quinta-feira, 17 de setembro de 2026

é tão fácil 

barganhar a liberdade

quando se está cansada

você nem sabe

mas tocou 

numa ferida aberta 

domingo, 13 de setembro de 2026

Resenha Convergência

No dia 11 de setembro, tive a honra de comparecer ao lançamento de Convergência, do meu querido Samuel Medina. Estou lendo o livro com muito gosto porque, mais uma vez, me deparo com sua habilidade de aproximar o cotidiano do fantástico, fazendo o insólito surgir em bibliotecas, banheiros, ônibus, ruas e relações aparentemente comuns. Os contos do Samuca transitam entre o humor, a ternura e certa inquietação diante da morte, da solidão e das microviolências tão naturalizadas nos dias de hoje.


Gosto especialmente da delicadeza que o olhar do sujeito da narrativa lança sobre os seres quase invisíveis: uma galinha velha, um sapinho, uma aranha, uma joaninha, uma palavra proferida, uma existência ignorada. O afeto aparece justamente onde muitos não reconheceriam nada digno de atenção. Não que não haja desconforto, principalmente quando a escrita toca o fanatismo religioso, as promessas de sucesso, o controle tecnológico e nossa necessidade de atribuir sentido ao que escapa à compreensão.

O vocabulário cuidadosamente elaborado, por vezes erudito é uma marca do meu amigo. Há por fim a variedade de registros, que nesse livro apontam para um avanço formal adorável: alguns contos se aproximam da fábula; outros, da ficção fantástica, da sátira ou de uma narrativa mais filosófica. Há entre eles, porém, uma unidade construída pela recorrência da perda, da finitude e das passagens entre mundos. O último conto retorna ao primeiro e dá ao título uma dimensão estrutural: aquilo que parecia disperso converge, e a morte, presente desde o início, revela-se personagem.


Que delícia está sendo reconhecer, neste livro imaginativo, sensível e atento às vidas e histórias que costumamos não enxergar, o narrador que Samuel vem construindo ao longo de seus livros anteriores: alguém que escreve como quem sabe que o estranho não está fora da realidade, mas mora discretamente dentro dela.

Do tamanho da boca

I 

Umbigo


no centro do corpo

uma fenda calada

memória de um tempo sem falta


cada corpo presente

confirma o corte

na pele cicatrizada


II

Pupila

no centro do olho
um círculo escuro

paisagens atravessam

ao avesso

a luz dá contorno
ao que está fora

nenhuma imagem
confirma
quem vê


III

Poço

um círculo
interrompe a terra

pedra sobre pedra
o escuro toma forma

ao fundo
um céu

do tamanho

da boca


IV

Bússola

o mundo

ao redor entorna

o norte

a agulha contorna

cegada
perfura o próprio centro

VI

V

Microfone

boca sem língua
no centro da sala

a voz 

que o corpo expande

cortada a corrente

cabe

outra vez o nome


VI

Fechadura

no corpo da porta
fenda estreita

a chave range

dente por dente

a falta
escolhe
a forma

domingo, 6 de setembro de 2026

fora é um lugar muito grande

o dono da casa dizia te amo
o dono da casa não aceitava atrasos
o dono da casa jogou fora meus livros 
o dono da casa jogou fora meus filhos

um homem que diz eu te amo está em vantagem
um homem contra uma biblioteca está em vantagem
um homem contra os  filhos está em vantagem
um homem contra a mulher está em vantagem