pai dela. Ganhou tanto o gosto do velho que não demorou já estava frequentando a cozinha da casa para o café. E era lá que ele queria chegar. Era lá que ela estava. Daí para o namoro foi um pulo. Um namoro interessante, cheio de saídas a parquinhos, cinema, lanchonetes. As saídas todo fim de semana foi deixado o autocontrole da menina enfraquecido. A lavagem cerebral feita pelos pais na base do "só depois que casar" funcionava mal e porcamente. Pouca coisa sobrara para o depois de casar. Ele no entanto surpreendeu a todos com a ideia de um noivado relâmpago e um casamento seis meses depois. No primeiro ano de casamento a gravidez pareceu a coroação de escolhas felizes. Isso até o oitavo mês. Passada a trigésima segunda semana ela desenvolveu comportamentos estranhos. Passava dias sem comer, quase catatônica. Saia desse torpor e quebrava toda a louça e móveis da casa. Voltava ao torpor e inanição. Saia do torpor e passava a brigar com os vizinhos, lançando pedras sobre seus telhados. Quando o bebê nasceu precisou de cuidados hospitalares, dado sua debilidade.  Ela nunca mais deixou que o marido a tocasse. 
Como alternativa ele retornou a casa da mãe, que o ajudava a cuidar da mulher e do bebê. Alguns medicamentos tornavam as crises menos agressivas. Durante um tempo ele carregou ainda uma ilusão de cura e por isso tentou manter sigilo sobre os casos extraconjugais. Perdida a ilusão abandonou também o sigilo. 
Conheço a história toda, assim com detalhes por ser amiga de duas de suas amantes, cada uma a seu tempo, é preciso dizer. Ele cultiva o hábito de se manter casto a elas, enquanto dura o romance. 

NSL
30/07/14

domingo, 27 de julho de 2014

Carta de restrição a um escarnecedor

Se te digo não me fale uma palavra não atreva-se a dirigir-se a mim. Não me interessa seus argumentos tolos para justificar essas conversas patéticas. Como num acordo de cavalheiros posso te atender e conversar horas contigo, tratar dos assuntos mas diversos mas isso faz das mais de duzentas horas em que arquitetei a sua morte um desperdício. Não me olhe, não diga meu nome sequer pense sobre a minha pessoa. Apesar dos seus hábitos zombeteiros de escarnecer-se do outro para sentir-se melhor não o faça. Está óbvio para todos que trata-se de um recurso para autoafirmar-se. E tão vil o acinte de falar contigo que sinto nojo de mim. Um nojo tal que nem mil banhos resolveriam. Estou certa de que seu fracasso logo será notório e não dou a mínima. Penso apenas em minha preservação mental. Você está de passagem e eu estarei comigo para sempre. É mister sobreviver a sua perversidade sem maiores danos. 

NSL
27/07/14
Ele eu conheci na escola primária, quarta-série eu acho. Ficávamos,  eu e as colegas debochando do jeito dele comer, lento e sincopado. De minha parte o deboche já era maneira de gostar. Achei um jeito de andar de bicicleta na rua dele, de conhecer a mãe de estudar em sua casa. Era mais velha que ele uns dois anos e isso dava alguma vantagem. Eu era mais experiente. A mãe no começo era bem cuidadosa. Aquilo de "com meu filhinho querido não " foi prejuízo durante um tempo. 
Ele era um cara bonito, inteligente mas extremamente metódico e inflexível.Me aborrecia e me agradava o mesmo tempo. Era curioso lidar com a ambivalência. Parecia mesmo que aquele era o jeito certo de ver as coisas, mesmo que eu não fosse capaz de ser assim..
Apesar das desconfianças da mãe estudávamos juntos, brincávamos juntos e fizemos juntos nossas primeiras investidas sexuais. Tudo até eu perceber que o universo da mãe e os adultos em volta dela era mais interessante. Eles frequentavam bares de música ao  vivo no fim de semana, com muita bebida e bastante liberdade sexual. Nessa época quase não frequentava mais a minha própria casa, ignorando as maldições de minha mãe. Eu me sentia no direito de fazer isso. Minha casa não era exatamente um lar. Era só um lugar de abuso e abandono do qual eu deveria tomar distância. 
Passei a segui-los como um mascote. A curtir com eles rodas de violão, viagens, clubes bares etc. Com o tempo encontrei uma estratégia para circular entre o namoro e as diversões compartilhadas com os adultos: um recurso chamado término de namoro. Eu terminava, curtia e depois voltava. Funcionou bem durante um tempo. Funcionou até os caras que nos rodeavam começarem a contar o que tínhamos feito juntos. E eram muitas histórias. Ele gostava muito de mim mas era incapaz de lidar com o fato de eu, por exemplo, ter feito sexo com outra pessoa. O problema é que nós não conseguíamos nos separar. Sem separação. Sem perdão. 
Nessa época começaram as brigas. E eu não deveria dizer brigas, gládios descreveria melhor o que vivíamos. Na rua, em casa, na escola a quantidade de violência deixava assustado até o pai dele, um homem chegado à violência. Um professor nos aconselhou a procurar ajuda profissional. Procuramos. Uma excelente terapeuta que, de maneira discreta e profissional, nos aconselhou à separação. Não conseguíamos. 
No primeiro ano de faculdade engravidei. Apesar das brigas contínuas decidimos morar juntos para cuidar do bebê. Parecia que eu iria realizar o sonho do lar, da família feliz. Seis meses depois, voltei para casa de minha mãe. A violência dele contra o bebê fora demais para mim. 

