terça-feira, 9 de dezembro de 2025

desespero

meus pensamentos não encontram casa 
o endereço da infância 
num papel que ninguém lê
no conforto do encontro 
corpo 
erótico
afeto
encosto para não cair
cobertas curtas não cobrem meu medo
o abandono pendula
nas palavras de mamãe
- vós que aprendi cedo demais -
a sentença antiga
-todos somos sós
só os bichos ficam -
afeto sem juiz
um pássaro branco pinga sangue
a menina pede socorro
duas feridas abertas 
onde antes havia voo
"foi meu amigo que jogou pedras"
- amigos não ferem - precisei dizer
sua mão em meus cabelos ancora o presente
a cidade continua rodando fora do quarto
desejo pede espaço
permanecer 
não deve
custar 
o movimento
como um carro que percorre a esmo a cidade 


quarta-feira, 8 de outubro de 2025

a dignidade das coisas que não desistem

gosto de fazer 
o caminho de casa 
até o trabalho 
à pé

em outubro as calçadas
ficam cobertas pelas flores
que caem dos ipês

e hoje havia um cabide
estendido na calçada
como quem descansava 
dos ombros
esperando um corpo

não estava torto
só um pouco sujo
solto ali
com a dignidade 
das coisas que não desistem
pendurado no nada dizendo
"ainda sei sustentar"

mamãe
a primeira ambientalista
que conheci - teria, 
sem titubear - catado
colocado no braço
junto com as roupas doadas
os panos de prato
lavado na bacia
onde lavava roupas
as pernas em volta
nos domingos de sol

hesitei, pois sei 
de minhas gavetas cheias
lembrei do laranja do uniforme 
da SLU
de tudo que vinha do lixo
do seu sorriso
ao encontrar um brinquedo inteiro
um chinelo de par imaginário
(ou só as correias)
uma blusa quase nova
a carne, a verdura quase boa 

mamãe ainda é 
a colecionadora 
de pequenas sobras
sombras de indignidades

sustentei a recusa
afinal há todos os cabides 
há roupas demais
em meu armário
e há essa nova fase 
azul bebê - cor 
de lágrimas
da maciez
e do silêncio

e o cabide?
será que continua
quieto
oferecido
na calçada?
será que resiste
à fome limpa,
à sólida escassez
do mundo?

sábado, 4 de outubro de 2025

A visibilidade é uma armadilha

“A visibilidade é uma armadilha”, escreveu Foucault, e eu sinto essa frase reverberar em mim como uma sentença paradoxal. Quero ser vista, mas o desejo de visibilidade se confunde com o medo de ser reduzida ao olhar do outro. Quando apareço, estou sujeita a interpretações, julgamentos, distorções. Quando desapareço, sinto-me abandonada, sem prova de existência.

Carrego um medo antigo de me tornar invisível — trauma que nasce na infância, quando a ausência de atenção parecia significar inexistência. A criança que fui ainda grita: “olhem para mim”. E a adulta que sou percebe que esse grito pode me aprisionar em redes de aprovação e exposição.

Na vida e nas relações, oscilo entre a entrega plena e o receio de me apagar. Ser presença não é apenas ocupar espaço físico ou digital, mas afetar e ser afetada. Às vezes me pergunto: qual é a medida justa entre estar presente e não me perder no reflexo dos outros?

Nas redes sociais, esse dilema ganha contornos cruéis. Ali, cada aparição é vigilância, cada silêncio é esquecimento. É como se eu tivesse que performar presença para não desaparecer, mesmo quando o desejo seria recolher-me. O algoritmo, tal como o panóptico de Foucault, captura meu desejo de ser reconhecida e o devolve em doses que nunca bastam.

Estou aqui hoje pensando que minha luta é por um lugar onde a visibilidade não seja prisão, mas escolha. Onde a presença não dependa de curtidas nem de olhares furtivos, mas da potência de estar em relação com autenticidade. Talvez a saída seja deslocar o foco: não perguntar o quanto me veem, mas o quanto eu consigo me ver sem me esconder, onde sou vista sem performar, o quanto posso existir inteira sem precisar da vitrine. E não é por acaso que esse post esteja sendo ilustrado pela foto recortada pelo olhar da amada @ana2018carolina, alguém que vem me proporcionando a mais maravilhosa experiência de se deixar ver e de me fazer sentir vista. Obrigada amor ♥️


terça-feira, 16 de setembro de 2025

qual a melhor medida do amor?

há isso

— todo o tempo

que gastei

para ser

isso que chamo EU —

e há

a mulher

que me escolheu:

ela me ama,

cruza a cidade ao vento,

vê pela manhã

eu me vestir

dormir

dançar

comer

sorrir

ela me vê.

e nisso pulsa, inteiro,

em meu peito aberto

amor verdadeiro

domingo, 7 de setembro de 2025

Pinguins

ah, a alegria dos começos

e o esforço do primeiro verso

(o que veio primeiro?)

