sábado, 18 de junho de 2016

16/06/2016 O que serve para nada me seduz até a alma.

17/06/2016 Qualquer coisa tomada como sagrada, religiosa, nos aprisiona. Mesmo a poesia.

18/06/2016 A arrogância é o pior dos privilégios, visto que não tem nem justificativa moral. Sendo arrogantes nós atribuímos a nós mesmos, fundados em autoafirmações picarescas, superioridade em relação aos outros.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

em queda outra vez

o homem caminha pelo estacionamento escuro
reconta notas novas estalando na carteira
uma ele deixou com a menina de treze anos 
por quinze minutos de felação
atrás de si ouve cair uma lata de lixo 
tenta não exalar medo, mas teme

apressa-se em chegar em casa 
sua mulher, tal qual 
uma videira inconsciente e fecunda
está pronta para espalhar frutos pela terra
amanhã, nessa mesma hora
soará um leve ruído de queda
o baque surdo do corpo da menina 
não chamará atenção de ninguém

cenário

fecho a porta, abro as janelas
quanta gente na rua
que me ignora, me olha
e se vira
de costas,
hoje minha vida
está terminada
outro dia te conto

eu que disse
escrevo e me curo
caralho, me enganei
não regenero nunca

beba mais uma taça comigo
me abraça
diz "largue a melancolia"
fácil como soltar displicente
um papel de bala no chão
assim não

os franceses dizem com uma palavra 
dépaysement
o sentimento de não caber 
em lugar nenhum do mundo
mas eu sei
no seus braços caberia

terça-feira, 14 de junho de 2016

dois cavalos em contramarcha

perco a poesia do voo dos pássaros
das pegadas dos navios no mar
quando me agarro 
ao susto previsto de agosto
ao corte seguro das asas

sou dessas que revira as brasas
que cavouca a terra das violetas
guarda as bordas rotas da casa
sufoca nas dobras do corpo
desejos inomináveis da alma

violetas não esperam ser abraçadas



segunda-feira, 13 de junho de 2016

o amor está envergonhado

a quem interessa 
que percamos a ilusão
e as ideologias?

o amor está envergonhado
o que é singularmente plural em cada um
arrasta iras pegajosas e mata

o silêncio é muito confortável
a despeito disso ninguém cala
na maior parte do tempo 
todos fingem saber 
do que estão falando

ora, não há profecia 
apenas memória
observe que o amanhã 
já aconteceu há mil anos

se não nos lembrarmos de parar
se não soubermos calar
as vozes da barbárie
seremos transformados em sacos de medo
a serviço dos ladrões de sonhos



domingo, 12 de junho de 2016

Tabara poema de ALHAJI PAPA SUSSO Gambia Traduzido do site http://www.festivaldepoesiademedellin.org/es/Revista/ultimas_ediciones/77_78/susso.htm por Norma de Souza Lopes

Eu sei o que dizer sobre isso, oh sim.
Você sabe, Tabara é o nome de uma griotte uma mulher griot.
Um dia, ela foi ver um chefe chamado Nakulang Vírgula,
Seu nome era como a pontuação!
Bem. Nakulang se apaixonou por Tabara
Mal ele havia posto os olhos nela. Oh, ele se apaixonou tão fortemente. Mas como
Tabara era uma griotte, e trouxe seu marido consigo (eu esqueci
de mencionar que Tabara era casada?) (e
não se esqueçam - Tabara veio de uma família de casta,
que tradicionalmente significa que - bem, o chefe Nakulang
vem da nobreza, e se ele se envolve com uma mulher
uma família de casta, significa que - ele destrói seu status)!
Então agora ....

Nakulang tenta ficar longe, mantenha distância, é-é-é
Porém não pode fazê-lo, de jeito nenhum, ele simplesmente amava
esta Tabara
Ele a amava muito!
E então ele começou a enviar mensagens ilegais, cartas
de amor. E Tabara ficou muito surpresa! Ali estava um homem,
um homem que para ela era muito atraente, a nobreza, que por amor
ele estava disposto a renunciar. E suas cartas eram tão amorosas como
ela nunca tinha escutado,uma canção de palavras (ela era uma griotte, lembre-se!).
Bem, pensou Tabara, se uma pessoa ama outra
Deve dizer-lhe eu te amo.
Nakulang diz que me ama, Tabara,
De maneira que não tenho mais nada a dizer que não seja sim!

