domingo, 13 de setembro de 2026

Resenha Convergência

No dia 11 de setembro, tive a honra de comparecer ao lançamento de Convergência, do meu querido Samuel Medina. Estou lendo o livro com muito gosto porque, mais uma vez, me deparo com sua habilidade de aproximar o cotidiano do fantástico, fazendo o insólito surgir em bibliotecas, banheiros, ônibus, ruas e relações aparentemente comuns. Os contos do Samuca transitam entre o humor, a ternura e certa inquietação diante da morte, da solidão e das microviolências tão naturalizadas nos dias de hoje.


Gosto especialmente da delicadeza que o olhar do sujeito da narrativa lança sobre os seres quase invisíveis: uma galinha velha, um sapinho, uma aranha, uma joaninha, uma palavra proferida, uma existência ignorada. O afeto aparece justamente onde muitos não reconheceriam nada digno de atenção. Não que não haja desconforto, principalmente quando a escrita toca o fanatismo religioso, as promessas de sucesso, o controle tecnológico e nossa necessidade de atribuir sentido ao que escapa à compreensão.

O vocabulário cuidadosamente elaborado, por vezes erudito é uma marca do meu amigo. Há por fim a variedade de registros, que nesse livro apontam para um avanço formal adorável: alguns contos se aproximam da fábula; outros, da ficção fantástica, da sátira ou de uma narrativa mais filosófica. Há entre eles, porém, uma unidade construída pela recorrência da perda, da finitude e das passagens entre mundos. O último conto retorna ao primeiro e dá ao título uma dimensão estrutural: aquilo que parecia disperso converge, e a morte, presente desde o início, revela-se personagem.


Que delícia está sendo reconhecer, neste livro imaginativo, sensível e atento às vidas e histórias que costumamos não enxergar, o narrador que Samuel vem construindo ao longo de seus livros anteriores: alguém que escreve como quem sabe que o estranho não está fora da realidade, mas mora discretamente dentro dela.

Do tamanho da boca

Umbigo


no centro do corpo

uma fenda calada

memória de um tempo sem falta


cada corpo presente

confirma o corte

na pele cicatrizada


II

Pupila

no centro do olho
um círculo escuro

paisagens atravessam

ao avesso

a luz dá contorno
ao que está fora

nenhuma imagem
confirma
quem vê


III

Poço

um círculo
interrompe a terra

pedra sobre pedra
o escuro toma forma

ao fundo
um céu

do tamanho

da boca


IV

Bússola

o mundo

ao redor entorna

o norte

a agulha contorna

cegada
perfura o próprio centro

VI

V

Microfone

boca sem língua
no centro da sala

a voz 

que o corpo expande

cortada a corrente

cabe

outra vez o nome


VI

Fechadura

no corpo da porta
fenda estreita

a chave range

dente por dente

a falta
escolhe
a forma

domingo, 6 de setembro de 2026

fora é um lugar muito grande

o dono da casa dizia te amo
o dono da casa não aceitava atrasos
o dono da casa jogou fora meus livros 
o dono da casa jogou fora meus filhos

um homem que diz eu te amo está em vantagem
um homem contra uma biblioteca está em vantagem
um homem contra os  filhos está em vantagem
um homem contra a mulher está em vantagem

quarta-feira, 20 de maio de 2026

contraforte

contra a pedra
e as convivências cotidianas 
que nos alagam
partir

deixar uma casa
suas cores
horizontes
aranhas

lugares
mar castanho de recreio 
insônia e febre

um carro verde
um convite verde
uma estrada verde

não me atrevo a chamar de fuga
escalo com meu carro
inseto bíblico
o paredão
do dilúvio

abaixo
a pedra
inteiramente
por sua conta

no topo
(tomara)
nenhuma ilusão
de salvação

quinta-feira, 5 de março de 2026

Entre duas leituras: Cabeça de Santo, Pedro Páramo e uma conversa com minha filha






A literatura às vezes começa antes do livro. Começa numa conversa. Começa quando alguém nos conta o que está lendo.

Foi assim que Pedro Páramo voltou à minha vida. Ele me foi apresentado anos atrás pelo amigo Paulo da Luz Moreira lá do Ás Moscas ( https://paulodaluzmoreira.blogspot.com/2026/01/poesia-minha-sem-titulo.html) , que falava desse romance como quem aponta um lugar onde os mortos ainda conversam. Um livro onde as vozes se levantam do chão como poeira.

