quarta-feira, 8 de julho de 2020

estóica

nem sempre palimpsesto
houve tempo de reescrever a dor de ontem
até fazer buracos no papel
o supérfluo exercício
de analisar os símbolos
águas de uma fonte inesgotável

hoje é esse desabar no sono
como em um abismo
o gozo e a ternura absurda
a despeito da montanha de mortes
há que se aprender que ossos
dizem tanto da morte
quanto da vida

sábado, 16 de maio de 2020

duração

conto as flores da orquídea
sete, como os dias da semana
as pétalas, sua pele
cheirosas, viçosas e belas
até noventa dias em flor
tanto a ensinar ao amor
o seu e o meu universo
dois mapas traçados 
em papel manteiga
que a gente desliza
para ver se encaixa
fronteira com fronteira
das seis às vinte e duas
hora máxima em que você avisa
"preciso dormir, amor"
qualquer estação da lua
para olhar e repetir, "amor"
o vocativo-fronteira
que a gente atravessou
quando decidiu que já era
subvertendo o sentido da gíria
amar e pensar que 
a despeito das sombras
que ameaçam a nós e ao mundo
minha mente vai mais devagar
como a tartaruga do poema do manoel
que li através da massa translúcida 
e enorme do strudel que você abriu
sobre a mesa, como faziam
as moças da áustria
quando estavam prontas para casar
o pensamento manso, você no banho
cantando "joão e maria"
sem óculos
você não me veria
que bom que seja assim
agora não é sobre mim
o pensamento também  vai sereno
quando conto histórias
para te fazer dormir
daí você descreve 
um roteiro preciso
que envolve frutas, vinho
danças e as canções da bethânia 
e acorda a mulher em chamas
que mora em mim
você chegou e por um instante
me pareceu tão competente
para entender o tempo, essa entidade
a essência dos acontecimentos
então por favor me responda
quanto tempo é que demora 
pra passar a sua ausência?


domingo, 10 de maio de 2020

nesse meio-tempo

eu, por mim

me mantenho em silêncio
sob duas mantas 
trazendo a memória  
seus olhares de deleite
completamente descobertos de véus
não há  cobertores que façam jus àquele calor

terça-feira, 5 de maio de 2020

renascentista

tal qual moçambique, Itália, bahia ou tocantins
a claridade da manhã inunda as casas
aqui porém
a luz atravessa amena
o tecido fino da cortina

antes que abra teus olhos
numa curva lânguida
boceja, boca, lábios, mãos e corpo

os longos cílios varrem 
gradativamente o véu da noite

no canto, a princesa e a ervilha
os braços, côncavos exatos
para cinco tipos de abraços

a pele diáfana, tela
para tatuagens dos dedos

nada separa
românticos de contemporâneos
modernos de renascentistas
quando o que se aspira
é capturar na memória 
o cálido e as chamas
do que não se fotografa

segunda-feira, 20 de abril de 2020

náusea

enquanto desfilo insone
a língua estilhaçada
o ouvido estilhaçado
a mão estilhaçada
gatos dormem, indiferentes
à máquina de produção
aos aparelhos de destruição

mas que não se confunda
minha vigília com virtude

quinta-feira, 16 de abril de 2020

150 batidas

ser bem jovem
pra correr 
de mãos dadas com você
e entrar no mar
mergulhar daquele jeito
que a onda não derruba
escondidas debaixo da água
debaixo da curva
bem longe do ódio
era o seu rosto, virtual
ouvi, foram 150 batidas
era cavalo galopando 
em meu coração
a despeito do medo
brotou coragem em mim
para o apocalipse, o colapso
o real dessas canções que escorrem
da sutileza do fogo
de seus olhos que abrasam
como pode? tão úmidos
era para aprender desde cedo
que a palavra junto
tem vinte e cinco significados

