Poema de Aixa Rava
Adaptação de Norma de Souza Lopes
Penso enquanto corto as batatas
como cozinho para mim faz tempo
ela cozinhava para nós
que eu gostaria de cozinhar para você
cozinhar você nesta panela
reduzi-la com um bocado de cogumelo
mágico
sal e pimenta a gosto, refogar levemente
com cebola roxa e pimenta vermelha
colocar as batatas por baixo e por cima
não te preocupes
Está quente mas o aroma é extraordinário.
Você estaria fofa, quase tanto quanto você é
dourada
assim como seu cabelo fica no verão,
Eu te comeria com mordidas desesperadas
tê-la em mim como nunca antes.
Está claro
que eu ainda não consigo
cozinhar para outra
COCINAR
Pienso mientras corto las papas
mientras cocino para mí como hace tiempo
cocinaba para nosotros
que yo querría cocinarte a vos
cocinarte en esta cacerola
reducirte con un bocado de hongo
mágico
salpimentarte a gusto, rehogarte apenas
con cebolla morada y pimiento rojo
ponerte las papas debajo y encima
no te preocupes
hace calor pero el aroma es extraordinario.
Quedarías tierno, casi tanto como sos
dorado
así como se vuelve tu pelo en el verano,
te comería a mordiscos desesperados
tenerte dentro como nunca antes.
Está claro
que todavía no puedo
cocinar para otro.
segunda-feira, 22 de maio de 2023
domingo, 21 de maio de 2023
tênue
lembra-se daquele dia na praça da matriz
quando corremos atrás do pardais só para fingir que voávamos?
juntas não há constrangimento em ser infantil
lembra da máquina de música movida a moedas
quem usa moedas hoje em dia, meu bem?
a gente se encontra
nestas pedras gastas da leste
xeque-mate você disse, é uma bebida de morte
e nem com isso aprendi
fito seu sorriso largo, um rio amazonas
atravessando a semana de bh
outro dia te vi pedindo vinho
no bar do antônio
ele caprichando
é sempre assim pra você
a vida te dá extras
olhando sem muita vigilância
você nem parece fazer tanta força
para ser feliz
arquiteto planos
para poder continuar te amando
sem essa tralha do amor romântico
mas, se me distraio
já estou citando adélia, adília, drummond
querendo inventar um poema
onde habitamos sós
simulo uma sereia
a espera que você
possa me desejar
queria pousar
em você, meu amor
como quem põe flores
em seus cabelos
escondê-las na bagunça dos cachos
até que imperceptível
elas gravitassem pelo ar
indolores
sábado, 20 de maio de 2023
caixa preta
na curva do seu silêncio
minha imaginação traça cenas
de olhos fechados
posso ver o tijolos amarelos
do meu
ao seu peito
amor, você diz (como diz a todo mundo)
e meu rosto se tinge
(três segundo é o tempo que o sangue gasta do coração até o rosto)
você nunca vai saber
agora sobrou apenas a estática
na versão de Fugees
era a nossa canção
quinta-feira, 18 de maio de 2023
ainda não é um poema de amor
o amor é sem fundo, misterioso
não há nada de transparente no amor
é iluminado
colorido
intenso
no amor canções apalpam nossa alma
entrar no amor num salto sem rede
manter os olhos acessos
semicerrados
ouvidos atentos
atados
voracidades
há que se investir no combate
ser ao mesmo tempo
caça e caçador
saber dos riscos de sair de si em busca de um objeto
entrar no amor não como quem cultiva cogumelos
controla o vento
a água
a luz
o calor
não como quem fuma
e se deixar tragar pelo vapor
transar os meios
ignorar os fins
tocar sem fundir
garantir a economia das distâncias
consumir a intimidade
fruir a diferença
e a dinâmica integral
da existência de cada um
quarta-feira, 17 de maio de 2023
coragem poeta
ainda não é um poema de amor
mas coragem, poeta
a fonte não se esgotou
e você não estava quebrada, afinal
plante uma pausa
a respiração sufocada
os chuveiros quebrados
o feijão esquecido no congelador
já era hora
de largar as sombras
desfrutar beijos famintos
amores cerebrais
colher pequenos abraços às oito horas
dar pinta de outdoor
reconheço que nada
no amor
é indolor
mas a poesia é pra sempre
e para si, poeta
você também é para sempre
terça-feira, 16 de maio de 2023
fogueira
Adélia
até aceito
um amor feinho
mas no miolo
da medula
queria um encontro de pedra
dois seixos
encarnados
batendo-se
desesperados
até que uma centelha
incendiasse
a cama
a casa
o mundo
terça-feira, 9 de maio de 2023
Tou aqui pensando em como eu não me sinto tão triste assim pela perda da Rita Lee. Acho que não sinto tanto porque o que ela foi pra mim vai continuar sendo. Ela rasgou dois séculos sendo mutante, não repetindo nada, dando um foda-se pra normose dessa caralhada de gente que acha que nós temos que seguir um roteiro. Rita ensinou pra gente não precisa ser a mesma pessoa sempre, que a gente pode se inventar o tempo todo. Acho que é isso. Ela fica em mim nas letras que estão quase inscritas na minha pele. Fica nesse modo de me inventar todo dia, de não se resignar a uma vida besta. Sou grata por ter recebido dela esse exemplo, dela ter ficado de lá da tela, da agulha, me mostrando que tudo bem ser inconsistente que se às vezes der ruim, tudo bem tbm. Tem essa entrevista dela na Roling Stone onde ela diz assim "Vamos combinar que todo mundo mente?", "Em entrevista, a coisa fica sendo ainda mais sedutora. Afinal, inventar coisas absurdas a seu respeito não é mais interessante para um jornalista do que simplesmente contar-lhe como sua vidinha verdadeira é besta?" ou ainda "Dentro deste corpo que me pertence há 60 anos já pude presenciar uma porrada de exemplos de minha burrice e mediocridade". termina assim "Querido, inventa bastante coisa sobre mim nessa minha matéria? Não vou precisar fazer muita força para manter a Rita na minha memória. Ela já tá inscrita no meu modo de viver: invento uma história, vivo ela todo dia, e essa é a minha história
quarta-feira, 7 de dezembro de 2022
Acerca da coluna da Andréa del Fuego para a Folha de São Paulo em 06 de dezembro de 2022
Há algo que não está dito mas, que no entanto, me faz pensar: quem lê tanto livro? Quem fomenta esta leitura?
