quinta-feira, 5 de março de 2026

Entre duas leituras: Cabeça de Santo, Pedro Páramo e uma conversa com minha filha






A literatura às vezes começa antes do livro. Começa numa conversa. Começa quando alguém nos conta o que está lendo.

Foi assim que Pedro Páramo voltou à minha vida. Ele me foi apresentado anos atrás pelo amigo Paulo da Luz Moreira lá do Ás Moscas ( https://paulodaluzmoreira.blogspot.com/2026/01/poesia-minha-sem-titulo.html) , que falava desse romance como quem aponta um lugar onde os mortos ainda conversam. Um livro onde as vozes se levantam do chão como poeira.

Muito tempo depois, a porta desse mesmo livro se abriu de novo.

Carol, minha filha, lia Cabeça de Santo, de Socorro Acioli, e me mandava impressões. Ela avançava na narrativa e voltava para me contar o que estava acontecendo com Samuel, o jovem que chega em Candeia em busca do pai para cumprir uma promessa que fez a mãe no leito de morte mas encontra a cidade quase desabitada e passa a morar dentro da cabeça oca de uma estátua de santo.

Eu escutava.

Escutar a leitura de alguém é um gesto curioso. Não é exatamente ouvir a história. É ouvir como a história está acontecendo dentro de outra pessoa. Eu amo escutar ela contando sobre o que lê. Dei de presente de natal  “Grande Sertão: veredas” de Guimarães Rosa e vou curtindo a primeira leitura dela como se fosse a minha primeira leitura. Tem sido maravilhoso. 

Ouvir ela contar sobre a busca de Samuel, o encontro com a avó Nicéia e o momento em que ele  começa a ouvir as orações das mulheres de dentro da cabeça do santo alguma coisa acendeu na minha memória de leitora.

Disse a ela:

— Isso me lembra Pedro Páramo.

O romance de Juan Rulfo é uma das experiências mais radicais da literatura latino-americana. Nele, um homem chega à cidade de Comala procurando o pai e descobre, pouco a pouco, que a cidade é habitada por mortos. Ou talvez por memórias. Ou talvez por vozes que nunca cessaram de falar.

Carol nunca tinha lido Pedro Páramo.

Mas naquele momento nossas leituras começaram a se tocar.

E foi ali que nasceu este ensaio.

Uma hipótese comparativa nascida de uma conversa

Na literatura comparada, às vezes a pergunta de pesquisa nasce de um arquivo ou de uma tradição crítica. Outras vezes nasce de um gesto mais doméstico: alguém comenta um livro na mesa da cozinha.

Minha hipótese surgiu assim:

O que aproxima Cabeça de Santo e Pedro Páramo não é apenas um motivo narrativo — as vozes — mas uma maneira latino-americana de imaginar a relação entre memória, território e presença do invisível.

Ambos os romances organizam sua narrativa a partir de um deslocamento.

Um personagem chega.

Ele chega a um lugar que parece abandonado, mas que está saturado de histórias. Saturado de vozes.

Esse deslocamento inaugura a narrativa.

Em Pedro Páramo, Juan Preciado chega a Comala para procurar o pai.

Em Cabeça de Santo, Samuel chega à cidade de Candeia para procurar o pai, Manuel. O que ambos encontram não é exatamente uma cidade. É um campo de vozes.

A escuta como forma de narrativa

Nas duas obras, ouvir é mais importante que ver.

Em Pedro Páramo, a narrativa se constrói como uma sucessão de murmúrios. O leitor entra num espaço onde os mortos continuam falando e onde o tempo não é linear. Os acontecimentos se acumulam como ecos.

Já em Cabeça de Santo, a escuta ganha uma dimensão quase mágica: o protagonista passa a ouvir pedidos e orações dentro da cabeça de uma estátua de santo. As vozes pertencem a pessoas vivas que rezam, desejam, imploram.

Aqui surge uma diferença interessante.

Em Rulfo, as vozes pertencem sobretudo aos mortos.

