sábado, 20 de agosto de 2016

Melina Alexia Varnavoglou [tradução norma de souza lopes]

às vezes quisera ser um homem 
para poder dizer-lhes
sem temer que me confundam
que eles são em verdade maravilhososos
que adoro suas imposturas
e o espaço exato entre a munheca e os cotovelos
seus cabelos despenteados e as mãos sempre algo misteriosas
e essas caras que às vezes fazem uma mulher rir
que todo esse rodeio é desnecessário
é até pateticamente bonito
que imagino raios tensionando-lhes as costas
por esse nervosismo
que quando estão relaxados ninguém crê
que são realmente grandes, quando abraçam seus amigos
e falam dela ou de suas bebedeiras depois da festa
que em seu peito liso eu poderia pousar sem pausa
minha cabeça por toda a noite
até dar em alguma coisa
quando calculam, sonham, quando ejaculam, quando duvidam
quando não podem

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

retorno

a primavera está lá fora
juntando as folhas
enlouquecida
quer pintar
um milagre na parede da sala

e eu agora entendo
a primavera retorna
mesmo depois que eu partir

caiu uma gota de vida
na barra do vestido do poema

domingo, 14 de agosto de 2016

Das frestas e da intensidade de sua luz

Amor de pai é uma lacuna de jogo de montar onde não cabe enxerto, exige peça exata. Mas a gente resiste e enfeita as bordas. Tá cheio de gente assim por aí, umas frestas decoradas de dar gosto, de onde saí luz intensa o suficiente para dissipar nossas sombras.

Para João Paulo de Lorena
Primeiro eu queria ser invisível, agora tou tentando ser transparente. Qualquer dia sumo de vez

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

amenidades

diminui o açúcar, o café o alcool
três tipos de chá todo dia
(sem o sachê, para evitar o resíduo) 

exames de sangue mensais
caminhada toda tarde
sono de oito horas
afinal já és uma senhora

então na tv um idiota anunciasua guerra arbitrária
brotando sorrateira no planalto

"você perdeu"
"e se botar de novo
a gente tira"

ficamos um tempo sem dizer nada
voltamos às piadas
mudamos de assunto
conversando amenidades


Olhava as crianças brincando e pensava que nunca mais ia conseguir. Eu parecia ter perdido aquilo em algum canto escuro da infância. Perdi não.
Consegue ver meu coração pulando corda agora?
Escarnecer é diferente de brincar. E a culpa é o meu  termômetro. 

terça-feira, 9 de agosto de 2016

antiquíssimo

desde aquela hora
seu rosto suave não se dissolve
continuo olhando e esperando que digas 
as palavras que não pude dizer
desejos enrolam-se 
à volta de minhas pernas
ressuscitados do passado

na carteira
imagens amarrotadas em sépia
dispensam o olhar 
amores seguros
graves e gastos convocam
e o no meu peito febril explode entumecido
a mais estranha forma de amor
pelo que podia ter sido

sábado, 6 de agosto de 2016

O preconceito em mim é aquele lobo, arreganhando dentes pro diferente, protegendo território. Por isso eu converso com ele todo dia :"escuta meu caro, cabe todo mundo, tenha medo não". Isso de achar que não ser preconceituoso é dom não me convence. Dá trabalho recolher as unhas . É preciso convocar o amor dioturnamente para ele vir cerrar minha boca, esconder meus dentes.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

E nesses dias em que amanheço amando tanto a vida e as pessoas que chega a doer, morre um musico poeta que eu amo. Acho que não vou conseguir parar de chorar.