Adélia
até aceito
um amor feinho
mas no miolo
da medula
queria um encontro de pedra
dois seixos
encarnados
batendo-se
desesperados
até que uma centelha
incendiasse
a cama
a casa
o mundo
Adélia
até aceito
um amor feinho
mas no miolo
da medula
queria um encontro de pedra
dois seixos
encarnados
batendo-se
desesperados
até que uma centelha
incendiasse
a cama
a casa
o mundo
Tou aqui pensando em como eu não me sinto tão triste assim pela perda da Rita Lee. Acho que não sinto tanto porque o que ela foi pra mim vai continuar sendo. Ela rasgou dois séculos sendo mutante, não repetindo nada, dando um foda-se pra normose dessa caralhada de gente que acha que nós temos que seguir um roteiro. Rita ensinou pra gente não precisa ser a mesma pessoa sempre, que a gente pode se inventar o tempo todo. Acho que é isso. Ela fica em mim nas letras que estão quase inscritas na minha pele. Fica nesse modo de me inventar todo dia, de não se resignar a uma vida besta. Sou grata por ter recebido dela esse exemplo, dela ter ficado de lá da tela, da agulha, me mostrando que tudo bem ser inconsistente que se às vezes der ruim, tudo bem tbm. Tem essa entrevista dela na Roling Stone onde ela diz assim "Vamos combinar que todo mundo mente?", "Em entrevista, a coisa fica sendo ainda mais sedutora. Afinal, inventar coisas absurdas a seu respeito não é mais interessante para um jornalista do que simplesmente contar-lhe como sua vidinha verdadeira é besta?" ou ainda "Dentro deste corpo que me pertence há 60 anos já pude presenciar uma porrada de exemplos de minha burrice e mediocridade". termina assim "Querido, inventa bastante coisa sobre mim nessa minha matéria? Não vou precisar fazer muita força para manter a Rita na minha memória. Ela já tá inscrita no meu modo de viver: invento uma história, vivo ela todo dia, e essa é a minha história
Acerca da coluna da Andréa del Fuego para a Folha de São Paulo em 06 de dezembro de 2022
Há algo que não está dito mas, que no entanto, me faz pensar: quem lê tanto livro? Quem fomenta esta leitura?
Trabalho exaustivamente por isso no chão da escola todos os dias e nem sempre acho que acerto. O peso e a cobrança sobre a escola é bem maior e no final há sempre o risco de escolarizar demais. Mas não acho que a sociedade em geral está disposta a pensar que formar leitores é tão importante quanto escrever e mais, trata-se de uma responsabilidade coletiva.
https://youtu.be/wmvXvrOhE6s
Para além da indústria 4.0, da Educação 4.0, pensar a escola como um espaço que faça mais que formar indivíduos prontos para servir ao machismo, ao racismo e principalmente ao mais perverso de todos, aquele que determina o funcionamento de tudo no mundo, o CAPITALISMO.
Uma educação realmente revolucionária deverá por fim as dinâmicas de competição humana. Deverá instalar a cooperação como princípio comunitário.
É preciso romper com a ideia de mercadoria e resgatar o princípio da ética, ou seja, viver bem com pessoas,bichos, plantas e pedras. Fazer parentes, lançar mão da simpoiese, ao modo de Donna Haraway.
Sabemos que isso não é simples. Como educadores por vezes somo um fluxo circulando num determinado circuito, o espaço educativo, com as suas aberturas e limites, passagens subterrâneas e translações. Enquanto a corrente ficar circunscrita às mesmas vias, com as mesmas ligações supostamente “naturais”, a tendência é sempre repetir uma rotina, num automatismo recorrente.
Nesse caso às vezes é necessário instalar o desarranjo, uma anomalia(o escândalo e necessário, mas maldita e a boca de o de ele vem), quando salta uma conexão inesperada, digo, quando se entra em relação com o heterogêneo e díspar, quando aí se estabelece uma aliança antinatural, com outros circuitos imprevistos, abrem-se outros caminhos, constroem-se hábitos novos e o futuro se abre à invenção.
E essa e a deixa do educador que deseja trabalhar contra a exclusão, fazer diferente. Não se iluda, não há ganho pessoal. Pelo contrário, é possível sofrer perdas. Mas esteja certo que na ponta do processo, o mais excluído dos estudantes estará ganhando. E quando ele ganha, o país inteiro ganha.