Em Socorro Acioli, as vozes pertencem aos vivos que desejam.

Mas o dispositivo narrativo é semelhante: o protagonista torna-se um mediador de vozes.

Esse mediador é uma figura central na literatura latino-americana.

Ele não é herói. Não é santo. Não é exatamente narrador.

Ele é um corpo que escuta.

Territórios assombrados

Outra proximidade entre os dois romances aparece na maneira como o espaço é construído.

Comala, em Pedro Páramo, é uma cidade devastada pela história: pela violência, pelo poder patriarcal e pela erosão do tempo. A paisagem carrega as marcas de um passado que nunca foi resolvido.

Candeia, em Cabeça de Santo, também é um território marcado por ausência. Uma cidade que perdeu sua vitalidade, onde os habitantes convivem com o abandono e com promessas que não se cumprem.

Ambas as cidades parecem existir numa espécie de suspensão.

Não são completamente vivas.

Mas também não desapareceram.

São lugares onde a memória insiste.

Um motivo narrativo muito antigo

Se pensarmos em termos de literatura comparada, podemos dizer que ambos os romances trabalham com um mesmo motivo narrativo: o da escuta de vozes invisíveis, ou invisibilizadas.

Esse motivo é muito antigo.

Ele aparece nas tradições religiosas, nos mitos, nos contos populares e nas narrativas orais. Muitas histórias giram em torno de alguém que, por acaso ou destino, descobre uma posição privilegiada para ouvir aquilo que os outros não ouvem.

No Brasil, esse motivo aparece de forma bem-humorada nas histórias de Pedro Malasartes, registradas por Luís da Câmara Cascudo em obras como Contos Tradicionais do Brasil.

Malasartes frequentemente descobre segredos escondidos — conversas, desejos, planos amorosos — e usa essa escuta para reorganizar o jogo social. Ele é o trickster: aquele que escuta aquilo que não deveria ser ouvido.

A estrutura narrativa é surpreendentemente parecida.

Alguém chega.

Alguém descobre um lugar de escuta.

Uma cidade revela seus segredos.

Mas cada tradição responde de modo diferente ao que fazer com essa escuta.

Malasartes usa os segredos com malícia.

Em Pedro Páramo, a escuta revela um mundo devastado pela história.

Em Cabeça de Santo, a escuta cria um dilema moral: o que fazer com os desejos íntimos dos outros quando eles chegam até você?

A cabeça do santo como rádio do desejo

A cabeça oca do santo funciona como um dispositivo simbólico poderoso.

Ela é uma cavidade onde desejos coletivos se acumulam.

É quase como se a estátua fosse uma espécie de rádio do desejo.

Ou uma concha onde o mar das vozes humanas continua ressoando.

Samuel é alguém que escuta e alguém que carrega a cidade dentro da cabeça.

Ler com alguém

Mas há ainda outra camada nesse ensaio.

Ela não pertence exatamente aos livros.

Pertence à experiência de leitura.

Enquanto Carol lia Cabeça de Santo, eu relia Pedro Páramo dentro da memória. Nossas leituras começaram a produzir um espaço comum.

Não estávamos lendo o mesmo livro.

Mas estávamos lendo uma através da leitura da outra.

A literatura comparada, nesse caso, mais que um método acadêmico torna-se uma prática afetiva.

Comparar livros é também comparar experiências de leitura.

Uma filha descobre um romance.

Uma mãe reconhece ecos de outro.

E há algo ainda mais bonito nisso tudo.

Porque o próprio ensaio nasce da mesma estrutura que atravessa esses livros.

Alguém escuta uma voz.

E dessa escuta nasce um mundo.

Carol lê.

Eu escuto a leitura dela.

E, entre uma mensagem e outra, entre um comentário e outro, forma-se uma pequena constelação literária.

Dois livros.

Séculos de histórias.

Duas gerações.