NSL
27/07/14

sábado, 26 de julho de 2014

espírito despido

não há vestes
para o espirito despido
genuínos
só a cólera 
e o silêncio 
brotos daninhos

NSL
26/07/14

sexta-feira, 25 de julho de 2014

anunciação

a despeito da importância do trigo 
e do pão
o joio
flor de cor 
e veneno
também dá-se ao mundo
anunciando a primavera

NSL
25/07/14
Eu tinha 17 quando o vi em um bar jogando sinuca. Geralmente tomávamos pinga com groselha mas ele convidou para uma partida e pagou cerveja. Era sexta, dia de matar aula e beber. Tinha um Gol zerinho e me levou para casa nele. Foi a primeira vez que andei em um carro novo. Aos poucos fui descobrindo coisas sobre ele. Devoto de São Sebastião, bem sucedido na industria de divisórias de alumínio e dezessete anos mais velho que eu.
Fiz o tipo difícil. O que me rendeu jantares caríssimos, viagens à praia, guarda roupa novo e um noivado com direito a presença da família de Três Pontas. Quatro meses depois do noivado descobri que ele era casado e tinha duas filhas. Quis terminar. Não terminei. Nadei com suas filhas no clube da comunidade sem que elas soubessem. Ele me disse depois que elas haviam falado sobre mim como a "a moça caolha que não saia da cola". Um dia encontramos sua mulher. Ela apontava para mim e gritava: "Podia ser sua filha! Podia ser sua filha!" Ele separou-se às vésperas do meu aniversário de 18 anos. Comprou e mobilou uma casa e decidiu que era lá que iríamos morar, sem casamento mesmo. Isso até eu resolver deixá-lo e voltar para um ex-namorado que jurava amar. No dia da despedida ele estava tão aniquilado que prometeu nunca mais pisar em lugares que estivemos juntos. Me despedi e parti feliz para aquela que seria a relação mais violenta da minha vida. 

NSL
25/07/14

pedra

murmurar
a palavra
pedra
e transubstanciar-me
em pedra sem valor
pedra dor

fendas
erosão
movimento atómico
não ver nem ouvir
neste mundo
de horror
para além
da natureza
da pedra

NSL
25/07/14

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Se é a noite mal dormida, ou essa Paperback Writer soando aqui no fone de ouvido eu não sei. Só sei que deu vontade de contar a verdade. Tudo que escrevo é para te seduzir. Não precisa nem curtir. Compartilhar então nem se fala. Quero só que você leia, imaginar que você leu. Não quero que compre meu livro. Nem tenho um livro. Não quero que você vá ao sarau me ouvir. (se você for será orgásmico, com certeza) mas não é isso que eu quero. Quero que você me leia. Sinto que quando você me lê meu mundo, real ou inventado, encontra-se com o seu. E eu fui feita para o encontro, sou a deusa dos vínculos. por isso vibro numa frequência especial quando você me lê.
NSL
15/07/14
Trocava meu dia, este dia,  por uma noite bem dormida. 