podia dizer da sua intenção

de me enxergar

na prateleira

e dizer: venha

quando eu já tinha decidido escolher

teve sua disposição

de encarar a gangue de amigos

aquele sorriso

(parava fácil a afonso pena inteira),

a decisão de ficar

o primeiro beijo,

o cheiro cítrico de flores no quarto

em seus cabelos,

no travesseiro

(calcinhas perdidas nos pés da cama),

os lençóis guardando suas curvas,

as marcas de suas águas –

ah, suas águas sobre mim

a despeito do acordo

terapêutico

dramático

“não vai se apaixonar tão rápido” ou

“quatro encontros antes da cama”

de cara eu te oferecia o pijama

e cabia tão lindo em você

a ingenuidade da promessa

de explorar a casa

só pra nos colocar em fuga

(droga de retorno surpresa)

o mundo cabe inteiro no espaço

entre suas covinhas

quando você sorri

saudade é a palavra

que multiplicamos

cem vezes nas nossas vozes

(duzentas vezes nos áudios de whatsapp),

na distância, nas mensagens

e há a calma que mora

nos nossos encontros,

na posição de conforto para dormir,

seu corpo em repouso

e o ronronar

que virou

minha canção de ninar

e que não ouso interromper

carrego seu nome desde a infância:

a menina bonita

da classe do fundamental

se eu fosse menos nietzschiana

chamava de destino

o que estamos construindo

há medo, confesso,

mas também há a paz

e a ausência de drama

por isso aposto todo dia

é cedo, eu sei

mas vou te desenhar

um casal

de pinguins

e te convidar:

vem viver par em mim

sexta-feira, 25 de julho de 2025

atlas de um corpo em exílio

a pele ainda fala dialetos extintos

mesmo sob o céu limpo

onde o silêncio é idioma oficial

há uma rachadura invisível

atravessando o chão

de mármore das bibliotecas

e é por ela que minha sombra escapa

deitada em páginas onde nunca fui escrita


cada rua sem buzina

é um espelho de aço

refletindo o grito

que eu segurei

no vômito


tudo é respeitável

e esse excesso me afoga

ausência de barulho

acentua o ruído que trago nos ossos


sou a viajante

o passaporte carimbado de ausência

o nome riscado de dentro

uma mulher que caminha em inglês

e sangra em português


não há corpo que migre

sem carregar suas ruínas embutidas

prótese de um amor

historicamente mutilado no abusivo

arquivo em segundo plano

processando-se

mesmo quando a janela principal mostra montanhas

minha alegria tem cláusulas de contenção

sorrio com legenda:

“isto não é amor, é costume”


o exílio não é o país:

é o gesto automático

de pedir desculpas

por existir com mais volume

do que me permitiram


no banco da praia

às margens do Pacífico

ensaio a minha revolução


não é sonora

não é coreografada

não é instagramável

é meu corpo se recusando a se curvar

quando há atraso para amá-lo


livros me olham com ternura estrangeira

imigrante de mim


aprendo a andar descalça

sobre os gramados

que não pedem desculpa por crescer


a pergunta não é mais quem me feriu

mas:

quem em mim

continua a ofertar flor

ao punho que esmaga

minha liberdade tem sotaque

as botas pesadas do meu perdão


escrevo

devagar, em letras minúsculas,

um novo tratado:

não serei o altar de nenhuma

falta de escolha

nem sílaba que se dobra

em qualquer sentença

as mão firmes com os quais

finalmente escrevo

em exílio, sim

mas em alfabetização

aprendendo a dizer

não

sem precisar me traduzir

sexta-feira, 11 de julho de 2025

pra te ver por inteiro

é cedo

e o mundo

ainda não acontece

nem uma xícara vazia

nem o sol na janela

mas tua lembrança

já ocupa meu pulso

dormi na promessa

sonhei teus olhos de paz

teu colo, um país morno

onde quero pousar

meu cansaço

da banal violência do mundo

escrevo

pra acordar o dia

e ouvir tua voz

mas aqui dentro

acalento

o desejo manso

de te ver por inteiro

deslizando

no meu pra sempre

domingo, 6 de julho de 2025

manual de contenção para almas em erupção

e o que vem depois da erupção?

a lava esfria.

silencia o chão.

dizem que vira pedra,

que endurece.

mas ninguém vê

o que brota de dentro.

o que queimava,

agora, terra preta,

abriga raiz.

do fogo contido

nasce terra fértil.

é tão triste perder o vulcão,

mesmo sabendo

das florestas.

sábado, 31 de maio de 2025

Isso aqui é pra quem já teve medo…

Mas escolheu amar mesmo assim.

Vem comigo, mulher…

Esquece o medo, bota no bolso

Coragem é salto alto no asfalto grosso

É cicatriz que vira tatuagem

É flor que brota em plena estiagem

Minha alma tem batida, minha pele é tambor

Não corro da vida, corro pro amor

Não vim pra ser sombra, eu sou miragem

Visão rara no deserto da coragem

Segue o fluxo, sem retrovisor

No peito, bússola que aponta pro amor

Caminho de estrela, brilho sem pudor

Encontros assim… não rolam toda hora, demorô

Amar é trapézio sem redes

É voar mesmo ouvindo as pedras

É dizer “sim” no meio do caos

É escrever poesia de correria pro sarau

Coração meu não bate, ele rima

Verso quente, fogo que anima

Quem me ama me encontra inteira

Não sou metade, sou tempestade e bandeira

Segue o fluxo, sem retrovisor

No peito, bússola que aponta pro amor

mulher do norte caminho de estrela, brilho sem pudor

Encontros assim… não rolam toda hora, demorô

Não foge do fogo, sente o calor

A vida é agora, sem ensaiador

Entre o medo e o pulo: escolhe o ardor

No escuro do mundo, eu sou refletor

Segue o fluxo, sem retrovisor

No peito, bússola que aponta pro amor

Caminho de estrela, brilho sem pudor

Encontros assim… não rolam toda hora, demorô

sábado, 19 de abril de 2025

antes de amanhã

há uma dobra no tempo

entre o voo e o chão

uma brisa que hesita

antes de ser vento

meu corpo é chama

e espera

com todas as perguntas abertas

como janelas que não querem fechar

desde já gozo

a alegria do seu toque

cheiro e desejo

vem —

mas vem real,

com o que houver de amor e verdade

no bolso