E uma conversa que continua.


domingo, 14 de dezembro de 2025

Não há glamour em saber que o nome foi inspirado em uma máquina de costura (assim me contou meu pai). Mas há  a obstinação em encarnar a potência , maquinar a costura do real, acoplar o corpo e ferro e produzir o mundo.





quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Durante a oficina Desvendando Afetos, no Instituto Abrapalavra, uma das participantes evocou Antígona, e a referência me fez voltar à obra. Me lembrei dessa mulher que desafiou o decreto do rei para enterrar o irmão e de como esse ato ainda nos interpela hoje, quando o medo parece ser o afeto que sustenta o laço social. Em O circuito dos afetos, Vladimir Safatle diz que o medo foi o sentimento político fundador da modernidade, o cimento que uniu os corpos pela ameaça e pela obediência. Antígona rompe esse circuito. Ela é o corpo que não teme a punição, a palavra que insiste no impossível: amar e cuidar mesmo quando a lei proíbe.
No Seminário 7, Lacan lê seu gesto como a fidelidade ao desejo, essa força que nenhuma norma consegue domesticar. Para ele, Antígona não é heroína moral, ela é sujeito do seu desejo, ou seja, alguém que vai até o limite da linguagem para sustentar o que a move. Já Hegel via nos atos dela o embate entre duas éticas legítimas: a da cidade (Creonte) e a da família (Antígona). Judith Butler, mais tarde, enxergou corpos e amores que não cabem nas leis do parentesco: aqueles cuja dor e luto não são reconhecidos pelo poder.
Ouvi-la surgir em nossa roda me fez pensar mais detidamente em Antígona, e em como a peça não é apenas mito, mas modo de existir. Ela encarna o instante em que o sujeito atravessa o circuito do medo (FEAR): esse afeto que, como lembra Jaak Panksepp, paralisa, submete e se move em direção ao cuidado (CARE) e ao luto (GRIEF), os afetos que fundam o vínculo e a compaixão. Antígona não obedece por medo; ela age por desejo, sustentando a dor e o amor como forças políticas.
Talvez o que nos comova tanto em sua história seja justamente isso: a coragem de perder tudo sem perder a si, de transformar o medo em gesto ético. No fundo, toda vez que alguém sustenta um ato de amor, de criação ou de resistência contra o peso da norma, Antígona ressurge; devolvendo ao humano a potência de cuidar, desejar e viver mesmo diante do desamparo.


Não se é linguistas e poeta impunemente. Tou aqui observando o “For Mei” desses óculos e pensando na situação do recém formado brasileiro. Uma pesquisa recentes do Semesp mostra que 29,5% dos recém-formados ainda não conseguiram o primeiro emprego. É a primeira vez que temos tantos recém-formados fora do mercado de trabalho. O levantamento do Semesp/Workalove aponta que em que cursos como História, Relações Internacionais e Serviço Social esses números chegam a quase 30% de egressos sem atividade remunerada. Os dados não mentem: estamos formando pessoas para um mercado que não as quer.
Esses óculos tão divertidos parecem me dizer
“Parabéns pelo diploma, agora abra seu MEI.” A celebração da formatura se mistura à exigência de virar empresa de si mesmo, porque a carteira assinada , essa ficção de estabilidade, encolheu até caber num slogan.
Há uma ironia silenciosa: o óculos feito para olhar o futuro expõe, na verdade, a precarização do presente. Um país que escreve “for mei”, mas entrega “MEI”. Um país que empurra os jovens para fora do país ou para a autonomia compulsória, quando o que eles queriam, no fundo, era só trabalhar nas profissões para as quais estudaram recebendo salários dignos.




