quinta-feira, 27 de abril de 2017

DECLARAÇÃO ABSURDA Lina Zeron Tradução de Norma de Souza Lopes



“Pelo poder que me confere o estado, na qualidade de juiz ,
eu os declaro marido e mulher". Quando escuto isto, sempre me
pego pensando: “E antes que um juiz nos declare mulheres,
que temos sido todo o tempo?”

Daqui ó http://emmagunst.blogspot.com.br/2017/04/lina-zeron-4-poemas-4.html

segunda-feira, 17 de abril de 2017

plácido

I

é fácil ser feliz
em dias de contas pagas
e solidão planejada

II

no outono o céu é cinza
e nenhuma palavra
parece valer mais que um ato

III

no conforto da cama macia
na saciedade da sopa - penso -
como é difícil amar o sossego


quinta-feira, 13 de abril de 2017

Há dias de produzir
Poemas em mim
Gosto de ser assim
Poesia encarnada

3x4

sob os alfinetes
uma pequena borboleta
no olhar a adaga
chamada rejeição
anuncia inexorável
gozará ad eternum
atravessada em seu peito

quinta-feira, 6 de abril de 2017

acomodação

decerto me olhavas
como um bombom aberto
e isso nem sempre é bom
quando se espera
ser o prato
o petisco
e a fome

por hoje
nada de gestos dramáticos
apenas um pequeno redemoinho
no terreiro
a fim de dispersar
os cinquenta e dois
meneios de cabeça
em sua direção

quarta-feira, 5 de abril de 2017

linfa

experimente varrer as areias
de um castelo desmoronado
ombros largos, os umbrais
olhos sombrios, as janelas
as pequenas mãos

remover as impressões
digitais

experimente remover da pele
dos músculos, dos ossos
as cinzas de uma Pompeia incendiada
e senti-las impregnadas
correndo entre o plasma
indelével

terça-feira, 4 de abril de 2017

exílios

sob a via láctea prostrada
a lua minguante
como uma vaca
prestes a parir
eu aqui, ajudando
no trabalho de parto
dar a luz a um poema
que faça parar
a turbulência do universo

conta-gotas de sabão
para a bolha
que não estoura
uma faca
fatia os últimos acordes
de uma canção
e para onde eles vão
depois da última nota?

passou por aqui
uma tropa de bárbaros
nos estandartes rubros
dos batedores
bordado com fios
de delírio
seu nome, amor

domingo, 2 de abril de 2017

ainda bem

não importa
que este seja um outono perdido
entre as cicatrizes de meus joelhos
ou que, ao final da história
você venham ser o Príncipe
e eu, Maleficent

para nos colocarmos
de maneira assim tão vulnerável
diante de nós
é preciso esquecer
o quanto, ao final
os contos podem ser cruéis

Coringa e Arlequina não disfarçariam
suas pequenas imperfeições
para dissimular o ridículo
das fantasias de amor
mas, tão loucos quanto nós
dançariam diante do espelho
a cada sinal de desejo

ainda bem que não há doublês
para as paixões de homens
e mulheres comuns
e ainda bem que se esquece
que o molhar dos lábios
a mordida dos lóbulos
são cenas repetidas
em todas as histórias de amor

shame

se sobrevivemos ao naufrágio
foi por tomar distância
da dança atônita
do olhar desesperado 
daquele que sucumbiu às águas

ninguém conta
mas todo mundo sabe

sábado, 1 de abril de 2017

lapso

em abril cumpro
quarenta e seis
e o que é isso se não
nunca estar a salvo
dos saques da solidão?

só aumenta a coleção
de objetos inúteis
a 3 x 4 de oitenta e dois
a primeira rubrica
canções de amores passados
livros que não voltarei a ler

um vento frio
move as cortinas
tão semelhante a 2016
que, não fossem os sinais
do tempo no corpo, eu diria
- meus aniversários estão
cada vez mais iguais

tic
tac
(será o relógio
ou meu coração?)


ORAÇÃO A NOSSA SENHORA DOS DESEJOS Gabriela Blas Tradução Norma de Souza Lopes

ORAÇÃO A NOSSA SENHORA DOS DESEJOS
Gabriela Blas

Virgem dos Desejos, amante da vida,
irmã dos sonhos e filha da esperança,
proteja-nos a nós todas
negras, morenas e brancas;
índias, putas e lésbicas;
faça brotar da terra as ilusões necessárias
para que sigamos lutando.

Livra-nos de racistas, homofóbicos, corruptos,
machistas e classistas;
também de pregadores e curas hipócritas
para que nossas irmãs pobres de rebeldia
voltem a sonhar e que nelas se plante a alegria

Proteja-nos dos deuses que nos querem impor
para que não nos privem de provar a tentação de
ser livres.

Faça com que que não falte o pão em nossa casa,
que tampouco falte o mel que adoce nossos dias
e o vinho que acompanha nossas festas,
para que cada dia celebremos pela vida,
pelo amor, a ternura e pelas  esperanças.

Não te esqueças Virgem Nossa
de todas nossas irmãs, mãe e avós
que jazem em teu ventre (a terra),
para que com toda tua sabedoria
aprendamos a amar-nos umas às outras
tanto como tu nos amas Virgem amante e amiga.

Faça com que creiamos em nós mesmas
que a desobediência pode nos corações de
todas as meninas
para que este desejo de ser felizes se renove a cada día
em todas as que vem e venham, para sempre...

Amém
............................................................

ORACIÓN A NUESTRA SEÑORA DE LOS DESEOS
Gabriela Blas

Virgen de los Deseos, amante de la vida,
hermana de los sueños e hija de la esperanza,
protégenos a todas nosotras
negras, morenas y blancas;
indias, putas y lesbianas;
y haz brotar desde la tierra las ilusiones necesarias
para que sigamos luchando.

Líbranos de racistas, homofóbicos, corruptos,
machistas y clasistas;
también de predicadores y curas hipócritas
para que nuestras hermanas pobres de rebeldía
vuelvan a soñar y en ellas se siembre la alegría.

Protégenos de los dioses que quieren imponernos
para que no nos priven de probar la tentación de
ser libres.

Haz que no falte el pan en nuestra casa,
que tampoco falte la miel que endulza nuestros días
y el vino que acompaña nuestras fiestas,
para que cada día celebremos por la vida,
por el amor, la ternura y las esperanzas.

No te olvides Virgen Nuestra
de todas nuestras hermanas, madres y abuelas
que yacen en tu vientre (la tierra),
para que con toda tu sabiduría
aprendamos a amarnos las unas a las otras
tanto como tú nos amas Virgen amante y amiga.

Haz que creamos en nosotras
que la desobediencia lata en los corazones de
todas las niñas
para que este deseo de ser felices se renueve cada día
en todas las que vienen y vendrán, por siempre...

Amén
.........................................
Daqui ó http://mujerescreando.org/

souvenires

escrever poemas
é vingar-se do agora
por em cárcere
o que deixa de ser

nos bolsos da memória
as horas delicadas
a abóbada da Praça da Estação
desvão de estrelas
uma túnica em tons pastéis
o cheiro de carvalho
e suas pequenas mãos
souvenires