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Gente

Amanhã faz um mês. Saí de casa duas vezes para comprar comida e foi só. Preciso confessar, o isolamento me agrada porque sou inapta com interações. Normalmente não gosto de conversar. Sou excessivamente racional e as interações sociais às vezes precisam ser superficiais para serem leves. Não sou leve. Sou pesada como chumbo, tóxica até. O paradoxo é que a rejeição me estraçalha e eu preciso ser amada como quem precisa de ar. Daí o álcool para compensar. 
Estou em prantos, vi agora de manhã que uma médica de Manaus chorando no no twitter e  dizendo que não aguenta mais ver gene morrendo, clamando por mais vagas nos hospitais e apontando para o carro da funerário já no pátio. Não para de morrer gente. Não para de morrer gente. 
Genocidas. Do governo do país aos patrões que não são capazes de abrir mão do lucro, são todos chacais ferozes e assassinos. Temo muito por meus filhos que ainda precisam sair para trabalhar, por minha mãe e meu pai que são idosos, por meu sobrinhos, por meu ex marido, por meus irmãos e por minha irmã enfermeira, por meus sobrinhos e por toda gente que mesmo que eu não cite nominalmente são GENTE, pessoas que deveriam ter o direito a vida com abundância. 
Durante muio tempo militei corpo a corpo por direitos dos excluídos até a exaustão gatilhar uma doença mental grave e profunda. Decidi concentrar minhas forças na educação, em atividades de prevenção e de fortalecimento da cidadania. Funcionou comigo, a pequena doméstica que virou poeta e professora, poderia funcionar com meus estudantes. Mas sempre fica essa sensação de que eu poderia fazer mais, mesmo sabendo que fazer mais poderia significar a extinção de mim mesma nessa luta. Estar segura em isolamento expande essa sensação. Uma benção e uma maldição. Como lidar com o sentido óbvio do privilégio? 
Acabei de por o lixo para a coleta de segunda e chorei mais um vez pensando nos coletores. Não estou aguentando. Não quero mais lives, não quero cerveja, não quero anestésicos. Desculpe-me Nietzsche, era para amar a realidade com a toda a potência de minha vida, mas como suportar ter a vida poupada quando tantos estão ameaçados, tantos estão partindo?
Refaço mentalmente a listas de escritoras e escritores que, tendo a vida poupada na catástrofe, não suportaram o privilégio e sucumbiram. Suas histórias estão aí para que eu saiba o que nos faz tombar. Não é a bebida, a comida ou a escrita que me salva, preciso constatar. 
Tento pensar em quem,  Amos Oz, por exemplo, fez a vida valer a penas produzindo lutando pela paz, produzindo uma grande obra e principalmente permanecendo vivo, depois das tragédias. Não que tenho a força ou a genialidade de Oz, mas preciso urgente achar sentido em permanecer só comigo por 24 horas sendo tão má companhia.
Ontem conversava com a Carol sobre o livro da Mariana Botelho, "O silêncio tange o sino", e de quanto eu tinha aprendido com ela e com ele - o livro- a mirar o abismo, a abraçar meu vazio. Há momentos em que não faz sentido mesmo. E é só isso. Acolher essa ausência absoluta, mirar o abismo e ser mirada por ele. 
É um grande texto, me desculpem. Mas foi a maneira que encontrei essa manhã de mirar o abismo sem saltar. 
Bom dia!

domingo, 29 de março de 2020

vulnerabilidades

e finalmente poder
abraçar forte

mas sem sacudir
ou soerguer
é preciso garantir
que não que não exponham
as peças soltas
de seus quadris
do ventre
e às vezes do peito

finalmente poder
abraçar
e guardar segredos

domingo, 15 de março de 2020

Esta semana estive com outras poetas apresentando em um Sarau Comemorativo no Centro Cultural Salgado Filho. Me impressionei com a beleza do espaço, as obras de arte e principalmente com a maravilhosa biblioteca que eles tem lá. Estive uns vinte minutos emocionada diante do Diário de Fida Kahlo:















Percorrer essas páginas foi como estar diante da artista, ouvindo seus segredos sussurrados. Reconheço a importância desse exercício pois em tempos difíceis eu também compunha cadernos de processo. Entendo sua importância para costurar os fragmentos da mina alma, para desacelerar a locomotiva dos meus pensamentos.  São muitos, mas com a mudança ficaram para trás. Recuperei dois deles recentemente e é uma alegria percorrer suas páginas:






Estou aqui me perguntando porque parei de fazê-los e acho que tenho dois motivos: A alopatia tem o dom de concentrar minhas energias na racionalização e nesse sentido a escrita é a coisa mais criativa que consigo fazer. Outra e a grande quantidade de libido que eu invisto no meu trabalho de articuladora de leitura. Em tempos regulares eu costumo dedicar mais de quinze horas por dia para que esse trabalho seja um sucesso. Formar leitores é um trabalho duro, não acontece espontaneamente.
E o que acontece com o desejo de movimento, cor, forma, textura que a arte deveria por em marcha? Acho que o que salva é o carnaval, as festas a fantasia, as danceterias, a caracterização para as contações de história, as ilustrações para os murais e painéis da escola...
Talvez tudo isso não tenha o vigor de um diário criativo. São apenas águas escorrendo por uma rachadura. Mas não me queixo. As vibrações da minha intensidade somadas a absurda loucura do mundo que vivemos às vezes me conduzem para maus encontros. Agora mesmo estou às margens de um colapso financeiro e estive sem apoio profissional por algum tempo.
É difícil mas não impossível. Tenho família, amigos e a escrita. De alguma maneira escrever aqui talvez seja o meu "Diário de Frida".

sábado, 14 de março de 2020

Estive ontem na defesa de tese de Leiner Hoki. Aprendi com ela que os espaços perdidos dos manuscritos antigos são descritos pelos historiadores com colchetes. Sua tese fala sobre histórias não contadas das tríbades, safistas, lésbicas e sapatãs. Por quase uma hora ela, dentre outras coisas, apresentou registros poéticos e artísticos, num esforço de corrigir a invizibilização e o apagamento da história dessas mulheres. Fez isto como uma riqueza de detalhes excepcional, e eu vi diante de mim serem preenchidos algumas lacunas da história lésbica. Durante sua fala passei um bom tempo pensando em como os colchetes se aproximam do imaginário feminino. Nas roupas femininas mulheres, naquela suas formas de grandes lábios e até mesmo nessa capacidade intuitiva de algumas mulheres tem de completar o intangível. Os colchetes foram uma escolha simbólica muito interessante.
Sempre que eu conto histórias ou escrevo poesia digo "mulher" sabendo que ergo uma parede e um muro. É preciso que exista uma mulher simbólica para que lutemos contra o seu esmagamento mas também e preciso implodir o imaginário que encarcera as miríades de mulheres que existem no mundo.A tese de Leiner caminha nessas duas direções.
Recomendo a leitura da tese de Leiner Hoki. Assim que estiver disponível virtualmente disponibilizo aqui.