Trabalho exaustivamente por isso no chão da escola todos os dias e nem sempre acho que acerto. O peso e a cobrança sobre a escola é bem maior e no final há sempre o risco de escolarizar demais. Mas não acho que a sociedade em geral está disposta a pensar que formar leitores é tão importante quanto escrever e mais, trata-se de uma responsabilidade coletiva.
domingo, 20 de novembro de 2022
quinta-feira, 11 de agosto de 2022
Para além da educação 4..0
https://youtu.be/wmvXvrOhE6s
Para além da indústria 4.0, da Educação 4.0, pensar a escola como um espaço que faça mais que formar indivíduos prontos para servir ao machismo, ao racismo e principalmente ao mais perverso de todos, aquele que determina o funcionamento de tudo no mundo, o CAPITALISMO.
Uma educação realmente revolucionária deverá por fim as dinâmicas de competição humana. Deverá instalar a cooperação como princípio comunitário.
É preciso romper com a ideia de mercadoria e resgatar o princípio da ética, ou seja, viver bem com pessoas,bichos, plantas e pedras. Fazer parentes, lançar mão da simpoiese, ao modo de Donna Haraway.
Sabemos que isso não é simples. Como educadores por vezes somo um fluxo circulando num determinado circuito, o espaço educativo, com as suas aberturas e limites, passagens subterrâneas e translações. Enquanto a corrente ficar circunscrita às mesmas vias, com as mesmas ligações supostamente “naturais”, a tendência é sempre repetir uma rotina, num automatismo recorrente.
Nesse caso às vezes é necessário instalar o desarranjo, uma anomalia(o escândalo e necessário, mas maldita e a boca de o de ele vem), quando salta uma conexão inesperada, digo, quando se entra em relação com o heterogêneo e díspar, quando aí se estabelece uma aliança antinatural, com outros circuitos imprevistos, abrem-se outros caminhos, constroem-se hábitos novos e o futuro se abre à invenção.
E essa e a deixa do educador que deseja trabalhar contra a exclusão, fazer diferente. Não se iluda, não há ganho pessoal. Pelo contrário, é possível sofrer perdas. Mas esteja certo que na ponta do processo, o mais excluído dos estudantes estará ganhando. E quando ele ganha, o país inteiro ganha.
Em tempos de luta legítima por melhores condições de trabalho gostaria de falar também de duas matérias discriminadas na educação: a espiritualidade e o amor (notem que estou falando de espiritualidade e não de religião, isso é de propósito). Gosto muito da proposta de Bell Hook, para qual o amor deve ser pensado como uma ação, como verbo. E envolve muito mais do que afeição, mas "carinho, reconhecimento, respeito, compromisso, confiança, honestidade e comunicação aberta". Ou seja, amar é "promover o próprio crescimento espiritual ou o de outra pessoa".
Nos comprometer com nosso crescimento espiritual e com o dos estudantes, amá-lo deveria ser mais que associa-lo a um filho ou a um parente. Não uma cápsula de futuro, uma mercadoria a ser produzida, avaliada e entregue pronta ao mercado. Olhá-lo e ver seu corpo, sua alma, seu intelecto como algo único, precioso e completo, vivente e existente no agora.
Antes eu sonhava com a melhor escola do Brasil, e não via o quanto competitivo isso era Esse sonho está dando lugar para outro: um Brasil de excelentes escolas. A competição é a arma do capitalismo e o poder é a única capacidade dos impotentes.
Sigamos educadores intensos e potentes, escapando ao canto da sereia que representa todo poder.

