domingo, 27 de outubro de 2019

dueto

não o poema
como ferramenta
que diga acerca
de um sítio, uma cerca
uma borda, um centro
um instrumento
para derrubar estátuas

mas um dueto de flores 
que reverbere 
de leve 
a beleza
daquelas linhas 
vermelhas
em seu dorso

sábado, 12 de outubro de 2019

Ainda somos. E a despeito das palavras encarnadas, seremos. Sempre. Obrigada Rodrigo.

"Interrompemos a guerra para uivar pra lua, porque, afinal de contas, ainda somos lobos.
E seremos mortos.
Nossos pálidos inimigos são incapazes de poesia e natureza, nos matam diante da beleza."

Rodrigo Teixeira

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Full hand

Na mesa da sala, minha irmã, minha mãe e minha filha organizam fotos polaróides antigas como quem embaralha cartas.
Exalam admiração, arrependimento e saudades como perfume.
Aridez, calor e fumaça e uma primavera tímida solapam intenções de ir a rua.
Minha filha ainda acredita na realidade das imagem.
Minha mãe um pouco decepcionada, mira aquilo tudo como um grande engodo. Ainda não se habituou ao envelhecimento. O que
 parece estranho para quem se habitou a inúmeras mudanças, a casa nova, ao marido novo (que de verdade é o mesmo que retornou depois de desaparecido por 23 anos).
Minha irmã se encanta com sua beleza nas fotos de praia e cachoeira.
Sentadas assim, emitindo sussuros contemplativos diante das imagens me fazem perguntar como conseguiram ignorar as adversidades camufladas nos pontos cegos, espaço invisível entre uma foto e outra.

A atividade se estende até a noite, quando as fotografias voltam para as caixas de sapato. 
Minha irmã fez bem em preservar essas fotos, elas vão existir por mais tempo que nós.

domingo, 1 de setembro de 2019

red pill

Acordar no domingo lembrando do triste filme pornográfico, aqueles meninos das entregas de comida e suas bicicletas, dormindo nas praças para estar no centro na hora de recomeçar.
Lembrar que passei os últimos anos gritando: 
- Ei, não estão vendo as engrenagens da grande Matrix?
Caminho todos os dias sob esse deserto do real lutando para não dizer, como os judeus - saudades das cebolas do Egito - pois sei que o mar de cuspe azul em que nadávamos no passado nunca me tiraria do lugar.
Não é por acaso que me lembro a redação enfurecida que escrevi em 1993 para um trabalho de história. Nela eu atacava Fukuyama e seu delírio de fim da história. Por causa dela eu, que era empregada doméstica,  chamei atenção de meu professor, recebi o convite de trabalho como estagiária no Arquivo Público Mineiro. Meu professor Afonso, diretor daquela instituição, me motivou acenando com a oportunidade, caso fosse aprovada na UFMG. Poderia dizer que foi mérito. Mas não. Foi apenas uma raríssima exceção.
O capitalismo não dorme. Os meninos não dormem. Eu não durmo. 
Ou durmo. Meia pílula por noite para não enlouquecer.

sábado, 31 de agosto de 2019

súplica

ouvis
a poesia entalada
em minha garganta
inflamada?
ela clama
dança comigo
mãos aéreas 
pés volutos

deslisa o toque
na pele
tu e eu
violoncelo

domingo, 25 de agosto de 2019

Gastávamos nossas noites de folga nos bares, jogando conversa fora. Uma pequena dose de tequila e já éramos filósofos, teólogos ou coisa que o valha. Naquela noite discutíamos a possibilidade de arrependimento dos anjos. Saulo e seu vasto conhecimento das escrituras afirmavam que anjos não podiam se arrepender. Tinha aquele tom cantante dos evangelistas, o que me fazia sentir que tudo não passava de uma cilada. Não sabíamos ao certo o objetivo da discussão. Sabíamos apenas que entre nós a Beatriz,a apanhadora de ondas das cordas de violões, sacava destas tretas de anjos e inclusive falava com eles. Quando nossas discussões ficavam acaloradas ela erguia o dedo e dizia murmurante: "Espere só cinco minutos e isso não vai importar mais". E tocava algo belo, enlevante. Nós na verdade não tínhamos paciência para os cinco minutos de silêncio mas a interrupção servia para desviar o assunto, para mudar nossa perspectiva. Beatriz não tinha muita tolerância para com o nosso cetismo. "Tudo que é verdadeiro é fatal e não duvida, pergunte à uma bala de revolver se ela duvida, Não duvida, não é mesmo?" Eu temia aquela sabedoria metafisica. Ninguém sabia. Nem eu tampouco pude contar. Havia uma bala alojada em meu coração. Não pude contar porque assim teria que revelar que eu, um dia quis morrer. "Uma bala duvida?" Eu podia dizer que sim, aquela alojada em meu coração passou anos sem se decidir se ceifava minha vida ou não. Mas isso eu não poderia dizer. A descoberta faria ruir a imagem sobre a qual em me sustentava desde então. Eu não ia contar nunca. Como poderia? Ninguém merecia a responsabilidade daquele susto. Mas a vontade de falar sobre ficava dando saltos dentro de mim. Bem ali, do lado da bala alojada. Era preciso calar essa vontade antes que ela acordasse o projétil. O violão não parecia ser suficiente. Nem as discussões acaloradas. Eu geralmente encharcava tudo com cerveja. Tamponar o amor à minha dor com álcool costumava resolver, afinal, aquilo era só mais uma forma de narcisismo que eu podia resolver em casa, no chão, observando meu reflexo numa poça de vômito.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

