domingo, 19 de dezembro de 2010

Papai Noel morreu

Bem jovem descobri que São Nicolau foi usurpado para virar  uma das estratégias comerciais da Coca-Cola. Como comecei a trabalhar na adolescência não esperava o vetusto com meias atrás das portas porque  eu mesma comprava meus presentes. Talvez por isso preferi crescer cantando o "Papai Noel velho batuta"  dos Ratos de Porão. 
No entanto isso só durou até meus filhos começarem a pedir que eu enviasse cartas ao velhinho. Como pedagoga eu já havia aprendido que ninguém deve tirar de uma criança sua capacidade de fantasiar. Tornou-se imprescindível para mim esperar acordada com eles a chegada do Papai Noel, ver sua vigília frustrada pelo sono e principalmente me alegrar com eles ao encontrar os presentes no dia seguinte. Dividir isso com meus filhos me reconciliou como ancião escarlate.
Mas o fato mais significativo para minha reconciliação com esse símbolo natalino foi a existência de um senhor bem idoso que em nosso bairro fazia às vezes de Papai Noel. Todo natal ele saída distribuindo balas e pequenos presentes para as crianças da redondeza. Ele não se furtava a nada. Era um Papai Noel completo,  com vestes, barba e saco de presentes. Era interessante vê-lo perguntando a todos se eles haviam se comportando bem. Mas era sublime ver os pequenos contando seus pequenos furos de comportamento e prometendo se comportar melhor.
Com o passar dos anos a quantidade de presentes foi aumentando. Os donos de padarias, supermercados e lojas contribuíam  para que mais crianças recebessem presentes. O que antes eram uma distribuição de quarteirões passou a ser uma partilha de bairro inteiro. As crianças que eram beneficiadas sabiam quem era o Papai Noel e sabiam onde ele morava. Nada de pólo norte. Era comum ver crianças passando em frente a casa do bom velhinho apontando-a como a casa do Papai Noel. 
Contudo a idade avançada desse senhor culminou com sua morte e as crianças do bairro tiveram que lidar mais cedo com a inexistência  do Papai Noel. O velório e o enterro foi coroado por pelo pranto de dezenas de crianças. Nós chorávamos juntos por que sabíamos do medo de todas elas. Elas temiam na verdade que o natal fosse enterrado junto com o bom velhinho.

Norma de Souza Lopes

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

SLOW MOTION

SLOW MOTION

Ébrios por amor possuem histórias bonitas. Conheci um memorável. Manuel Sansão era seu nome. Morreu de cirrose, aos 38 anos. Quando o conheci ele já era aquele tipo de bêbado-clown a quem as pessoas provocam só para rir um pouco. Inventava motes que perduram até hoje. Era o astro do time de futebol de várzea da comunidade, não pela destreza com a bola mas pela pândega em campo. Curiosamente (o nome Sansão era verdadeiro) era dono de uma força descomunal. Sóbrio era pau para toda obra: despachar entulhos, capinar lote, carregar material de construção etc.
Sansão contava que nasceu na cidade mineira de Pirapora e lá viveu até os vinte e sete anos. Se formou profissionalmente como garçom e já era Maitê de um grande restaurante quando se apaixonou por uma beldade piraporana.  O romance avançava de vento em popa e Sansão já fazia planos para se casar quando descobriu que a menina navegava em outras águas. Nosso bom rapaz se desesperou e procurou a Ponte Velha para um mergulho final.
Sozinho, melancólico e amargurado buscou forças para o pulo quando o som automotivo de um Chevrolet possante passou tocando uma canção conhecida de Wanderley Cardoso: 

Parece que eu sabia 
Que hoje era o dia 
De tudo terminar
 
Pois logo notei 
Quando telefonei 
Pelo seu jeito de falar 

Eu nunca pensei 
Quem eu tanto amei 
Fosse assim me desprezar 

Mas o mundo é grande 
Vou nem sei pra onde 
Alguém há de me amar 

Já que terminamos 
Só resta agora 
O adeus final

Te amar demais 
Ser um bom rapaz 
Foi o meu mal  

A falta de coragem, somada a beleza poética da canção dissuadiu nosso herói de seu pulo fatal e ele, que sabia para onde ir, veio dar em Belo Horizonte, na casa de seus irmãos. Aqui fazia pequenos serviços, suficiente para pagar seu mergulho na bebida. Deixou de ser garçom.

