segunda-feira, 22 de maio de 2023

Poema de Aixa Rava
Adaptação de Norma de Souza Lopes

Penso enquanto corto as batatas
como cozinho para mim faz tempo
ela cozinhava para nós
que eu gostaria de cozinhar para você
cozinhar você nesta panela
reduzi-la com um bocado de cogumelo
mágico
sal e pimenta a gosto, refogar levemente
com cebola roxa e pimenta vermelha
colocar as batatas por baixo e por cima
não te preocupes
Está quente mas o aroma é extraordinário.
Você estaria fofa, quase tanto quanto você é
dourada
assim como seu cabelo fica no verão,
Eu te comeria com mordidas desesperadas
tê-la em mim como nunca antes.

Está claro
que eu ainda não consigo
cozinhar para outra



COCINAR

Pienso mientras corto las papas
mientras cocino para mí como hace tiempo
cocinaba para nosotros
que yo querría cocinarte a vos
cocinarte en esta cacerola
reducirte con un bocado de hongo
mágico
salpimentarte a gusto, rehogarte apenas
con cebolla morada y pimiento rojo
ponerte las papas debajo y encima
no te preocupes
hace calor pero el aroma es extraordinario.
Quedarías tierno, casi tanto como sos
dorado
así como se vuelve tu pelo en el verano,
te comería a mordiscos desesperados
tenerte dentro como nunca antes.

Está claro
que todavía no puedo
cocinar para otro.

domingo, 21 de maio de 2023

tênue

lembra-se daquele dia na praça da matriz

quando corremos atrás do pardais só para fingir que voávamos?

juntas não há constrangimento em ser infantil


lembra da máquina de música movida a moedas

quem usa moedas hoje em dia, meu bem?


a gente se encontra

nestas pedras gastas da leste

xeque-mate você disse, é uma bebida de morte

e nem com isso aprendi


fito seu sorriso largo, um rio amazonas 

atravessando a semana de bh

outro dia te vi pedindo vinho 

no bar do antônio

ele caprichando

é sempre assim pra você 

a vida te dá extras

olhando sem muita vigilância

você nem parece fazer tanta força

para ser feliz


arquiteto planos 

para poder continuar te amando

sem essa tralha do amor romântico

mas, se me distraio

já estou citando adélia, adília, drummond

querendo inventar um poema 

onde habitamos sós


simulo uma sereia

a espera que você

possa me desejar


queria pousar

em você, meu amor

como quem põe flores 

em seus cabelos

escondê-las na bagunça dos cachos

até que imperceptível

elas gravitassem pelo ar

indolores

sábado, 20 de maio de 2023

caixa preta

na curva do seu silêncio

minha imaginação traça cenas

de olhos fechados

posso ver o tijolos amarelos 

do meu 

ao seu peito


amor, você diz (como diz a todo mundo)

e meu rosto se tinge

(três segundo é o tempo que o sangue gasta do coração até o rosto)


você nunca vai saber

agora sobrou apenas a estática

mas killing Me Softly With His Song

na versão de Fugees

era a nossa canção

quinta-feira, 18 de maio de 2023

ainda não é um poema de amor

o amor é sem fundo, misterioso

não há nada de transparente no amor

é iluminado 

colorido 

intenso

no amor canções apalpam nossa alma


entrar no amor num salto sem rede

manter os olhos acessos

semicerrados

ouvidos atentos

atados

voracidades


há que se investir no combate 

ser ao mesmo tempo

caça e caçador


saber dos riscos de sair de si em busca de um objeto

entrar no amor não como quem cultiva cogumelos

controla o vento 

a água

a luz 

o calor

não como quem fuma 

e se deixar tragar pelo vapor


transar os meios

ignorar os fins

tocar sem fundir


garantir a economia das distâncias

consumir a intimidade

fruir a diferença

e a dinâmica integral

da existência de cada um



quarta-feira, 17 de maio de 2023

coragem poeta

ainda não é um poema de amor

mas coragem, poeta

a fonte não se esgotou 

e você não estava quebrada, afinal


plante uma pausa

para esquecer fugas desesperadas

a respiração sufocada

os chuveiros quebrados

o feijão esquecido no congelador


já era hora

de largar as sombras

desfrutar beijos famintos

amores cerebrais

colher pequenos abraços às oito horas

dar pinta de outdoor


reconheço que nada

no amor

é indolor

mas a poesia é pra sempre

e para si, poeta

você também é para sempre

terça-feira, 16 de maio de 2023

fogueira

 Adélia

até aceito

um amor feinho


mas no miolo

da medula

queria um encontro de pedra

dois seixos

encarnados


batendo-se 

desesperados

até que uma centelha

incendiasse

a cama

a casa

o mundo

terça-feira, 9 de maio de 2023

Tou aqui pensando em como eu não me sinto tão triste assim pela perda da Rita Lee. Acho que não sinto tanto porque o que ela foi pra mim vai continuar sendo. Ela rasgou dois séculos sendo mutante, não repetindo nada, dando um foda-se pra normose dessa caralhada de gente que acha que nós temos que seguir um roteiro. Rita ensinou pra gente não precisa ser a mesma pessoa sempre, que a gente pode se inventar o tempo todo. Acho que é isso. Ela fica em mim nas letras que estão quase inscritas na minha pele. Fica nesse modo de me inventar todo dia, de não se resignar a uma vida besta. Sou grata por ter recebido dela esse exemplo, dela ter ficado de lá da tela, da agulha, me mostrando que tudo bem ser inconsistente que se às vezes der ruim, tudo bem tbm. Tem essa entrevista dela na Roling Stone onde ela  diz assim "Vamos combinar que todo mundo mente?",  "Em entrevista, a coisa fica sendo ainda mais sedutora. Afinal, inventar coisas absurdas a seu respeito não é mais interessante para um jornalista do que simplesmente contar-lhe como sua vidinha verdadeira é besta?" ou ainda "Dentro deste corpo que me pertence há 60 anos já pude presenciar uma porrada de exemplos de minha burrice e mediocridade". termina assim "Querido, inventa bastante coisa sobre mim nessa minha matéria?   Não vou precisar fazer muita força para manter a Rita na minha memória. Ela já tá inscrita no meu modo de viver: invento uma história, vivo ela todo dia, e essa é a minha história

quarta-feira, 7 de dezembro de 2022



Acerca da coluna da Andréa del Fuego para a Folha de São Paulo em 06 de dezembro de 2022

