sábado, 16 de fevereiro de 2019

ouroboros banal

a) aspiro o pó e os pelos da casa e penso: - definitivamente eu sou um gato
b)  dez horas, olho para as paredes e prometo: -- até as doze me levanto
c) o ai wei wei quebrando, eternamente, um vaso de um milhão nessa foto e eu só consigo pensar: - quando foi que eu aprendi a desimportância das coisas?
d) amanhece e eu choro
e) nem um pouco de álcool e ainda assim eu danço ate as duas da manhã

em qualquer das escolhas chovia

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

descompasso

se não ensinei sobre chaves
é porque no meu tempo eu cria
que as portas estariam sempre abertas
as divindades todas desaparecidas
por falta de fé ou pura picardia
ainda bem que eu aprendi
o complexo dialeto da fome
pular corda, fazer música
escrever poesia, é preciso ritmo
e eu não escrevo nem um poema
que preste, sem amor

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

ISSO SIM É QUE NÃO Rosa María Roffiel Tradução de Norma de Souza Lopes

Eu posso tudo menos isso.
Posso decair um pouco
permitir que a nostalgia me aborde
avaliar a ideia de me suicidar
talvez até chorar aos gritos
tomar duas tequilas
ou ficar na cama até uma da tarde.
Tudo, menos me sentar
e esperar junto ao telefone.

de Amora, Col. Sentido Contrario, Hoja Casa Editorial, México, 1999

Daqui ó https://libroemmagunst.blogspot.com/2019/01/rosa-maria-roffiel-3-poemas-3.html?m=1

PEÇA VOCÊ UM DESEJO Rosa María Roffiel Tradução de Norma de Souza Lopes

Uma vez quis ser homem
para casar-me com minha irmã
que já passara por três divórcios.
Para amar às minhas amigas
que em cada relação morrem um pouco.

Quis ser homem
para fecundar seus ventres
não de filhos
mas sim de poesia,
vinho tinto
relógios parados
unicórnios azuis.

Para dizer a Josefina
quanto admiro sua forma de se entregar
para escrever a Rosi
essas cartas que nunca chegam
chamar Pilar por telefone
que espera tantas tardes
cheia de caricias prolongadas
o espaço de Beatriz
que vive só e tem
medo de tremores.

Queria ser homem,
para amar a todas
e não sentir mais
o frio de suas lágrimas
em minha camisa
nem vê-las apagar-se
nem presenciar
em seus ataúdes de trinta anos.

Queria ser homem
para convidá-las
a navegar o universo,
bailar descalças
porque a vida
é o presente mais precioso
levá-las pelo braço
até uma cama
onde não tenham que fingir orgasmos.

Sou mulher
e ainda que eu possa
compartilhar com elas a poesia,
escrever-lhes cartas
chamá-las por telefone,
encher-lhes de carícias prolongadas,
navegar o universo,
bailar descalças
secar seu pranto,
tocar sua alma

não é suficiente.
não lhes alcança.

Porque, desde meninas, aprenderam
que os homens são
um prêmio
que elas tem que amar
sem se importar

se eles as amam.

de Corramos libres ahora, 1986/1994
Reeditado por LeSVOZ, México D.F., 2008

Daqui ó https://libroemmagunst.blogspot.com/2019/01/rosa-maria-roffiel-3-poemas-3.html?m=1

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

quando chegamos nunca é aqui

e eu que era, Adília
a mulher-a-dias?
sabia arrumar
e tirar o pó
entrar e sair
sem fazer ruído
olhar as patroas
professoras
a trazer trabalho
para casa
e trabalhar sentadas
e eu que achava, Adília
que o melhor da vida
era trabalhar sentada?

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

aqui o coração pesado

cinco bolsas
grandes
como essas de carregar
caixas de sapatos
e eu consigo me mudar

um tatu bola
não precisa de bolsas

já não doi tanto, eu disse
para acalentar
essas raízes gigantes
me moram em mim

quatorze peças
numa mochila
um minimalista precisa
para viver

sábado, 24 de novembro de 2018

Fatal

Há esses átimos em que eu desligo o sensor e vejo monstros  nas paredes mofadas, corações no vapor das vidraças, elefantes em nuvens. E há essa eternidade inventando amor.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

desencanto

eu descasco e corto uma laranja
e o sumo, indiferente aos meus esforços
escorre e por um segundo vislumbro
ali, nas gotas, o amor, a alegria, a paz
que já não existem mais

e assim a vertente
de meus desconsolos
vista de cima, em gotas
sem nenhum glamour
parece absolutamente ridícula


domingo, 4 de novembro de 2018

afogada

O pior não é ter que conviver. O que me mata é a lama de ódio que me chega aos joelhos. O ódio do outro que, por empatia, se instala em mim mesma.
Se me gritam, é uma bóia que vem tarde. Às margens do meu corpo apenas o silêncio de uma afogada.
Diante de mim essa procissão de guerreiros lutando por vantagens insignificantes ou pela palavra final.
Onde foram parar as palavras de pele e osso que me despertavam do pesadelo?
Onde foram parar aquelas alegrias que perseveravam apenas por amor a si mesmas?
Estou muito cansada. Exausta.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

móbile

eu conheço esses tipos
que chegam e dizem
- suas pernas, olhos, dentes
me fazem feliz -
cuidam de te fazer rir
sentir-se especial
disparam essa corja
de elogios, se espalham
em seu sofá, familiar
sorriem para sua mãe

ah, eu conheço e odeio
seus pêlos a tanto tempo
entupindo o ralo do banheiro
o ruído de metal do
pequeno souvenir
- uma torre eiffel -
pendurada cópia da chave
que você lhe deu
depois de tirar de mim