é tão fácil
barganhar a liberdade
quando se está cansada
você nem sabe
mas tocou
numa ferida aberta
No dia 11 de setembro, tive a honra de comparecer ao lançamento de Convergência, do meu querido Samuel Medina. Estou lendo o livro com muito gosto porque, mais uma vez, me deparo com sua habilidade de aproximar o cotidiano do fantástico, fazendo o insólito surgir em bibliotecas, banheiros, ônibus, ruas e relações aparentemente comuns. Os contos do Samuca transitam entre o humor, a ternura e certa inquietação diante da morte, da solidão e das microviolências tão naturalizadas nos dias de hoje.
Gosto especialmente da delicadeza que o olhar do sujeito da narrativa lança sobre os seres quase invisíveis: uma galinha velha, um sapinho, uma aranha, uma joaninha, uma palavra proferida, uma existência ignorada. O afeto aparece justamente onde muitos não reconheceriam nada digno de atenção. Não que não haja desconforto, principalmente quando a escrita toca o fanatismo religioso, as promessas de sucesso, o controle tecnológico e nossa necessidade de atribuir sentido ao que escapa à compreensão.
O vocabulário cuidadosamente elaborado, por vezes erudito é uma marca do meu amigo. Há por fim a variedade de registros, que nesse livro apontam para um avanço formal adorável: alguns contos se aproximam da fábula; outros, da ficção fantástica, da sátira ou de uma narrativa mais filosófica. Há entre eles, porém, uma unidade construída pela recorrência da perda, da finitude e das passagens entre mundos. O último conto retorna ao primeiro e dá ao título uma dimensão estrutural: aquilo que parecia disperso converge, e a morte, presente desde o início, revela-se personagem.
Que delícia está sendo reconhecer, neste livro imaginativo, sensível e atento às vidas e histórias que costumamos não enxergar, o narrador que Samuel vem construindo ao longo de seus livros anteriores: alguém que escreve como quem sabe que o estranho não está fora da realidade, mas mora discretamente dentro dela.
I
Umbigo
no centro do corpo
uma fenda calada
memória de um tempo sem falta
cada corpo presente
confirma o corte
na pele cicatrizada
II
Pupila
no centro do olho
um círculo escuro
paisagens atravessam
ao avesso
a luz dá contorno
ao que está fora
nenhuma imagem
confirma
quem vê
III
Poço
um círculo
interrompe a terra
pedra sobre pedra
o escuro toma forma
ao fundo
um céu
do tamanho
da boca
IV
Bússola
o mundo
ao redor entorna
o norte
a agulha contorna
cegada
perfura o próprio centro
VI
V
Microfone
boca sem língua
no centro da sala
a voz
que o corpo expande
cortada a corrente
cabe
outra vez o nome
VI
Fechadura
no corpo da porta
fenda estreita
a chave range
dente por dente
a falta
escolhe
a forma
Foi assim que Pedro Páramo voltou à minha vida. Ele me foi apresentado anos atrás pelo amigo Paulo da Luz Moreira lá do Ás Moscas ( https://paulodaluzmoreira.blogspot.com/2026/01/poesia-minha-sem-titulo.html) , que falava desse romance como quem aponta um lugar onde os mortos ainda conversam. Um livro onde as vozes se levantam do chão como poeira.
Muito tempo depois, a porta desse mesmo livro se abriu de novo.
Carol, minha filha, lia Cabeça de Santo, de Socorro Acioli, e me mandava impressões. Ela avançava na narrativa e voltava para me contar o que estava acontecendo com Samuel, o jovem que chega em Candeia em busca do pai para cumprir uma promessa que fez a mãe no leito de morte mas encontra a cidade quase desabitada e passa a morar dentro da cabeça oca de uma estátua de santo.
Eu escutava.
Escutar a leitura de alguém é um gesto curioso. Não é exatamente ouvir a história. É ouvir como a história está acontecendo dentro de outra pessoa. Eu amo escutar ela contando sobre o que lê. Dei de presente de natal “Grande Sertão: veredas” de Guimarães Rosa e vou curtindo a primeira leitura dela como se fosse a minha primeira leitura. Tem sido maravilhoso.
Ouvir ela contar sobre a busca de Samuel, o encontro com a avó Nicéia e o momento em que ele começa a ouvir as orações das mulheres de dentro da cabeça do santo alguma coisa acendeu na minha memória de leitora.
Disse a ela:
— Isso me lembra Pedro Páramo.
O romance de Juan Rulfo é uma das experiências mais radicais da literatura latino-americana. Nele, um homem chega à cidade de Comala procurando o pai e descobre, pouco a pouco, que a cidade é habitada por mortos. Ou talvez por memórias. Ou talvez por vozes que nunca cessaram de falar.
Carol nunca tinha lido Pedro Páramo.
Mas naquele momento nossas leituras começaram a se tocar.
E foi ali que nasceu este ensaio.
Na literatura comparada, às vezes a pergunta de pesquisa nasce de um arquivo ou de uma tradição crítica. Outras vezes nasce de um gesto mais doméstico: alguém comenta um livro na mesa da cozinha.