Ouvimos essa história dezenas de vezes da boca do próprio Sansão. Ele também fazia versos, levantava carros e contava piadas como ninguém. Nós ríamos muito, talvez por não saber que diante de nós ele executava o salto frustrado na Ponte Velha. O bom rapaz passou quase dez anos mergulhando profundamente na bebida.  Um salto em câmera lenta.

NSL
17/12/10
Órbitas 

Meu mundo de relações
se assemelha
a flexíveis constelações,
às vezes somos sóis,
às vezes planetas.

Quando me ocorre ser sol
 orbitando em minhas elipses,
circulam planetas afáveis.
Assim como eu,
dispostos a servir e evoluir.

Em minhas fases planeta
orbito em torno de sóis
vivificantes e fortalecedores.
De que me vale orbitar sóis
cuja luz não gere vida?

Norma de Souza Lopes

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Desamando

Tivesses a metade de minha nobreza
não me constrangia amar-te
amar o peverso me parte

Norma de Souza Lopes

domingo, 12 de dezembro de 2010

Outro elogio à loucura


Relendo alguns autores mineiros que amo resgatei da memória lembranças curiosas acerca de doidos que povoaram a minha infância. Não foi difícil me lembrar porque a literatura Mineira é povoada por doidos. Reli  "O Doido" e "Dodona Guerra"  de Carlos Drummond de Andrade, o "Sorôco" e sua familia de Guimarães Rosa e mesmo não sendo mineiro Machado de Assis ambientou seu   "Quincas Borba" em Barbacena. Nada melhor que a literatura para resgatar lembranças.
Me lembrei da função pedagógica que tiveram para mim os doidos de rua. Quem não escapou dos perigos da rua por medo do homem do saco, o célebre louco de rua que povoava nossos medos? 
Mas, apesar de me lembrar nitidamente desses doidos de rua que circulavam e mendigavam pela cidade, os que mais me impressionavam eram os doidos de casa. Eles apresentavam uma loucura de natureza privada, reservada e escondida pelas famílias e suas aparições eram tão espetáculares quanto as dos doidos de rua.
Enquanto morava na casa de minha avó tive oportunidade de conhecer Alba, uma moça que casualmente saía correndo pela rua, levantando a roupa e gritando as mais variadas injúrias. Alba era segredo bem guardado no enclausuramento familiar e pouco aparecia para a socialização  no palco das ruas de nossas casa.  Isso provocava a curiosidade e a maldade intrínseca à nós, crianças pequenas. Tínhamos que aproveitar suas curtas aparições para tirar o máximo de diversão: provocávamos, apelidávamos, insultavámos e depois abríamos franca carreira pela rua, rindo e temendo as pedradas fatais. Também não podíamos chamar atenção da avó. Se ela  presenciasse a cena as varadas seriam certas.
Morei pouco tempo na casa de minha avó mas a mudança de bairro não me privou dos célebres espetáculos dos doidos de casa. Em outro bairro conheci um Néia, homem velho na aparência, mas criança social e psicologicamente. Assim como Alba e para desespero da familia, Néia fugia para a rua e era cercado por uma legião de crianças. O que gostávamos nele era o grito do palavrão proibido, que ele pronunciava errado:
    ___ Daputa!
Muito comum entre nós também era aquela loucura produzida pelo alcoolismo. Sempre houveram muitos desses. Tínhamos um Senhor Delírio (quem poderia ser normal com um nome desses?) que chamava a tudo e a todos de "fudidos" e acabou ganhando o palavrão como apelido. Tínhamos o Sansão que, talvez por força do nome, fazia exibições de levantamento de carros. Outro célebre era o Sinval dos Santos (assim mesmo, com nome e sobrenome), corajoso como o quê, que dizia temer apenas que o céu descesse e que a terra subisse. Tínhamos o Zéfinim, que conversava com postes. Esses bêbados agradavam a todos. Em sua presença sempre havia uma roda de adultos rindo,  zombando e escarnecendo. 
Essas lembranças me levam a perguntar: o  que nos prende diante da loucura dessas pessoas?
Penso que a visão da loucura dessas figuras é tão satisfatória porque revela uma maneira livre de existir, mergulhada na imaginação, na fantasia ou na raiva. A visão do  louco nos sacode por dentro porque nos faz ver o insano e o instintivo livre e solto neles e nos leva a fazer as pazes com nossa loucura, tão escondida e reprimida. 
Essa loucura que conversa com poste, que xinga palavrões, que levanta a saia e revela as partes pudentas nos alegra porque se anuncia diante de nós como uma criança provocativa, que corre e põe língua por ter escapado do controle e da vigilância. O que nos atrai nos loucos  é a pureza da verdade humana: somos uma comédia, uma mentira e uma insanidade que foi controlada pela civilidade social.