Em tempos de luta legítima por melhores condições de trabalho gostaria de falar também de duas matérias discriminadas na educação: a espiritualidade e o amor (notem que estou falando de espiritualidade e não de religião, isso é de propósito). Gosto muito da proposta de Bell Hook, para qual o amor deve ser pensado como uma ação, como verbo. E envolve muito mais do que afeição, mas "carinho, reconhecimento, respeito, compromisso, confiança, honestidade e comunicação aberta". Ou seja, amar é "promover o próprio crescimento espiritual ou o de outra pessoa".
Nos comprometer com nosso crescimento espiritual e com o dos estudantes, amá-lo deveria ser mais que associa-lo a um filho ou a um parente. Não uma cápsula de futuro, uma mercadoria a ser produzida, avaliada e entregue pronta ao mercado. Olhá-lo e ver seu corpo, sua alma, seu intelecto como algo único, precioso e completo, vivente e existente no agora.
Antes eu sonhava com a melhor escola do Brasil, e não via o quanto competitivo isso era Esse sonho está dando lugar para outro: um Brasil de excelentes escolas. A competição é a arma do capitalismo e o poder é a única capacidade dos impotentes.
Sigamos educadores intensos e potentes, escapando ao canto da sereia que representa todo poder.
não tem mais poesia. nem um verso. queria contar que perdi um amigo com a idade do meu filho. queria contar que a dor é física. queria ter dito eu te amo meu amigo mas isso é só mais uma coisa egoísta de quem fica. não tem poesia. acabou mesmo. queria contar que fui numa orquestra que tocava Rolling Stones e antes da quinta execução eu estava de volta em casa por dificuldade de sentir. parecia que na internet era a mesma coisa. queria contar que ela vinha e não vem mais. não é poético o desespero e a gana de sentir o tato de strudel de sua pele enquanto aliso a tela do celular. queria contar do medo de segurar a mão de quem tá mantendo a cabeça dentro d'água. quantos mergulhos a minha vida ainda poderia tolerar? é isso, nenhuma musa, só esse holocausto tupiniquim que eu finjo não ver para não sucumbir.
Era quase infantil
os gritos
e as faixas
"Kalil pague o piso"
O piso salarial é o valor mínimo da remuneração que pode ser destinada a determinada categoria profissional, variando conforme cada profissão. O benefício deve ser superior ao salário mínimo nacional.
cerca de trinta pessoas em um meio círculo pacífico
A imagem do olho pode aparecer simbolizando o colo materno, o protetor da criança que tem pavor da consciência. Na imagem do olho encontra-se a pupila, a criança.
" acerte primeiro os olhos"
bombas de gás lacrimogêneo são estruturas de metal disparadas por armas lançadoras que, após explodir, liberam um gás basicamente composto de 2-clorobenzilideno malononitrilo, o chamado gás CS. Trata-se de uma substância sólida que misturada a solventes toma a forma de aerosol ácido, que em contato com os olhos causam lacrimajemento intenso e queimação.
"ali, bem na cabeça"
educação
modos tão singulares de violência
Professor é uma pessoa que ensina ciências, arte, técnica ou outros conhecimentos. Para o exercício dessa profissão, requer-se qualificações acadêmicas e pedagógicas, para que consiga transmitir/ensinar a matéria de estudo da melhor forma possível ao aluno. É uma das profissões mais importantes, tendo em vista que as demais, na sua maioria, dependem dela. Platão, em A República, já alertava para a importância do papel do professor na formação doo cidadão.
como crer numa cidade
que não se levanta
quando o governo
violenta
professores?
súbito
acordar incapaz
de carregar nos braços
no máximo
mãos nas costas
um balanço
uma árvore
um tobogã
a desconexão
como pedra
encaixada
onde havia osso
o amor
Muita coisa se aprende na literatura sobre bipolaridade, mas pouco disso é realmente útil para o cotidiano desse transtorno. Dois sintomas em especial tornam a vida e os relacionamentos bem difíceis. Estou falando da impulsividade e da persecução.
Geralmente os estudos afirmam que a impulsividade é um quadro das fases maníacas. O que não se diz é que esse aspecto do transtorno pode se tornar uma característica da personalidade. Imagina conviver com alguém que opera dentro de uma lógica interna inexorável e que é quase incapaz de mudar de direção em qualquer atividade, mesmo que descubra que sua execução pode estar errada. A pessoa não consegue parar. Seja o modo de lavar a louça, o jeito de temperar um prato ou a condução de um trabalho corporativo.. Ela começa a tarefa ou atividade e, até que chegue ao resultado, bem sucedido ou fracassado, não consegue parar.
