A literatura às vezes começa antes do livro. Começa numa conversa. Começa quando alguém nos conta o que está lendo.
Foi assim que Pedro Páramo voltou à minha vida. Ele me foi apresentado anos atrás pelo amigo Paulo da Luz Moreira lá do Ás Moscas ( https://paulodaluzmoreira.blogspot.com/2026/01/poesia-minha-sem-titulo.html) , que falava desse romance como quem aponta um lugar onde os mortos ainda conversam. Um livro onde as vozes se levantam do chão como poeira.
Muito tempo depois, a porta desse mesmo livro se abriu de novo.
Carol, minha filha, lia Cabeça de Santo, de Socorro Acioli, e me mandava impressões. Ela avançava na narrativa e voltava para me contar o que estava acontecendo com Samuel, o jovem que chega em Candeia em busca do pai para cumprir uma promessa que fez a mãe no leito de morte mas encontra a cidade quase desabitada e passa a morar dentro da cabeça oca de uma estátua de santo.
Eu escutava.
Escutar a leitura de alguém é um gesto curioso. Não é exatamente ouvir a história. É ouvir como a história está acontecendo dentro de outra pessoa. Eu amo escutar ela contando sobre o que lê. Dei de presente de natal “Grande Sertão: veredas” de Guimarães Rosa e vou curtindo a primeira leitura dela como se fosse a minha primeira leitura. Tem sido maravilhoso.
Ouvir ela contar sobre a busca de Samuel, o encontro com a avó Nicéia e o momento em que ele começa a ouvir as orações das mulheres de dentro da cabeça do santo alguma coisa acendeu na minha memória de leitora.
Disse a ela:
— Isso me lembra Pedro Páramo.
O romance de Juan Rulfo é uma das experiências mais radicais da literatura latino-americana. Nele, um homem chega à cidade de Comala procurando o pai e descobre, pouco a pouco, que a cidade é habitada por mortos. Ou talvez por memórias. Ou talvez por vozes que nunca cessaram de falar.
Carol nunca tinha lido Pedro Páramo.
Mas naquele momento nossas leituras começaram a se tocar.
E foi ali que nasceu este ensaio.
Uma hipótese comparativa nascida de uma conversa
Na literatura comparada, às vezes a pergunta de pesquisa nasce de um arquivo ou de uma tradição crítica. Outras vezes nasce de um gesto mais doméstico: alguém comenta um livro na mesa da cozinha.
Minha hipótese surgiu assim:
O que aproxima Cabeça de Santo e Pedro Páramo não é apenas um motivo narrativo — as vozes — mas uma maneira latino-americana de imaginar a relação entre memória, território e presença do invisível.
Ambos os romances organizam sua narrativa a partir de um deslocamento.
Um personagem chega.
Ele chega a um lugar que parece abandonado, mas que está saturado de histórias. Saturado de vozes.
Esse deslocamento inaugura a narrativa.
Em Pedro Páramo, Juan Preciado chega a Comala para procurar o pai.
Em Cabeça de Santo, Samuel chega à cidade de Candeia para procurar o pai, Manuel. O que ambos encontram não é exatamente uma cidade. É um campo de vozes.
A escuta como forma de narrativa
Nas duas obras, ouvir é mais importante que ver.
Em Pedro Páramo, a narrativa se constrói como uma sucessão de murmúrios. O leitor entra num espaço onde os mortos continuam falando e onde o tempo não é linear. Os acontecimentos se acumulam como ecos.
Já em Cabeça de Santo, a escuta ganha uma dimensão quase mágica: o protagonista passa a ouvir pedidos e orações dentro da cabeça de uma estátua de santo. As vozes pertencem a pessoas vivas que rezam, desejam, imploram.
Aqui surge uma diferença interessante.
Em Rulfo, as vozes pertencem sobretudo aos mortos.
Em Socorro Acioli, as vozes pertencem aos vivos que desejam.
Mas o dispositivo narrativo é semelhante: o protagonista torna-se um mediador de vozes.
Esse mediador é uma figura central na literatura latino-americana.
Ele não é herói. Não é santo. Não é exatamente narrador.
Ele é um corpo que escuta.
Territórios assombrados
Outra proximidade entre os dois romances aparece na maneira como o espaço é construído.
Comala, em Pedro Páramo, é uma cidade devastada pela história: pela violência, pelo poder patriarcal e pela erosão do tempo. A paisagem carrega as marcas de um passado que nunca foi resolvido.
Candeia, em Cabeça de Santo, também é um território marcado por ausência. Uma cidade que perdeu sua vitalidade, onde os habitantes convivem com o abandono e com promessas que não se cumprem.
Ambas as cidades parecem existir numa espécie de suspensão.
Não são completamente vivas.
Mas também não desapareceram.
São lugares onde a memória insiste.
Um motivo narrativo muito antigo
Se pensarmos em termos de literatura comparada, podemos dizer que ambos os romances trabalham com um mesmo motivo narrativo: o da escuta de vozes invisíveis, ou invisibilizadas.
Esse motivo é muito antigo.
Ele aparece nas tradições religiosas, nos mitos, nos contos populares e nas narrativas orais. Muitas histórias giram em torno de alguém que, por acaso ou destino, descobre uma posição privilegiada para ouvir aquilo que os outros não ouvem.
No Brasil, esse motivo aparece de forma bem-humorada nas histórias de Pedro Malasartes, registradas por Luís da Câmara Cascudo em obras como Contos Tradicionais do Brasil.
Malasartes frequentemente descobre segredos escondidos — conversas, desejos, planos amorosos — e usa essa escuta para reorganizar o jogo social. Ele é o trickster: aquele que escuta aquilo que não deveria ser ouvido.
A estrutura narrativa é surpreendentemente parecida.
Alguém chega.
Alguém descobre um lugar de escuta.
Uma cidade revela seus segredos.
Mas cada tradição responde de modo diferente ao que fazer com essa escuta.
Malasartes usa os segredos com malícia.
Em Pedro Páramo, a escuta revela um mundo devastado pela história.
Em Cabeça de Santo, a escuta cria um dilema moral: o que fazer com os desejos íntimos dos outros quando eles chegam até você?
A cabeça do santo como rádio do desejo
A cabeça oca do santo funciona como um dispositivo simbólico poderoso.
Ela é uma cavidade onde desejos coletivos se acumulam.
É quase como se a estátua fosse uma espécie de rádio do desejo.
Ou uma concha onde o mar das vozes humanas continua ressoando.
Samuel é alguém que escuta e alguém que carrega a cidade dentro da cabeça.
Ler com alguém
Mas há ainda outra camada nesse ensaio.
Ela não pertence exatamente aos livros.
Pertence à experiência de leitura.
Enquanto Carol lia Cabeça de Santo, eu relia Pedro Páramo dentro da memória. Nossas leituras começaram a produzir um espaço comum.
Não estávamos lendo o mesmo livro.
Mas estávamos lendo uma através da leitura da outra.
A literatura comparada, nesse caso, mais que um método acadêmico torna-se uma prática afetiva.
Comparar livros é também comparar experiências de leitura.
Uma filha descobre um romance.
Uma mãe reconhece ecos de outro.
E há algo ainda mais bonito nisso tudo.
Porque o próprio ensaio nasce da mesma estrutura que atravessa esses livros.
Alguém escuta uma voz.
E dessa escuta nasce um mundo.
Carol lê.
Eu escuto a leitura dela.
E, entre uma mensagem e outra, entre um comentário e outro, forma-se uma pequena constelação literária.
Dois livros.
Séculos de histórias.
Duas gerações.
E uma conversa que continua.
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