sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Cutelos e rastelos

Ainda estou atravessada pelos dois minutos de silêncio e pela água embaciada no canto dos seu olhos ontem, quando eu te lembrei que estamos velhos demais  para esperar que os outros decidam onde vamos ser felizes. Eu não fui capaz de perguntar qual o nome da sua tristeza, ou não tive coragem. 
Esta sua mania de achar que não falar é a melhor escolha, casada com o meu hábito de nunca te invadir, agrava a sensação de que em algum ponto nos desencontramos. Eu me sinto só e sem lugar no mundo. E eu não tenho mesmo. 
Travei essa luta com a vida para dominar tudo que era conhecimento e foi uma alegria saber que você estava do meu lado, pagando cinco reais para que o dono do botequim desligasse o junkebox e eu pudesse ler. Você aposta na loteria e eu escrevo. Ocasionalmente você ganha pequenos prêmios. Eu publiquei um livro. Nada disso parece nos levar a algum lugar. Mas de uma maneira curiosa somos condescendentes um com o outro, como se respeitar estes pequenos vícios também fosse uma forma de amor. Mas chega um tempo que tudo fica distante demais. O botequim fica  longe demais, o junkebox fica longe demais. Você fica longe demais. 
Tenho ido a festa interessantes sem você. Conheço lugares e pessoas muito diferentes do nosso modo desambicioso de viver . Sou capaz de desfrutar com elas, conversar com elas sobre tudo. Mas não pertenço a esses lugares também. 
No entanto me lembro que foi você que me ensinou que esta minha mania de separar as coisas em dois pedaços, dois lados, de ser o cutelo do mundo era uma perda de tempo. Aprendi com você a encarar a vida sem tanta moralidade, a juntar as pessoas e suas diferenças num mesmo monte, como quem junta folhas com um rastelo.  
Foi você também que me fez perceber que não são as pessoas que existem para a poesia mas a poesia é que existe para as pessoas. Daí eu achar o bordão do camelô lá da rua tão bonito quanto o "Usura" do Enzra Pound. 
Em toda esquina há uma banca vendendo alegrias de plástico mas já tem muito tempo que eu descobri que a felicidade é de osso, e de graça. Ontem um bebê dentro do metrô vibrava a cada vez que passávamos em um túnel e eu senti muitas saudades do tempo em que um túnel era um milagre.
Não sei porque estou tão triste hoje, eu devia estar feliz. Olhando para trás eu percebo que já sei amar as coisas que não tem nome. 


NSL
16/01/15





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