Muito tempo depois, a porta desse mesmo livro se abriu de novo.

Carol, minha filha, lia Cabeça de Santo, de Socorro Acioli, e me mandava impressões. Ela avançava na narrativa e voltava para me contar o que estava acontecendo com Samuel, o jovem que chega em Candeia em busca do pai para cumprir uma promessa que fez a mãe no leito de morte mas encontra a cidade quase desabitada e passa a morar dentro da cabeça oca de uma estátua de santo.

Eu escutava.

Escutar a leitura de alguém é um gesto curioso. Não é exatamente ouvir a história. É ouvir como a história está acontecendo dentro de outra pessoa. Eu amo escutar ela contando sobre o que lê. Dei de presente de natal  “Grande Sertão: veredas” de Guimarães Rosa e vou curtindo a primeira leitura dela como se fosse a minha primeira leitura. Tem sido maravilhoso. 

Ouvir ela contar sobre a busca de Samuel, o encontro com a avó Nicéia e o momento em que ele  começa a ouvir as orações das mulheres de dentro da cabeça do santo alguma coisa acendeu na minha memória de leitora.

Disse a ela:

— Isso me lembra Pedro Páramo.

O romance de Juan Rulfo é uma das experiências mais radicais da literatura latino-americana. Nele, um homem chega à cidade de Comala procurando o pai e descobre, pouco a pouco, que a cidade é habitada por mortos. Ou talvez por memórias. Ou talvez por vozes que nunca cessaram de falar.

Carol nunca tinha lido Pedro Páramo.

Mas naquele momento nossas leituras começaram a se tocar.

E foi ali que nasceu este ensaio.

Uma hipótese comparativa nascida de uma conversa

Na literatura comparada, às vezes a pergunta de pesquisa nasce de um arquivo ou de uma tradição crítica. Outras vezes nasce de um gesto mais doméstico: alguém comenta um livro na mesa da cozinha.

Minha hipótese surgiu assim:

O que aproxima Cabeça de Santo e Pedro Páramo não é apenas um motivo narrativo — as vozes — mas uma maneira latino-americana de imaginar a relação entre memória, território e presença do invisível.

Ambos os romances organizam sua narrativa a partir de um deslocamento.

Um personagem chega.

Ele chega a um lugar que parece abandonado, mas que está saturado de histórias. Saturado de vozes.

Esse deslocamento inaugura a narrativa.

Em Pedro Páramo, Juan Preciado chega a Comala para procurar o pai.

Em Cabeça de Santo, Samuel chega à cidade de Candeia para procurar o pai, Manuel. O que ambos encontram não é exatamente uma cidade. É um campo de vozes.

A escuta como forma de narrativa

Nas duas obras, ouvir é mais importante que ver.

Em Pedro Páramo, a narrativa se constrói como uma sucessão de murmúrios. O leitor entra num espaço onde os mortos continuam falando e onde o tempo não é linear. Os acontecimentos se acumulam como ecos.

Já em Cabeça de Santo, a escuta ganha uma dimensão quase mágica: o protagonista passa a ouvir pedidos e orações dentro da cabeça de uma estátua de santo. As vozes pertencem a pessoas vivas que rezam, desejam, imploram.

Aqui surge uma diferença interessante.

Em Rulfo, as vozes pertencem sobretudo aos mortos.

Em Socorro Acioli, as vozes pertencem aos vivos que desejam.

Mas o dispositivo narrativo é semelhante: o protagonista torna-se um mediador de vozes.

Esse mediador é uma figura central na literatura latino-americana.

Ele não é herói. Não é santo. Não é exatamente narrador.

Ele é um corpo que escuta.

Territórios assombrados

Outra proximidade entre os dois romances aparece na maneira como o espaço é construído.

Comala, em Pedro Páramo, é uma cidade devastada pela história: pela violência, pelo poder patriarcal e pela erosão do tempo. A paisagem carrega as marcas de um passado que nunca foi resolvido.

Candeia, em Cabeça de Santo, também é um território marcado por ausência. Uma cidade que perdeu sua vitalidade, onde os habitantes convivem com o abandono e com promessas que não se cumprem.

Ambas as cidades parecem existir numa espécie de suspensão.

Não são completamente vivas.

Mas também não desapareceram.

São lugares onde a memória insiste.

