terça-feira, 16 de abril de 2019

melodrama

desejo como o roçar de asas de um anjo no escuro seus beijos mas sou só só tenho o nó de gravata essas lágrimas em volta do meu pescoço (a despeito d tristeza são tão belos esses olhos molhados no espelho)

segunda-feira, 15 de abril de 2019

recaida

se te parece que não sou de ninguém é que pela primeira vez sou minha há um pouco de benção e maldição em estar sozinha vai doer quando eu deixar de esperar suas mãos em meu rosto carícia ou desgosto? um abismo entre o que você é e o que preciso porque eu não desisto? sabia que essa obsessão estava lá me afogando em você quando caí a primeira vez? seu cheiro, seu cabelo as sutilezas do seu rosto parecem únicos e é isso que são tanto tempo e ainda não aprendi isso de ser gota em chapa quente arder sem tocar nem sei porque tento avisar mas falta pouco para eu abrir as portas e deixar outra pessoa entrar ela está do outro lado observa curiosa minhas feridas há um passo de entrar em minha vida mas, se você quisesse que importa que fossem falsas as oito batidas do meu coração as oito batidas do seu coração real são essas canções que escorrem o que em minhas pernas escorre quando seu fogo me queima era para aprender desde cedo que a palavra junto tem vinte e cinco significados

Aparte

Você espera imóvel, sabe-se lá o quê o olhar confuso, susto ao me ver. Atravesso sorrindo o espaço que nos separa. Te abraço. Não era para eu estar ali. Coisas que não dizemos bóiam sobre nossas cabeças e naquele encontro leio a forma mais feroz de verdade que o amor pode revelar. Posso continuar a desperdiçar poesia, chamar, chorar, enlouquecer: não vai acontecer.

expectativa

uma esquina
de onde ainda se pode
pegar ou largar
aquela vontade
de se falar todo dia
de ligar


aqueles minutos parados
olhando o tempo
imaginando um chá
um café
ou qualquer coisa assim

e na frente da casa um jardim

colete salva-vidas

a alegria dos versos blindados suvenires congelados que resistem à minha morte por amor à morte do amor a ilusão de que eu poderia escolher

não fere se é amor

era um encontro e você sorria parecia feliz na cena, nem era eu mas não doeu

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

SOBREVIVENTES Rosa María Roffiel Tradução de Norma de Souza Lopes

Para minhas amigas
E também para as demais
Eu conheço tua loucura porque também é minha

Somos loucas rebeldes
loucas de estar vivas
loucas maravilhosas
ultrajantes, floridas

Ovelhas negras
descarriadas sem remédio
vergonha da família
peças de seda fina
amazonas do asfalto
guerrilheiras da vida

Loucas de mil idades
cheias de raiva e gritos
buscadoras de verdades
loucas fortes
poderosas
loucas ternas
vulneráveis

Cada dia uma batalha
uma norma que rompemos
um milagre que cremos
para poder seguir sendo

Loucas sós
tristes
plenas
Mulheres loucas, intensas
loucas mulheres certas.

de Corramos libres ahora, 1986/1994
Reeditado por LeSVOZ, México D.F., 2008

Daqui ó https://libroemmagunst.blogspot.com/2019/01/rosa-maria-roffiel-3-poemas-3.html

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

ISSO SIM É QUE NÃO Rosa María Roffiel Tradução de Norma de Souza Lopes

Eu posso tudo menos isso.
Posso decair um pouco
permitir que a nostalgia me aborde
avaliar a ideia de me suicidar
talvez até chorar aos gritos
tomar duas tequilas
ou ficar na cama até uma da tarde.
Tudo, menos me sentar
e esperar junto ao telefone.

de Amora, Col. Sentido Contrario, Hoja Casa Editorial, México, 1999

Daqui ó https://libroemmagunst.blogspot.com/2019/01/rosa-maria-roffiel-3-poemas-3.html?m=1

PEÇA VOCÊ UM DESEJO Rosa María Roffiel Tradução de Norma de Souza Lopes

Uma vez quis ser homem
para casar-me com minha irmã
que já passara por três divórcios.
Para amar às minhas amigas
que em cada relação morrem um pouco.

Quis ser homem
para fecundar seus ventres
não de filhos
mas sim de poesia,
vinho tinto
relógios parados
unicórnios azuis.

Para dizer a Josefina
quanto admiro sua forma de se entregar
para escrever a Rosi
essas cartas que nunca chegam
chamar Pilar por telefone
que espera tantas tardes
cheia de caricias prolongadas
o espaço de Beatriz
que vive só e tem
medo de tremores.

Queria ser homem,
para amar a todas
e não sentir mais
o frio de suas lágrimas
em minha camisa
nem vê-las apagar-se
nem presenciar
em seus ataúdes de trinta anos.

Queria ser homem
para convidá-las
a navegar o universo,
bailar descalças
porque a vida
é o presente mais precioso
levá-las pelo braço
até uma cama
onde não tenham que fingir orgasmos.

Sou mulher
e ainda que eu possa
compartilhar com elas a poesia,
escrever-lhes cartas
chamá-las por telefone,
encher-lhes de carícias prolongadas,
navegar o universo,
bailar descalças
secar seu pranto,
tocar sua alma

não é suficiente.
não lhes alcança.

Porque, desde meninas, aprenderam
que os homens são
um prêmio
que elas tem que amar
sem se importar

se eles as amam.

de Corramos libres ahora, 1986/1994
Reeditado por LeSVOZ, México D.F., 2008

Daqui ó https://libroemmagunst.blogspot.com/2019/01/rosa-maria-roffiel-3-poemas-3.html?m=1

sábado, 24 de novembro de 2018

Fatal

Há esses átimos em que eu desligo o sensor e vejo monstros  nas paredes mofadas, corações no vapor das vidraças, elefantes em nuvens. E há essa eternidade inventando amor.