terça-feira, 12 de julho de 2016

notas de ressentimento

_minha cara
quero pedir-te uma coisa
não se mate de novo
[como é o seu costume]

_ e o que faço com a cobra 
que morde minha nuca
e sussurra "és a pior de todas"?

_ o silêncio: é preciso ser forte
e cultivar o silêncio
esculpir sentimentos sem palavras

_ desde a visão daqueles homens 
sem casa na calçada 
um talho aberto no corpo da cidade
trago os olhos cristalizados pela dor

_ pois tente admirar 
os pés de pássaros no quintal
o jardim secreto escondido na alma

_ lágrimas correm no meu rosto
tal qual sementes secas caindo
não me  reconheço no espelho

_ caríssima, esqueceste de cuidar
que és sua melhor amiga
e chora diante do prato cheio
alimentando esta fome recorrente

_ amigo, posso me apoiar só por hoje
em vossa fé no mundo?
amanhã me levanto, eu juro
e faço sozinha a colheita

quinta-feira, 7 de julho de 2016

perdi a poesia

vejam só, era um poema
um velho saudoso elogia
uma colegial
sua pela clara

perfume de maçã

Ela lê um compendio de inglês
e molha o bolo no pingado
num café de periferia

ela não o nota
ele é invisível 
como são os velhos
para as escolares

tão nostálgico
e eu só consegui pensar
"velho safado!"

inspirado no poema de  António Manuel Couto Viana (1923 – 2010) in As escadas não têm degraus, nº4 (Cotovia, 1991)

Um palácio de cera- Kishwar Naheed

traduzindo do espanhol de Ximena Londoño


Antes de me casar
minha mãe costumava
ter pesadelos.
Seus gritos de terror
me estremeciam.
Eu a despertava
para perguntar-:
“O que foi?”
Com os olhos em branco,
ela me olhava fixamente.
Não podia recordar seus sonhos.

Uma noite um pesadelo a despertou,
mas ela no proferiu nenhum grito.
Eu perguntei:
“O que foi?”
Me abraçou com força, com temor silencioso.
Abriu os olhos e deu graças aos céus.
“Sonhei que afogavas”, me disse,
“E eu me joguei ao rio para te salvar.”

Essa noite, um relâmpago
matou nosso búfalo e a meu noivo.

*

Então, uma noite, minha mãe adormeceu
e eu permaneci desperta
observando como abria e cerrava os punhos.
Tentando tomar posse de algo.
sem conseguir e tentando de novo.

Eu a acordei,
porém ela se recusou a contar-me o sonho.

Desde esse dia
não pude dormir tranquila.
E me mudei para outra casa.

Agora ambas gritamos
em nossos pesadelos.

E se alguém pergunta
simplemente dizemos
que não podemos recordar nosso sonhos 

terça-feira, 5 de julho de 2016

quinta-feira, 30 de junho de 2016

insignificante

este poema tem um destinatário
no máximo dois ou três
é um poema portátil
erétil, volátil
destinado a pairar
entre os falantes da língua perdida
inaudível como voz de um velho cassete

ele não é nenhuma façanha poética
críticos poderiam dizer
que seus versos assim dispostos
serviriam a centenas de poemas
um poema não-convencional
imperdoável por sua falta de métrica e rima

exposto às intempéries
este poema poderia ceder
como uma corda estendida
não guarda mistérios dolorosos 
envolvendo o sexo dos anjos
cada verso destina-se
a ocupar as cavidade entre as vértebras

sinta-o como um último clamor
perdoe seu excesso de diligência 
à convocação para tornar-se humano
não incendeie a casa ainda
cuide dos homens da calçada fria
nunca pergunte onde deus está
não afaste seus pés da linha da fronteira
ignore o vício de achar sentido em tudo

borboleta amarela

uma borboleta amarela lança-se sobre uma pedra
borboletas amarelas vivem apenas um dia

dentro das asas amarelas da borboleta 
encontraram pedras

vinte anos é o tempo que demora
para uma borboleta amarela
virar pedra

borboletas amarelas prestam-se bem à fotografia
perto do fim

publicado em Entre Lagartos e Borboletas coletanea NSL
23/04/15

segunda-feira, 27 de junho de 2016

não é um poema de amor

quantos corpos ainda precisará
percorrer com teu braile sereno
para compreender que 
ao final estará ainda mais só
na escuridão rubra de suas
pálpebras cerradas?

teu olhar solene me ofende
e a  sombra de teu abraço 
paira sobre mim como cicatriz

tivesse você alguma reverência
eu invocava o código de hamurabi
a fim de que me restituísse 
o amor que te dedico

domingo, 26 de junho de 2016

familiar

estar em sua casa
conhecer seu gato
debruçar sobre seu plexo
ser a mulher da sua vida
e te odiar
como só os rejeitados sabem

quinta-feira, 23 de junho de 2016

nem vem com essa sombra

ah, não nem venha se esgueirando com essa sombra que agora eu já sei dançar e enrodilhar rolar e fingir de morta cão que se presa ladra mas não morde em tempos de onça morta eu einh esse é irmão desse vivinha da silva que eu vou assistir de cadeirinha a banda passar e se duvidar eu toco bumbo taco fogo toco o fodas no salão aqui não mané eu já te saquei nesse plano de abrir as vísceras do medo no balcão e sai da frente que é rabo e corre todo mundo pra todo lado e só fica você com o fruto do suor do nosso rosto do nosso corpo e nós a ver navios em doze prestações ah, não nem vem com essa sombra.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

expiação

guardo uma impressão confusa 
acerca de seus contínuos regressos
na casa em ruínas objetos esquecidos 
sobre móveis empoeirados 
esperam por você 
como se não soubessem 
que só retornarias 
para dar cabo à demolição
que iniciastes  antes de partir

me seduzistes com esse sorriso 
que usam os que estão acostumados 
a ganhar sempre
e eu, mariposa suicida
comi o pão de todas as ideias 
e bebi o sangue derramado por elas
até compreender que és
um mercador de mentiras
tu me dizia
"beba a dor que te sirvo
lágrimas são fáceis de engolir"
e eu te obedecia

estou pronta para sacrificar este amor
ou qualquer que seja o nome deste mal
não seguiremos juntos o curso do rio
és incapaz de me suster em seu coração

sou muito afeita aos escândalos
mas sacar como arma 
minha antigas cartas
afim de evocar o amor
é um esforço patético
nenhuma célula 
de quem escreveu 
vive em mim
veja que sou uma orquídea
nascida das feridas que você plantou

é chegado o dia de esmagar
o espelho que tenho sido
até imolar sua memória
fechar meu peito a sete selos
e vingar-te com meus dedos