Um motivo narrativo muito antigo

Se pensarmos em termos de literatura comparada, podemos dizer que ambos os romances trabalham com um mesmo motivo narrativo: o da escuta de vozes invisíveis, ou invisibilizadas.

Esse motivo é muito antigo.

Ele aparece nas tradições religiosas, nos mitos, nos contos populares e nas narrativas orais. Muitas histórias giram em torno de alguém que, por acaso ou destino, descobre uma posição privilegiada para ouvir aquilo que os outros não ouvem.

No Brasil, esse motivo aparece de forma bem-humorada nas histórias de Pedro Malasartes, registradas por Luís da Câmara Cascudo em obras como Contos Tradicionais do Brasil.

Malasartes frequentemente descobre segredos escondidos — conversas, desejos, planos amorosos — e usa essa escuta para reorganizar o jogo social. Ele é o trickster: aquele que escuta aquilo que não deveria ser ouvido.

A estrutura narrativa é surpreendentemente parecida.

Alguém chega.

Alguém descobre um lugar de escuta.

Uma cidade revela seus segredos.

Mas cada tradição responde de modo diferente ao que fazer com essa escuta.

Malasartes usa os segredos com malícia.

Em Pedro Páramo, a escuta revela um mundo devastado pela história.

Em Cabeça de Santo, a escuta cria um dilema moral: o que fazer com os desejos íntimos dos outros quando eles chegam até você?

A cabeça do santo como rádio do desejo

A cabeça oca do santo funciona como um dispositivo simbólico poderoso.

Ela é uma cavidade onde desejos coletivos se acumulam.

É quase como se a estátua fosse uma espécie de rádio do desejo.

Ou uma concha onde o mar das vozes humanas continua ressoando.

Samuel é alguém que escuta e alguém que carrega a cidade dentro da cabeça.

Ler com alguém

Mas há ainda outra camada nesse ensaio.

Ela não pertence exatamente aos livros.

Pertence à experiência de leitura.

Enquanto Carol lia Cabeça de Santo, eu relia Pedro Páramo dentro da memória. Nossas leituras começaram a produzir um espaço comum.

Não estávamos lendo o mesmo livro.

Mas estávamos lendo uma através da leitura da outra.

A literatura comparada, nesse caso, mais que um método acadêmico torna-se uma prática afetiva.

Comparar livros é também comparar experiências de leitura.

Uma filha descobre um romance.

Uma mãe reconhece ecos de outro.

E há algo ainda mais bonito nisso tudo.

Porque o próprio ensaio nasce da mesma estrutura que atravessa esses livros.

Alguém escuta uma voz.

E dessa escuta nasce um mundo.

Carol lê.

Eu escuto a leitura dela.

E, entre uma mensagem e outra, entre um comentário e outro, forma-se uma pequena constelação literária.

Dois livros.

Séculos de histórias.

Duas gerações.

E uma conversa que continua.


domingo, 14 de dezembro de 2025

Não há glamour em saber que o nome foi inspirado em uma máquina de costura (assim me contou meu pai). Mas há  a obstinação em encarnar a potência , maquinar a costura do real, acoplar o corpo e ferro e produzir o mundo.





quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Durante a oficina Desvendando Afetos, no Instituto Abrapalavra, uma das participantes evocou Antígona, e a referência me fez voltar à obra. Me lembrei dessa mulher que desafiou o decreto do rei para enterrar o irmão e de como esse ato ainda nos interpela hoje, quando o medo parece ser o afeto que sustenta o laço social. Em O circuito dos afetos, Vladimir Safatle diz que o medo foi o sentimento político fundador da modernidade, o cimento que uniu os corpos pela ameaça e pela obediência. Antígona rompe esse circuito. Ela é o corpo que não teme a punição, a palavra que insiste no impossível: amar e cuidar mesmo quando a lei proíbe.
No Seminário 7, Lacan lê seu gesto como a fidelidade ao desejo, essa força que nenhuma norma consegue domesticar. Para ele, Antígona não é heroína moral, ela é sujeito do seu desejo, ou seja, alguém que vai até o limite da linguagem para sustentar o que a move. Já Hegel via nos atos dela o embate entre duas éticas legítimas: a da cidade (Creonte) e a da família (Antígona). Judith Butler, mais tarde, enxergou corpos e amores que não cabem nas leis do parentesco: aqueles cuja dor e luto não são reconhecidos pelo poder.
Ouvi-la surgir em nossa roda me fez pensar mais detidamente em Antígona, e em como a peça não é apenas mito, mas modo de existir. Ela encarna o instante em que o sujeito atravessa o circuito do medo (FEAR): esse afeto que, como lembra Jaak Panksepp, paralisa, submete e se move em direção ao cuidado (CARE) e ao luto (GRIEF), os afetos que fundam o vínculo e a compaixão. Antígona não obedece por medo; ela age por desejo, sustentando a dor e o amor como forças políticas.
Talvez o que nos comova tanto em sua história seja justamente isso: a coragem de perder tudo sem perder a si, de transformar o medo em gesto ético. No fundo, toda vez que alguém sustenta um ato de amor, de criação ou de resistência contra o peso da norma, Antígona ressurge; devolvendo ao humano a potência de cuidar, desejar e viver mesmo diante do desamparo.


