domingo, 7 de setembro de 2025

Pinguins

ah, a alegria dos começos

e o esforço do primeiro verso

(o que veio primeiro?)

podia dizer da sua intenção

de me enxergar

na prateleira

e dizer: venha

quando eu já tinha decidido escolher

teve sua disposição

de encarar a gangue de amigos

aquele sorriso

(parava fácil a afonso pena inteira),

a decisão de ficar

o primeiro beijo,

o cheiro cítrico de flores no quarto

em seus cabelos,

no travesseiro

(calcinhas perdidas nos pés da cama),

os lençóis guardando suas curvas,

as marcas de suas águas –

ah, suas águas sobre mim

a despeito do acordo

terapêutico

dramático

“não vai se apaixonar tão rápido” ou

“quatro encontros antes da cama”

de cara eu te oferecia o pijama

e cabia tão lindo em você

a ingenuidade da promessa

de explorar a casa

só pra nos colocar em fuga

(droga de retorno surpresa)

o mundo cabe inteiro no espaço

entre suas covinhas

quando você sorri

saudade é a palavra

que multiplicamos

cem vezes nas nossas vozes

(duzentas vezes nos áudios de whatsapp),

na distância, nas mensagens

e há a calma que mora

nos nossos encontros,

na posição de conforto para dormir,

seu corpo em repouso

e o ronronar

que virou

minha canção de ninar

e que não ouso interromper

carrego seu nome desde a infância:

a menina bonita

da classe do fundamental

se eu fosse menos nietzschiana

chamava de destino

o que estamos construindo

há medo, confesso,

mas também há a paz

e a ausência de drama

por isso aposto todo dia

é cedo, eu sei

mas vou te desenhar

um casal

de pinguins

e te convidar:

vem viver par em mim

sexta-feira, 25 de julho de 2025

atlas de um corpo em exílio

a pele ainda fala dialetos extintos

mesmo sob o céu limpo

onde o silêncio é idioma oficial

há uma rachadura invisível

atravessando o chão

de mármore das bibliotecas

e é por ela que minha sombra escapa

deitada em páginas onde nunca fui escrita


cada rua sem buzina

é um espelho de aço

refletindo o grito

que eu segurei

no vômito


tudo é respeitável

e esse excesso me afoga

ausência de barulho

acentua o ruído que trago nos ossos


sou a viajante

o passaporte carimbado de ausência

o nome riscado de dentro

uma mulher que caminha em inglês

e sangra em português


não há corpo que migre

sem carregar suas ruínas embutidas

prótese de um amor

historicamente mutilado no abusivo

arquivo em segundo plano

processando-se

mesmo quando a janela principal mostra montanhas

minha alegria tem cláusulas de contenção

sorrio com legenda:

“isto não é amor, é costume”


o exílio não é o país:

é o gesto automático

de pedir desculpas

por existir com mais volume

do que me permitiram


no banco da praia

às margens do Pacífico

ensaio a minha revolução


não é sonora

não é coreografada

não é instagramável

é meu corpo se recusando a se curvar

quando há atraso para amá-lo


livros me olham com ternura estrangeira

imigrante de mim


aprendo a andar descalça

sobre os gramados

que não pedem desculpa por crescer


a pergunta não é mais quem me feriu

mas:

quem em mim

continua a ofertar flor

ao punho que esmaga

minha liberdade tem sotaque

as botas pesadas do meu perdão


escrevo

devagar, em letras minúsculas,

um novo tratado:

não serei o altar de nenhuma

falta de escolha

nem sílaba que se dobra

em qualquer sentença

as mão firmes com os quais

finalmente escrevo

em exílio, sim

mas em alfabetização

aprendendo a dizer

não

sem precisar me traduzir

sexta-feira, 11 de julho de 2025

pra te ver por inteiro

é cedo

e o mundo

ainda não acontece

nem uma xícara vazia

nem o sol na janela

mas tua lembrança

já ocupa meu pulso

dormi na promessa

sonhei teus olhos de paz

teu colo, um país morno

onde quero pousar

meu cansaço

da banal violência do mundo

escrevo

pra acordar o dia

e ouvir tua voz

mas aqui dentro

acalento

o desejo manso

de te ver por inteiro

deslizando

no meu pra sempre

domingo, 6 de julho de 2025

manual de contenção para almas em erupção

e o que vem depois da erupção?

a lava esfria.

silencia o chão.

dizem que vira pedra,

que endurece.

mas ninguém vê

o que brota de dentro.

o que queimava,

agora, terra preta,

abriga raiz.

do fogo contido

nasce terra fértil.

é tão triste perder o vulcão,

mesmo sabendo

das florestas.

sábado, 31 de maio de 2025

Isso aqui é pra quem já teve medo…

Mas escolheu amar mesmo assim.