“The Nightmare,” Henry Fuseli, 1781

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Eu já tinha ouvido dizer que a russas se arrependeram da revolução feminina quando esbarrei com ele querendo dividir tudo: a conta do motel, do restaurante e a gasolina. Até a entrada da danceteria eu tinha que pagar. Nem ousava brigar por isso, tinha lido o Segundo Sexo da Beauvoir e aprendido direitinho a lição. Afora o fato dele curtir maconha, jogar hoquéi, fazer parte de um grupo de motociclistas e ser policial não havia nada diferente com ele. Era muito focado em si mesmo.De cara dava para perceber que a relação ficaria naquela, acontecendo quando não houvesse jogo, encontro de motoqueiros, ou convocações da policia. A coisa não vingou. Cada um para um lado, novos parceiros, sem grandes mágoas. Mas ele não está aqui entre os outros, envelhecendo, engordando e ficando careca para eu olhar e pensar "olha do que eu escapei". Morreu pouco depois numa corrida de triciclo. E acho que morreu fazendo exatamente o que queria fazer.

NSL
23/07/14

presença

que tipo de paixão seria necessária
para descrever o medo
de sua partida?
não saberia contar nada sobre isso
só sei do seu jeito de prender 
um braço sob o outro nas costas
enquanto conta que mataram mais um
na  josé félix
vi você correr uma vez e não
era bem correr  era mais como 
andar apressado
fora isso você nunca demonstrou
ter pressa
você está sempre fazendo coisas 
organizando o mundo 
não de maneira altruísta  
mas de modo que ele funcione 
melhor para você e 
para quem está à volta
eu mesma me sinto bem por não 
precisar me preocupar com quanta
energia vamos gastar
ou quanta carne vamos comer
há algo que posso ver
em seu olho uma certeza  
de que o mundo está 
todo no lugar 
que me devolve o centro
sua presença é tão leve
que eu não saberia 
escrever sobre sua ausência

NSL
23/07/14

segunda-feira, 21 de julho de 2014

azul d'immenso

opero uma colheitadeira de sombras
mas sei inventar um dia azul imenso
em que deslizam dezenas de abraços
espero vigilante a abertura dos seus cílios
pois deles ventam desejo, gozo e amor

nesses dias
a colheitadeira fica esquecida no quintal

NSL
21/07/17


domingo, 20 de julho de 2014

Eu passava a maior parte do tempo esperando que ele me tratasse de maneira especial.Dependente como uma planta que se tenha que regar. E haviam rituais elaborados para conseguir ser tratada assim. Me antecipar, fingir que não esperava, presentear, esquecer datas importantes e esperar, esperar muito. Era algo trabalhoso, cansativo e doentio. Haviam também as procuras por sinais. Geralmente os sinais que eu procuravam estavam ligados a minha necessidade de me sentir especial. No entanto o que eu encontrava era vestígios de outras mulheres. Muitos vestígios. Todo exercício me deixava com a sensação que eu era um ser extraterreno com um dispositivo automático para a espera.Um ciborgue esperador.  Ás vezes ele parecia se aproximar. Eu me sentia especial e parecia que ia funcionar. Até ele escolher outra.E desfilar com ela diante de mim. E eu sempre a acha mais nova, mais interessante, e mais bonita que eu. Outro dia assisti por quase duas horas a peça "Esperando Godot" do Samuel Beckett,  que todos os meus amigos acham chata e sem sentido. Fiquei pensando em quanto me sinto treinada para esperar pelo nada. "Nada a fazer" é o que diz o personagem. "Nada a fazer" era o que me dizia, involuntariamente, meu antigo amante, 
Assim como na peça também essa esperança pueril de ser "especial" embutida no amor romântico  não acontece fora de Shakespeare.  Não tem trama, não tem clímax, não tem desfecho nem começo, meio e fim. Só espera.

