quinta-feira, 18 de março de 2021

oscilação

"não escreve mais poesia?"

você pergunta

eu não respondo nada

estou cansada

desse versos requentados

sujos, amarelados

carregados pelo vento

jornal de ontem


exausta com este tempo

em que qualquer vigarista 

inventa verdades

tantas eras 

e este pêndulo de déspotas 

a atrasar a democracia

(e nem era democracia, o fluxo 

que eu queria

ainda não tem nome)


sei que tinha dito

"não vale a pena"

" não há nada a dizer"

mas há um sinal 

de nascença em minha lingua

uma esperança obscena

abrir as portas

e mover o mundo

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

 Em 2007, por ocasião de uma grave crise mental, eu fantasiava a implosão de todos os prédios escolares. No fundo do meu desespero eu queria começar do zero, fazer outra escola, outra educação.

Estranhamente o Corona vírus parece ter operado essa implosão. O espaço escolar, seu formato, suas tecnologias não atendem mais nem seu objetivo educativo primeiro nem os tangenciais, que é o de ser uns dos únicos  aparelhos que leva uma certa assistência social onde o estado não chega. Ele precisa deixar de ser o que é.

No entanto quase ninguém, a começar pelas agências governamentais, consegue começar do zero. Fazer outra escola. 

A minha fantasia era pensar que derrubando os prédios derrubaríamos seus dispositivos de exclusão. Eles não são de concreto. Eles estão erguidos discursivamente dentro de nós com a dureza do concreto.

É preciso muita força para não enlouquecer de novo. Aqui, imóvel diante da marcha da morte, da epidemia invisível da fome,  incapaz de pensar algo novo, que interrompa o PROJETO hegemônico  de exploração que avança irreprimível sobre o mundo. 

De novo esse medo de ter me enganado em acreditar na força da educação.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

a poesia é um emoji de lágrima

caminho entre as pedras 

e a água, e o lodo

e ouço os gritos

como na piada

do japonês 

vai morrer

vi outro dia 

o joão da mata

e o seu bando

correndo perigo 

na cachoeira

e pareciam tão vivos

sabia que quase

morri um tanto de vezes?

viver é escolher 

o risco 

escolho um 

chamado 

francisco

de cinco anos 

porque ele me abraça

sem máscara

e me ama 

sem culpa 

e se me julga

é por não ter

feito florir o cravo

da última vez

que veio me ver 

pensei: entrei pra história 

que bom que escolhi

ficar viva pra ser

a vovó das plantas

é triste assistir

o desfile diário

mil partidas

minha amiga espírita conta

segredos do além

ela diz: norma

quanto mais medo

e mais apego 

mais triste o degredo

há dias que sou

o pato na copa

da árvore batendo

papo com a morte

francisco pergunta

desde a primeira frase

é agora que

o pato morre?

e por fim

e a tulipa?

ele ainda não sabe

há o risco

e o tributo

e de repente parece

que faz sentido

o eterno retorno

e a holotúria

da szymborska

morrer só um pouco

só um pouco









domingo, 10 de janeiro de 2021

meio verdade

outro acento

outro ritmo

e nada do que disse

é


insistir em falar

é  flutuar

enquanto não me lembro

que não sei nadar

terça-feira, 10 de novembro de 2020

servidão

 a submissão

das três pontas 

de ossos

sobre a cerviz


sólido

o medo das asas

infiltradas

nas escápulas


ossos do ofício

desenhar

o cosmo

no asfalto

aligator



quinta-feira, 5 de novembro de 2020

koan

Que me interesse a resposta 

à pergunta do mestre

zen sobre qual é o som de palmas 

de uma só mão

não sou capaz de 

evitar o arrepio nas orelhas 

deixo que me envolva 

a memória, caixas alinhadas 

a textura e o cheiro sem nome 

de sua pele, é quase um crime 

tentar dizer, mas era o som

e a alegria de vigorosas 

palmas, duas mãos

nosso encontro 

apenas existindo

sobre as cobertas

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

voz


"Cabe à voz do ator fazer com que novas percepções e novos afetos surjam, ambos a rodear o conceito lido e dito."
Deleuze

aquela voz de convite
dizendo em sussurro
se abraça
adianta


nós com os cacos nas mãos
e ela convoca o novo
a nudez absoluta da coisa
e sussurra
cola


suave transmove
à cena do assombro
faz-se luz
onde todos somos

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

amuleto

se arrancar a primeira folhinha 
do tinhorão antes dos 18 dias 
ele morre, monocotiledônea 
parece uma palavra que dança
parece que elas dançam
as três especies juntas 
no vaso
a folha rosa, vermelho, verde e branco
nasce de uma batata
um bulbo
os kalina dizem que é mágica
obiá pode ser um amuleto 
ou uma mulher-amuleto
como um bulbo ou uma folha
de tinhorão pode ser um amuleto
os kalina benziam os brancos
com folhas de caládio
para torná-los mansos
caladium não parece uma palavra-coisa
mágica?
quando morre um kalina
fazem festa, comida e dança
eu danço antes o meu funeral
que é para adiantar
quando os brancos chegaram pelo mar
os kalinas o chamaram deuses
mas não, eles trouxeram 
muitos funerais
eu achava que era a deusa
dos tinhorões
e alimentei e molhei
tanto que a flor se fechou 
e parece que morre
as cicatrizes de uma folha
não regeneram e dói 
como doía olhar os dedos do lucas
amassados quando fechei o carrinho
em 1994

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

 Quase doze anos de "crise" e eu me pergunto: historicamente podemos chamar de crise?

Temo ter que responder que não. 

Não estamos em crise, estamos instalados num status quo de governabilidade precária, onde uma a uma, as representações democráticas se servem à captura.

Há muito compreendi a nocividade da ideia vertical de líderes, sacerdotes e gurus e confesso que venho potencializando estudos filosóficos (filosofia aqui compreendida como amor a toda sabedoria e ciência) acerca de um devir ingovernável. 

Vejamos se tenho ombros para isso. 

Abaixo a imagem da Pimoa Cthulhu,  uma pequena aranha marrom de 10mm e pernas extremamente longas, muito  comum no oeste da Califórnia. Esta aranha tece uma malha maravilhosa, que vem dando ideia aos pensadores acerca de uma alternativa para estas redes que nos aprisionam.




domingo, 13 de setembro de 2020