domingo, 5 de fevereiro de 2017

inércia

durante cinquenta dias
cultivou dezenas de sementes de uva
desse plantio nasceram sete mudas
ele as replantou, adubou a terra, regou
e fincou estacas caiadas
intuindo bastas parreiras

até que a mariana nos contou
"aquilo não são folhas de uva
as verdadeiras apresentam
bordas serrilhadas admiráveis
foi assim com as sementes de morango
que tentei cultivar"

desde então observamos com o canto do olho
o canteiro viçoso de ervas daninhas
sem nenhuma disposição para regar
tampouco sem coragem para ceifá-las
e isso diz uma imensidão acerca de nós


sábado, 4 de fevereiro de 2017

lá no lugar do medo

difícil achar sentido em nosso tempo
a maldade do mundo
um punho em minha glote
pessoas vêm e vão como ventos

para manter o zelo com a casa
é preciso esquecer
que um dia será demolida
tal qual o são minhas tantas idealizações
dançar ainda é
minha melhor experiência com o agora

ergo um bunker com o silêncio
que eu moldo como telhas em minhas coxas
um poema me acalenta batendo a mão
levemente em minha costas
e sussurra "vai passar, vai passar"



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

nunca mais aquela falta

[ norma de souza lopes ]

quando notei que perdia minha voz não me desesperei
apenas pus em suspenso
os sonhos de ser
a cantora do século

são assustadores
os uivos do ressentimento
da perda e da raiva
mas já aprendi
a ouvir nos búzios
as  batidas do coração
sem cortar as palmas das mãos

não os que vão
mas os que ficam
é que contam as histórias
de nossas idiossincrasias
a poesia ainda é a melhor conversa
quando nossa única alternativa
é o silêncio

sábado, 28 de janeiro de 2017

agora que tudo é calma

[ norma de souza lopes ]

dar de comer à selvagem
que sacode às mãos
e se despede
do que é tóxico
ódio
desamor

agora que tudo é calma
repassar cada som
cada sorriso
calçar sapatos vermelhos
dançar
e suportar sem dor a beleza do mundo

sábado, 21 de janeiro de 2017

copo de veneno

por o ritmo das sílabas em marcha
rimar como címbalos de rocha
criar a mais bela dança semântica

(e perder toda a poesia
bebendo doses diárias de ódio)