Norma de Souza Lopes

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010


(Con)fluir

Ainda que às vezes eu anseie 
navegar águas indomadas
não me apetece
desafiar a efemeridade do poder




Por medo, covardia ou preguiça
tenho escolhido a ordem
e a calma rotineira da subordinação
(não sem  nutrir alguns pensamentos insubmissos)





O gozo efêmero do poder 
não é poderoso o bastante
a ponto de me fazer esquecer
o caráter ilusório de seu prestígio



Me repugna a imposição da vontade
estimo antes a influência sutil e o convencimento 
mas suave ao amigos
mais branda aos adversários



Norma de Souza Lopes

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Confraternizações


Nos espaços, deslocados
desencontro de irmãos
os fraternos desolados
desalinho de visões


Embora haja bem em nos libertarmos
das fantasias e idealizações
será que ainda teremos
um norte, uma paixão?


Será que nós venceremos
o desalento da troca de intenções?
Quão fraternas ainda serão
as nossa confraternizações


O que será maior para nós
nossas certezas ou nossos irmãos?


Norma de Souza Lopes



Uma pequena notável
de cabelos dourados e pele clara
compartilhar com você nossas aulas
tem sido uma experiência rara


Quando chega de manhã
traz perfume, afeto e alegria
então ficamos na espectativa
esperando que você sorria


Norma de Souza Lopes

sábado, 4 de dezembro de 2010

Per se stande

Amalgamados em mim
esses alteregos autoritários
pretendem provar constância
no inconfundível impermanente
buscam firmar personas
naquilo que  Eu não sou.

Constituirei minha individuação
 cultivarei minhas próprias idéias
basta às filosofias de segunda mão.



Norma de Souza Lopes







DVD " Alice no País das Maravilhas
Título Original: Alice in Wonderland
Gênero: Aventura
Tempo de Duração:108 minutos
Diretor: Tim Burton

Uma boa sugestão para as férias é o filme de Tim Burton “Alice no País das Maravilhas” baseado na obra de mesmo nome do inglês Lewis Carroll. Nas cenas iniciais Alice menina tem um sonho maravilhoso e pergunta ao pai se está ficando louca. Ele a encoraja afirmando que " as pessoas loucas são sempre as melhores". Esse mote irá movimentar o filme na pessoa do Chapeleiro Maluco.
Diferente da Alice de Carroll, que é uma criança, a Alice de Burton avança para os 19 anos e está às beiras de um casamento, com festa da nobreza e tudo.
Com a morte do pai, a mãe de Alice passa a organizar o casamento da filha. Alice, que não concorda com o casamento encomendado,  foge desesperada seguindo um coelho branco, e vai parar no País das Maravilhas, um local que ela visitou quando tinha seis anos mas não se lembrava mais (numa referência à Alice da obra de Carroll). Lá ela é novamente saudada pelo Coelho Branco, o Ratão, o Dodo, os gêmeos Tweedledee e Tweedledum e várias flores falantes. Eles discutem sobre a sua identidade da "verdadeira Alice". Com isso o filme demonstra, de maneira sutil, a luta de todos nós para descobrir quem somos, o que representamos, o que os outros  pensam que somos. 

O filme deve agradar aos adolescentes pois, assim como eles, Alice passa todo o tempo sofrendo mutações corporais, lutando contra uma Rainha Vermelha cabeçuda e mandona, e tendo que afirmar sua identidade para ser dona do próprio destino. 
O alto teor de aventura e o cenário são outras coisas que irão agradar. Temos imagens impressionantes do Mundo Subterrâneo, do castelo da Rainha Vermelha, das criações do Chapeleiro Maluco e também do assustador Jaguadarte. No ponto alto do filme Alice, lutando pela Rainha Branca, empunha uma espada e corta a cabeça do monstro jaguadarte. Então é só dançar o passo louco do Chapeleito Maluco.


Norma de Souza Lopes