terça-feira, 9 de dezembro de 2025

desespero

meus pensamentos não encontram casa 
o endereço da infância 
num papel que ninguém lê
no conforto do encontro 
corpo 
erótico
afeto
encosto para não cair
cobertas curtas não cobrem meu medo
o abandono pendula
nas palavras de mamãe
- vós que aprendi cedo demais -
a sentença antiga
-todos somos sós
só os bichos ficam -
afeto sem juiz
um pássaro branco pinga sangue
a menina pede socorro
duas feridas abertas 
onde antes havia voo
"foi meu amigo que jogou pedras"
- amigos não ferem - precisei dizer
sua mão em meus cabelos ancora o presente
a cidade continua rodando fora do quarto
desejo pede espaço
permanecer 
não deve
custar 
o movimento
como um carro que percorre a esmo a cidade 


quarta-feira, 8 de outubro de 2025

a dignidade das coisas que não desistem

gosto de fazer 
o caminho de casa 
até o trabalho 
à pé

em outubro as calçadas
ficam cobertas pelas flores
que caem dos ipês

e hoje havia um cabide
estendido na calçada
como quem descansava 
dos ombros
esperando um corpo

não estava torto
só um pouco sujo
solto ali
com a dignidade 
das coisas que não desistem
pendurado no nada dizendo
"ainda sei sustentar"

mamãe
a primeira ambientalista
que conheci - teria, 
sem titubear - catado
colocado no braço
junto com as roupas doadas
os panos de prato
lavado na bacia
onde lavava roupas
as pernas em volta
nos domingos de sol

hesitei, pois sei 
de minhas gavetas cheias
lembrei do laranja do uniforme 
da SLU
de tudo que vinha do lixo
do seu sorriso
ao encontrar um brinquedo inteiro
um chinelo de par imaginário
(ou só as correias)
uma blusa quase nova
a carne, a verdura quase boa 

mamãe ainda é 
a colecionadora 
de pequenas sobras
sombras de indignidades

sustentei a recusa
afinal há todos os cabides 
há roupas demais
em meu armário
e há essa nova fase 
azul bebê - cor 
de lágrimas
da maciez
e do silêncio

e o cabide?
será que continua
quieto
oferecido
na calçada?
será que resiste
à fome limpa,
à sólida escassez
do mundo?

sábado, 4 de outubro de 2025

A visibilidade é uma armadilha

“A visibilidade é uma armadilha”, escreveu Foucault, e eu sinto essa frase reverberar em mim como uma sentença paradoxal. Quero ser vista, mas o desejo de visibilidade se confunde com o medo de ser reduzida ao olhar do outro. Quando apareço, estou sujeita a interpretações, julgamentos, distorções. Quando desapareço, sinto-me abandonada, sem prova de existência.

Carrego um medo antigo de me tornar invisível — trauma que nasce na infância, quando a ausência de atenção parecia significar inexistência. A criança que fui ainda grita: “olhem para mim”. E a adulta que sou percebe que esse grito pode me aprisionar em redes de aprovação e exposição.

Na vida e nas relações, oscilo entre a entrega plena e o receio de me apagar. Ser presença não é apenas ocupar espaço físico ou digital, mas afetar e ser afetada. Às vezes me pergunto: qual é a medida justa entre estar presente e não me perder no reflexo dos outros?

Nas redes sociais, esse dilema ganha contornos cruéis. Ali, cada aparição é vigilância, cada silêncio é esquecimento. É como se eu tivesse que performar presença para não desaparecer, mesmo quando o desejo seria recolher-me. O algoritmo, tal como o panóptico de Foucault, captura meu desejo de ser reconhecida e o devolve em doses que nunca bastam.

Estou aqui hoje pensando que minha luta é por um lugar onde a visibilidade não seja prisão, mas escolha. Onde a presença não dependa de curtidas nem de olhares furtivos, mas da potência de estar em relação com autenticidade. Talvez a saída seja deslocar o foco: não perguntar o quanto me veem, mas o quanto eu consigo me ver sem me esconder, onde sou vista sem performar, o quanto posso existir inteira sem precisar da vitrine. E não é por acaso que esse post esteja sendo ilustrado pela foto recortada pelo olhar da amada @ana2018carolina, alguém que vem me proporcionando a mais maravilhosa experiência de se deixar ver e de me fazer sentir vista. Obrigada amor ♥️


terça-feira, 16 de setembro de 2025

qual a melhor medida do amor?