NSL
20/07/14

sábado, 19 de julho de 2014

Tantos contratos sociais, tantos aniversários para lembrar. A muito tempo aprendi e cumpro com esmero alguns pesados papéis. No entanto a cólera e o silêncio é o que há de mais genuíno em mim. NSL

um é o número mais solitário

palavra
rima 
ficção 
simulacros 
para encobrir a solidão

escrevendo sou eu 
esta menina
o canalha 
a puta
o ladrão
somos dois 
somos multidão

NSL
19/07/14

(Titulo é um verso da canção One de Harry Nilsson)

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Amei a todos. Os violentos, os abusivos, os adictos, os medíocres, os egoístas,os sedutores. Era uma amor religioso afeito a conversão. Conversão por amor. Acho que eles não me amavam tanto assim. Ninguém nunca converteu. Quando a violência foi demais tive que fazer escolhas racionais. Sabe-se lá o que é isso, uma escolha amorosa racional. Mas o fato é que funcionou, me protegeu desse tipo de amor. Quer dizer, vem protegendo. De vez em quanto um espectro desses se anuncia e me sacode. 

NSL
18/07/14

quasar

sua voz lendo baixinho
a história de O
e eu querendo
doa-me
o cheiro é sempre
meu e seu
desejo de amálgama
fusão

inúmeras colisões
via Láctea X Andrômeda
até que pese sobre nós
toda a gravidade do universo

NSL
19/07/14

E há aqueles que abrigam o silêncio em si. Para estes a música faz pouca falta.
NSL

quinta-feira, 17 de julho de 2014

É um descuido brutal se deixar soterrar pelo tragos mundano. Não existe ordem, só o caos, e mesmo que você fosse um atirador de pedras, coisa que você não é, não haveria chances contra o acaso. Então é só correr para dentro, o infinito é dentro, disse DW. 
Tirado o entulho no entanto, você esbarra naquilo que é, muito desejo recheado da mais pura libido. Movimento para fora de novo, para o outro. 
Esteja atenta.Faça silêncio. É possível manter-se no caminho. E o desejo lembre-se, muda de lugar, não preocupe-se demais com ele. 

NSL
17/07/14

terça-feira, 15 de julho de 2014

Infância

tão bonito o Rubem Braga
brincando com as enchentes do Itapemirim
o Carlos Drummond com suas mangueiras
o Manuel Bandeira e suas traquinagens na rua
você tem apenas as madrugadas 
tirando lama de dentro casa
vejo você encavando
dia após dia 
em busca da narrativa palatável
desista desta infância
ainda que escrevesse
tal qual o Graciliano
invente uma ficção
nem você merece 
mais uma dessa histórias tristes

NSL
15/17/14

domingo, 13 de julho de 2014

a sensação de fragmentação era maior que a raiva
ocupava o mundo inteiro
pétalas partidas de flores de castanheiro
vagem quebrada de pau-ferro
tocos de madeiras
revistas de fotos antigas rasgadas 
bandejas de isopor
guardanapos usados
quilos de cola
pendurados às paredes
inomináveis
e nada colava 
sons de cacos chacoalhando
vozes inconfidentes 
sussurros
"o amor que você espera
do ser humano que nunca teve
para te apertar e fingir 
que o mundo em volta tem borda
nunca vai chegar"
era preciso silenciá-los
tentei meus braços 
mas meus braços não faziam a volta completa
só a raiva tem braços longos o suficiente

NSL
13/07/14

agorafobia

todos caminham velozes
tem questões importantes a resolver
eu também caminho apressada, tenho questões importantes a resolver
a mulher com o cabelo pintado de louro, o homem musculoso, a jovem com o bebê e a sua pressa, a velha e suas sacolas tem questões importantes a resolver
penso em sua pressa e me admiro de como ela torna-se um excelente exercício de obliteração da morte
me sinto tentada a parar todo mundo e perguntar
ei, sabiam que todos você vão morrer?
sabiam que nesse exato momento seu corpo está morrendo? mesmo o seu corpo tão bem nutrido de proteínas, carboidratos e suplementos meu caro senhor músculo?
toda esta gente, toda esta gente, toda esta gente
deve haver maneiras mais solitárias de se encadernar uma monografia, enviar um sedex e fazer um depósito no caixa rápido
mas afinal para quê uma monografia? um sedex, um depósito?