E ela veio a ele
E eles estavam juntos
E o povo de Nakulang
Se rebelou porque tomar
A esposa de um griot e romper
As leis de casta não.
Seguiam a tradição, não.

Bom. Essa não é a história. A história é contada pelo marido
(Que não tem nome neste poema). Ele estava tão bravo que ficou louco,
um homem louco, e nada iria apaziguar-lo.
Estava tão louco que fugiu e
Ele compôs um poema para insultar Nakulang
por Tabara ser sua esposa.

É uma longa-longa parte da canção, cheia de
coisas horríveis-horríveis - Nakulang é um chefe ruim, mau marido,
mau pai, mau homem. e segue
a descarga de insultos. Na verdade, é tão longo e terrível,
é o que o que se pode fazer é escrever.

Assim é. Ela fica com Nakulang. Mas o que permanece conosco
São as palavras de raiva, epítetos belicosos
que o Inominado Esposo mordazmente
Canta para que orbitem o mundo e seu clima!


sexta-feira, 10 de junho de 2016

duras demais

abraçado aos joelhos
o tronco arqueado
sacudido pelos soluços
fazem parecer que eu já saí

indefesas no chão
nossas roupas sussuram
palavras duras demais
um a um seus pedaços doloridos
lançam tentáculos sobre mim

abril foi mais um aniversário
inaugurando o tempo de retirar
de minha dieta diária
o sal, a lactose, o glúten e o açúcar
e esperar o apocalipse

é tanta pasmaceira
que eu quase preferia anzóis
presos às órbitas dos meus olhos
só para ter algo que sentir

há vinte anos desisto de partir
então beije-me até
que meus dentes se estilhacem

quarta-feira, 8 de junho de 2016

enfastio

era só o que me faltava
ter que acordar toda manhã
olhos coalhados
quilômetros de sono
e essa covarde no espelho da sala

ao meu modo me mantenho pagã 
afim de comover a todos os deuses 
contudo sou devota do acaso
me recuso a usar a calma 
como moeda de troca 

por isso às vezes desisto
não me levanto, não saio
não como, não trabalho
não abro gavetas
nem ao menos sei
onde foram parar as pílulas
rosário de bolhas multicoloridas

as coisas concretas não suportam atrasos
existe um ponto onde o resgate 
da fé em si mesmo é possível
derradeiro ponto para o embarque 
do amor próprio
ultrapassei-o na última curva

E quando sair, levem suas fotos com vocês - Jo Carrillo (en This Bridge Called My Back: Writings by Radical Women of Color, 2nd ed., 1981) Tradução de Norma de Souza Lopes

A nossas irmãs gringas
amigas radicais
adoram nossas fotos
sentadas junto à máquina de fábricas
empunhando um facão
nos nossos lenços brilhantes
carreando meninos morenos amarelos negros marrons
lendo cartilhas
das campanhas contra o analfabetismo
carreando metralhadoras baionetas bombas facas
Nossas irmãs brancas
amigas radicais
devem pensar
de novo.

A nossas irmãs gringas
amigas radicais
adoram nossas fotos
andando pelo campo no sol quente
com chapéu de palha se na cabeça se somo morenas
lenços se somos negras
em saias de tecido brilhante
carreando meninos morenos amarelos negros marrons
lendo cartilhas das campanhas contra o analfabetismo
sorrindo.
Nossas irmãs brancas amigas radicais
devem pensar de novo.

Ninguém sorri
ao final de um dia
passado escavando pedaços de urânio
como suvenires
ou deixando tudo limpo para
nossas irmãs gringas
amigas radicais

E quando nossas irmãs gringas
amigas radicais nos veem
em carne viva
e não como em suas fotos
não ficam muito seguras
se
gostam tanto de nós.
Não somos tão felizes como nos veem
em
suas
paredes.

