quarta-feira, 8 de junho de 2016

uma mulher com uma arma dentro da cabeça

deveria estar contente
há pouco deixei a fila dos poetas sem casa
quarenta e seis anos pescando ideias velhas 
em livros sujos de letras
só me serviram pra instalar
uma arma dentro da cabeça

incursões ao interior do que arde
me fez perder a bússola
dentro e fora é a mesma coisa
é só se lembrar de que
é sempre o mesmo universo

era o que me faltava
ter que acordar toda manhã
olhos coalhados
quilômetros de sono
e essa covarde nos espelhos da sala

ao meu modo me mantenho pagã 
afim de comover a todos os deuses 
contudo sou devota do acaso
me recuso a usar a calma 
como moeda de troca 

por isso às vezes desisto
não me levanto, não saio
não como, não trabalho
não abro gavetas
nem ao menos sei
onde foram parar as pílulas
rosário de bolhas multicoloridas

as coisas concretas não suportam atrasos
existe um ponto onde o resgate 
da fé em si mesmo é possível
derradeiro ponto para o embarque 
do amor próprio
ultrapassei-o na última curva

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