Há algo que não está dito mas, que no entanto, me faz pensar: quem lê tanto livro? Quem fomenta esta leitura?

Trabalho exaustivamente por isso no chão da escola todos os dias e nem sempre acho que acerto. O peso e a cobrança sobre a escola é bem maior e no final há sempre o risco de escolarizar demais. Mas não acho que a sociedade em geral está disposta a pensar que formar leitores é tão importante quanto escrever e mais, trata-se de uma responsabilidade coletiva.

domingo, 20 de novembro de 2022

 


    Há muito que eu trabalho e discuto o racismo e a agência do antiracismo o ano todo. Este ano dei mais uns passos. Compreendi coisas novas a partir da leitura de Franz Fanon e de sua leitura acerca da consciência, conciência-de-si e representação em Hegel. O que entendi é que representações e identitarismos me engessam e me impedem de ser humana, um ser em frenética mudança, que acolhe o acaso.
    Não que eu precise deixar de performar para lutar, não posso fazer isso. Mas, só vou aceitar ser negra para uns, ser parda para outros ou ser branca para outros quando isso implicar em luta contra as estruturas racistas. Implica também em fazer silencio quando um excluído fala e falar quando um excluído estiver sendo silenciado por essas forças.
    No entanto estou emocionada com esse dia, doida para celebrar, feliz que seja domingo. Espero que no futuro o 20 DE NOVEMBRO seja feriado, para que possamos ter tempo para fazer eventos discursivos e festas. Para conversarmos e celebrarmos colocando em em fluxo toda a força que a filosofia negra (ou cosmovisão,se preferirem) veicula, a saber, razão e corpo, este todo potente.

quinta-feira, 11 de agosto de 2022

Para além da educação 4..0

https://youtu.be/wmvXvrOhE6s

 Para além da indústria 4.0, da Educação 4.0, pensar a escola como um espaço que faça mais que formar indivíduos prontos para servir ao machismo, ao racismo e principalmente ao mais perverso de todos, aquele que determina o funcionamento de tudo no mundo, o CAPITALISMO. 

Uma educação realmente revolucionária deverá por fim as dinâmicas de competição humana. Deverá instalar a cooperação como princípio comunitário. 

É preciso romper com a ideia de mercadoria e resgatar o princípio da ética, ou seja, viver bem com pessoas,bichos, plantas e pedras. Fazer parentes, lançar mão da  simpoiese, ao modo de Donna Haraway. 

Sabemos que isso não é simples. Como educadores por vezes somo um fluxo circulando num determinado circuito, o espaço educativo,  com as suas aberturas e limites, passagens subterrâneas e translações. Enquanto a corrente ficar circunscrita às mesmas vias, com as mesmas ligações supostamente “naturais”, a tendência é sempre repetir uma rotina, num automatismo recorrente.

Nesse caso às vezes é necessário instalar o desarranjo, uma anomalia(o escândalo e necessário, mas maldita e a boca de o de ele vem), quando salta uma conexão inesperada, digo, quando se entra em relação com o heterogêneo e díspar, quando aí se estabelece uma aliança antinatural, com outros circuitos imprevistos, abrem-se outros caminhos, constroem-se hábitos novos e o futuro se abre à invenção.

E essa e a deixa do educador que deseja trabalhar contra a exclusão, fazer diferente. Não se iluda, não há ganho pessoal. Pelo contrário, é possível sofrer perdas. Mas esteja certo que na ponta do processo, o mais excluído dos estudantes estará ganhando. E quando ele ganha, o país inteiro ganha. 

Em tempos de luta legítima por melhores condições de trabalho gostaria de falar também de duas matérias discriminadas na educação: a espiritualidade e o amor (notem que estou falando de espiritualidade e não de religião, isso é de propósito). Gosto muito da proposta de Bell Hook, para qual o amor deve ser pensado como uma ação, como verbo. E envolve muito mais do que afeição, mas "carinho, reconhecimento, respeito, compromisso, confiança, honestidade e comunicação aberta". Ou seja, amar é "promover o próprio crescimento espiritual ou o de outra pessoa". 

Nos comprometer com nosso crescimento espiritual e com o dos estudantes, amá-lo deveria ser mais que associa-lo a um filho ou a um parente. Não uma cápsula de futuro, uma mercadoria a ser produzida, avaliada e entregue pronta ao mercado. Olhá-lo e ver seu corpo, sua alma, seu intelecto como algo único, precioso e completo, vivente e existente no agora. 

Antes eu sonhava com a melhor escola do Brasil, e não via o quanto competitivo isso era  Esse sonho está dando lugar para outro: um Brasil de excelentes escolas. A competição é a arma do capitalismo e o poder é a única capacidade dos impotentes. 

Sigamos educadores intensos e potentes, escapando ao canto da sereia que representa todo poder.