And When You Leave, Take Your Pictures With You

By Jo Carrillo

Our white sisters
radical friends
love to own pictures of us
sitting at a factory machine
wielding a machete
in our bright bandanas
holding brown yellow black red children
reading books from literacy campaigns
holding machine guns bayonets bombs knives
Our white sisters
radical friends
should think
again.


Our white sisters
radical friends
love to own pictures of us
walking to the fields in the hot sun
with straw hat on head if brown
bandana if black
in bright embroidered shirts
holding brown yellow black red children
reading books from literacy campaigns
smiling.
Our white sisters
should think again.
No one smiles
at the beginning of a day spent
digging for souvenir chunks of uranium
of cleaning up after
our white sisters
radical friends.

And when our white sisters
radical friends see us
in the flesh
not as a picture they own,
they are not quite sure
if
they like us as much.
We’re not as happy as we look
on
their
wall.

domingo, 5 de junho de 2016

Há meninas saindo do bosque -Tishani Doshi, tradução Norma de Souza Lopes

Há meninas saindo do bosque,
envoltas em capas e capuzes,
carregam barras de ferros e velas
uma multiplicidade de cicatrizes recoletadas
entre acres de grama prematura 
e coletivos urbanos, e templos e bares. Há meninas
saindo do bosque,
com calcinhas amordaçando seus lábios,
fazendo tanto barulho, é impossível
ouvi-las. O mundo está falando muito?
Está realmente perguntando o que significa exatamente
permitir a alguém descansar em paz? Há meninas
saindo do bosque, levantando muito alto
suas pernas quebradas, segredos vazando
destas coxas soltas, todas as mentiras
sussurradas por estranhos e treinadores
de natação, e tios, especialmente tios,
que disseram que espalhar os restos seria fácil
e simples, que puseram balas em seus peitos
e alimentaram com seus preciosos rostos o fogo,
que limparam o barro de suas costelas e decoraram
seus caixões com espinhos. Há meninas
saindo do bosque, pavimentando o terreno
para espalhar suas histórias. Mesmo aquelas meninas
encontradas nuas em valas e poços,
essas esquecidas em sótãos abandonados,
e enterradas nos leitos dos rios como os sedimentos
de séculos passados. Elas escaparam 
e arrastam seus corpos de  detrás das cortinas
de sua infância, do peso dourado e rosa
de seus corpos empurrados contra a água,
contra o ultraje triste e repleto de plumas
da recordação. Há meninas saindo
do bosque do mesmo modo que os pássaros chegam
nas janela de manhã - bicando
e cantarolando até que todo que você pode ouvir
é o golpe de seus corações minúsculos
contra o vidro, o desespero brilhante
do som - golpeando, desaparecendo.
Há meninas saindo do bosque.
Estão chegando. Estão chegando.

Girls are coming out of the Woods


Girls are coming out of the woods,
wrapped in cloaks and hoods,
carrying iron bars and candles
and a multitude of scars, collected
on acres of premature grass and city
buses, in temples and bars. Girls
are coming out of the woods
with panties tied around their lips,
making such a noise, it’s impossible
to hear. Is the world speaking too?
Is it really asking, What does it mean
to give someone a proper resting?
 Girls are
coming out of the woods, lifting
their broken legs high, leaking secrets
from unfastened thighs, all the lies
whispered by strangers and swimming
coaches, and uncles, especially uncles,
who said spreading would be light
and easy, who put bullets in their chests
and fed their pretty faces to fire,
who sucked the mud clean
off their ribs, and decorated
their coffins with brier. Girls are coming
out of the woods, clearing the ground
to scatter their stories. Even those girls
found naked in ditches and wells,
those forgotten in neglected attics,
and buried in river beds like sediments
from a different century. They’ve crawled
their way out from behind curtains
of childhood, the silver-pink weight
of their bodies pushing against water,
against the sad, feathered tarnish
of remembrance. Girls are coming out
of the woods the way birds arrive
at morning windows – pecking
and humming, until all you can hear
is the smash of their miniscule hearts
against glass, the bright desperation
of sound – bashing, disappearing.
Girls are coming out of the woods.
They’re coming. They’re coming.