Eu sei, você deve estar pensando: “que bom, é alguém que termina o que começa!”. Mas esse indivíduo passa a ideia de um teimoso inveterado e quase sempre é o terror de espaços muito hierarquizados porque ele nunca consegue esperar a autorização de um chefe para realizar um trabalho da maneira como acredita que dará certo. Quando dá certo a quebra da ordem passa batido. Mas se dá errado ele se torna um profissional indesejável no setor.
Outro sintoma difícil e pouco explicado é a persecução. Quando os estudos falam sobre delírio persecutório geralmente explicam crises em que a pessoa vive episódios delirantes em que é objeto de fraude, espionagem, perseguição, envenenamento, calúnia, assédio. Mas a persecução, quando se vive o transtorno por muitos anos, se torna, como a impulsividade, um modo de viver. Para quem observa de fora é visível que houve um afastamento da realidade. Mas viver em persecução não é tão óbvio para quem sofre. Não dá para saber se as outras pessoas estão agindo de má fé, sendo mal intencionadas ou se são só os efeitos da persecução em ação. Trata-se de viver sob constante defesa ou abrir mão e confiar inteiramente nas pessoas. Quem consegue fazer isso, renunciar totalmente às próprias defesas egóicas?
E o pior que, a despeito da importância dos efeitos das medicação nesses sintomas (antipsicóticos, estabilizantes de humor etc.) e até mesmo da terapia, é como se o cérebro assumisse um modo de funcionamento automático para esses dois fenômenos. A pessoa trata, conversa sobre, racionaliza, reflete e quando menos espera eles surgem novamente, como um modos operandi irremissível.
Longe de mim solicitar condescendência para quem me ama e vive próximo de mim, vivo isso todo dia mas sei que ninguém é obrigado. Só estou escrevendo isso aqui, como sempre, para ver se diminui o meu cansaço com isso tudo.
- Não tem nenhum livro lá não, mãe.
- Como não? Estão guardados onde, então?
- Não tem nenhum livro. Foi tudo para o lixo.
Quantos?
Cento e cinquenta? Duzentos?
Foda-se Pessoa. Não consigo.
Ai, tinha aquela edição especial do Tabacaria que o Ricardo me deu. Tinha o Silêncio da Mari.
Tinha aquele Ulysses capa dura. Em tempo de aperto conseguia quinhentinhos fácil nele. Aquele da Laís, com dedicatória. Livros de poetas vivos que eu detestava, de poetas menores que eu amava.
É. Deviam ser uns duzentos.
Ainda bem que eu devolvi o Poemas da Wislawa para o Rodrigo. Wislawa não, Tia Geralda.
Para me consolar ela diz:
- Imagina, pode ter uma filhinha de gari lendo alguns deles agora.
Não era apenas a capa, o volume, o cheiro ou a mancha da página. Vivo tão ligada nas telas, nos livros narrados, que não me digno a afirmar fidelidade. Era a idéia de tê-los. Não fosse exagero, diria que me sinto amputada. Drama queen.
-Você viu ele jogando fora? Não pensou em me ligar, em recolher, guardar?
- Quase três anos, mãe, não achei que fosse importante.
Me pertuba essa lembrança a conta-gotas de um ou outro exemplar: Os drumonds, os bandeiras, minhas adélias, adílias, clarices e cecílias. Ah, a Carolina, tão garimpada e agora jogada fora.
Três anos esperando o melhor momento. Bastou tirar a primeira sacola. Uns trinta. E depois essa desgraça. Mamãe não gostava que a gente dissesse "desgraça", para ela o mal vivia encarnado na palavra. Mas desgraça tem o tamanho exato da minha raiva.
Mais de duzentos, com certeza.
Se me banisse da casa, da mente, do ódio. Se eu não precisasse mais sentir medo, talvez eu até pagasse o preço.
Pagar. É isso que faço.
Ainda bem que posso pagar, ainda bem que posso ajudar. Ainda bem...
Ainda bem para quem?
É que eu nunca sei o que poderia ter sido se eu não pagasse nada. Se saisse dando porrada, dando um basta, dando um foda-se para todo mundo e gozando dos frutos de tudo que renunciei para estar aqui.
Mas eu não renunciei sozinha. Tinham os filhos.
Calharam nascer de uma mulher que queria figurar nos sucesso populares, e para isso estudava, trabalhava, esforçava e ocasionalmente escapava da vida comezinha de ser mãe.
Instituição fracassada. Três minutos de escrutínio e o que temos é derrota e culpa. E filhos que não se cumpriram.
Podia me assegurar de não esperar nada, mas a vida não é indolor, e o que corta neles me rasga.
Eu nem queria entender mecânica quântica. Só queria poder crer numa outra dimensão em que eu ainda tivesse meus livros. E uma história que não triturasse meus filhos.