Minha hipótese surgiu assim:
O que aproxima Cabeça de Santo e Pedro Páramo não é apenas um motivo narrativo — as vozes — mas uma maneira latino-americana de imaginar a relação entre memória, território e presença do invisível.
Ambos os romances organizam sua narrativa a partir de um deslocamento.
Um personagem chega.
Ele chega a um lugar que parece abandonado, mas que está saturado de histórias. Saturado de vozes.
Esse deslocamento inaugura a narrativa.
Em Pedro Páramo, Juan Preciado chega a Comala para procurar o pai.
Em Cabeça de Santo, Samuel chega à cidade de Candeia para procurar o pai, Manuel. O que ambos encontram não é exatamente uma cidade. É um campo de vozes.
Nas duas obras, ouvir é mais importante que ver.
Em Pedro Páramo, a narrativa se constrói como uma sucessão de murmúrios. O leitor entra num espaço onde os mortos continuam falando e onde o tempo não é linear. Os acontecimentos se acumulam como ecos.
Já em Cabeça de Santo, a escuta ganha uma dimensão quase mágica: o protagonista passa a ouvir pedidos e orações dentro da cabeça de uma estátua de santo. As vozes pertencem a pessoas vivas que rezam, desejam, imploram.
Aqui surge uma diferença interessante.
Em Rulfo, as vozes pertencem sobretudo aos mortos.
Em Socorro Acioli, as vozes pertencem aos vivos que desejam.
Mas o dispositivo narrativo é semelhante: o protagonista torna-se um mediador de vozes.
Esse mediador é uma figura central na literatura latino-americana.
Ele não é herói. Não é santo. Não é exatamente narrador.
Ele é um corpo que escuta.
Outra proximidade entre os dois romances aparece na maneira como o espaço é construído.
Comala, em Pedro Páramo, é uma cidade devastada pela história: pela violência, pelo poder patriarcal e pela erosão do tempo. A paisagem carrega as marcas de um passado que nunca foi resolvido.
Candeia, em Cabeça de Santo, também é um território marcado por ausência. Uma cidade que perdeu sua vitalidade, onde os habitantes convivem com o abandono e com promessas que não se cumprem.
Ambas as cidades parecem existir numa espécie de suspensão.
Não são completamente vivas.
Mas também não desapareceram.
São lugares onde a memória insiste.
Se pensarmos em termos de literatura comparada, podemos dizer que ambos os romances trabalham com um mesmo motivo narrativo: o da escuta de vozes invisíveis, ou invisibilizadas.
Esse motivo é muito antigo.
Ele aparece nas tradições religiosas, nos mitos, nos contos populares e nas narrativas orais. Muitas histórias giram em torno de alguém que, por acaso ou destino, descobre uma posição privilegiada para ouvir aquilo que os outros não ouvem.
No Brasil, esse motivo aparece de forma bem-humorada nas histórias de Pedro Malasartes, registradas por Luís da Câmara Cascudo em obras como Contos Tradicionais do Brasil.
Malasartes frequentemente descobre segredos escondidos — conversas, desejos, planos amorosos — e usa essa escuta para reorganizar o jogo social. Ele é o trickster: aquele que escuta aquilo que não deveria ser ouvido.
A estrutura narrativa é surpreendentemente parecida.
Alguém chega.
Alguém descobre um lugar de escuta.
Uma cidade revela seus segredos.
Mas cada tradição responde de modo diferente ao que fazer com essa escuta.
Malasartes usa os segredos com malícia.
Em Pedro Páramo, a escuta revela um mundo devastado pela história.
Em Cabeça de Santo, a escuta cria um dilema moral: o que fazer com os desejos íntimos dos outros quando eles chegam até você?
A cabeça oca do santo funciona como um dispositivo simbólico poderoso.
Ela é uma cavidade onde desejos coletivos se acumulam.
É quase como se a estátua fosse uma espécie de rádio do desejo.
Ou uma concha onde o mar das vozes humanas continua ressoando.
Samuel é alguém que escuta e alguém que carrega a cidade dentro da cabeça.
Mas há ainda outra camada nesse ensaio.
Ela não pertence exatamente aos livros.
Pertence à experiência de leitura.
Enquanto Carol lia Cabeça de Santo, eu relia Pedro Páramo dentro da memória. Nossas leituras começaram a produzir um espaço comum.
Não estávamos lendo o mesmo livro.
Mas estávamos lendo uma através da leitura da outra.
A literatura comparada, nesse caso, mais que um método acadêmico torna-se uma prática afetiva.
Comparar livros é também comparar experiências de leitura.
Uma filha descobre um romance.
Uma mãe reconhece ecos de outro.
E há algo ainda mais bonito nisso tudo.
Porque o próprio ensaio nasce da mesma estrutura que atravessa esses livros.
Alguém escuta uma voz.
E dessa escuta nasce um mundo.
Carol lê.
Eu escuto a leitura dela.
E, entre uma mensagem e outra, entre um comentário e outro, forma-se uma pequena constelação literária.
Dois livros.
Séculos de histórias.
Duas gerações.
E uma conversa que continua.