NSL
12/07/14

sábado, 12 de julho de 2014

nem sei

nem sei se queria uma banheira com sais
um loft transparente com piscina
me olhariam de fora
os tantos exilados com sede
espalhados pelo mundo
muito me constrange 
este prato cheio todo dia
não dá para ignorar uma família sem casa
uma criança com fome 
é indecente e explicito
um pouco de conforto é bom
mas eu dormia saciada
com uma porção generosa
de justiça

NSL
12/07/14

quinta-feira, 10 de julho de 2014







nude

cruzei com uma bela menina na rua hoje
era uma beleza índia de olhos oblíquos
dessas que não seriam estragadas pela vogue
acho que ela recusaria
o convite de rainha do baile
li isso em seus cabelos esvoaçantes
e nos lábios em branco

um jeito de segurar a bolsa e adivinho
seus vizinhos desligam os rádios
quando ela canta
ainda assim ela não iria
a cerimônia de entrega 
do grammy

NSL
10/07/14

quarta-feira, 9 de julho de 2014

para parar as máquinas

coragem poetas
estejais cônscios de que lá fora
na cidade 
ainda rangem as engrenagens 
que moem a todo vapor
os sonhos de amor
e de justiça
não soltem a pena
a pena é a cunha
que há de parar as máquinas
dos fornecedores do mal

NSL
09/07/14

terça-feira, 8 de julho de 2014

a montanha

ouça os rumores trágicos 
desta montanha que montou em mim
cinco mil dias e ela sobre mim
seus arautos
ricamente instalados
na grande pedra
anunciam um apocalipse
a war inside me
a war over me
tomam chá 
falam de vida
morte 
doença
tempo
e religião

dado seu peso e volume
familiares e amigos 
aconselham
arrie a montanha 
ou estará fora do páreo
dos mais amados
condenada eterna
à solidão

afastem-se de mim 
alucinações
cinco mil dias
e posso chamar de minha
uma montanha

NSL
08/07/14

domingo, 6 de julho de 2014

o quarto

nenhuma beleza há
na solidão e isolamento de um quarto
mas é certo que devemos considerar 
algumas exceções, o quarto de Bandeira, por exemplo
por mim e por ele considero um lucro 
o quanto se pode aprender guardado na alcova

você acharia notável
os saltos solitários que tenho dado
sobre as lacunas
daquilo que eu ainda 
não sei
para chegar 
ao que eu posso entender

mas isso não muda o resto
quanto ao célebre
inalcançável
ou eterno  
eu desligo
e pronto

NSL
06/07/14

sexta-feira, 4 de julho de 2014

É tu, Jonas, o profeta escolhido. Prepare o caminho para os adventos divinos. Tu és a representação Dele, como um lembrete de que Ele está aqui, e tudo vê. É tu que deve dar os recados, inclusive por escrito. É tu que avisa à essa turba que ela está vacilando
E nem interessa se é hebreu ou se é assírio, é qualquer turba, tá sacando?
Vou te tocar a real, eu já conheço a história. Se tu fugir, e eu sei que tu vai, porque não gosta desse lance de palestra para a concorrência, vai naufragar, vai parar na boca de baleia e vai ser vomitado. Ser vomitado por baleia não deve ser uma coisa muito legal. No final das contas vai acabar em Nínive do mesmo jeito. Te falo isso por que tenho um lance contigo, sinto igual, saca?
Vai lá cara. Xinga os assirios, aquela corja de pervertido, dá o recado do Chefe e volta tranquilo para casa sem esquentar a cabeça. No fim eles vão se ferrar mesmo, vai demorar um 200 anos, mas eles vão se ferrar. Dorme tranquilo, meu brother. Todo mundo perde no final.

NSL
04/07/14

janela

nem tudo é água, wallace
também há concreto
ouço de minha janela 
inúmeras canções
machos alfa
vaginas que fumam
seios hostis 
causas, cargas, culpas
como carreiras de pó

meu grito bravio 
ainda não fez de mim 
uma sereia
tampouco sou kafka 
para silenciá-las
e fazê-las dançar

se eu me afogasse no mediterrâneo
ou no lago dos ingleses
minha única tristeza seria
não poder ver 
o efeito flutuante
dos cabelos

NSL
04/07/14