pele

a despeito das vozes
atávicas que sussurram -
não vá fazer pecar
um homem com sua
pele à mostra -

me visto
e me dispo
sem a modéstia
bíblica recomendada

do armário do quarto
meus vestidos de verão
sussurram suas desconfianças
os dias cinza de inverno -
um desperdício - dizem
meus decotes e meus
vestidos de verão

desfalecem de saudades
da sensualidade
quente de meu colo
do toque morno da pele
de minhas pernas

por eles corro os dedos
sob minhas dobras
textura de encontro
intimo comigo
o tecido vivo
e as digitais

domingo, 11 de agosto de 2019

E quando finalmente descobri minha voz, compreendi a promiscuidade da palavra. Quis arrancar a língua desde a faringe.

domingo, 7 de julho de 2019

Hoje eu só queria contar pra elas como eu acho tolo tudo isso de que não se pode amar o que é  igual.
Queria  dizer que as acho lindas, minhas meninas, tão únicas assim, unidas nesse devagar que é aprender a amar sem se desrespeitar.
Queria contar que assisti aquela ópera do Léo Delibes, Lakmé, e que durante o dueto das flores eu só conseguia pensar nelas, minha rosa, meu jasmim. Tão únicas e tão lindas...
https://youtu.be/Zm4HWjnwdWk

sábado, 6 de julho de 2019

Estou organizando meus poemas para enviar a uma editora de BH que se abriu para inéditos e venho sentindo uma sensação desconfortável diante do que eu percebi como repetição temática. Por mais que eu tente inovar a nova seleção, assim como nos dois primeiros livros, esse gira sempre em torno da falta de sentido da vida  e a inevitabilidade da morte, da sensação   de isolamento em relação a todo mundo, e da minha incapacidade de escapar ao gozo que mata e realizar meus desejos com  liberdade.
Gosto muito de uma frase da Frida Kahlo que diz:

"Eu pinto autorretratos porque fico sozinha com muita frequência, porque sou a pessoa que conheço melhor"

Uso essa frase para justificar o fato da maior parte da minha poesia ser sobre mim mesma mas confesso que às vezes esse exercício narcisista me incomoda. Gostaria de ser capaz de poetizar acerca do universo que me rodeia. 
No entanto compreendo meu exercício como um esforço de sobrevivência. Não é fácil aceitar que estamos mergulhados no caos do acaso (essa aliteração foi o Samuel Medina que me deu) e que a vida não faz sentido nenhum. Tampouco é tranquilo admitir que, com quase cinquenta anos estou mais próxima do dia que vou morrer. Pode parecer engraçado mas, com exceção dos momentos em que eu estava muito ferrada da cabeça, eu cheguei até aqui fingindo que tinha todo tempo do mundo. 
Quanto ao isolamento, esse é irreparável. Sofro de um desejo continuo de só esperimentar relações de afirmação, amor, colo. Isso no entanto conflita com as minhas contradições, incongruências e vicssitudes. Meus familiares, amigos e colegas de trabalho não são obrigados a ignorar a minha incompetência para o conflito e a adversidade e minha excessiva tolerância as formas de existir. Outro agravante são os centros de poder dos grupos. No geral cada grupo possui seu guru/lider em volta do qual os outros membros orbitam. Não sou boa com isso. Não tenho competência para liderar ou para ocupar esse lugar mas também não tenho disposição para orbitar apenas. Diante disso o isolamento deveria ser uma saída confortável. Mas advinhem, a solidão me adoece. É uma circunstância insolúvel, assim como as outras que já citei, sobre vida e morte.
O terceiro item dessa lista, a tríade gozo/desejo/liberdade vocês já podem imaginar. O gozo existe em minha vida como um sintoma, a compulsividade: comer, beber comprar são válvulas que diminuem a ansiedade que todas as outras coisas me provocam. Separar isso do que é real desejo, vontade de potência, tem me custado a vida toda. Tem bem pouco tempo que eu aprendi a me desvencilhar da culpa para escolher ser livre e realmente atender os meus desejos. E isso ainda é bem incipiente e acontece justamente quanto eu escrevo poesia. É nela que eu peneiro, que eu tiro de dentro, que eu observo. A poesia tem sido para mim um simulacro de companhia, de vida, de sentido e de liberdade. E é a poesia que tem me ajudado a suportar a eminência da morte.
Isso não é um pedido de desculpas. É só um aviso. Continuo a mesma nesse potencial terceiro livro.