sábado, 21 de fevereiro de 2015

Vitamina D

Tudo que tenho são esses milésimos de segundo correndo como enchente. Este chão de terra e entulho do meu quintal é tão útil como a grama zoysia japônica em um belo jardim de mansão. Mas as gotas de chuva que me abraçaram ontem na avenida augusto de lima agora são barro e bosta no fundo de um rio sepultado no centro da cidade.
Enquanto o silencio não se instala sigo como um dínamo, distraindo a dor com amor e encontros. O encontro me faz sentir repleta. No entanto doí quando esvazio. O Outro é deslumbrante apenas na minha imaginação. Ninguém se dá o trabalho de alimentar minhas idealizações. Porque deveria?
Viver sem doer implica em escrever poesia ruim. Mas todo mundo tem seus dias de consertar chuveiros, amar todo mundo e só ser feliz.
Ninguém escapa de si. A violência por exemplo, odeio-a. Mesmo a violência que mora em mim, minha querida pássara. Essa que nunca me abandona, que me faz desejar estraçalhar adversários imaginários. Essa que surge quando sou convidada a jogar. Sou um galo de briga com o pensamento costurado com linha forte. 
Mas não precisa se preocupar, já não compro tantas brigas. E não o faço porque assistir ao espetáculo decadente, as quedas de braço cotidianas daqueles que querem dizer qual vai ser a identidade dominante do mundo ou decidir quem irá ficar com a maior parte desse bolo chamado Brasil me faz chorar.
Minha única contenda ainda é pelo que me irmana com todas as filhas da terra, mulheres que correm com lobos, que assopram ossos. Pela liberdade de seus corpos e almas tenho gritado (às vezes até falado palavrão).
Os bem-te-vis abandonaram um ninho velho no pé de  amora e ele agora é habitado por um casal de rolinhas. No inverno serão os bicos-de-lata. Pássaros me parecem tão livres com seus corpos no espaço. Desde os gregos a palavra liberdade nos remete a movimento do corpo. Veja esse Freedom inglês, que surgiu do "pescoço livre", do frei Hals, referindo-se aos grilhões que mantinham aprisionados os escravos pelo pescoço. 

Aprendi um pouco de liberdade contigo, pássara. Isso me fez achar a moral ridiculamente injustificável. Porém ainda preciso perguntar a quem ofenderia por meus seios à mostra, ou dizer o que realmente penso acerca de convicções e certezas. Por enquanto ensaio pequenos voos com rota. Estabeleço movimentos de rotação e de translação para meu corpo voltar sempre ao mesmo lugar. Ainda carrego asas conectadas ao meu amor maduro. 
E é isso, quando tanto não cabe no corpo que expande é que sinto falta de dizer não. Aquele não que teria me protegido de amores esvaziadores, de ter pés doloridos e joelhos fodidos. Menos. Menos.
Correr de um lado para o outro por medo de parar e ainda assim vir estacionar nesse quarto escuro, morno, sem saber quando o frêmito irá voltar.
De nada adiantou lutar contra essa vontade de estar em outro lugar quando estou aqui, aprisionada a este agora lancinante. Seria mais fácil aceitar que sou de lugar nenhum.Tanto conselho acerca de raiz e eu sempre flutuando como boi morto em dia de enchente. Como boi morto não, como uma tora, mas morta também. 
Seis meses é o que vai durar a vitamina D deste verão. Depois é só me contentar com a sombra. E os sintomas.

NSL
21/02/15

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