terça-feira, 18 de junho de 2019

Tem dia que eu fico brava com essa minha necessidade absurda de amor. Gostaria de ser mais plena com a minha própria estima. Mas eu amo amar minha família e meus amigos.
Tive que deixar de amar algumas pessoas e isso sempre me pareceu uma perda. Espero que eu possa continuar amando meus amigos, a despeito de todas as nossas contradições.
Quase trinta anos de análise iniciada e interrompida e algumas constatações:
- não há restituição para os nomes malditos recebidos por nossos pais. Eles não são mais os mesmos;
- se nós mesmos não nos renomearmos o mundo irá fazê-lo. E não será generoso.
- algumas metáforas para análise funcionam bem. Um poço de onde se tira pedras até chegar ao fundo, uma fonte inesgotável de onde se tira água etc. Prefiro a segunda por ter percebido que o conteúdo produzido em análise, as simbolizacões, para mim, são tão fluidas quanto a água. Sempre que penso que esbarrei em uma construção de sentido que poderia 'fechar Gestalt" ele escorregava para outro lugar. Pouquíssimos significados construídos por mim em análise se aproximaram da solidez de uma pedra e definitivamente essa construção não tem fundo em mim.
- e finalmente, sou grata a cada símbolo, fantasia, imaginário que construí ao longo desses anos. Sou uma pessoa bem menos lacunada, fragmentada e  quebrada em decorrência dos sentidos que fui construindo em análise. Apesar de provisórios eles são eficazes em preencher as minhas brechas e colar meus cacos.

domingo, 9 de junho de 2019

submissão

sorver delicada pequenos pontos
a textura arenosa da mucosa oculta
estirar os lábios com doçura
e na língua infiltrada
sentir por alguns segundos
o fluido espesso, seu corpo 
completamente prisioneiro

quinta-feira, 6 de junho de 2019

nouveauté


Alguns filmes, livros e canções  afirmam que é melhor amar, mesmo sem ser amada.  Não estou tão certa disso.
Uma mulher de quase cinquenta anos está muito consciente de seus erros. Isso não significa que está pronta para corrigi-los.
Não era tão bela que tornasse imperativo  o segundo olhar. Era uma beleza leve, lisa, túmida, gostosa de pegar.  Cultivava amores impossíveis só para não se dar ao trabalho de negociar suas crenças e valores, como  assim exigem as relações amorosas.  Mantinha como regra um simulacro de hostilidade para disfarçar o humor vulnerável. Quis lhe contar que não havia nenhum charme em odiar, mas seria inútil, não se toca em leitmotivs.
A primeira vez que morri por ela quis escrever uma carta contando porque queria desistir  do horror   desse mundo.  Sem nenhuma doçura parecia impossível continuar. Não escrevi. Não desisti.
Olhando para o passado percebo nos versos incompreensíveis daqueles dias o rastro da falta mais importante, entreguei minha poesia de graça: "quem dá o que tem a pedir vem," diria mamãe.
Cada palavra  carregava  minha força, o toque das mãos, o gesto  de escrever a alma no papel. E o que ficava para mim?
Quase morta de novo, pela enésima vez, debaixo dessa imensa sombra que o império de thanatos impôs sobre esse país,  desejaria um outro exercício, outra sintaxe, dedos longos acionando minhas cordas mais sonoras.
Queria ser capaz de me escrever uma poesia de amor tão condescendente quanto as que lhe dediquei.
Vou precisar outros livros, outros filmes, outras canções .

segunda-feira, 27 de maio de 2019

a vida não me deve nada

ser jovem
acordar cedo
no domingo
sem ter dormido
e ainda assim brilhar
emulando o sol

ser jovem
repleta de vida interior
sem a dor
dos silvos das balas
em meus ouvidos
dizendo
" a vida é só isso"


envelheço
como todos
ao meu redor
e só será
o fundo do poço
quando nada disso
importar

sábado, 25 de maio de 2019

casa é onde pouso meu coração

eu
que a todas
aprendi a chamar de casa
eu que tive
e ainda terei moradas
algumas, lares o
outras, habitação
ou mesmo pocilgas
sempre soube gozar
da volta ao lar
do desabar sobre o leito
como uma desforra a
esse mundo caduco

quinta-feira, 23 de maio de 2019

que não vem

que há por aí alguém
que me despiria só de olhar
e me faria  ferversó em tocar
é fato
não compreendo porém
porque se demora tanto
sabe acaso que perde tempo
e desperdiça o amor?

terça-feira, 21 de maio de 2019

pasodoble

Finalmente compreendo que não há coincidência nesse padrão de rejeição que experimento desde a infância. É uma escolha meticulosa pelo que não está pronto para acontecer, como alguém que cutuca uma ferida quase seca para que volte a sangrar. Há um gozo em mergulhar na tristeza, chorar diante do espelho, imaginar o próprio funeral. Como se só fosse possível exercer minha potencia a partir do banzo da autocomiseração. Que ganho haveria com o exercício deliberado da infelicidade? A felicidade já me ensinou alguma coisa? Suspeito que a alegria só me tira coisas, mesmo assim insisto. Não se escapa à tristeza do desamor sem transformar a rejeição em poesia. Transformamos desamor em metáfora como quando olhamos água condensada e vemos beleza no azul do firmamento ou quando miramos nuvens, o arco-íris. Também o fazemos com o grito de fome dos pássaros transformando-o em música. Um desperdício de infelicidade, posso dizer. Diante de mim um menino que aprendeu a amarrar os sapatos sorri, ainda não contaminado pelo medo de fracassar. Deixo a leveza disso fazer escorrer minhas sombras e revelar minhas transparências. Mais um passo nessa dança entre alegria e tristeza. Talvez essas pequenas coisas me devolvam o desejo pelos amores possíveis. Norma de Souza Lopes

quinta-feira, 16 de maio de 2019

sem raiz

Nesses tempos de negação de identidade pessoas como eu acabam ocupando um não-lugar, uma fronteira que os grupos ideológicos proíbem de ultrapassar (seja ele branco ou negro, rico ou pobre, central ou periférico, hétero ou gay, jovem ou velho, intelectual ou doente mental etc.) No começo doía porque eu pensava que não era nada, de lugar nenhum. Mas venho entendendo que quem escolhe isso sou eu. E eu escolho ser tudo. Ocupar todos os lugares com os quais me identifico. Tudo e todos que não sejam desumanizadores. E isso é libertador.

hoje não

acordar nesse mundo sem verdade não há respostas fáceis não entrar em pânico amar, mas não como uma mamífera não ser uma loba antes de cuidar da própria fome ser subversiva e escrever poemas que falem a verdade sem perder a imaginação em tempo de tanta mentira ser a subversão