há isso

— todo o tempo

que gastei

para ser

isso que chamo EU —

e há

a mulher

que me escolheu:

ela me ama,

cruza a cidade ao vento,

vê pela manhã

eu me vestir

dormir

dançar

comer

sorrir

ela me vê.

e nisso pulsa, inteiro,

em meu peito aberto

amor verdadeiro

domingo, 7 de setembro de 2025

Pinguins

ah, a alegria dos começos

e o esforço do primeiro verso

(o que veio primeiro?)

podia dizer da sua intenção

de me enxergar

na prateleira

e dizer: venha

quando eu já tinha decidido escolher

teve sua disposição

de encarar a gangue de amigos

aquele sorriso

(parava fácil a afonso pena inteira),

a decisão de ficar

o primeiro beijo,

o cheiro cítrico de flores no quarto

em seus cabelos,

no travesseiro

(calcinhas perdidas nos pés da cama),

os lençóis guardando suas curvas,

as marcas de suas águas –

ah, suas águas sobre mim

a despeito do acordo

terapêutico

dramático

“não vai se apaixonar tão rápido” ou

“quatro encontros antes da cama”

de cara eu te oferecia o pijama

e cabia tão lindo em você

a ingenuidade da promessa

de explorar a casa

só pra nos colocar em fuga

(droga de retorno surpresa)

o mundo cabe inteiro no espaço

entre suas covinhas

quando você sorri

saudade é a palavra

que multiplicamos

cem vezes nas nossas vozes

(duzentas vezes nos áudios de whatsapp),

na distância, nas mensagens

e há a calma que mora

nos nossos encontros,

na posição de conforto para dormir,

seu corpo em repouso

e o ronronar

que virou

minha canção de ninar

e que não ouso interromper

carrego seu nome desde a infância:

a menina bonita

da classe do fundamental

se eu fosse menos nietzschiana

chamava de destino

o que estamos construindo

há medo, confesso,

mas também há a paz

e a ausência de drama

por isso aposto todo dia

é cedo, eu sei

mas vou te desenhar

um casal

de pinguins

e te convidar:

vem viver par em mim

sexta-feira, 25 de julho de 2025

atlas de um corpo em exílio

a pele ainda fala dialetos extintos

mesmo sob o céu limpo

onde o silêncio é idioma oficial

há uma rachadura invisível

atravessando o chão

de mármore das bibliotecas

e é por ela que minha sombra escapa

deitada em páginas onde nunca fui escrita


cada rua sem buzina

é um espelho de aço

refletindo o grito

que eu segurei

no vômito


tudo é respeitável

e esse excesso me afoga

ausência de barulho

acentua o ruído que trago nos ossos


sou a viajante

o passaporte carimbado de ausência

o nome riscado de dentro

uma mulher que caminha em inglês

e sangra em português


não há corpo que migre

sem carregar suas ruínas embutidas

prótese de um amor

historicamente mutilado no abusivo

arquivo em segundo plano

processando-se

mesmo quando a janela principal mostra montanhas

minha alegria tem cláusulas de contenção

sorrio com legenda:

“isto não é amor, é costume”


o exílio não é o país:

é o gesto automático

de pedir desculpas

por existir com mais volume

do que me permitiram


no banco da praia

às margens do Pacífico

ensaio a minha revolução


não é sonora

não é coreografada

não é instagramável

é meu corpo se recusando a se curvar

quando há atraso para amá-lo


livros me olham com ternura estrangeira

imigrante de mim


aprendo a andar descalça

sobre os gramados

que não pedem desculpa por crescer


a pergunta não é mais quem me feriu

mas:

quem em mim

continua a ofertar flor

ao punho que esmaga

minha liberdade tem sotaque

as botas pesadas do meu perdão


escrevo

devagar, em letras minúsculas,

um novo tratado:

não serei o altar de nenhuma

falta de escolha

nem sílaba que se dobra

em qualquer sentença

as mão firmes com os quais

finalmente escrevo

em exílio, sim

mas em alfabetização

aprendendo a dizer

não

sem precisar me traduzir