Vem comigo, mulher…

Esquece o medo, bota no bolso

Coragem é salto alto no asfalto grosso

É cicatriz que vira tatuagem

É flor que brota em plena estiagem

Minha alma tem batida, minha pele é tambor

Não corro da vida, corro pro amor

Não vim pra ser sombra, eu sou miragem

Visão rara no deserto da coragem

Segue o fluxo, sem retrovisor

No peito, bússola que aponta pro amor

Caminho de estrela, brilho sem pudor

Encontros assim… não rolam toda hora, demorô

Amar é trapézio sem redes

É voar mesmo ouvindo as pedras

É dizer “sim” no meio do caos

É escrever poesia de correria pro sarau

Coração meu não bate, ele rima

Verso quente, fogo que anima

Quem me ama me encontra inteira

Não sou metade, sou tempestade e bandeira

Segue o fluxo, sem retrovisor

No peito, bússola que aponta pro amor

mulher do norte caminho de estrela, brilho sem pudor

Encontros assim… não rolam toda hora, demorô

Não foge do fogo, sente o calor

A vida é agora, sem ensaiador

Entre o medo e o pulo: escolhe o ardor

No escuro do mundo, eu sou refletor

Segue o fluxo, sem retrovisor

No peito, bússola que aponta pro amor

Caminho de estrela, brilho sem pudor

Encontros assim… não rolam toda hora, demorô

sábado, 19 de abril de 2025

antes de amanhã

há uma dobra no tempo

entre o voo e o chão

uma brisa que hesita

antes de ser vento

meu corpo é chama

e espera

com todas as perguntas abertas

como janelas que não querem fechar

desde já gozo

a alegria do seu toque

cheiro e desejo

vem —

mas vem real,

com o que houver de amor e verdade

no bolso

domingo, 13 de abril de 2025

Oração da Entrega Serena

Que eu não me esqueça, no meio da chama, de que sou também a guardiã do fogo.

Que o desejo me aqueça, mas não me queime.

Que a paixão me ilumine, mas não me cegue.

Que eu celebre cada gesto de ternura,

sem esquecer de olhar para as raízes.

Que eu receba com alegria o que me é dado,

mas que eu não me perca na espera do que ainda não chegou.

Que eu reconheça a beleza deste encontro,

como se reconhece a beleza de uma flor rara: com encantamento, sim,

mas também com o cuidado de quem rega todos os dias,

sem pressa de vê-la desabrochar.

Que eu saiba ouvir as palavras doces,

mas que eu preste atenção aos silêncios.

Que o amor que eu ofereço volte para mim em dobro:

não apenas nas promessas,

mas nas escolhas diárias.

Que eu não diminua meu brilho para caber no sonho de ninguém,

mas que eu encontre quem escolha caminhar ao lado da minha luz.

E que, se este for o amor que merece morada,

ele permaneça — não porque eu o prenda,

mas porque ele queira ficar.

Assim seja.

sexta-feira, 11 de abril de 2025

Voltando pra casa

Antes mesmo de você chegar, eu já tinha falado de você pra eles. E foi como se eles já te conhecessem. Sabem do teu sorriso, como se tivessem te visto de perto. Sabem do jeito que a tua presença me acende, como se tivessem sentido calor da sua chegada. Quando você atravessar a porta, amor, não vai ser visita — já vai ser de casa. Porque assim, quem faz bem pra mim, vira bem pra eles também. Fica morando na memória da gente como coisa boa, como benção da vida. E eu tenho certeza que, quando você chegar, eles vão sorrir daquele jeito de quem já sabia… Você acabou de chegar, mas é amor antigo, você está só voltando pra casa.

terça-feira, 8 de abril de 2025

condensação

febre no pijama
desnorte
(quem podia imaginar?)
teu nome tatuado 
no pulso da minha sede

mordida de fruto vivo
caroço em labareda
pico, abismo, 
tua boca que puxa 
como maré — sem aviso

deslizo:
sou o carro-luz
furando o escuro das tuas coxas
queimando as faixas da cidade

não rezo
engulo, mastigo
minha língua, tua oração pagã

te imagino: pequena, vulcão de bolso
implosão portátil
teus “sim” pingando no terço sujo dos meus dedos

febril
encharcada
estilhaço de tua fome atravessando minha pele

não durmo
arquitetando teu corpo no escuro

coleciono teu gozo
como quem rouba mapas de tesouro
e queima as rotas depois

te penso
e o mundo evapora.

segunda-feira, 7 de abril de 2025

Cartografia da Espera

Eu tinha me esquecido que o tempo tem suas próprias estações.
Mesmo quando a pressa aperta o peito, há algo de bonito em esperar.
O afeto também é construção lenta, como um jardim em pleno outono, repletos de jasmins. Afeto que não teme o frio da noite,
porque sabe: a seiva já corre por dentro, invisível aos olhos apressados.

A distância é assim também — parece um vácuo, mas na verdade, é solo fértil.
Entre nós, há quilômetros que não sabem medir o que cresce em silêncio.
O que é um mapa, diante da bússola que carrego no peito?
Sigo, instintiva, como raiz que atravessa pedra, buscando umidade no subterrâneo do tempo.

Algumas presenças chegam miúdas, como sementes levadas pelo vento,
mas se instalam fundo, criando espaço onde antes havia só ausência.
De longe, você me habita como quem mora nas frestas do dia,
no intervalo entre as tarefas, na curva mais calma do pensamento.

Hoje, o que eu tenho é essa alegria silenciosa:
sentir que, mesmo sem tocar sua pele, seu nome faz morada nas minhas rotinas.
Que existe uma dança secreta entre nossos dias, uma correspondência que o mundo não vê.
E que as boas histórias, aquelas que valem ser vividas,
sempre encontram o caminho — mesmo quando as estradas se perdem,
mesmo quando a geografia parece não ajudar.
Há rotas que só o coração conhece.