Não se é linguistas e poeta impunemente. Tou aqui observando o “For Mei” desses óculos e pensando na situação do recém formado brasileiro. Uma pesquisa recentes do Semesp mostra que 29,5% dos recém-formados ainda não conseguiram o primeiro emprego. É a primeira vez que temos tantos recém-formados fora do mercado de trabalho. O levantamento do Semesp/Workalove aponta que em que cursos como História, Relações Internacionais e Serviço Social esses números chegam a quase 30% de egressos sem atividade remunerada. Os dados não mentem: estamos formando pessoas para um mercado que não as quer.
Esses óculos tão divertidos parecem me dizer
“Parabéns pelo diploma, agora abra seu MEI.” A celebração da formatura se mistura à exigência de virar empresa de si mesmo, porque a carteira assinada , essa ficção de estabilidade, encolheu até caber num slogan.
Há uma ironia silenciosa: o óculos feito para olhar o futuro expõe, na verdade, a precarização do presente. Um país que escreve “for mei”, mas entrega “MEI”. Um país que empurra os jovens para fora do país ou para a autonomia compulsória, quando o que eles queriam, no fundo, era só trabalhar nas profissões para as quais estudaram recebendo salários dignos.




terça-feira, 9 de dezembro de 2025

desespero

meus pensamentos não encontram casa 
o endereço da infância 
num papel que ninguém lê
no conforto do encontro 
corpo 
erótico
afeto
encosto para não cair
cobertas curtas não cobrem meu medo
o abandono pendula
nas palavras de mamãe
- vós que aprendi cedo demais -
a sentença antiga
-todos somos sós
só os bichos ficam -
afeto sem juiz
um pássaro branco pinga sangue
a menina pede socorro
duas feridas abertas 
onde antes havia voo
"foi meu amigo que jogou pedras"
- amigos não ferem - precisei dizer
sua mão em meus cabelos ancora o presente
a cidade continua rodando fora do quarto
desejo pede espaço
permanecer 
não deve
custar 
o movimento
como um carro que percorre a esmo a cidade 


quarta-feira, 8 de outubro de 2025

a dignidade das coisas que não desistem

gosto de fazer 
o caminho de casa 
até o trabalho 
à pé

em outubro as calçadas
ficam cobertas pelas flores
que caem dos ipês

e hoje havia um cabide
estendido na calçada
como quem descansava 
dos ombros
esperando um corpo

não estava torto
só um pouco sujo
solto ali
com a dignidade 
das coisas que não desistem
pendurado no nada dizendo
"ainda sei sustentar"

mamãe
a primeira ambientalista
que conheci - teria, 
sem titubear - catado
colocado no braço
junto com as roupas doadas
os panos de prato
lavado na bacia
onde lavava roupas
as pernas em volta
nos domingos de sol

hesitei, pois sei 
de minhas gavetas cheias
lembrei do laranja do uniforme 
da SLU
de tudo que vinha do lixo
do seu sorriso
ao encontrar um brinquedo inteiro
um chinelo de par imaginário
(ou só as correias)
uma blusa quase nova
a carne, a verdura quase boa 

mamãe ainda é 
a colecionadora 
de pequenas sobras
sombras de indignidades

sustentei a recusa
afinal há todos os cabides 
há roupas demais
em meu armário
e há essa nova fase 
azul bebê - cor 
de lágrimas
da maciez
e do silêncio

e o cabide?
será que continua
quieto
oferecido
na calçada?
será que resiste
à fome limpa,
à sólida escassez
do mundo?